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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

23
Jun20

Carta aos meus alunos 2020

livrosparaadiarofimdomundo

Carta aos meus alunos de 2020

 

Dois mil e vinte, ou vinte vinte, ou outra forma de o dizer, talvez ano bissexto, ficará para sempre na nossa memória como um ano marcante. Dois mil e vinte quererá para sempre dizer COVID-19, porque a onda de choque só chegou em vinte, mas a contagem começou antes. 

Mas temos outras opções…

Vou recordar para sempre a minha turma de 2020, os meus alunos de vinte vinte. Foram/são um conjunto de pessoas maravilhosas. Quando faço a retrospetiva deste ano letivo, não me lembro de uma única vez em que me tenha sentido zangada convosco, ou sequer desiludida.  Entrar na nossa sala de aula significou sempre entrar numa zona protegida, onde esquecia ansiedade, os nervos, a tristeza, as responsabilidades que, às vezes, não me deixam respirar. Cada hora que passei convosco foi uma hora que valeu a pena. Vejam, eu não vou dar apenas vintes, eu não falo de avaliações, eu não falo apenas da excelência académica, eu falo precisamente do painel das diferenças, eu falo dos tímidos, dos negligentes, dos interessados, dos empenhados, dos assim assim, dos resistentes, dos críticos, dos empenhados. Eu falo de pessoas. 

Não chego a saber se tem sido a idade que me tem amolecido, se já fui uma professora rígida, não sei se sou chata. Sei apenas que gosto muito dos meus alunos, sei que gosto muito de vocês e, hoje, nas vésperas de dar a última aula nesta ano de insólitos, sinto me comovida, saudosa, com uma sensação de perda terrível. A minha paisagem escolar vai ressentir-se durante muito tempo da vossa ausência.

Ao longo do ano, tentei mostrar-vos um lado da existência humana que as sociedades atuais tendem a esquecer: a arte, o espírito, a superação da nossa bestialidade, por via da educação para as humanidades - que não terão este nome por acaso, reúnem os saberes que nos educam para a realização máxima da nossa dimensão humana. É a arte que nos sublima, que nos salva, que nos define, que nos protege de todos os assomos opressivos, ditatoriais que todos os dias investem contra a nossa liberdade individual. 

Levem convosco um pouco de literatura: não se conformem com o vosso lar, façam do sonho e da loucura, da ambição e da insatisfação o vosso lema de vida, o força que vos impele para o futuro. Eduquem-se, formem-se, não esqueçam as humanidades. Eduquem os vossos filhos. Vale a pena quando a alma não é pequena. Não deixem nunca que a vossa vontade abandone o corpo antes da morte, lembrem-se que são um pouco do ar que deus respira e que é preciso voar.

É gratidão que sinto, por ter feito parte da vossa vida. Enumero os vossos nomes, mentalmente, em todos os rostos pressinto um milagre, o dos adultos que vão ser.

É um ano estranho. Foi a primeira vez que escrevi uma carta aos meus alunos.

Vou ficar aqui a ver-vos erguerem-se nos céus, numa qualquer passarola movida com os vossos sonhos.

 

18
Jun20

#26/2020 - Pátria, Fernando Aramburu - cristalizar a história na literatura

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Pátria

Editora: Dom Quixote

Páginas: 720

Cheguei a Pátria, de Fernando Aramburu, também através do clube de leitura Próximo capítulo, no mês de maio foi um dos livros a votação.

Trata-se de um extenso romance, cuja ação decorre no país Basco desde os anos dos atentados armados da ETA, até aos anos que se sucederam ao tratado de paz e ao abandono da luta armada por parte deste grupo separatista.

Há um momento em que a personagem Xabier, cujo pai é uma das vítimas do terrorismo, vai indeciso ainda a uma palestra promovida por um juiz e um escritor sobre esses anos da história espanhola. Curiosamente, é na intervenção do escritor que incide o foco narrativo e a ficção coloca um escritor a problematizar e a equacionar as limitações da literatura para abordar estes acontecimentos históricos que se aproximam de uma guerra civil, já que os bascos estiveram também contra o próprios bascos. Este episódio, que faz parte de um longo processo que a família viveu para aprender a coabitar com a morte e procura de camainhos de superação, não é, como evidente, um lapso, uma distração ou uma piscadela de olho ao leitor para captar a sua benevolência para a obra que se desenrola perante ele. Fernando Aramburu não necessita dessa benevolência, mas talvez tenha conhecido hesitações e a escrita tenha sido assombrada pela gravidade e delicadeza do assunto.

