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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

27
Ago14

Fica a vontade de voltar (III)

livrosparaadiarofimdomundo
Dia 3 – 06-08-2014

            Comonão podia deixar de ser, a noite foi de trovoada. Creio que ainda não houve fériasem que não apanhássemos pelo menos uma noite de trovoada. A experiência datrovoada em terras altas para pessoas meridionais como nós tem grande impacto. Selevarmos em conta a validade científica da contagem dos segundos que decorrementre a visualização do relâmpago e o som da trovoada, tornou-se óbvio que atrovoada estava bem longe, mas o som dos trovões ecoava pelas gargantas edesfiladeiros e prolongava-se por muito tempo. Foi assim uma tempestade com ar épico.Mas a tenda aguentou-se bem e não houve danos materiais. Clima de montanha éassim, imprevisível e chuvoso.
Manhãgloriosa, ar lavado, nuvens no céu, mas sem grande aspecto de chuva. Dada aproximidade a que estávamos da Ruta delCares (a 7 km) e ainda à nossa expectativa, que era grande, decidimos fazê-laneste dia. Assim, depois do pequeno-almoço, equipámo-nos com umas mochilas comcomida e água e lá fomos. Seguimos de carro em direção a Poncebos. Mais umaestrada estreita de montanha à beira da garganta por onde serpenteia o RioCares. Li algures que é um dos rios mais selvagens dos Picos da Europa. O queme surpreendeu foi a como a noite anterior aumentou o seu caudal de forma visívela olho nu. Imagino isto no inverno e quando a neve derrete. A cerca de 2 km dePoncebos, há dois orientadores de trânsito, colocados junto a um parque deestacionamento enorme, que nos informam que os parques em Poncebos já estãocheios e que será melhor deixarmos já lai o carro. Também nos disseram que àsonze passaria um autocarro que nos levaria até Poncebos. O entusiasmo é umgrande combustível. Não quisemos esperar e fizemos essa distância a pé, mas nãosozinhos. Começo a acreditar que a Rutadel Cares é mesmo bastante concorrida, há imensa gente a preparar-se para omesmo que nós, mas temos que admitir que muito melhor equipados, quer comroupas, quer com equipamentos de apoio. Vou confirmando esta ideia de que ospercursos pedestres são um desporto muito popular por aqui.
Cruzamos o riona ponte de Poncebos, junto à central elétrica, onde é visível o momento em queparte do caudal do rio lhe é devolvido. Passo a explicar. A Ruta del Cares é um caminho cavado namontanha que acompanha o canal construído entre 1919 e 1922, desde a povoaçãoleonesa de Caín até à vila de Pocebos, nas Astúrias, levando a àgua do RioCares por um canal cavado na montanha, ora a descoberto, ora correndo no seuinterior, durante 12 Km. Era este o percurso que nos propúnhamos fazer.
Em Ponceboshavia grandes cartazes a anunciar a oportunidade de comprar o bilhete deautocarro que nos permitiria regressar de Caín. Não quisemos comprar, nem nosquisemos informar, prova da nossa impreparação e de algum espírito aventureiro,que, alguns dias depois, me parece pura irresponsabilidade. Mas temos tidosempre sorte, é o que vale.
Assim demoscom o início do percurso, cuja placa informativa nos dizia que duraria cerca deseis horas, nada de mais. Ali tinham início outros dois percursos, o daReconquista, com uma duração de nove horas e um outro para o Refúgio deCabrones, mais um Pico bem concorrido, este com uma duração de 5h45min. Definitivamenteaqui caminha-se a sério.
Claro que opercurso começa logo a subir por um caminho pedregoso e bastante árido, que aofim da primeira hora de caminho me deixou completamente sem fôlego. O sol damontanha brilha inclemente e lembro-me de um senhor em Cabrales nos ter ditoque estava um bom dia para fazer a rota, espero que aquilo não fosse irónico.
As vistascomeçam desde logo a deslumbrar-nos. São as paredes rochosas que se erguem àesquerda e à direita, íngremes, caprichosas, verdadeiros tratados geológicosque não consigo interpretar completamente, ah, mas queria muito. Torturo o meufilho, que acabou o 11º ano da área de ciências, para me ir explicando algumascoisas, a que ele vai atendendo com alguma impaciência. Aqui vale mesmo a penausar a máquina fotográfica. Vemos por cima de nós algumas cabras selvagens,ouvimos o piar bem característico das águias, ou outras aves de rapina, que abiologia também não é a minha especialidade. El alguns pontos, o ruído das águas,que não chegamos a conseguir ver, sobe até nós, afirmando o poder do rio que hámilhares de anos amolece esta pedra dura.


















