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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

25
Nov20

#41/2020 - Adoração, Cristina Drios: arriscada escolha

livrosparaadiarofimdomundo

Adoração

Editora Teorema

214 páginas.

Emprestado Hashtag proud ( hei de contar quantos livros li emprestados este ano, bati um record de certeza)

Não conheço quase nada da autora, nem vida nem obra. Ouvi falar deste livro no clube de leitura da Leya, numa sessão dinamizada pela editora Maria do Rosário Pedreira. Os meus olhos brilharam logo, com estrelinhas como nos desenhos animados. Eis uma combinação a que não resisto: obras literárias que versem aspetos relacionados com as artes plásticas. Acresce que o Caravaggio sempre exerceu sobre mim um enorme fascínio, conto a sua obra entre aquelas que, se não a que mais, admiro. (Parentesis para desabafar um desgosto enorme: quando estive em Roma, no dia em que tinha planeado visitar a igreja de Santa Maria del Popolo, demoramos tempo demais no Vaticano e na basílica de São Pedro e, já com o tempo contado, a minha filha resolveu comprar roupa numa loja que tinha tamanhos muito pequenos. Quando chegamos, a igreja já tinha fechado e não pude ver duas das obras que mais me fascinam: A cruxifição de São Pedro e A Conversão de São Paulo. No entanto, pude ver a cabeça de Medusa na galeria Delli Uffizi. Há pelo menos essa consolação).

Mas eu vim aqui foi para vos falar do livro de Cristina Drios, que uma amiga comprou em segunda mão e generosamente me emprestou (Parentesis para contar uma curiosidade sobre o livro. O volume vem autografado, e esta hein? Este é um dos fascínios dos livros em segunda mão, além de serem aquisições mais sustentáveis. Hoje pareço mesmo uma mulher a escrever. Prometo não me desviar mais).

Do que gostei mais? da maneira difusa como Caravaggio é representado e que está bem de acordo com a sua vida enigmática e marginal. O fascínio que este artista exerce sobre quem se cruza com ele atravessa séculos e começou a fazer sentir-se ainda em vida do artista. Esse aspeto está muito bem trabalhado no livro. Também a referência às circunstâncias em que algumas das obras foram pintadas, causadoras de uma espécie de exaustão física e mental e de uma eterna insatisfação e desgosto estão bem pintadas e em harmonia com alguns relatos que apontam para o facto de Michel Angelo Merisi sofrer de algum distúbio mental, tal como Van Gogh, mal explicado, algumas vezes explicado pelos eflúvios venenosos do chumbo contido nas tintas. Assim, o livro valeu por essa revisitação, por funcionar como um impulso para rever a reprodução das suas obras, agora iluminadas por esta interpretação. Na linha de outros livros que li este ano, não vou cometer a injustiça de os comparar. São objetos estéticos diferentes, os leitores são diferentes e não reagimos da mesma maneira a estímulos idênticos.

Do que menos gostei? da ligação um pouco mal amanhada - quanto a mim - ao presente, à Máfia, à polícia, ao crime e ao clima de insegurança que a Itália tem atravessado. Não é que a ideia seja má. É um bocadinho na linha dos romances de Dan Brown. É uma estratégia narrativa arriscada e, neste caso, não me pareceu muito convincente. Depois penso neste atrevimento que é vir para aqui vampirizar o trabalho de outrém, quando ainda não provei que faria melhor.

Em suma, vale a pena ler, porque é de uma autora portuguesa, porque é uma obra interessante honesta. Não é deslumbrante, não será talvez inesquecível, mas aproxima-se da experiência do Belo e tem esse mérito de arriscar na escolha e na forma de tratar o tema. Mexer com gigantes é sempre uma arroubo de David perante Golias. Às vezes, é preciso armar a funda de novo. Só por causa disso, vou colocar na lista de livros a ler Os olhos de Tirésias  e dar os parabéns à Cristina Drios.

 

17
Nov20

De muito longe

livrosparaadiarofimdomundo

"Não são as tuas memórias que te perseguem/Não é o que registaste por escrito./É o que esqueceste, o que tens de esquecer./O que devias continuar a esquecer ao longo da vida."

James Fenton, Um Requiem Alemão

(epígrafe do livro Refugiados, de Viet Thanh Nguyen )

Há dias em que me orgulho deste país, dos seus políticos, das suas instituições, independentemente da cor partidária, do quadrante social, da área de intervenção.