O que é que este livro tem de convincente? Pois muita coisa! (se alguém reconhecer aqui uma marca de estilo, não é impulse, é que o livro em dados momentos é absolutamente polifónico fundindo as vozes da narração com as das personagens, colocando-as em diálogo e interpelação, o que dá um ritmo coloquial a todo o livro). Entre muitas outras vou destacar este feito: Aramburu não assenta a sua história apenas num lado, cruza as narrativas, expondo as suas fragilidades e os seus equívocos. A ação da ETA no país Basco constituiu um processo longo e doloroso acima de tudo para os próprios bascos. Os espanhóis quase não intervêm na ação, nem sequer são os "culpados". A verdade é que o livro consegue mostrar de forma magistral, sem paternalismos, sem concessões, que, nestas páginas da história, todos, todos perderam, todos todos foram atingidos e as ondas de choque perpetuaram-se durante décadas e amarguraram a vida de todos os envolvidos. As famílias dos assassinados conhecem um sofrimento diferente das famílias dos terroristas, mas estas sofreram também e, no fim de tudo, sofrimento é sofrimento. Outro aspeto igualmente interessante é a forma como estas situações dividem famílias e vizinhos de toda a vida, um pouco como aconteceu nos conflitos nos balcãs.

Notem bem, o livro não é miserabilista, não vitimiza as suas personagens, eleva-as ao descrevê-las num processo de sobrevivência e superação. São rijos os bascos. O livro está também muito bem escrito e não terá sido um exercício fácil aquele tratamento calidoscópico de um microcosmos que sintetiza tudo o que aconteceu no país basco. As personagens são humanas, frágeis, imperfeitas, por isso as sentimos tão autênticas, tão próximas de nós, com os seus medos, as suas reticências, a sua irredutibilidade.

Mesmo que seja para conhecer e mergulhar na complexidade nascida destes tempos trágicos, vale a pena determo-nos neste livro, mas a obra é muito mais do que isso. É daquelas em que andamos a pensar durante o dia, ansiosos que os afazeres nos deem alguma paz para voltarmos a fechar-nos neste livro para nos abrirmos ao entendimento das coisas e aprendermos a temer qualquer forma de radicalismo.

Leiam, vão ver que vale a pena.

 

16
Jun20

#25/2020 - O nervo ótico, María Gainza, a escrita como olhar

livrosparaadiarofimdomundo

 

Wook.pt - O Nervo Ótico

Editora: D. Quixote

Páginas: 167

Origem: comprado a pretexto da participação no clube de leitura "Próximo capítulo", da Leya.

Numa palavra: Maravilhoso!

Diz que é um livro de estreia - a raiva que me dão estas estreias. Mas entendo. É uma estreia madura e amadurecida. O nervo ótico é um livro muito muito inteligente, muito muito erudito, muito, muito complexo na simplicidade com que as histórias que compõem a história se ligam e emergem.

Começa, talvez, por ser um livro de memórias, pois muitos dos episódios aqui contados são reminiscências autobiográficas da sua autora. Estes oscilam entre o insólito, o comum, o familiar, os inegáveis traumas que todos nós inevitavelmente carregamos, as aventuras da juventude, o resgatar das ruturas com que sedimentamos a nossa personalidade e assumimos o nosso lugar no mundo. Desde que nascemos, não fazemos mais nada a não ser cortes de cordões umbilicais.

É também um livro de crónicas, porque muitas das histórias constituem também esse exercício reflexivo sobre episódios do quotidiano, sobre circunstâncias do tempo comum que nos atiram para o domínio do extraordinário. 