Quando se dizque este é um dos percursos mais concorridos é mesmo verdade. Avancei até a hipótesede que as praias das Astúrias são tão calmas, porque a maioria das pessoas estáa fazer este percurso de montanha. Arriscaria até a comparar a Ruta com o paredão da Nazaré em Agosto.Havia jovens casais a carregar bebés em mochilas às costas, com um práticoprotetor para o sol. Havia gente corajosa que faz o percurso a correr. Haviapessoas bem mais velhas do que eu a caminhar animadamente e a ultrapassar-mecom uma velocidade que fez com que nunca mais os visse. Havia pessoas emsentido ascendente e em sentido descendente. Cruzámo-nos com uma famíliacompleta: um casal, dois filhos, que não teriam mais do que cinco anos, e os avós,iam caminhando um pouco mais devagar do que a maioria das pessoas e animando ascrianças com a aproximação de uma gruta, que é quando o percurso avança pelointerior da rocha. Não me lembro de todos os exemplos que me surpreenderam, maseram diversos e diferenciados.
De vez emquando, o canal corria a céu aberto. Trepávamos para ver a água que deslizavarapidamente, a uma boa altura e transparente. Com o calor que estava, ainda bemque no canal se ia repetindo o aviso da proibição de tomar banho por setratarem de águas rápidas, a tentação era muito grande. Em alguns pontos, aparede abria uma brecha mínima de onde jorrava um fio de água para o caminho eera ver-nos a aproveitar para nos molharmos um bocadinho.
Emocionantefoi também o momento em que se assinalou que tínhamos saído das Astúrias e jáestávamos em território leonês.

Fomospontuando a caminhada com paragens, ora para apreciar o espetáculo naturalesmagador que tínhamos perante os olhos, ora para comermos, ora paraaproveitarmos umas breves tréguas de sombra, mas sempre fascinados eencantados, sim, e também cansados.
26
Ago14

Fica o desejo de voltar (II)

