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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

07
Mar21

#9/2021 - A única História, de Julian Barnes: voltar ao lugar onde já fui feliz

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A Única História

Editora: Quetzal

Páginas: 253

Ponto prévio: tenho a dizer que as minhas resoluções para o ano de 2021 - que já paecem ter sido no ano passado - continuam a correr lindamente: ainda só comprei 4 livros este ano! Bem sei que as resoluções diziam que, para aí durante seis meses, eu não compraria livro nenhum, mas aqueles que prometeram perder peso que atirem a primeira pedra (prece-me que também era uma resolução minha). Mas isto é um post sobre livros ou uma sessão de autocrítica? Que mania de desviar conversa!

Pois bem, a propósito do clube de leitura que vai acontecendo, acontece que eu já tinha lido o livro votado, que foi O sentido do fim, de Julian Barnes (também havia outro, A Biblioteca, de Zoran Živković, que requisitei na biblioteca, mas é pequenino...). Como se estava ali a falar de Julian Barnes, achei que o melhor era ler mais livros dele, portanto comprei logo mais dois e depois comprei O sentido do fim no OLX... sou capaz de ser uma pessoa doente.

Ler Julian Barnes é como regressar a um lugar onde já fomos felizes. Nunca desilude. A única história é um livro maravilhoso, cheio de "truques" que fazem dele um acontecimento literário. Está escrito ao estilo de O papagaio de Flaubert, fragmentário, peças de um objeto estilhaçado que o autor vai colando, consciente de que o lugar por onde se voltaram a unir ficará sempre à vista, nunca nos será devolvido na sua integridade. Ora é isso mesmo que o livro demonstra: ao recuperar os acontecimentos do passado através da memória,  a linearidade e a diacronia ficam excluídas, porque a memória é indisciplinada, centrífuga, anda à deriva. Quando lerem, ou se já leram, verificarão que os acontecimentos narrados em cada um dos blocos são contemporâneos, mas são narrados assumindo perspetivas diferentes. Dessa forma, o relato reformula-se, mas também se aprofunda, é uma narrativa autofágica, na medida em que se nutre de si mesma, re-narrando, repetindo, mas em espiral, porque não é um regresso ao ponto de partida, há um desfasamento. Outro "truque" está relacionado com a utilização das pessoas gramaticais, também elas intencionalmente distintas em cada um dos blocos: eu/nós; ela; ele. Há um movimento de desagregação, de distanciamento, que não é só temporal e que estará explicado na última frase do primeiro bloco - vão lá ver se não acreditam em mim.

Há um pormenor maravilhoso, que é o facto de Susan, a protagonista, tratar jocosamente o narrador por Casey Paul: ora Casey, como se explica na própria história, resulta do facto de Susan considerar que as características de Paul fazem dele um caso de estudo. Na verdade,  e na minha perspetiva, a narrativa, tão deliberadamente analítica, tão vincadamente reconstruída, é-nos dada como se se tratasse efetivamente de um estudo de caso: aquele em que se ama mais e, consequentemente, se sofre mais, em que se é mais estragado para a vida, ou se cristaliza a parte da vida que vale a pena preservar. Não  é despiciendo este Casey pelo livro todo.

E no fim de tudo isto, temos a escrita de Barnes, imagética, metafórica, cheia de "níveis" da escrita, o que a torna tão sensorial, tão magnética, tão fluida. Que mestria nesse domínio. Ainda assim, não recuem por causa destes preciosismos quase académicos, A única história é um romance multifacetado, riquíssimo: é uma história de amor - e o amor é a única história - é um romance de formação, é uma análise sociológico sobre o poder que os outros não deviam ter sobre nós, é um romance de queda, são memórias, é um metatexto... é múltiplo, insperado, intenso como a própria vida... e profundamente humano, terno, digno.

Em termos de recomendação, diria qualquer coisa como: larguem tudo o que estão a fazer e vão ler este livro.

Eu devorei-o e ele ficou em mim por vários dias, num estado como ficam as beatas depois de comungarem... é isso comunguei dele.

05
Mar21

A literatura nos tempos de cólera - no que eu me vou meter.

livrosparaadiarofimdomundo

Li ontem, num post da Maria Rosário Pedreira, no seu blog Horas Extraordinárias - en passant, um blog também ele extraordinário - que a tradução da obra da poeta negra que declamou um poema na tomada de posse de Joe Biden - sou péssima para nomes - entregue a uma escritora, vencedora do Man booker prize - sou péssima para nomes - foi contestada e acabou abortada por decisão da escritora por (alerta perplexidade) a dita não ser negra (nem sei se este é o termo politicamente correto agora, mas eu não consigo dizer preto, sinto-me ofensiva), logo não estaria habilitada a compreender a obra que teria de traduzir. Fiquei toda arrepiada e, daí, que os nomes nem tenham grande importância, o destaque vai todo para esta ideia absolutamente trágica: a literatura passou a ter cor! E se a moda pega, não sei onde iremos parar. Começo a estar cansada do radicalmente politcamente correto.