Acontece que a Grécia lançou uma iniciativa para a recolocação voluntária de menores estrangeiros não acompanhados, a que corresponde o acrónimo MENA. Acontece que, nos campos de refugiados existentes na Grécia, havia cerca de 1600 crianças e jovens elegíveis para o efeito. Acontece que a iniciativa recebeu um forte impulso da Comissão Europeia junto dos Estados-membros. Acontece que Portugal assumiu o compromisso de receber 500 MENA, até 2021, de forma faseada. Isto deixou-me orgulhosa nos nossos políticos. Quer isto dizer que, para além dos jogos palacianos de trazer por casa que nos vão desgostando, a um nível europeu temos gente capaz de assumir compromissos com esta grandeza.

Quando chegam a Portugal, estes jovens são instalados em lares de acolhimento, que recebem também muitas crianças e jovens portuguesas que são institucionalizadas por não terem famílias que garantam a sua segurança - outras formas de se ser refugiado. As pessoas que dirigem estes lares revelam preocupações genuínas com o bem-estar destes jovens, proporcionando-lhe um lar, conforto, calor humano, estrutura e suporte que escoram, sustentadamente, existências desagregadas. Além disso, estes jovens integram naturalmente o sistema educativo português, acompanhados de muito perto pelas instituições que o tutelam: DGE, DGEstE, ANEQP, preocupadíssimos com o seu encaminhamento, assumindo um discurso humanista, empático, protetor, de quem tem perfeita consciência de que estes jovens não só vieram de muito longe como foram colecionando cicatrizes na viagem. E isto deixa-me muito orgulhosa nas instituições.

Há, por fim, um conjunto de profissionais que recebe, acarinha, encaminha, acolhe, imagina, cria e proporciona ambientes de integração, de inclusão que são verdadeiramente edificantes. Muito se ganha a observar seres humanos a serem humanos, uns na procura, outros na resposta. Imaginar a distância que o nosso cérebro não consegue abranger, imaginar o desamparo, imaginar as privações, imaginar os medos, as incertezas, o indizível não é sequer possível. Tomar consciência das histórias que se repetem e se perpetuam noutros hemisférios, noutras coordenadas - pai e mãe desaparecidos, separados de irmãos, rejeitados por familiares já instalados, vítimas de guerras, de conflitos a que são alheios, a sobrarem em todos os quadrantes - apequena-nos, faz-nos encolher. Isto deixa-me muito orgulhosa - mesmo nestes tempos de chumbo, de desventuras, de covidas, de regressão, de trumpalhadas, de raiva e violência - do género humano. Ainda há braços abertos, há empatia sem paternalismo, há entusiasmo sem condescendência, há autenticidade fora dos holofotes do reconhecimento.

Eles vieram de muito longe, mas, embora poucos, encontraram um lugar para começarem a ser outra vez.

16
Nov20

Às vezes também vejo séries: O Método Kominsky

livrosparaadiarofimdomundo

É verdade, às vezes também vejo séries. Às vezes... é muitas vezes, só que ainda não me tinha ocorrido falar sobre elas. Tenho um problema com séries que, de certeza, ajudará a diganosticar um comportamento obsessivo compulsivo: quando começo a ver uma (que me agrade), não consigo parar e lá vão as temporadas todas que puder ser, enquanto um cantinho do meu cérebro me lembra que o dia seguinte é de trabalho, mas não dá, não dá, tenho de chegar ao fim. Depois consolo-me ainda bem que as séries não são pacotes de bolachas. Antes olheiras que peso a mais. Isso é que não.

Felizmente, para mim e para as pessoas que têm de lidar comigo, sou muito exigente com as séries e tem de haver qualquer coisa que justifique a eutanásia do meu tempo, que não é assim tanto. 

Acontece que comecei a ver este Método Kominsky, uma série original da Netflix e... bastou o primeiro episódio. Protagonizada por esse senhor do cinema, Michael Douglas, a fazer de si mesmo (ou quase) um ator que, como todos nós, não escapou ao esmerilar do tempo. Envelhecido, com problemas de próstata, sem ter a certeza de conseguir ainda um desempenho sexual satisfatório, cobarde para a crueza da vida e... encantador neste papel disfórico, autêntico e humano. Não sei se é esse o traço que procuro em todas as obras de arte: a essência da humanidade, superada/sublimada por fugas que nos resgatem, mas a humanidade e o humanismo têm de estar lá, o "bicho da terra tão pequeno", que, às vezes, é mais do que promete essa humanidade. Entretanto, o que faz o nosso protagonista? Dá aulas de representação - ah Manuela, o ensino está-te no sangue - recorrendo, pois claro, ao seu método, que dá o título à série e esse é um ponto de partida para boas cenas, mas muito longe de ser o único.