É um livro sobre as artes plásticas, em especial a pintura. É nesse campo, nessa face, que a sua riqueza é maior - atenção que a autora é crítica de arte e essa "profissão" contaminou a forma como escreve, mas sobretudo a forma como olha. Daí que o livro nos esteja sempre a reenviar para fora dele. Temos de ir ver o quadro referido para percebermos, temos de ir à net ver quem é aquele pintor, temos de ir confirmar aquelas notas. Também é um hino aos museus e galerias onde a narradora/autora/crítica se refugia a propósito de tudo e de nada. Permite-nos aprender e aprender e aprender com o seu inquieto nervo ótico, que é mais do que um traço biológico para se tornar num estado de espírito, numa estranha forma de vida e, por fim, num estilo novo. Apetece largar o livro e irmos deambular para as salas vazias de um museu e esperarmos também termos aquela espécie de nirvana que a contemplação proporciona, mas cuja experiência nunca vivi plenamente. 

É um daqueles livros que, apesar do seu tamanho, não pode ser lido depressa. A pressa neste caso atropelaria essa lentidão requerida na leitura que reflete uma atitude contemplativa que a arte nos solicita, aqui transposta do olhar para o ritmo da leitura. Eu, devoradora de livros me confesso: obriguei-me a ler devagar, a poupar estas páginas, fazendo-as render mais do que os dois serões que decerto me levariam a ler. Este livro merece outra forma de ler, uma extensão da forma de olhar.

 

 

 

07
Jun20

Memorial do Convento, de José Saramago - a mais bela história de amor - viagens na minha estante #3

livrosparaadiarofimdomundo

Memorial do Convento

 

Hoje estive com Memorial do Convento, de José Saramago. Reli a esmo algumas páginas, mas vou sempre dar às mesmas, aquelas que me tocam pela sensibilidade deste narrador: A história de amor entre Baltasar e Blimunda. Já lá vou.

Este livro de Saramago é, verdadeiramente, uma obra.prima. Que génio foi quem a concebeu, quem a escreveu, quem a compôs e imaginou. Tudo encaixa, tudo faz sentido, em tudo há beleza. Claro que me divirto imenso com o primeiro capítulo,a ironia sarcástica de Saramago é a marca de água do seu estilo, mas também o seu humor, a sua visão crítica, a paródia de uma certa vacuidade nos gestos, nas palavras, no servilismo. Neste primeiro capítulo, o rei que faz legos em vez de se preocupar com o seu povo, é ingénuo e crente, ou crédulo, e acredita que a construção de um convento - da ordem franciscana, se fosse de outra a magia não pegava - haveria de desemperrar o útero da rainha infértil que teimava em não dar herdeiros à coroa. Se isto não é um episódio literário maravilhoso, desconheço a natureza do maravilhoso.

Depois todos os episódios reveladores de uma visão crítica da sociedade, cujas prolepses nos levam a perceber quão pouco evoluímos, quando não regredimos. A pretexto das procissões, dos autos de fé, das touradas, do lançamento da primeira pedra do convento, contactamos com o caráter sanguinário das gentes, que se comprazem nas flagelações próprias e alheias, que são debochados a pretexto de cerimónias relgiosas, de onde andam arredadas a caridade e a devoção que deviam ser o princípio. O gosto pelo sangue, a "alegria geral" do auto de fé, a indiferença perante o sofrimento do outro, o desumanismo na forma como os julgados são tratados, são reveladoras de um obscurantismo que nos continua a espreitar e se faz visível com demasiada frequência.

O sonho de voar do padre Bartolomeu Lourenço coloca-nos face àquilo que nos disitngue, que nos sublima, que nos explica: a capacidade de sonhar, o visionarismo, o ser diferente. Perante a construção do convento, pedra imóvel amassada com o sangue do povo, a construção de uma passarola é de uma matéria diferente, a matéria dos sonhos, pois claro. Trata-se de uma linha narrativa cheia de altos e baixos, mas que une as personagens diferentes do livro, aquelas que estão fora da caixa, em todos os sentidos.