livrosparaadiarofimdomundo
Dia 2 - 05-08-2014
           
           
            Atenda está montada, quer isto dizer que estamos instalados. Os outros voltarama deitar-se e continuam a dormir, eu sentei-me cá fora a ler: A viagem dos inocentes, de Mark Twain.Parece apropriado ler um relato de viagem quando se está a viajar. É umaleitura apelativa e, em alguns momentos, verdadeiramente divertida. À minhafrente uma numerosa família ou grupo de viajantes holandeses toma opequeno-almoço. Nunca houve parque de campismo em que me instalasse onde nãohouvesse holandeses. Tenho para mim que são o povo que mais faz campismo. Erainevitável, também o sono se abateu sobre mim. Fui dormir.
            Dormipouco, porque os ruídos do parque me acordaram e consegui convencer o Tó alevantar-se também. Aos miúdos parece que nada os vai arrancar da cama naspróximas horas tão pregados estão.
            Resolvemossair do parque a pé. Não conhecíamos o sítio onde estávamos, fomos andando pelazona pedonal. À nossa frente ergue-se uma colina verdejante onde pastam vacas,mais acima uma parede de rocha, de cor cinzenta, contrasta com o verde daspastagens mais abaixo. O rio ouve-se distintamente. Junto à entrada da primeiracasa que encontramos dois espanhóis falam da maneira como vão ocupar o seu dia,distingo a intenção de irem a Llanes. Também nós lá queremos ir. Logo depois,passamos por uma loja de artigos regionais, com destaque para a sidra e para oqueijo de Cabrales, há também muitos enchidos. A loja dispõe ainda de um merendero onde se servem tapas e pratostípicos asturianos. A zona de refeições fica sob as copas das árvores, as mesassão de plástico, mas tem muito bom aspecto. Cruzámos a ponte sobre o rio, aságuas são absolutamente transparentes e o curso é rápido. À nossa direita outrorestaurante, sidreria, vamos tomando nota. Finalmente, encontramos umsupermercado, que anuncia fruta das Astúrias. Entramos e para nos estrearmoscompramos um pouco de queijo de Cabrales, que pertence ao tipo queijo azul,parece ter mais bolor do que queijo… Procuramos sidra. A sidra era um dos produtosque nos trouxe às Astúrias. Vínhamos com a informação de que é o produto maisconhecido das Astúrias, verdadeiro emblema nacional e símbolo de identidade. Játínhamos estado numa zona de sidra, na Normandia, mas não houve aí tempo paraconhecer o produto e as suas variedades. Junto à secção das bebidasespirituosas encontramo-la. Havia a sidra natural, que não conhecemos, e outrasduas variedades. Optámos pela marca ElGaetero. Parecia a mais próxima da que tínhamos encontrado na Normandia emais semelhante à marca Somersby, deque todos gostamos muito. Conto isto para depois se perceber como era desmedidaa nossa ignorância a respeito da sidra e da forma como deve ser bebida. Nãoestávamos iniciados nesses ritos tão antigos e importantes para degustar asidra asturiana. Mas viajar é aprender…
            Almoçono parque, é sempre piquenique, é sempre agradável. Deixa sempre uma sensaçãode bem-estar. Durante o almoço, definimos como iríamos ocupar o resto do dia.Uma vez que o território das Astúrias tem cerca de 350 km de costa, optámos poruma ida à praia.
            Odestino escolhido foi a praia de Torímbia, em Niembro, no concelho de Llanes,porque tínhamos lido que era uma praia idílica, porque estava relativamenteperto. Saímos de carro em direção ao centro da vila, muito típica, com casascuja altura não excedia os três andares, com uma boa oferta hoteleira e umaexcelente oferta de cafeterias, restaurantes e bares. Os espanhóis têm mais oculto da vida social e de exterior do que os portugueses.
Atenta àsindicações, verifiquei a existência e uma placa que indicava a direção daconhecida Ruta del Cares a 7 km. Tomei nota. Havia ainda a indicação domiradouro Naranjo de Bulnes, ou Pico Urriellu, o tal que é muito conhecido.Tomei nota.
A estradasegue até Poo de Cabrales e depois começa a subir vertiginosamente contornandoos picos que envolvem o vale onde nos encontramos. As vistas voltam a sersurpreendentes e suspendemos a respiração, sem deixar de ter a boca aberta.Concluímos em conjunto que o lugar é mesmo bonito. Há zonas da estrada que sãoescavadas na rocha que fica suspensa sobre nós. Algumas vertentes têm formascaprichosas, noutras a erosão tem trabalhado tanto sobre a rocha, que asvertentes têm, na verdade, um aspecto instável. A informação do perigo dederrocada é quase contínua. Há passos em que aceleramos quaseinconscientemente, porque não nos apetece estar por ali. As formaçõesgeológicas, a uma escala diferente, fazem-nos lembrar as serras de Aire eCandeeiros. Terei que investigar para confirmar esta hipótese. Por outro lado,há zonas que fazem lembrar os Alpes. Um dos países que gostaria de conhecerpela sua beleza natural é a Irlanda, a verdade é que a paisagem asturiana mefaz lembrar as imagens que tenho visto da Irlanda, estas montanhas tão verdes,a proximidade cultural, as raízes celtas, até os trajes tradicionais e o uso dagaita de foles me transportam para lá.