Para além do desempenho desassombrado e assombrador dos atores - o elenco é facilmente reconhecido e ninguém envergonha ninguém (desculpem, mas é maçador estar aqui a dizer quem e quem fez o quê, deixem-se ir como alguém que eu conheço que, ao ver algum ator familiar, exclama sempre "olha quem é ela/ele!". Vejam a série para reencontrarem velhos "amigos"), o que me fez render desde logo foi mesmo a qualidade do guião. Quem escreveu a série - não faço a mínima ideia, porque não fui ver e hoje estou em modo impressivo - escreve bem, tem muuuuuuuuuuiiiiiito sentido de humor, daquele mais negro, que é o que eu gosto, e domina a arte do sarcasmo - outro recurso que me convence e que não está ao alcance de qualquer um. Não está não. E, nestes tempos de "virgens ofendidas", ironia sarcástica, corrosiva, fora do politicamente correto é uma lufada de ar fresco.

De modos que estou a poupar episódios, como um alcoólico perante a última garrafa, um bocadinho de cada vez, para durar e estou a adorar. É isto, hoje lembrei-me de recomendar esta série, é uma pena se as pessoas inteligentes, capazes de reconhecer a inteligência, não a virem. Além disso, uma série é uma forma de leitura: alguém está a ler um guião para nós, na sociedade vitoriana era uma ocupação muito requisitada.

Não recuse um método que, à partida, não conhece, já dizia um dos oráculos da praça.

15
Nov20

#40/2020 - A gorda, Isabela Figueiredo: contra a amargura, escrever, escrever

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A Gorda

Editora: Caminho

285 páginas

Emprestado. Vivam os amigos generosos.

Já tinha ouvido falar deste livro de Isabela Figueiredo, mas não me tinha ainda cruzado com ele, embora tivesse retido que as críticas eram boas. Até que aqui cheguei por recomendação de uma amiga. 

Lê-se muito bem este livro. Não há complexidade de maior, nem na linguagem, nem na estrutura. é uma leitura que flui, organizada linearmente, mas ensaiando alguns avanços e recuos ligados à orientação memorialística do relato. Não é tão imperdível quanto o afirmou José Tolentino de Mendonça, nem um safanão tão grande quanto o avisou Ricardo Nabais. É um livro honesto, que não nos marca profundamente, mas também não desagrada. Cumpre. Em alguns momentos, cumpre com denodo, noutros foge a um potencial que se pressente, mas que não chega a atingir.

É muito interessante a arquitetura do livro, estruturada em função das divisões da casa de família que Maria Luísa herdou e onde viveu com os pais, depois de eles terem regressado de Moçambique, após a descolonização. Cada capítulo corresponde a uma divisão da casa e tem como epígrafe a descrição dessa parte. Depois, partindo daí, o fluxo da memória de Maria Luísa conduz-nos numa viagem ao passado, a um presente disfórico, a um futuro talvez esperançoso.

Maria Luísa começa por ser uma criança que é criada pelas tias, enquanto os pais ainda permanecem em Moçambique, transitando depois para um colégio interno e daí para a casa dos pais na Margem Sul, a Outra Banda, aí conhece o amor, um amor para a vida toda, depois a desilusão, o esboço de uma depressão, o preconceito pelo seu corpo, o que dá o título ao livro, afinal ela é gorda. A protagonista conhece e relata a crueldade das crianças e dos adolescentes devido ao seu aspeto, o assédio sexual, o desejo quase ninfomaníaco pelo sexo, mas também pela comida, o amor e a desilusão amorosa, quando se vê rejeitada pelo seu aspto físico, a relação agridoce com os pais, em especial com a mãe. Como pano de fundo, temos pinceladas do que tem sido a história recente de Portugal: a descolonização, as presidências de Mário Soares, os governos de Cavaco Silva, a Troika, os cortes na economia, o custo de vida que se vai tornando mais insuportável para uma classe média que em Portugal continua a ser média baixa, dificultando a concretização de pequenas coisas que deviam ser dados adquiridos, mas não são.