Proponho um exercício. Para mim, a sanha do comunismo contra a religião, o ópio do povo, contra a confissão, a figura de Cristo, e outros adereços, é por demais irónica, quando no lugar de Cristo se pôs o Grande Lider, ou o Querido Líder, no lugar da confissão, se pôs a crítica e a autocrítica, ainda mais penosa, porque havia uma dimensão de humilhação pública, em lugar da missa se puseram as paradas militares, em lugar do evangelho se pôs a doutrina. Enfim, mudaram-se os nomes, mas a lógica era a mesma - disclaimer, gosto de colher das coisas aquilo que elas têm de bom e que pode fazer de mim uma pessoa melhor, e há coisas no comunismo que, nos princípios, me agradam, como a ideia de olharmos uns pelos outros; mas também há coisas no liberalismo de Adam Smith que acho muito acertadas. Voltemos à necessidade de uma obra literária de um autor negro ser traduzida por um negro: se começamos a achar que há coisas de negros e coisas de brancos, não estamos a ser muito originais, já houve quem pensasse assim e até fizesse disso uma forma de organização social, chamava-se apartheid, parece-me que era isso. O que me assusta é uma espécie de auto segregação em nome não sei de quê.

Agora levemos o exercío ao limite: se não sou judia e não estive num campo de concentração, não posso compreender o horror do nazismo e do extermínio concertado. Só os judeus que estiveram em campos de concentração é que podem, já há é poucos, que já passaram alguns anos, mas convém que alguém lá volte. Porquê? Para não nos esquecermos! Não posso ler literatura japonesa, porque não sou japonesa e, de facto, há uma enorme distância cultural que não é sobreponível. Não posso ler literatura africana, em especial a dos países de língua portuguesa, por causa do colonialismo e eu, sendo portuguesa, estou do lado do opressor - mesmo que não fosse nascida, mesmo que queira perceber, mesmo que queira conhecer, mesmo que entenda a literatura como uma forma de me aproximar do outro e de moldar a empatia.

Isto é tudo um disparate enorme, mas um disparate que começa a ser preocupante. Por um lado, andam os cheganos dos nossos dia a clamar a divisão à força da nossa sociedade, estratificando-a - também não é original, em tempos remotos chamou-se feudalismo; por outro, andam as minorias - ou outras coisas, ajudem-me que me faltam as palavras - a defender um orgulhosamente só, que me faz lembrar as feministas mais encarniçadas, que acham que devemos matar o homem, em tempos quisemos matar o pai, uma redoma onde se vão encerrar, não já humilhados e ofendidos, mas orgulhosos e sobranceiros.

Digo eu, humildemente, que a arte não tem cor, nem género, nem cheiro, nem sabor, nem religião. Está, na sua forma mais perfeita, ao serviço do Belo, do Bem, do Ético. Quanto mais mestiça - é de propósito - melhor, quanto mais plural, melhor, quanto mais impura melhor, quanto mais olhares se cruzarem, melhor. Está, parece-me, na hora dos sensatos começarem também a falar, porque, se só os idiotas continuarem a agitar-se na ágora, ainda acham que estão certos. Basta! Pim Pam Pum! Os idiotas são idiotas, abaixo os idiotas!!!

Ou então, leiam os versos de Pessoa: "O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente/E os que leem o que escreve/na dor lida sentem bem/não as duas que ele teve/mas só as que eles não têm". Está tudo dito.

04
Mar21

#8/2021 - Lincoln no Bardo, George Saunders: um híbrido literário

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Lincoln no Bardo

Editora. Relógio d'Água

Páginas: 359

Da série livros que tinha em casa, que comecei e não terminei.

Cheguei a este livro através de uma lista com os livros mais importantes da década passada e fiquei muito, muito curiosa. Claro que o comprei na primeira oportunidade, mas não lhe peguei logo, ficou a estagiar. Depois, ainda em 2020, comecei a lê-lo e até tinha avançado bastante. Mas, pelos mistérios da leitura tão inexplicáveis, pu-lo de parte, porque outras leituras se intrometeram pelo meio e deixei-o até a semana passada. Não o deixei de parte por não ter gostado, ou porque a leitura não me agradou, deixei porque é um livro exigente. Tenho consciência que não é um livro que possamos ler cansados, ou para desligar o cérebro. Nada disso. O livro convoca-nos inteiros, exige atenção e dedicação. E, de repente, como à espada do conde D. Henrique em Mensagem,  achei-o em minhas mãos e a leitura fez-se. E que leitura!

Tudo nesto livro é surpreendente, inusitado, original, convincente e, apesar disso tudo, o relato mais humano, mais digno que me lembro de ter lido - até estar a ler um outro livro de Julian Barnes, mas isso fica para amanhã.