Chegados aNiembro, estacionamos junto à estrada, porque as ruas da povoação parecemestreitas demais para comportar trânsito. Seguimos a pé as indicações de praia.O caminho, mesmo dentro da povoação é bastante íngreme. Passam alguns carrospor nós e começamos a sentir que possivelmente deixámos o carro longe de mais. Atravessamostoda a povoação e estamos agora numa zona de colinas suaves e somossurpreendidos pela vista do mar à nossa direita. Estranhamente calmo, parece umvasto espelho de água, mais lago do que mar. Ao fundo avistamos a praia deToranda e comentamos que a água deve ser muito fria por haver tão pouca gentena água, quando achamos que está tanto calor. Serpenteiam à nossa frente várioscaminhos que atravessam estas colinas. Os campos têm um tom amarelado devido aorestolho, foram ceifados recentemente, os fardos de silagem ainda estão naterra. Subimos, subimos, subimos. Há carros estacionados dos dois lados da estrada,a decisão de ter  deixado o carro longe jáparece mais acertada.
Quem sobe temque descer e, assim que o começamos a fazer avistamos a praia de Torímbia. Éuma praia em forma de concha, muito semelhante à forma da praia de S. Martinho,mas muito mais pequena. Está rodeada por esta colina que a aconchega e protegee ladeada por formações rochosas, a areia é muito branca. Do lugar onde nosencontramos, conseguimos perceber a transparência das águas, porque se vê ofundo de areia e as rochas. A caminhada é penosa, está muito calor, mas nadanos faria desistir agora.
Em Roma, sêromano, à nossa frente um casal atalha pelo meio da colina, apesar de ser umadescida íngreme, fazemos o mesmo. A descida termina junto a um restaurante quefica escondido num canto da praia, cuja esplanada está cheia de gente ruidosa ecom ar bem disposto. Descemos um pouco mais e eis-nos chegados à praia.
Fomosimediatamente para a água, que estava ótima, contrariamente às nossas suposições.É macia, transparente e a ondulação é suave. Sem exageros, foi dos melhoresbanhos de mar da minha vida, talvez tenha sido da antecipação. Passamos o restoda tarde ali, creio que pelo meio houve mais umas sestas. Depois regressamos aoparque e o dia terminou sem história, mas com glória.

É precisoainda fazer um parêntesis: a praia de Torímbia, talvez pela sua localização edifícil acesso é uma praia de naturistas, não só , mas também, pormenor queincomodou um pouco os membros mais jovens da expedição…
19
Ago14

Fica a vontade de voltar...

