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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

11
Abr21

#12/2021 - Um tambor diferente, William Melvey Kelley: aprendermos a caminhar ao som da nossa melodia interior

livrosparaadiarofimdomundo

Um Tambor Diferente

Quetzal Editores

265 páginas

Este romance foi o segundo que comprei na ida a uma livraria física - já sabem, adoro, blá, blá, confinamento, blá, blá, blá, isto nunca mais acaba, blá, blá, tinha pensado ir este fim de semana, blá, blá, blá, fecha tudo até às 13:00. Não fui, mas li, talvez tenha ficado a ganhar.

Já tinha ouvido falar deste livro quando saiu em Portugal e o canto de sereia tinha sido a frase: "O gigante perdido da literatura americana.", o que fez lembrar o Stoner, de John Williams. Quando peguei no livro, vi que o autor o tinha escrito com 24 anos, tendo sido desde logo aclamado pela crítica que o comparou a Faulkner e a Baldwin. A curiosidade ficou ainda mais aguçada. Depois vi a sinopse: a ação decorre num estado segregado (ficcional) do sul da América, onde, inesperadamente, Tucker Caliban abandona simplesmente as suas terras, salgando-as antes de partir, abatendo os animais da sua quinta e incendiando a sua casa. É, na verdade, um ato de rebeldia não violenta, silenciosa, mas estridente ao ponto de causar ondas de choque que se perpetuam durante dias e dias. Compre, li, gostei e estou aqui a recomendar.

Apesar da sinpse tão interessante, o livro é muito pouco centrado neste episódio exato. A forma como a narrativa está estruturada fez-me muito lembrar Lincoln no Bardo, por causa de uma certa ingenuidade que enforma o relato, que é intencionalmente fragmentário. Na verdade, a narrativa resulta do relato de uma espécie de fio de memórias de algumas pessoas que conviveram com Tucker Caliban e que, longe de tentarem explicar o que ele fez, vão rememorando episódios do passado que nunca chegam a explicar diretamete o que ali sucedeu. Diria que o leitmotiv do romance é precisamente a forma como as personagens tentam perceber, sem nunca chegarem a uma explicação definitiva. Dessa perplexidade apenas fica os efeitos que estes gestos de Tuccker vêm a ter em todo o estado, originando um êxodo da população negra sem precedentes.

Um aspeto verdadeiramente interessante é que a questão racial - é disso que se está a falar, sem sombra de dúvida - não nos é dada nos parâmetros canónicos, é percecionada através do ponto de vista dos brancos e nem sequer são brancos arreigadamente racistas, são sulistas, mas progressivos, diremos assim, são brancos, mas palco de conflitos, são brancos, mas esperam também em expectativa para verem o grande acontecimento que fermenta por todo o estado.

Outro apontamento que considero estrutural é a forma como a omnipresença de Tucker nos é dada pela sua quase ausência. Aliás, a narrativa nunca assume o seu ponto de vista, não conheceremos as suas verdadeiras motivações. Ficam os gestos e o seu silência, um enigma como o da esfinge e é o mesmo texto oracular que dirige em surdina ao senhor Leland - apesar do nome, é uma criança, cujo ponto de vista é também assumido na narrativa. 

Outro aspeto ainda é a abertura do romance, absolutamente mítica, lendária. O antepassado de Tucker, chegado num navio negreiro à América, descrito como um verdadeiro titã, comprado à chegada Pelo General Dewey Willson, que o persegue pelo estado, tresloucado, numa caça ao homem em que tanto o perseguido como o que persegue se deleitam nesse jogo em que se medem as forças e a astúcia. É este Africano que é o tetravó de Tucker, enquanto Willson é o patriarca da família que tuteça os Caliban. Assim, a bertura do livro establece esta genealogia mítica, este sangue africano que pulsa nas veias de Tucker e que, para alguns, pode funcionar como uma explicação, um motivo.

Em termos literários, o livro é de uma modernidade surpreendente. Fragmentário, caleidoscópico, assentando em vários processos, entre eles o pastiche de vários textos, a paródia de diferentes discursos, diferentes pontos de vista, discurso ajustado à idade, educação e formação das personagens, o dialogismo dessas vozes que se erguem, não em coro,mas à sua vez para dar conta de uma trama que não é unívoca.

Um tambor diferente é, de facto, uma obra gigantesca que deve/merece ser resgatada do esquecimento: pela sua inegável qualidade literária, por ser a obra de um autor negro que a escreve aos 24 anos e que revela uma humanidade que a História havia de revelar em Nelson Mandela, por exemplo, pela sua atualidade, pela sua grandeza humana, por ser uma obra sobre a segregação que nos convida à reflexão, pela sua beleza, é um livro muito, muito belo.

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