Começo pela arquitetura, pela estratégia narrativa e pela linguagem. A hibridez do livro resulta de uma amálgama de géneros: recursos do texto dramático, porque a narrativa é toda colocada no discurso direto das personagens, mas é romance, porque essas personagens, na verdade, levam a cabo uma narrativa que oscila entre a primeira e a terceira pessoas, ora narrando, ora sendo objeto da narrativa. A ação - nem sei se esta é uma categoria que se deque - oscila também entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, os segundos mais complexos que os primeiros, com angústias existenciais a que são dadas mais profundidade. A linguagem assume o pastiche como molde, oscilando entre a notícia jornalística, a carta, as memórias, o diário, o diálogo... e a concertação de tudo isto nunca fica aquém da mestria de quem sabem fazer malabarismos com mutos pins.

Quanto à história, ela resulta também da colagem de muitas histórias, individuais, que explicam a razão de os "enfermos" se recusarem a tomar consciência do seu destino, da lugar onde se encontram, do receio de abandonar este limbo onde podem permanecer e acalentar a esperança vã de um dia poderem regressar ao outro lado, ao lado de lá, para além do gradeamento. O seu tempo, como numa tradição de séculos cujos cânones consolidaram, é  a noite, o tempo do nosso sono, os vivos. Evolam-se das suas formas de enfermo e caminham-deslizam por aqueles lugares de ninguém, uma paródia da aldeia global que, em muitos casos, lhe permite perpetuar o mesmo ostracismo e exclusão, as mesmas hierarquias, os mesmos vícios. Lembrou-me - daí que Gil Vicente seja, de facto, um autor visionário - as personagens dos autos de Gil Vicente, já nas barcas,  já com o destino definido, mas ainda não consumado.

Há, depois, a história do filho do presidente Lincoln, Willie, tragicamente falecido aos 10 anos, o enfermo mais comovente, mas o mais clarividente e o mais corajoso, até no momento de se deixar ir e aceitar a separaçao do seu amado pai. Apesar destes elementos, não receiem esta leitura. É tudo tão elegante, tão fantástico, mas tão sóbrio ao mesmo tempo, tão pungente, tão humano, que a leitura nos aspira para dentro deste livro maravilhoso, devolvendo-nos esperança, fé na humanidade, apego às coisas simples da vida, aqueles prazeres que nos fazem vivos, porque os podemos experimentar. É, mais uma leitura catártica, que nos concilia connosco e com os outros, que nos devolve a nossa justa perspetiva e o nosso justo tamanho, que nos deixa enternecidos, fortalecidos, porque, se o estamos a ler, ainda não estamos na nossa caixa de enfermo, ainda não somos enfermos, ainda podemos e poder é estar vivo.

Leiam, vão ver que não dói mesmo.

 

24
Fev21

#7/2021 - Manhã e Noite, Jon Fosse: um livro que se impregna em nós

livrosparaadiarofimdomundo

Manhã e Noite

Editora Cavalo de Ferro

112 páginas

Começo por isto: mais uma vez, menos é mais, muito mais.

Este livro pequeno está dividido em duas partes, que correspondem às duas palavras do título e que metaforizam os dois momentos-chave da nossa vida: o nascimento e a morte. 

Dito isto, fogem-me as palavras, porque este livro é tão despojado que me parece redundante falar sobre ele. Bastaria isto, leiam-no e ajuizem por vós mesmos. Mas é também um livro de uma linguagem poética, de uma desconcertante simplicidade, assim como simples, diria quase anódina é a vida do seu protagonista. Depois penso no significado da palavra anódina, que é não só inofensivo, mas também algo que acalma a dor. E penso que o livro pode ser lido assim, como uma demonstração de que não é preciso termos medo, que a passagem pode ser doce e tranquila, sem dores físicas nem psíquicas, que não tem de ser solitária, que é natural. É um paliativo para as nossas angústias, um ensaio que nos sussurra resignação.

Depois penso nos versos de Ricardo Reis "deixa a dor nas aras/como ex-voto aos deuses" e reconheço que essa também pode ser uma chave de entrada para o livro. Tal como Reis, Fossen ensina-nos o caminho do despojamento, da aceitação, da resignação, ainda que o seu protagonista tenha amado e sido amado. Mas há também aqui a orgulhosa dignidade daqueles que pela dignidade se conduzem e penso que é um livro muito, muito bonito (mais a segunda parte, confesso). Sublinho que Fossen é um escritor nórdico e as paisagens do norte lá estão, o frio e o gelo, o isolamento, o mar e a pesca como destino traçado para cada home m que ali nasce. Não sei se por isto, se por qualquer coisa mais, este é um livro que permanece em nós, desenhando círculos centrífugos como a pedra no charco.