Talvez me escape, nos escape, aquilo que o livro pretende ser. Se uma análise sobre a reintegração dos disto "retornados" na metrópole, presos de uma nostalgia insolucionável pela vida deixada para trás, recuperada nos pertences que conseguiram trazer consigo, não atinge a profundidade que se deseja. Se uma equação acerca dos preconceitos a que aqueles que fogem ao paradigma da beleza se veem sujeitos, também fica pelo superficial, afinal a protagonista conhece o amor e é desejada, como qualquer pessoa. Esse motivo só fica mais evidente, porque o seu amor tem vergonha de ser visto com ela. É pouco. Se uma visão acerca do que é ser-se professor em Portugal, não passam de breves apontamentos, que se ficam pelo excesso de trabalho, os testes para corrigir e as grelas excel. A protagonista teria de ter uma profissão, ser professora parece ser um simples acaso.

Por outro lado, as incongruências da sua relação com mãe, reconhecendo-a como um ser humano gentil, íntegro, correto, pilar da família que sustenta - no sentido físico e não económico -, mas igualmente detestável, distante, frio. Objeto de amor e de repulsa, como são sempre aqueles que amamos. É aí que o relato nos toca mais, amar é tão difícl, é sempre a "insustentáve leveza do ser". Também os avanços e recuos da relação para avida toda que Maria Luísa estabelece com David, ali tão perto, mantida tão longe, tão amante, tão físico e tão platónico ao mesmo tempo. Quem nunca sonhou com um grande amor que se transformasse com o tempo numa vida a dois, tranquila, serena, partilhada ao mais ínfimo pormenor.

Em suma, gostei do livro e estou capaz de recomendar sua leitura. É sempre literatura em português, é sempre um pouco de nós, é sempre um relato humano.

09
Nov20

#39/2020 - Butcher's Crossing - Jonh Willimas: o vazio dentro de nós

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Butcher's Crossing

Dom Quixote

304 páginas

Emprestado.

Regressei a Williams por interposta pessoa, que me emprestou generosamente o livro. Tratou-se de uma confirmação, se gostei de Stoner, se delirei com Augustus, voltei a deslumbrar-me com este Butcher's Crossing. Estou rendida a Williams. Que mestria, que domínio da linguagem, que inteligência. Perante este livro, temos uma experiência do belo sem que nele haja a descrição da beleza; do sublime, apesar das personagens estarem em queda; da grandeza, ainda que tudo seja rude e precário; do épico sem que haja heróis. 

O ritmo desta escrita é uma imersão na intimidade, devido à ancoragem da história sob o ponto de vista de William Andrews. É sob o olhar deste jovem de Boston, que chega a Butcher's Crossing à procura de uma autenticidade que ele acreditou poder encontrar na franja da civilização. Há aqui uma espécie de mito do eterno retorno, o homem civilizado e aculturado que procura a origem, o éden, a perfeição perdida algures no movimento da evolução. Andrews chega o limite da civilização naquele povoado precário em construção, assente no negócio das peles de búfalo. A riqueza conseguida com esse negócio radica na mais extrema violência do homem contra a natureza, visível nas carcaças de búfalos que pontuam a paisagem, numa atitude predatória que dá ao romance o primeiro cunho universal, atualizando-o nas muitas preocupações com a sustentabilidade que fazem parte do nosso quotidiano. A exploração desenfreada dos recursos e a consequente precipitação na ruína e na degeneração são ciclos económicos que se têm sucedido desde há muito. Regressando ao tópico aqui apontado, o livro leva-nos a uma descida ao mais profundo da alma do homem, numa interrogação que é de índole filosófica: que há dentro de nós, que nos impele e que nos define. A esta questão o livro vai responder com uma crueza que é existencialista. A resposta está nos olhos de todos aqueles que acompanham Williams nesta descida aos infernos.

Há, depois, um outro momento em que se define um outro motivo do livro: aquele em que, atravessando a planura sem fim da pradaria, torturado pela sede e pela fome, numa situação-limite muito próxima da aniquilação, Andrews dá-se conta de um desprendimento de si mesmo, uma espécie de dormência em que paira, semiconsciente, adormecido, ao mesmo tempo que se tranfigura e se metamorfoseia. Essa ideia de metamorfose vai pontuando o percurso desta e doutras personagens. Em Miller, enquanto abate os búfalos, em Charley, depois da tempestade, em Wiliams depois dessa travessia, mas também depois do regresso a Butcher's Crossing, após a expedição em que participa para caçar búfalos. Mas a metamorfose é constante, é imagem também da própria natureza que, mudada devido a um forte nevão, se afigura estranha e hostil, sem referências, ferindo os olhos pela luz intensa e a mente pela impossiblidade. É a metamorfose também daquele sistema económico, precário e incerto, que acentua ainda mais a desagregação destas figuras, a quem, uma vez mais foram supridas as coordenadas que orientam a sua existência.