Por fim, Baltasar e Blimunda, cuja história de amor ajoelham muitas outras que conhecemos. Calem-se de Romeu e Julieta os grandes padecimentos que tiveram. Baltasar e Blimunda pertencem ao povo comum, mas são o mais incomuns que possamos imaginar. A maneira como se entregam e se amam é destituída de normas e de credos e, no entanto, obedece a um ritual de autenticidade e que nos remete a qualquer coisa de primordial. São pouco mais que mendigos, subnutridos, esfarrapados, etc, carregando todas as marcas do opróbio que era ser-se do povo naquele tempo, mas sublimam todas as suas contigências quando se tocam, quando se amam, quando ela quer e ele também. São felizes, são humanos, são verdadeiros, como nunca o serão o Rei e a Rainha circundados de riqueza, mas isolados de sentimentos. É um amor sem dúvidas, sem hesitações, sem percalços, pouco novelesco, sem uma traição, sem uma dúvida, sem um olhar para o lado. É um amor que amadurece e envelhece como as personagens, mas que nunca perde o brilho. Termina como termina a vida, quando o imprevisto nos acomete e nos leva a sucumbir.

Memorial do Convento é um memorial literário, é um memorial da cultura portuguesa. É um monumento que nos identifica e nos distingue.

01
Jun20

5 por menos de 200 #

livrosparaadiarofimdomundo

No dia Mundial do livro, o sítio do Sapo (adoro escrever/dizer sítio, é tão em Português) publicou uma lista que eu adorei e de já falei aqui no blog. Tratava-se de uma listagem de 10 livros - grandes obras - para serem lidas de um fôlego. Gostei do conceito. Copiei a lista à mão - ainda gosto muito do exercício de escrever à mão, desenhar a letra, cuidar da apresentação - para o meu caderninho de "lembretes", que os arquivos mentais já não são o que eram e fiquei com a idei a de rever, aumentar e contribuir para a grandeza da lista.

Eu leio de tudo - ou melhor, de quase tudo, que há coisas com as quais não posso gastar tempo de vida - mas sempre gostei de um livro que se devora num hausto - aos anos que eu queria aplicar esta palavra em algum sítio! Essa ideia de "raspadinha" dos livros é muito vantajosa e há autores - que inveja me devora - que conseguem fazer  o duplo - escrever pouco e acertar muito.

Assim, deixo-vos a minha primeira lista - 5 por menos de 200 - que prometo aumentar, tornando-a em mais um dos meus desígnios de leitora.

Gosto também do diálogo. Se alguém puder contibuir com as suas leituras, breves, mas intensas, não se acanhem. Se há coisa que eu também aprecio é "trocar cromos", ler porque alguém leu e gostou.

Crónica do Rei Pasmado, Gonzalo Torrente Ballester, p. 168 - já li três vezes. O humor, a sátira, a caricatura. É incomparável!

Crónica de uma morte anunciada, Gabriel García Márquez, p. 136 - está na altura de reler... li quando tinha 18 anos.

Uma vida inteira, Robert Seethalerp. 120, já bloguei aqui.

Cossacos, Lev Tolstói, p. 176 - a última entrada do meu blog.

A morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstói, p. 96 - dizem que é a obra que diz tudo o que há para dizer sobre a morte. 

Livros pequenos? Guardo-os todos, com eles construo uma biblioteca breve.

 

29
Mai20

#24/2020 - Cossacos, Lev Tolstói - viagem na minha estante

livrosparaadiarofimdomundo

Cossacos

Editora: Relógio D'Água

Páginas: 158

Origem: perdido na estante.

Tolstói é sempre Tolstói.

Cossacos, uma novela do Cáucaso é uma daquelas preciosidade que Tolstói nos deixou e que, por vezes, creio que ficam um pouco ofuscadas pelas suas obras maiores. O autor russo é mais do que Guerra e Paz ou Anna Karénina. Na contracapa da novela, transcreve-se uma apreciação de George Steiner que aproxima Tolstói de Homero sobretudo nestas obras menos complexas. De facto, Cossacos tem uma ação muito simples e que podemos contar numa linha, Olénin, um jovem moscovita, deixa a sua vida de conforto e junta-se ao exército russo em campanha no Cáucaso, apaixona-se por Marianka, mas não fica com ela. Pois, mas é Tolstói, é mais do que isso.

