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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

28
Fev20

#11/2020 - Khadji-Murat, Lev Tolstoi: a hora do clássico

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Khadji-Murat

Editora: Cavalo de Ferro

Género: novela (guerra, aventuras)

Páginas: 160

Para Guardar

"A corda é boa se for comprida, tal como a conversa é boa se for curta."

Eu gosto do Tolstoi, sempre, seja nas obras de grande fólego, como Guerra e Paz ou Anna Kerenina, seja nas novelas, como A morte de Ivan Ilitch, de quem alguém isso que era a obra que dizia tudo o que havia a dizer sobre a morte; ou a sonata de Kreutzer - tenho de reler - e também está cá em casa Cossacos, que ainda não li. 

O traço mais característico e surpreendente nas novelas de Tolstoi, em minha opinião, é a sua simplicidade, quase desconcertante, e, por outro lado, a poesia desses mundos possíveis e personagens verosímeis que o autor russo tão bem sabe pintar. Com a precisão de um pintor experiente, duas ou três pinceladas são suficientes para presentificar esses seres excecionais que ele cria. Os caracóis negros de Anna Karenina; o constrangimento de Pierre, a beleza de Helena, a vanidade de Ivan Ilitch, o orgulho de KHadji_Murat, a forma como a sua presença não passa despercebida numa sala, a grandeza da sua personalidade e a frustração dos seus planos.

A verdade é que já terminei a leitura deste livro há dois dias e persiste na minha imaginação a figura de Khadji-Murat. Este herói trágico impõe-se tanto no espírito do leitor como na aura mítica que vai ganhando tanto do lado dos seus inimigos russos, como dos seus discípulos tchetchenos, como do seu inimigo mortal, Chemil. As histórias que se vão entretecendo à volta das suas façanhas vão-no tornando digno de admiração e avaliado como um homem digno e honrado. Astuto, fantasmagórico, audaz, corajoso, estratega, calculista e um homem de família.

A sociedade e a cosmovisão que se desprendem do livro remetem-nos para um mundo de constrastes: as convenções dos salões, a rudeza da vida dos montanheses, a beleza de algumas mulheres, a ferocidade dos soldados, a bravura em combate, a preocupação em casa (há ali um episódio que é a narrativa correspondente ao poema de Pessoa, "O menino de sua mãe"), a grandeza da natureza do Cáucaso, a robustez dos fortes ou a estreiteza das aldeias, a delicadeza de um olhar, a fúria destruidora de um incêndio.

Para muitos, uma das melhores histórias da humanidade, para outros uma das melhores obras de Tolstoi, para mim, um clássico, uma viagem ao passado que nos permite sonhar, sofer com a fraqueza do género humano, com a dor e com a esperança. É uma obra que resulta sem que saibamos bem explicar porquê, mas suspeito que um dos motivos terá de ser a mestria do seu autor.

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