Butcher's Crossing assume também um recorte épico, não só por equacionar a coragem, a força, a resliência do homem, "bicho da terra tão pequeno", face à grandiosidade e força da própria natureza. Mas esse recorte vem também da descrição a largos sorvos da grandeza da paisagem do oeste americano: as montanhas inóspitas, o vale só brevemente pisado pelo homem, a pradaria infinita, a força da tempestade e, "pormaior", o facto de a natureza ser capaz de apagar os vestígios dessa presença estranha, sem que possa anular a marca da morte que a ganância deixa perpetuada na paisagem, são de novo as carcaças dos búfalos, abandonadas aos abutres, aos insetos, aos lobos.

Poder-se-á perguntar, porquê ler um livro sobre o oeste selvagem, numa visão que desconstrói muitos dos mitos a ele associados? Por isto: pela sua universalidade, as grandes questões que o romance coloca, respondendo ou não, são tranversais à existência humana, deixando-nos numa espécie de encruzilhada. Na verdade, naquela expedição, Miller vai em busca do passado, Andrews vai em busca do futuro e nem um nem outro encontram aquilo que procuravam. E ainda por isto: pela sua atualidade, seja pela efemeridade dos ciclos económicos, seja pela necessidade de repensar a relação do homem com a natureza. Mas, sobretudo por isto: pela magia desta escrita sem comparação, deste domínio das palavras com a medida certa que nos enfeitiçam como uma espécie de sortilégio. É um livro que nos prende como o anel de O senhor dos anéis.

08
Nov20

Eu também segui as eleições americanas

livrosparaadiarofimdomundo

Não sei falar de política, nem tenho raiva de quem sabe, nem mesmo de quem finge que sabe, mas a verdade é que também eu acompanhei essa minissérie que foi a contagem dos votos para a eleição do presidente americano.

Recuemos um pouco. Há quatro anos, não acompanhei com tanto interesse a primeira temporada. Vivi a coisa mais desinteressadamente, convencida que a Hillary Clinton ganharia as eleições, talvez um bocadinho enjoada, porque a presidência da América não deveria ser uma espécie de monarquia, ou oligarquia. Por esse motivo, no dia seguinte de manhã, saída do cabeleireiro, ficquei em choque quando tomei conhecimento de que Trump tinha sido eleito. Confesso a minha ingenuidade, eu acreditava mesmo que as pessoas não levariam a sério este candidato. Não era possível. De maneiras que lá fui seguindo os primeiros discursos e a minha perplexidade manteve-se ao longo de quatro anos. Temos tanto para recordar. Nunca mais dissemos huge da mesma forma, huge tronou-se um trumpismo. Make America Great Again tornou-se um leitmotiv que pudemos usar a propósito de tudo e de nada. Todos conhecemos o penteado de Trump e o olhar semicerrado de Melania, aquela olhar de quem nos atira um "I really don't care", como só uma primeira-dama consegue fazer e só por usar um casaquinho. O Twitter passou a ser seguido com muito mais interesse, porque as pérolas eram quase diárias. Por fim, mesmo a pandemia assumiu uma faceta inusitada pela abordagem que Trump dela fez. E depois os seguidores que o homem tem e ganhou, um verdadeiro influencer, é ver os Bolsonaros da nossa vida, os Venturas ali tão perto. Por fim, os discursos de ódio, de fratura, de supremacia também puderem sair da gaveta, sacudidos da poeira e, finalmente, chegar à luz do dia. Não, não me venham com a economia, parece o argumento para o saudosismo do Salazar, "era assim e assado, mas tínhamos os cofre cheios de ouro". E para que é que servem cofres cheios de ouro se a maioria da população vivia mergulhada na pobreza e na ignorância, orgulhosamente esquecidos?

A eleição de Biden não me entusiasma por aí além. Todos nós, todos talvez não, as a maioria de nós, vem calejando um certo ceticismo acerca de tudo. Afinal os jogos de poder são a verdadeira profissão mais velha do mundo, tenho a certeza que a outra que costuma receber este epíteto é apenas uma sucursal e estaria por certo, nos primórdios, ao serviço da primeira. Tenho a certeza de que a razão de Biden se ter candidatado está longe de ser apenas humanista ou uma questão de messianismo. É um sacrifício que qualquer um está disposto a fazer, porque compensa, vá, a verdade é que compensa. Ainda assim, o facto de ser a terceira vez que se candidata e de ter vencido, a sua vasta experiência de vida e na política, faz de Biden um senador e tudo o que viveu não poderá deixar de ser um trunfo. Já Kamala Harris é toda uma promessa que aguardamos para ver cumprida. 