Temos, desde logo, o olhar do narrador que perambula pelas paisagens iemensas e impressionantes dessa zona do globo, dando especial atenção aos montes que dominam a paisagem. Os elementos da natureza estão omnipresentes na narrativa, quase um leitmotiv, a corrente do Térek, as suas águas turvas, a foresta densa onde Olénin caça, os montes de cumes brancos, a vastidão do céu, a doçura do verão, os pomares da povoação cossaca. Como se sabe, o próprio Tolstói fez o mesmo percurso que o seu herói moscovita, também ele se alistou no exército e também ele esteve quatro anos no Cáucaso, o que parece ter influenciado a sua obra e terá ditado algumas das linhas deste livro.

O olhar do narrador confunde-se muitas vezes com o olhar da sua personagem. Olénin contempla apreciativamente os cossacos, as cossacas, a simplicidade das suas vidas, o despojamento dos seus desejos, a beleza asimples e primordial das mulheres, o orgulho nas suas tradições. Moscovo, face à povoação cossaca onde está aboletado, parece a Olénin artificial, cansativa, maçadora, ao passo que o seu quodiano nessa zona remota o faz sentir uma vitalidade que desconhecia, um regresso a um qualquer sítio que lhe parece o mais próximo que pode conceber de felicidade.

Há depois a figura de Mariana, cuja orgulhosa atitude, simplicidade e majestade se vai insinuando no espírito do hóspede que se encontra alojado na isbá dos pais. Num primeiro momento, Olénin não distingue Mariana do meio envolvente, ela parece ser apenas um elemento daquela composição que o enleia. Mas, mais tarde, os seus olhos seguem-na quase obsessivamente e ela torna-se o único interesse de Olénin, caindo numa paixão que o domina. Há neste pequeno interlúdio qualquer coisa da novela de Carlos e Joaninha das Viagens na minha terra, com a diferença que Mariana é uma heróina mais máscula, não sofre do mal du siécle. Ela é forte, trabalhadora, orgulhosa, honrada e não são uns bonitos olhos de um quase príncipe russo que vão abalar a sua fortaleza e por em causa o seu modo de vida. Há também um eco subtil do livrinho Le silence de la mer, de Vercors, relacionado com a forma como Mariana resiste aos olhares, às insinuações de Olénin, ora alimentando-lhe os sentimentos, ora mantendo-se sempre a uma distância que  a faz parecer inacessível.

As reflexões intimistas de Olénin reproduzem muito do pensamento de Tolstói que encontramos em outras das suas obras e que haveriam de desaguar na sua fuga da famílai para abraçar um estilo que vida que sempre almejou, mas que foi impedido de abraçar devido às convenções sociais. Há o elogio da vida simples, há o olhar contempaltivo que compara dosi mundos e duas formas de vida tão distantes entre si, um artificial, convencional, o outro livre, autêntico. enfim esse quase sistema filosófico que é possível completar através das obras de Tolstói.

Fui ali num instante ao Cáucaso, sei o que quer dizer evadir-se no tempo e no espaço, estive fora por umas horas e aptece-me também alistar-me no exército russo e ir pelas estepes ancoradas nos contrafortes de montes inacessíveis conhecer outras formas de vida. Ai ia, ia.

Mais uma resposta à pergunta: Porquê ler o clássicos? Porque está lá tudo.

 

28
Mai20

Post sem livros lá dentro #3

livrosparaadiarofimdomundo

Sei.

Há um outro tempo, outras memórias, que estão em mim, que fazem parte de mim. É preciso ressucitá-las e deixar que permaneçam.

Os olhos fechados com o sol a bater-lhe de fora, deixar o olhar inundado de luz e o calor espalhar-se pelo rosto.

Deambular pela casa vazia, silenciosa e sentir na exatidão de cada objeto que o mundo está concertado.

Ouvir o silêncio.

Ouvir o chilreio doido dos pássaros.

Ver a natureza numa festa de cores, numa explosão de texturas e de cheiros.

Alargar a vista pelo horizonte, amplo e inspirar a distância.

Saber-me segura, saber-me longe, saber-me salva.

Os pequenos prazeres, pequenos, pequenos, colocar a flor na jarra, abrir o livro, sorver o chá, afastar as cortinas, encolher os joelhos, sentar-me e deixar o pensamento fugir.

