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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

07
Abr21

#11/2021 - As oitoMontanhas, Paolo Cognetti: histórias de quem vai e de quem fica.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - As Oito Montanhas

Editora Dom Quixote

222 páginas

Olá, querido blog, já sentias a minha falta, não é? Pois, não tenho tido tempo, as desculpas de sempre, a forma como nos autossabotamos. Mas, em tempo de passagem e renascimento, cá estou eu a retomar o meu trabalho de Penélope: escrever/ler.

Há dias, tive de ir a Lisboa fazer um exame médico: uau um pretexto para fazer uma viagem longa, é como a sensação de nos levantarmos depois de muito tempo sentado, como quem vai esticar as pernas. Coincidiu com a reabertura das livrarias e resolvi passar pela Livraria Barata, na avenida de Roma, por causa de se ter falado nas dificuldades que tem atravessado. Que saudades de estar numa livraria, de pegar num livro, ler a sinopse, ficar com ele na mãos, ainda indecisa, depois pegar noutro, reconhecer um de que se ouviu falar, outro que se viu ser um lançamento significativo, daí a pouco ter um braçado de livros e ter de começar a excluí-los.

Foi assim que cheguei a este As oito montanhas. Normalmente, não vou atrás de prémios, mas eles não deixam de ser indicadores. É um romance bastante premiado, o escritor é jovem e reparte o seu tempo entre a cidade e uma casa que tem na montanha, a alguns mil metros de altitude. Acabei por me decidir por ele e não me vim a arrepender.

A história conduz-nos ao seio de relações desencontradas, entre um pai e um filho, entre homens e mulheres que de desencontram nas relações, entre dois amigos, cuja amizade sobrevive ao tempo e à distância. Tudo isto é tutelado pela montanha, pelas montanhas, inóspitas, fascinantes, desafio constante, mas terra natal de uma certa identidade. A família de Pietro aluga uma casa no sopé de uma montanha, numa aldeia recôndita, parada no tempo, estagnada num modo de vida ainda muito enraizado na terra e nos ritmos das estações. Para ali vão passar todos os verões, exilados da citadina Milão. Em Grana, Pietro conhece Bruno e ficam amigos para a vida.

O que o livro nos narra é sobretudo o pulsar da montanha, os carreiros íngremes, as neves eternas, os lagos gelados, a fauna e a flora das alturas, os abrigos, o frio e uma nudez que até no verão persiste. É uma terra árida, altíssima, desconfortável, para poucos, para duros, para quem tem as pernas tonificadas, para quem se arrisca nos glaciares. É um lugar ao mesmo tempo edénico, mas conspurcado pelas ruínas de um certo modo de vida e de uma economia agonizante, cujo golpe de misericórdia há de ser dado pelos anos de chumbo da crise de início do século XXI. Mas a montanha é acima de tudo inexpugnável, de tempos a tempos reclama o que é seu, sobretudo através de tempestades épicas ou de forma surpreendente quando uma avalanche sepulta tudo o que fica no seu caminho. Há outras coisas no livro, há, mas foi isto que ficou, esta frugalidade, esta primordialidade que nada tem a ver com as hordas de turismo, as estâncias elegantes, ou uma moda. É mais uma forma de ser e de estar, é o montanhês, tanto o que vai - na verade, em busca de outras montanhas - como o que fica - agarrado à sua montanha natal.

Depois de ler este livro, só me apetece ir caminhar para a montanha e reacende-se a nostalgia de umas férias em Ordesa, de um trilho até ao Monte perdido, as florestas de árvores colossais derrubadas depois dos invernos agrestes. Este livro - passe o cliché - é sobre o espírito da montanha, uma coisa quase totémica. Quando isto tudo acabar, gostava muito de ir às Dolomitas, já tinha esse sonho, depois deste livro, passou a ser um desígnio. Como diria Caeiro, que presos estamos na cidade. Última recomendação: fiquem atentos à descodificação do título.

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