Apesar de todo esse cinismo com que observamos estes Games of throne, há a diferença nas palavras: união, nós, sarar, todos, justiça, igualdade, arco da moral... Hoje, para mim, basta isto, outras palavras, outra semântica, outro discurso. A governação de Trump levou-nos a acreditar nisto, pelos menos, as palavras têm poder gerardor. Portanto, palavras diferentes hão de gerar um cenário diferente, apaziguado, mais tolerante, mais compassivo, tendencialmente mais justo.

Afinal, até para este ano horribilis  pode ser que ainda haja esperança, foi o ano em que Trump não foi reeleito.

05
Nov20

#38/2020 - O Custo de Vida, Deborah Levy - a nossa humanidade no espelho

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Custo de Vida

Relógio D' Água

138 páginas

Emprestado. Gosto destes "clubes de leitura" informais que nos levam a descobrir autores e textos fruto de um gosto partilhado. Ouvir alguém dizer "gostava que lesses este livro" ou "tens de ler estes livro". Depois, aceitado o repto, vemos que alguém nos conhece. Se lhe emprestarem um livro, isso é amor.

A dado momento no romance, a narradora-autora - a designação faz sentido, porque a voz se refere aos seus livros publicados, às apresentações, às viagens feitas a promovê-los - afirma que deve ao cinema ter encontrado uma técnica para fazer coincidir o passado e o presente. E, literariamente, faz isso quando faz a criança que foi visitar em espanto a casa de família que há de ter, os filhos que há de gerar, o homem com quem veio a casar. Esta passagem, oh, maravilha da literatura, transportou-me para o conto de Maria Judite de Carvalho, "George", em que a protagonista se cruza consigo mesma em diferentes fases da vida, marcadas por nomes diferentes. Nesse conto, como neste livro, há essa fusão fluida entre realidade e ficção, o onírico e o vivido.

O Custo de vida é um texto complexo, riquíssimo de entradas e de verbetes. Pode ser lido como um texto sobre o papel das mulheres, o que lhe está destinado por uma sociedade patriarcal, o que lhe está reservado pela memória biológica, aquele que elas podem escolher em liberdade, sendo que essa liberdade implica sempre sofrimento. Para haver liberdade é preciso quebrar grilhetas e estas nunca são de seda, ou se o forem, prendem mais ainda. Pode ser lido como um texto biográfico, uma profunda reflexão sobre um percurso marcado pela fratura, o antes e o depois, a relação entre uma mãe e uma filha, a dor da perda, das perdas que se somam para definirmos o que somos. Pode ser lido como metatexto, um livro sobre a escrita, do que ela nasce, dos múltiplos diálogos que se estabelecem entre o escritor e o escritor-leitor - acredito que só se pode ser bom escritor se se for um leitor assíduo, compulsivo talvez não, porque as compulsões não deixam margem para outras coisas. Pode ser lido como um relato profundamente humano, soma de todos os outros, que nos devolve a imagem desta voz, autora, protagonista, narradora, mulher em construção, filha, mãe, esposa, mas também a nossa própria imagem, a nossa humanidade despida e feita de dores, de mágoas, de ruturas que é necessário fazer. 

Ao longo das horas - poucas para meu desgosto - desta leitura, quis, por diversas vezes, guardar, gravar algumas das frases, dos achados filosóficos, das evidências colhidas, das revelações, das coisas que pensamos, sentimos, somos e que ainda ninguém tinha sublimado em livro para que nos revissemos nelas. Acredito, pela experiência partilhada com quem me emprestou o livro, que há um pouco de cada mulher neste livro, porque, de facto, os nossos papéis são todos muito similares. Talvez o mais penoso seja este: o de nos esgotarmos a serviço dos outros. E, a este respeito, o livro é muito bonito, porque nunca cai nas armadilhas de um feminismo radical, é de uma dignidade que todos merecem, as mulheres e os homens que com elas convivem.

Este livro deixou-me nostálgica, mas de uma forma boa. Houve uma espécie de reconcilaição comigo mesma. Houve um fortalecimento das minhas convicções. Obrigada a quem me trouxe aqui. Este livro fica na minha "prateleira de cima", aquela onde distingo os livros que me constroem.

Leiam, por favor, sem custo não há vida. 