livrosparaadiarofimdomundo
Dia um – 04-08-2014

A impaciência é já muita. Oficialmente de férias desde as 13:30, a decisão de partirimpõe-se. Refrear a ansiedade foi fácil graças a um almoço, bastante agradável,com colegas de trabalho. Ainda um último café. Por fim, a chegada a casa, ondetudo anunciava a partida iminente: mochilas junto à porta, caixas comequipamento de campismo, algumas persianas já fechadas. Decidimos, por isso, irainda naquele dia, a ninguém parecia possível dormir em casa.
Afinal osúltimos preparativos arrastaram-se mais do que queríamos. Houve ainda doiscortes de cabelo. O carro voltou a parecer muito mais pequeno do que a bagagema transportar. Somos quatro, duas mulheres, vamos acampar e fazemo-lo com maisconforto do que despojamento. Há quem não abdique de dormir bem, há queminsista no secador de cabelo, há quem acredite que vai ser possível ler trêslivros em dez dias, há quem não dispense suporte tecnológico. Mas fomos bemsucedidos e a bagagem está arrumada. Tetris para adultos. A casa fechada, os cãestratados e entregues a um cuidador. O motor arranca, por fim cruzámos o portãopara mais uns dias de aventura a quatro.
A primeiraparte da viagem decorreu sem história. Desfilam perante os meus olhos aspaisagens já familiares do caminho para Santarém, via A15. O meu país ébastante bonito e este ano, de verão tímido, como se vai ouvindo dizer, temmantido a paisagem bastante verde e, em alguns pontos, quase exuberante. Não hávestígios nem cicatrizes de incêndios florestais. O vale de Santarém é fértil.Abundam olivais, terrenos de cultivo estendem-se até ao limite do horizonte emmosaicos que diferentes tonalidades cromáticas ajudam a demarcar. Renques deárvores traçam retas que se intersetam. É bonito e não me canso de olhar. É umdos prazeres que colho na vida: ir ao lado de um condutor, sem assumir sequer opapel de co-piloto, GPS gratias, e irolhando a paisagem que desfila pelos vidros do carro. Há sempre algum pormenorque é novo, mais não seja pela altura do ano em que se viaja. Qualquer viagemcorresponde a uma primeira vez, se a encararmos nesta perspetiva.
O dia começa acair, o céu vai tomando as cores de um fim de tarde de verão, aquela tonalidadeque fica entre um azul esbatido e um rosa também claro, quase um lilás suave, edigo em voz alta que já se nota que os dias vão ficando mais pequenos, osolstício de verão já foi há mais de quarenta dias, número bíblico, noto. Já“apanhamos” a A23, que sobe em direção a Vilar Formoso. Na zona de Abrantes,quando as placas indicam as saídas para Mouriscas, a estrada corre ao lado doTejo. Numa curva, o leito do rio surge com um traçado bem definido, numa corazul que parece artificial, um azul profundo e ao mesmo tempo quase elétrico. Ébem um postal a guardar. Passo mais uma vez pelas indicações de Belver e, pelaenésima vez, digo para mim mesma que tenho de lá ir e ainda não fui… Hei derepetir o mesmo quando for a indicação de Portas do Ródão. 2014 já dobrou doisterços e tantas promessas por cumprir e tantos sítios para conhecer para tãocurta a vida.
Discutimos oque fazer quanto ao jantar daquele dia. Fica decidido que paramos em CasteloBranco, fazemos uma pausa antes de entrar em Espanha e decidirmos o tamanho daspróximas etapas. Assim é, saída para Castelo Branco. A cidade recebe-nos com umparque urbano vasto, mas pouco arborizado. No cimo da colina revejo o perfil doHotel Colina do Castelo, onde, há muitos anos, cometemos a loucura de ficarnuma suite presidencial. Percebemos nessa altura o que quer dizer king size aplicado a uma cama de dormir.A suite é um pequeno apartamento. Tirámos medidas a olho e chegámos à conclusãode que seria maior do que o apartamento onde vivíamos na altura. Outros tempos,antes da crise e do medo do futuro. Voltemos à cidade e ao seu parque. CasteloBranco deve ser uma cidade segura, porque àquela hora – por volta das nove danoite – há bastante gente a fazer caminhadas, há crianças a