Esta foi a primeira leitura do clube de leitura de que participo e foi uma estreia bem fadada. Deu azo a uma discussão riquíssima, tantas forams as maneiras como o livro foi (re)lido e maravilha-me sempre que a literatura tenha este poder, de nos por a nós a filosofar - no sentido etimólógico do termo, a atitude de quem ama a sabedoria - sobre temas que a voragem dos dias não vai permitindo. E ouvi fascinada as muitas versões deste Manhã e noite que, sem se contradizerem, eram tão diferentes como são os rostos com quem nos cruzamos. Impõe-se-me aquele exercício que é uma operação simples para mostrar as infinitas possibilidades da interpretação: pensemos na palavra casa e a imagem mental que se desenha em cada um de nós nunca em tempo algum será coincidente, mesmo que sejam dois irmãos gémeos a dizê-la. E penso, obrigada pelos livros, obrigada a quem tem esse ofício, venero-vos como os antigos veneravam os oráculos.

24
Fev21

Eu também tenho um clube de leitura - nós também temos um clube de leitura

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Tenho, no meu trabalho, felizmente, várias pessoas que gostam de ler. Informalmente, vamos emprestando livros umas às outras (ainda somos só senhoras, mas havemos de arranjar sangue masculino, estou certa); outras emprestamos livros, outras reemprestamos (nem sei se esta palavra existe). É (mais ou menos) comum as pessoas trazerem-me livros para eu ler, mesmo sem eu pedir, com esta frase musical "Olha, trago-te este livro, acho que vais gostar" (às vezes também são filmes). E penso, como em muitos momentos da minha vida, que felizarda, sortuda, afortunada, bafejada pela sorte, venturosa, bem-aventurada, que eu sou, por ter estas pessoas na minha vida. Enfim, uma cultura de partilha desordenada - ainda bem - espontânea - ainda bem - ao sabor dos nossos sabores - ainda bem.

Tenho uma amiga muito proativa que me convenceu a inscrever-me no clube de leitura da LEYA, e eu deixei-me convencer, mas só fui a uma sessão... a ver se me lembro de ir este mês.

Então, os meus neurónios, ou as minhas pequenas células cinzentas, para parodiar a própria literatura, fizeram uma sinapse e tive esta ideia inédita - ler com muita ironia - porque não consituir um clube de leitura? Isso é que era! Desordenadamente, como acontece na vida real, enviei um mail a algumas destas pessoas - as que me lembrei na hora, que eu sou de impulsos - com alguns esquecimentos imperdoáveis, que eu vou corrigir... com a liberdade de as pessoas trazerem um amigo. Lancei o desafio, com muito otimismo anexei logo o link para o primeiro encontro - é a distância, porque este confinamentoainda trouxe uma ou outra coisa boa - e fiquei à espera...

Acontece que já fizemos dois encontros, o primeiro para decidirmos que livro ler, o segundo para o discutir. Está a ser maravilhoso! No primeiro encontro, além de falarmos de livros, experimentamos aplicações do zoom e muitas de nós acabamos com um bigode, ou como unicórnio - eu não, o meu sentido de ridículo não suporta mais nenhum acessório, para figuras tristes, basta-me aparecer. Desordenadamente, decidimos qual o livro que íamos ler - Manhã e Noite, de Jon Fosse (agora já posso escrever sobre ele aqui no blog, enquanto não o discutimos no clube de leitura, não me atrevi, sei lá, achei que não era correto, o que é que eu hei de fazer). Ontem fizemos a sessão de discussão do livro.

Confesso que ia com alguma apreensão, porque é tudo muito desorganizado - ainda bem. Foi uma sessão fantástica, que se prolongou por uma hora e meia. Senti que tínhamos relido o livro, que as nossas leituras se complementaram, voltei a comover-me com o livro à medida que as intervenções me comoviam pela forma como eram certeiras, pertinentes, acertadas, inesperadas, surpreendentes. Mas, não nos limitamos a falar só desse livro, falamos de muitos outros, numa conversa vadia, ou se quiserem qualquer coisa mais erudito, eclética. Foi o momento mais alto da minha semana, para já. Sabe Deus o que o destino me pode ter reservado... ainda sou chamada para uma residência literária. 

Entretanto, já combinamos a próxima leitura e a data da próxima sessão que, infelizmente, será só no dia 16 de março, e sinto-me como quem espera o Natal...

Não resisti a escrever sobre esta experiência, restrita é certo, mas nem sempre mais é mais. Escrevo este texto como forma de agradecer às minhas companheiras de viagem, também como homenagem, por terem lá estado, sublinhe-se que a segunda sessão contou logo com mais três elementos. Isto promete.

20
Fev21

#6/2021 - O Chefe de Estação Fallmerayer, Joseph Roth, pequenos prazeres

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Chefe de Estação Fallmerayer

Editora Assírio e Alvim

Páginas 73

Este livrinho tinha ficado na minha mira desde o dia mundial do livro no ano passado, quando, como já referi noutros textos, o Sapo publicou uma lista de livros que eram "grandes", sendo pequenos. Este, parece-me, deve ser o mais pequeno da lista. O volume tem 71 páginas, mas a história propriamente dita tem cerca de 50.