 

01
Nov20

É Outono - a minha estação favorita.

livrosparaadiarofimdomundo

É Outono, a minha estação favorita, enquanto não chega a Primavera... Afinal eu gosto de todas as partes de As Quatro Estações de Vivaldi.

Hoje é/ foi Dia de Todos os Santos. Foi sempre das festas litúrgicas a minha preferida. Recordo a minha infância, quando saía da escola às sete da tarde/ noite e vinha de bicicleta para casa, ao longo do percurso havia um cheiro a "brindeiras doces" - era ssim que pronunciávamos - pela noite fora. Em quase todas as casas se faziam as broas caseiras. A minha mãe acendia o forno nesse dia. Quando saía para a escola, já havia um alguidar de barro com as broas amassadas. Quando chegava, junto à lareira, estava o tabuleiro de madeira, tapado com uma manta para as broas se manterem macias. Eram untadas, limpas, depois de saírem do forno com um trapo velho, mas limpo - calma ASAE - embebido em açucar e manteiga, ou azeite, e ficavam húmidas, peganhentas, doces, como esse passado que resgato hoje. Não era muito comum ir ao pão por Deus, tinha muita vergonha. Mas recordo o entusiasmo com que ia com os meus pais, a pé, a casa de todos os vizinhos. Em todas as casas, a mesa posta para partilhar o pão por Deus: as broas - sempre - os tremoços, as batatas doces assadas, as nozes, os figos secos, a água-pé, que os adultos nos deixavam beber.

Hoje, para os meus filhos, continuo a fazer as broas, outra receita, no forno da cozinha, porque, um dia, quando for memória para os meus filhos, quero que eles tenham estas mnemónicas, nesta altura, a mãe fazia... Hoje, a minha mãe espera pelas minhas broas. Um dos meus irmãos, todos os anos pede uma fornada só para ele. Ainda nunca aconteceu, mas é melhor tomar nota que o tempo é traiçoeiro. 

Fui feliz, aqui, agora, a pegar no testemunho e a avançar para a etapa seguinte que a vida é isto: uma corrida de estafetas.

01
Nov20

#37/2020 - Aquilo em que eu acredito, Helena Sacadura Cabral - o tempo, esse grande escultor

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Aquilo em Que Eu Acredito

Editora: Clube do Autor

Páginas: 255

Emprestado, hashtag orgulho.

Este foi o primeiro livro que li de Helena Sacadura Cabral, personalidade que tenho vindo a admirar à distância. A leitura confirmou essa impressão de uma senhora cuja verticalidade é possível ir pressentindo aqui e ali. Curiosamente, o que mais gostei no livro - assim gostar mesmo, aquelas coisas que nos tocam, foi o seu início e o seu fim. Explico melhor. Logo no início, a autora faz um excercício curioso, uma espécie de autorretrato, indicando sete coisas de que gosta e sete coisas que detesta. É um exercício que podemos fazer também e comparar os "cromos". No final, inclui um poema maravilhoso-realista sobre este nosso Portugal, tão fácil de amar, mas pelo qual não podemos deixar de lutar.

Não resisto a citar o poema

"Metade de Portugal 

É alegria

A outra metade

Melancolia.

Metade de Portugal 

É esperança

A outra metade

Desconfiança.

Metade de Portugal

É solidão

A outra metade

É festa.

Metade de Portugal

É turbilhão

A outra metade

Silêncio.

Quem dera que Portugal

Fosse apenas a metade

Que o país precisa ser!"

Entre estes dois momentos, temos um conjunto de textos, pequenas crónicas, que analisam episódios dispersos da vida social e económica de Portugal, sob a perspetiva de Helena Sacadura Cabral. A autora é muito lúcida, equilibrada, justa e crítica. Sendo economista de formação, tem sobre os anos tumultuosos da crise de 2011 uma visão mais desapaixonada do que a maioria de nós, porque sabe exatamente do que está a falar. A este respeito, é óbvio que o livro se torna muito datado, Vítor Gaspar já não é ministro das finanças, a Geringonça tem governado o país, a troika foi-se embora, o país ficou mais pobre, a nu ficaram muitas das nossas fragilidades culturais, o país recuperou, quando a recuperação ia a todo o vapor, veio a COVID-19, mas ao menos não foi só para os países periféricos e estamos de joelhos outra vez. Eis em traços largos o resumo da última década - sim, é isso mesmo, trata-se de uma década.