Distrair-me, perder-me, afastar-me e depois regressar e saber que por um momento não me assiti.

A mão na minha, um toque de pele, o calor de outra presença que me devolve ao sítio onde posso ser.

Esquecer.

Esquecer.

Esquecer.

Chegar a casa.

Regressar, devolver-me, viver no meu tempo, viver na minha existência.

Centrar-me. Tornar-me o centro de mim mesma.

Arranjar-me, curar-me, sarar.

Sei que é possível.

Concentrar-me.

 

25
Mai20

#23/2020 - Crónica de Um Vendedor de Sangue, Yu Hua: a desconcertante ingenuidade no meio da tragédia

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Crónica de um Vendedor de Sangue

Editora: Relógio de Água

Páginas: 240

Da Biblioteca escolar

Durante o ano letivo 2018-2019, a escola onde trabalho foi selecionada no âmbito do Concurso Leituras d'Oriente e d'Ocidente, que visava promover o diálogo entre estes dois universos culturais precisamente através da Literatura. Um dos incentivos do concurso era precisamente a aquisição de obras para a BiBlioteca Escolar. Foi toda uma pesquisa e uma descoberta não só de autores, mas também dessas outras formas de pensar e de entender o mundo com que a arte e a cultura nos permitem contactar, para encetarmos diálogos e das interpelações aprendermos a aceitar o outro, a criarmos com ele empatia. A verdade é que o acervo da biblioteca ficou bem mais rico e, sobretudo, diversificado.

Esta Crónica de Um  Vendedor de Sangue fez parte dessas aquisições. Em tempo de confinamento, requisitei-o e trouxe-o para casa, mas só lhe peguei na última quinta-feira. A contracapa apresenta-o como um dos dez livros mais influentes da última década na China, além de ser da autoria de um dos mais importantes escritores chineses contemporâneos. A sua leitura estabeleceu um diálogo inequívoco com um outro livro, este de Mo Yan, Prémio Nobel, Peito Grande, Ancas Largas, porque ambos traçam um retrato impiedoso, mas cândido, das últimas décadas da história da China, com especial enfoque nos anos do presidente Mao (embora Mo Yan faça uma incursão também muito aprofundada pela ocupação japonesa).

É um romance de família, porque acompanhamos o percurso de Xu Sanguan, casado com Xu Yulan, e dos seus três filhos. Até aqui nada de muito improvável, parece mais uma história, mas não é. Este é um livro original, com um discurso que eu diria desconcertante, porque parodia uma certa ingenuidade na apreensão dos acontecimentos que vão sendo desfiados ao longo do relato. O título remete para uma prática que se afigura comum: as pessoas vendiam o seu sangue aos hospitais, duas tigelas. A venda do sangue obedecia a uma série de práticas e cuidados, para dar mais fluidez ao sangue, bebia-se água até "doer os dentes", depois da venda, comia-se fígado de porco frito e bebia-se aguardente de arroz. Este é um pequeno fio que se entretece no romance.

O livro é enternecedor e comovente na forma como esta família enfrenta e resolve os seus problemas, sejam eles económicos, sociais, de afeto, de relação com a vizinhança e com o passado. No final, o livro é uma belíssima história de amor, de abnegação, de encontros e desencantos, de personagens inesquecíveis, de laços que nada parece quebrar. É ainda o desnudar de uma certa visão da China pelos próprios chineses, de uma pobreza que agudiza o engenho, da dádiva de pequenos gestos que humanizam e resgatam estas personagens de uma indigência a que parecem ser indiferentes.

É uma história que prende, que lemos, pela qual avançamos, comovidos mas perturbados. Destas páginas erguem-se figuras que representam uma trajetória de redenção em meio a enormes adversidades, que cuidam umas das outras, que cedem, que tocam, que amam e que expressam esse amor, por exemplo guardando açucar para as papas em dia de aniversário, ou poupando bagos de arroz da porção diária que hão de ser providenciais em tempos de fome. 

É preciso lermos livros assim, para fazermos um exercício cada vez mais pertinente: calçarmos os sapatos dos outros e percorrermos um pouco os seus caminhos.

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