Não posso fazer um texto muito grande, senão arrisco-me a fazer uma recomendação maior do que o próprio livro. Se tem uma horinha livre e não sabe o que ha-de fazer, pegue neste livro, o tempo vai ser muito bem empregue. É mesmo daquelas obras em que menos é mais. A hostória é simples e podia resumi-la em duas linhas, mas não o vou fazer, é preciso chegar a este livro como quem chega a uma estação de comboio desconhecida, apeando-se num lugar ermo, deixando-se impregnar pelo ambiente, pelo perfume, pelo mistério.

É a história de um homem comum a quem o destino dá a oportunidade de ter uma vida incomum. A escrita, através da qual a narrativa nos é servida, é minimalista. Quase sem enredo. É como um apontamento, linhas orientadoras para escrever um romance. Está lá tudo: um acontecimento inesperado que lança os protagonistas no enredo, a força avassaladora do amor, a vontade férrea de o viver, a guerra, o perigo, a salvação, a realização e o desfecho. Há uma frase que permite perceber o estilo que tento descrever: "Foi incorporado. Foi para guerra. Lutou. Foi um soldado valente." Podia ser o resumo de Guerra e Paz, de Tolstói, mas é um período deste livro que "descreve" alguns anos da vida da personagem. A obra é assim, em estilo de sumário. Daí que se leia muito bem, apesar do seu tamanho diminuto, é um enorme prazer, mas, sabendo apouco, surpreende-nos que não precisemos de mais.

Vou emular (sempre quis usar este verbo) o autor: Compre/peça emprestado/requisite na biblioteca. Leia. Surpreenda-se. Guarde para sempre. Recomende.

11
Fev21

Ensino a Distância - Lado A/Lado B/Lado C...

livrosparaadiarofimdomundo

Assim, à laia de disclaimer, tenho a dizer que não gosto muito de escrever sobre os assuntos que são cavalgados no momento. Foi assim com o a manutenção das escolas abertas, com o fecho das escolas, com a transição para o ensino a distância. Mas houve uma coisa, uma pequenina coisa que hoje me obrigou a escrever este texto, bem, na verdade foram pequenas coisas. Acredito que nos instantâneos dos dias é que define uma época. Estou também consciente que a educação  (escolas, professores, pais, alunos) é como um terreno minado, mesmo que levemos o burro às costas, acabaremos sempre por ser consumidos numa explosão. É um risco... no que eu me vou meter.

Lado A - 

Alunos pontuais - alguns às 08:27 já estão na sala de espera;  empenhados - com material, a trabalhar, a participar; câmara ligada; sorrisos ainda um pouco hesitantes; dóceis, no sentido em que acatam as minhas sugestões de trabalho com uma serenidade que me encoraja. Reconfortada por saber que tanto está a ser feito para dar a estes alunos, pelo segundo ano consecutivo, uma referência, a manutenção da ligação à escola, a persecução de objetivos pedagógicos. Palavras novas que inauguraram este tempo novo: ZOOM, teletrabalho, Classroom, webcam, salas simultâneas, bate-papo. Vários testemunhos de que as coisas vão bem, de que não há desleixo, há bom senso. Observo uma determinação muito maior, a de quem já sabe ao que vai e se armou do necessário. Professores muito preocupados com os "seus alunos". Antecipação de todas as estratégias para que a escola continue a cumprir, a proteger, a incluir. Empréstimo de material aos alunos mais carenciados, tentativa de remendar o que ficou a descoberto, o fornecimento de refeições, a atenção aos alunos que, não estando protegidos pelo ASE por tudo e mais alguma coisa, são sinalizados e, em conjunto com as autarquias, são-lhes asseguradas as refeições... e cito " Muito obrigada pelo seu investimento neste âmbito. A solidariedade é das coisas mais belas que uma escola pode ensinar."

E sinto, como sempre, que tenho a profissão mais bonita do mundo, que faço parte, que estou a mover o meu grão de areia que reconfigura a duna.