No entanto, como acontece com outros textos, há neste livro muita coisa que se mantém dolorosamente atual e há outras que convém relembrar. Temos tendência a ter memória de peixe para os acontecimentos que agitam a nossa sociedade e não é raro ouvirmos as mesmas pessoas a dizerem o contrário do que afirmaram publicamente. Atenção que não há problema nenhum em mudarmos de ideias. Deus nos livre das pessoas que pensam sempre da mesma maneira. O problema é mudar-se de ideia dependendo do lado em que nos encontramos. Se somos oposição, somos contra, se somos governo, a culpa é do passado...

Em termos de objeto de leitura, o livro é daqueles que eu gosto para ir lendo entre outras coisas . Como são pequenos textos, pode ler-se em qualquer lugar, independentemente do tempo disponível. Já disse e repito que gosto sempre de ter um livro com esta estrutura à mão para aproveitar pequenos instantes em que posso ler. Por falar nisso, estou aberta a sugestões.

Ler este livro é revisitar anos recentes da nossa história e também da história europeia e mundial e ver como as coisas evoluíram, ou regrediram. Nuns casos, o pior cenário confirmou-se, noutros -como foi o caso dos dias negros em que se negociou o resgate de Grécia, o susto foi grande, o preço elevado, mas a Europa sobreviveu ao terramoto. Quem diria que o projeto Europeu teria a sua primeria brecha por causa do brexit? É por estes motivos que é uma leitura interessante. A crónica do quotidiano é importantíssima para os balanços. A História é escrita posteriormente e a equação tem fórmula resolvente. O calor dos acontecimentos expresso nestes tipo de escrita é um documento histórico por si só e deve ser ianlienável.

Gostei. Amanhã deixo-vos o meu exercício à imagem de Helena Sacadura Cabral.

 

29
Out20

#36/2020 - Em tudo havia beleza, Manuel Vilas: e agora, Manuela?

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Em Tudo Havia Beleza

Editora Alfaguara

400 páginas

Emprestado! A média anual vai bem, obrigada.

Ora bem, sabem quando saem de casa para passear e vão incomodados, porque sabem muito bem que não deviam ter saído, havia uma tarefa e não a fizeram. Mas era uma daquelas coisas que fazemos a custo, ai deixa-me lá adiar mais um bocadinho que agora não me apetece. Já estão a conseguir imaginar?

Pois bem, é assim que me tenho sentido a respeito deste livro. Já o li em agosto, ou melhor terminei a leitura em agosto, porque já andava com ele há tempo. Porquê? Porque é uma leitura penosa. Não escrevi logo sobre ele, mas sabia que teria de escrever. Não escrevi sobre ele, porque não tenho uma opinião definida.

Leio as críticas de tanta gente, talvez melhores leitores do que eu, e concordo com todas. São muito acertadas. Percebo-as, reconheço-as como legítimas, como aturadas e sábias. Mas continuo com uma ideia indefinida. Sim, o livro leva-nos numa viagem que nos alerta para a necessidade de amarmos, para a importância da memória como forma de resgatarmos o passado que não soubemos viver. Grita-nos para procurarmos a redenção da nossa efemeridade nos pequenos gestos, na procura de um encantamento que não deveríamos ter perdido ao passarmos pelos anos. O livro aponta-nos os nossos pais, força-nos a irmos à sua procura, a abraçá-los, a retê-los connosco enquanto o podemos fazer. Talvez seja nisto que reside a redenção do próprio texto, o facto de ser uma sacudidela, um balde de água de realismo para não andarmos por aí a achar que há garantias, que a felicidade, a beleza, o amor, a oportunidade estão sempre à nossa mão e que podemos escolher o tempo. Não é nada disso, a vida é acima de tudo efémera, breve, passageira, fôlego e, se sobrevivermos a quem amamos, será para nunca mais nos curarmos a dor da perda. Neste caso, Manuel Vilas ressuscita o seu pai, os seus pais, e há uma dor plangente em cada frase. É a queda, a queda reversível, papel amarrotado que nunca mais pode ser liso e incólume. A vida não nos deixa iguais, amassa-nos em dor e perda. 

Este livro é isto tudo, eu sou muito pouco de relatos cor-de-rosa. Quem tem paciência para ler o que escrevo, sabe que leio livros duros, que os considero necessários, que a arte não é entertenimento, é interpelação e incómodo. No entanto, este Manuel Vilas, sendo isso tudo e talvez mais pela nota carregadíssima de sinceridade, deixou-me tão desconcertada que até hoje não tenho uma opinião definitiva sobre este livro.

Podem perguntar, então para quê ler este texto? Desculpem, é sincero. Foi o Manuel Vilas que me ensinou.

 

 

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