brincar, há avós aacompanhar netos, e outros quadros de um fim de dia de verão. As ruas por ondecirculámos são largas e os prédios modernos, sem serem horríveis. A cidadeparece agradável. Virámos numa avenida à direita, um lugar livre, ficamos jáaqui. Um Pingo Doce à nossa frente,será que há refeições no Sítio do costume?Entrei sem hesitações, a viver o meu pesadelo das viagens, uma bexiga quereclama constantemente atenção e vou percebendo que devo ser mãe de dois filhoscom características dos camelos: nunca pedem para ir à casa de banho, sousempre eu a dar o sinal de aflição. Quando saí, estavam os três à porta à minhaespera, iam fechar, já estavam a descer a grade. Decidimos descer a pé aavenida, à espera de encontrar um sítio para jantar. Do lado direito um toldoda Delta Cafés. Serviam refeições.Era um espaço pequeno, sem grandes ambições, o dono era o único funcionário efazia tudo: atendia à mesa e preparava os pratos. Não primava pela simpatia.Uma sopa, um bitoque e duas alheiras depois púnhamo-nos a caminho, tomei cafépara aguentara viagem durante a noite, que já tinha caído completamente.Fazemo-nos de novo à estrada.
Até VilarFormoso o que fica na memória são quilómetros de autoestrada sem história,desceu uma espécie de silêncio e quase não há trânsito. Chegados à fronteira,paragem para mais um café. A partir daqui foi preciso negociar para a escolhada música, visto que deixámos de ter a rádio portuguesa. Os telemóveis fizeramautomaticamente a mudança da hora, é uma da manhã. Ligámos o GPS, introduzimoso nosso destino. Arenas de Cabrales, nos limites dos Picos da Europa, Astúrias.O GPS indica que o melhor caminho a seguir é um direção a Santander, indicandoa hora de chegada para as seis da manhã. Já só faltam cinco e é sempre autovia,sem portagens. A estrada rola, sem trânsito. A Francisca adormeceu lá atrás,nós os três mantemo-nos acordados. Vamos estando atentos às áreas de serviçoabertas vinte e quatro horas, parece que o gasóleo não vai dar para a viagemtoda. Começo a ficar preocupada com o sono dos outros e consigo convencê-los apararmos para dormirmos um bocado no carro até ao amanhecer. Claro que a únicaque não consegue pregar os olhos sou eu, aflita outra vez para ir à casa debanho. O funcionário da área de serviço informa simpaticamente que servicios só às seis. Não posso mais.Peço para ir a conduzir e reinicio a viagem.
Pouco depoiscomeço a aperceber-me de subtis mudanças na cor do céu, há um tom de cinza maisclaro e apercebo-me que nos vamos aproximando de uma zona montanhosa, porque seavistam alguns picos contra o céu que ainda mal clareia. Atravessamos acordilheira cantábrica ora dentro de um nevoeiro espesso e negro que nosdevolve à noite, ora acima desse nevoeiro, avistando acima dele só os cumes dospicos mais altos. É uma imagem que me maravilha, parece uma paisagemfantasmagórica, mágica, irreal, àquela luz da madrugada. Quando saímos donevoeiro, apercebemo-nos que o dia avança depressa e a luz é cada vez maior.Deparo-me com uma placa que informa da proximidade de Altamira e recordo ointeresse que tenho em conhecer, acrescentei mentalmente à minha lista. Talvezdê para visitar. Viajar sem planos muito definidos tem essa vantagem, mudar derumo se nos apetecer.
A paisagem jáse distingue nitidamente. Rumamos em direção a Oeste, à nossa esquerdaerguem-se colinas e montes bem verdes. Ainda estamos na Cantábria, avistamos osprimeiros gados nos campos, já entrevimos o mar à nossa direita. Não há sono,nem cansaço, há curiosidade e pressa de chegar. Temos fome e paramos para tomaro pequeno-almoço. Lá atrás os miúdos respondem-nos, mais adormecidos queacordados, que não querem nada. Saímos e eles ficam a dormir no carro, tapadoscom o saco-cama. Duas tostadas e umaum café com leche. Confirma-se: ocafé é horrível, tomei nota para não voltar a tomar café com leite. Já as duastorradas davam e sobravam para um pequeno almoço a quatro, a empregadaperguntou-nos com que queríamos o pão, só soubemos dizer mantequilla, ignorávamos quais as outras opções, se não fossetímida, tinha perguntado. Só por curiosidade, cada tostada, foi servida com três pacotes de manteiga.