Lado B -

A discussão à volta da disponibilização dos meios e dos equipamentos dos professores - em última análise, sei que me devem ser dados os meios para trabalhar, que é um direito, mas poderá o meu país agora contar armas? Não viveremos efetivamente uma situação de catástrofe para cuja resolução todos devemos contribuir? Este tipo de reivindicação - agora - não é demasiado demagógico? Os alunos que se afastam, que não querem, que desrespeitam, que boicotam. A desvalorização da escola e do seu investimento para o futuro. Alunos que tiram o sono aos seus professores. A dimensão esmagadora do número de alunos que não conseguem aceder ao ensino a distância e a consciência ainda mais esmagadora de que não vai ser possível encontrar resposta para todos, a procura de alternativas para que se mantenham ligados às escolas. Aqueles que o sistema não integrou, porque faltou um papel e não têm escalão, mas as dificuldades não se compadecem. O diagnóstico a sangue frio de um país ainda tão assimétrico: os dois pais estão desempregados, são três filhos, só têm um PC e um telemóvel; não tem internet, vai assistir às aulas a casa de um vizinho, quando a outra criança não tem aulas; não tem aparecido, crê-se que está a trabalhar nas obras; só tem um telemóvel, que está partido, mal consegue ler as mensagens; mãe pede escola de acolhimento, porque é mãe solteira e não pode perder trinta por cento do rendimento... não vale a pena continuar esta enumeração, seria demasiado longa e ainda ssim demasiado afastada da realidade. O défice de civismo e de literacia, as pessoas do país dos direitos: quero um computador para o meu filho, o vazar de ódio nas redes sociais, a incompreensão da falta de meios com que as escolas se debatem, a desvalorização da escola e da educação dos filhos a menos que ela seja integralmente garantida pelo Estado, e cito "tenho um smartphone, mas não é para os meus filhos assistirem às aulas"; "se não me arranjam uma câmara não sei para que quero o computador, assim mais vale vir trazê-lo".

E sinto que tenho a profissão mais bonita do mundo, porque só formando havemos de amadurecer a nossa cidadania.

Lado C

Uma aluna de ensino secundário, imigrante, responsável por dois irmãos mais novos, o pai é motorista, a mãe ficou retida no país de origem por causa dos COVIDS, sem escalão, porque os papéis ainda não estão regularizados, apoiada com as refeições e a debater-se para aprender, para ser, para se manter a flutuar neste mundo voraz que a submerge e cito a mensagem enviada à diretora de turma: "Bom dia stora , eu queria avisar que não vou comparecer às aulas de hoje e amanhã , pois o meu irmão ficou esses três dias sem E@D por não ter aparelho, então disponibilizei o meu para ele esses dois últimos dias da semana para ele não ficar tão atrasado , não se preocupe eu não ficarei atrasada nas matérias, irei pedir aos meus colegas para me passarem o que for  passado nas aulas . Espero que compreendas ^^ beijinhos tenha um bom dia !"

E sinto que tenho a profissão mais bonita do mundo, mas que isso não me impede de sentir esta mensagem como um murro fortísismo no estômago, nem me ajuda a conter as lágrimas cada vez que a releio, à qual voltei repetidas vezes ao longo deste dia e me fez pequena de impotência.

 

10
Fev21

#5/2021 - Rabos de lagartixa, Juan Marsé - como o leito seco de um rio.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Rabos de Lagartixa

Editora: Dom Quixote

304 páginas

Continuo bem comportada: este é um dos livros que tinha em casa sem o ter lido ainda. Já não me lembro quando o comprei, mas foi em 2020, sempre mais olho que barriga no que toca a livros.

Rabos de Lagartixa teve o azar, a pouca sorte, vá, de ser o livro que se seguiu a O barulho das coisas ao cair, o que me dificultou concentrar-me nele. No entanto, assim que me consegui embrenhar na sua história e na escrita - nem sempre fácil, ou melhor, para não desencorajar ninguém, a que é preciso estar muito atenta - ocorreu-me quase como um leitmotiv aquilo que Garrett escreveu acerca da simplicidade da sua obra-prima, Frei Luís de Sousa: dizia ele que, com um enredo simples, sem um vilão e sem outros "excitante" e uma ação que decorre toda no seio de uma família que, afinal, se ama intensamente, conseguiria convencer o seu publico - sabemos que sim, nunca (re)leio esta peça de teatro sem que me comova. Rabos de lagartixa consegue isso mesmo, as personagens são reduzidas: David, um adolescente sonhador, a mãe, a ruiva, ou Rosa, cujos traços distintivo são os seus cabelos, insistentemente referidos, o inspetor Gálvan, talvez apaixonado por esta mãe abandonada, Paulino, o melhor amigo de David, o irmão de David, que é o narrador, mas que ainda não nasceu no tempo dos acontecimentos, há ainda o cão Faísca e, em minha opinião, o barranco, lugar emblemático para onde se escoam todos os afetos e todos os sonhos de David.

A ação não é digna deste epíteto, pois, tal como as personagens, parece estagnada, cercada, oprimida, entre margens de um barranco que cerca Barcelona do tempo de Franco. Nada parece acontecer, mas, tal como David pressente no leito seco do ribeiro o tumulto das águas passadas de enxurradas que cavaram as margens, da mesma forma, há um tumulto invisível que agita a vida interior destas personagens, desenraizadas, melancólicas, sofridas, resistentes e resilientes. Rosa é uma figura magnética em torno da qual todos gravitam: David, o inspetor, o filho que traz no ventre. Mas as personagens comportam-se como retas paralelas, condenadas a nunca se cruzarem, próximas, mas irremediavelmente separadas, inconciliáveis. Todas são, à sua maneira, enternecedoras, comovedoras, merecedoras do nosso respeito, ao mesmo tempo que nos horrizamos com a forma como a tragédia vai borbulhando à sua volta, alimentada pelo fogo lento da sua impossibilidade de saída: é isso, não há saída para elas, porque vivem ali e naquele tempo.

Estas figuras individuais, tão humanas como nós, condenadas a permanecer enredadas neste labirinto, assumem a boca de cena de uma tragédia maior, que se pressente como pano de fundo: os tempos duros de uma ditadura. Há referência à polícia, às torturas, às mortes mal explicadas, ao medo, à sanha contra os homossexuais, à hipocrisia de uma sociedade que funciona apenas para os simpatizantes para com o regime - Rosa era professora primária, mas foi impedida de exercer, como tantos outros, assim colocada à margem - à pobreza, a uma Barcelona cuja periferia é retrato de um abandono, de uma degradação que está a anos luz da Barcelona cosmpolita de que hoje ouvimos falar, tão distante que parece não poder ser a mesma. É um retrato cru, duro, descarnado que tem sobre o leitor um efeito profundamente catártico.

É um livro que fica em nós, dolente, terno, amargo, profundamente sensorial. Levo comigo para sempre David e a forma como o sonho o liberta do medo e do desgosto, a sua fantasia arriscada, a forma de exprimir a sua revolta, a tortura dos seus ouvidos doentes que nunca deixam que o silêncio se instale, a afeição desmedida que consegue votar aos desafetados da norma, o seu cão Faísca, velho, doente, quase cego, e o seu amigo Paulino, vítima da maior violência, física e psicológica, mas que cita poesia como forma de expressar o seu carinho pelos outros. Deixou-me com uma certa amargura a inexorabilidade do inspetor Gálvan, polícia dado à oferta de uma rosa branca. Tudo se passa de forma pouco explícita, mais insinuado do que contado, subterrâneo, mas impetuoso. Magistral este livro, magistral.

04
Fev21

As palavras que sempre (te) direi

livrosparaadiarofimdomundo

Eu gosto de palavras.

Gosto de ouvir falar bem. É confrangedor ver e ouvir as pessoas que não desenvolveram essa competência. Basta pensar no nosso Primeiro Ministro. Se a falar como ele fala já ganha as eleições, imaginem se ele tivesse um discurso fluido, líquido, diria eu.

Todos nós conhecemos uma - era bom era - uma pessoa pelo menos que só conhece o verbo "fazer", ignorando conceber, planear, discorrer, elaborar, proceder, apresentar, requisitar, requerer, reproduzir, ou o substantivo "coisa", nunca utlizando objeto, pintura, quadro, documento, partitura, medida, ou o adjetivo "triste", desconhecendo que se pode estar melancólico, desalentado, desanimado, nostálgico, angustiado, inquieto, assombrado, ensimesmado, introspetivo, asténico, ou o adjetivo alegre, quando se pode muito bem estar eufórico, entusiasmado, sonhador, feliz, radiante, álacre, animoso.

Havia um manual, mais um caderno de exercícios, aqui há uns anos que tinha um exercício de que eu gostava muito - os alunos não, mas são pormenores - consistia em classificar as palavras em função da sensação que ela despertavam: se picavam, se eram doces, se faziam sonhar, qualquer coisa deste género. A minha relação com as palavras é assim. Eu coleciono palavras, combino-as, listo-as, investigo-as, tenho verdadeiro fascínio pela etimologia.Gosto delas independentemente do seu campo lexical.

Adoro a palavra meretriz, é a mesma coisa que a outra de quatro letras, mas tem outra classe.

Gentileza, não está mesmo a dizer o que é? É das palavras mais bonitas que há, porque inspira mesmo o sentimento.

Bonito, é tão fresca esta palavra.

Lhaneza não há melhor forma de dizer da simplicidade.

Bergamota é a mais perfumada.

Onírico é a mais sonhadora.

Caleidoscópica é a mais multifacetada

Alcaçuz é a mais doce

Gizar é a mais desenhada

Promontório é a que causa mais vertigens

Vórtice é a mais agitada

Disforia é a desconfortável

Catre é a mais pobre

Utopia é a mais esperançosa

Emulação é a mais imitadora

Vagido é a mais frágil

Breu é a mais escura

Tártaro é a mais profunda

Côvado é a mais medida

Podia ficar nisto um ror de tempo, mas corro o risco de me tornar desenxabida.

É isto, se para Bernardo Soares a língua era a pátria, para mim as palavras são os meus penates.

Podia ter-me dado para pior, mas a minha loucura é mansa.

 

 

 

03
Fev21

#4/2020 - O barulho das coisas ao cair, Juan Gabriel Vásquez: tão bom como Narcos

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Barulho das Coisas ao Cair

Editora Alfaguara

302 páginas

Olá blog, olá leituras, isto não tem andado muito fácil, pois não? Poucas leituras ultimamente, pouca escrita sobre as leituras. Vamos lá quebrar o enguiço.

Já li este O barulho das coisas ao cair há cerca de uma semana, mas a escrita não me tem saído.  Vamos esclarecer uma coisa: adorei este livro, mesmo, foi assim o primeiro hit de 2021 - no toal respeito das minhas resoluções para o ano novo, era um livro que eu já tinha começado em 2020, o facto de só ter lido uma página, não quer dizer nada. Li com sofreguidão e tentei ler mais  devagar para me render um bocadinho mais. Depois aconteceu-me o que me acontece muitas vezes, depois de ler um livro de que gosto muito, custa-me muito fazer a transição para outro. Pego noutro livro e parece que tive gripe e fiquei sem paladar. É uma orfandade de que já falei aqui.

Para quem viu a série Narcos, em especial as temporadas que retratam Pablo Escobar e o império que construiu através do narcotráfico, há um contexto familiar, que permite reconhecer alguns dos episódios que avassalam a vida das personagens deste romance. Mas as semelhanças ficam por aí. Há uma citação na badana do livro que considerei muito certeira, retirada da recensão do Sunday Telegraph, que refere que "Vásquez segue a máxima de Balzac de que os romances são a história privada das nações". Efetivamente, o autor, através de duas histórias que se cruzam, a do professor universitário e a do ex-piloto de um dos aviões que faziam o tranporte da droga da Colômbia para a a América, "amigos improváveis, devolve-nos um instantâneo das convulsões irremediáveis causadas pelo narcotráfico, verdadeiras ondas de choque que se perpetuam ao longo de anos.

Não é um romance violento, longe disso, não é documental, não é especificamente sobre o mundo do crime, nada disso. Não sei se já referi que o melhor filme sobre a guerra que vi é esse fantástico A vida secreta das palavras. Tudo o que há para perceber sobre o horror da guerra está lá, sem que se dispare um tiro, sem que ninguém morra, e o filme é todo sobre os mortos. O mesmo sucede com este livro, tudo o que nos pode ser dado a perceber sobre a forma como o narcotráfico perdeu toda uma geração, sobre a forma como comprometeu tudo, destruindo a sociedade até aos alicerces, está neste livro. Um relato intimista, rememorativo, sensível, melancólico, sobre a perda, sobre as múltiplas ironias - da vida, do destino, dos deuses, que parecem sempre mais cruéis do que o necessáro - sobre a inexorabilidade e sobre as muitas formas através das quais cada um tenta inverter essa inexorabilidade. Mas é também um livro sobre a esperança, a amizade, a família, a procura de um sentido e, acima de tudo, sobre o amor, nas suas múltiplas formas, todas elas absolutas.

Nunca tinha lido nada deste autor, mas a sua escrita encantou-me. Em primeiro lugar, a arquitetura do romance é de grande inteligência, conjungando realidade e ficção, fazendo confluir no mesmo tempo e no mesmo espaço circunstâncias que parecem estar tão afastadas como o sol da lua. Consegue, depois, emprestar, um ar de intriga e mistério que nos prendem a estas páginas, levando-nos a fazer as mesmas perguntas que as personagens, para as quais não há mais do que esta lacónica resposta "Alguma coisa há de ter feito". As personagens, com a dimensão de pessoas, estão longe dos heróis literários, acima do comum dos homens, tocados pelo divino, marcados por uma aura de superioridade. Não. Estas personagens são como nós, viveram foi naquele tempo e naquele espaço e foi isso que as distinguiu para o bem e para o mal. A tessitura do romance é feita de motivos que se entrelaçam como o fio das moiras, numa dimensão tão trágica como é característico das grandes tragédias gregas - depois de lerem, hão de perceber do que falo - estão lá todos os elementos da tragédia grega: a hybris (o desafio) e o pathos (o sofrimento), o ágon (a agonia), a catarse. Vidas à beira do abismo, vidas em suspenso, vidas numa encruzilhada, mortes em vida.

A fortuna crítica do romance deixa perceber a transversalidade do fascínio que este livro exerce sobre quem o lê. Premiadíssimo, é, de facto, um relato a não perder. É daqueles para o qual guardamos um lugarzinho no olimpo dos livros, o cantinho da nossa estante para os livros da nossa vida.

Ocorre-me esta questão: ler é viver num dilema, se, por um lado, nos apetece descobrir o próximo livro, por outro, fica-nos uma espécie de saudade dos bons livros que lemos. Devíamos ter todos duas vidas, uma para ler e outra para reler.

Viva a Literatura, Viva. Pum! 

Viva a Literatura, viva Pim, Pam; Pum!!! fica também a homenagem ao Almada Negreiros.

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