Pusemo-nos denovo a caminho e, em breve, cruzámos a placa que nos informava que nosencontrávamos no Principado das Astúrias. Era ainda cedo para irmos para oparque de campismo, ainda nem eram oito horas. Saímos da autovia e seguimos asindicações de praia. Seria bom ver o mar àquela hora do dia, com aquele arlavado e pronto a usar que os dias têm ao amanhecer. A estrada segue ao lado daRia de Tina Mayor, em Unquera. A Ria estabelece uma fronteira natural entre acomunidade autónoma da Cantábria e o Principado das Astúrias e é aí que desaguao rio Deva, um dos muitos rios que descem dos Picos da Europa. Seguimos por umaestrada que atravessa uma zona muito arborizada, por cima da Ria que uma marébaixa, baixíssima, deixou reduzida a algumas poças de água, há barcos de recreioancorados na areia. De ambos os lados erguem-se encostas abruptas de rocha evegetação, há verde por todo o lado, um verde muito escuro, uma vegetaçãoexuberante, sinal de que a zona é húmida e chuvosa. Avançámos ainda por umaestrada de sentido único que indicava a zona de praia e um parque deestacionamento. Estacionámos num parque minúsculo empedrado e saímos para umaespécie de miradouro com varandim de madeira no cimo de uma falésia que davapara a praia. Tentámos não fazer barulho, porque havia três carros estacionadoscom todo o aspecto de pertencerem a quem faz campismo selvagem. Num deles, comum aspecto tão usado que eu duvidaria de fazer qualquer viagem com ele, dormiaum jovem alemão, com os olhos tapados por uma máscara para que a luz do dia nãoo incomodasse. Os outros dois eram duas velhas pão-de-forma, cuja nacionalidadenão pudemos identificar.
Abeirámo-nosdo varandim e lá em baixo um mar de um verde quase escuro, desculpem o cliché,com águas da cor da esmeralda, calmíssimo, embatia suavemente na parederochosa. As águas eram muito transparentes e distinguiam-se perfeitamente asrochas do fundo e a areia. Ali as formações rochosas fazem uma espécie de baíae, do nosso lado direito, talvez por ser maré baixa, o mar deixa a descobertouma estreita faixa de areia que forma uma praia estranha, porque fica entreduas zonas distintas de ondulação. Àquela hora da manhã, tudo tinha um arparadisíaco e aquela imagem ficou gravada na memória, talvez por ser a primeiraimpressão.
Os miúdoscontinuam a dormir. Voltamos a entrar no carro para rumarmos em direção aArenas de Cabrales, procurando o parque que escolhemos: Naranjo de Bulnes, jános Picos da Europa, cujos cumes já se avistam daqui. São quase nove horas, areceção já deve estar aberta. Seguimos a estrade de sentido único que nos fezregressar à autovia, voltámos a sair na mesma saída, mas desta vez seguindo asindicações de Arenas de Cabrales. A estrada que tomámos segue ao lado do RioDeva, que vai descendo com um caudal e uma rapidez próprias de um rio demontanha. Depois de alguns quilómetros, começamos a penetrar no desfiladeirocavado pelo Rio Cares, que é um afluente do Deva. O rio fica à nossa esquerda,mas esqueço-me dele num instante. Só tenho olhos para cima: para as paredes derocha abrupta que envolvem a estrada. Escarpas quase a direito. Como uma imagemvale mais que mil palavras:


Esmagados pelapaisagem, chegámos num instante ao parque. O parque Naranjo de Bulnes – já agoraeste nome é o de um dos picos mais famosos pela dificuldade em ser escalado eque tem um pouco mais de 2500 metros de altitude, mas hei de voltar a falardele – fica mesmo à entrada de Arenas de Cabrales e divide-se pelos dois ladosda estrada. Do lado direito, a zona do parque estende-se à beira do rio Cares. Dirijimo-nosà receção e senhor disse-nos para darmos uma volta pelo parque a pé,escolhermos o sítio que mais nos convinha e que depois voltássemos paraindicarmos o número. Depois disso, poderíamos entrar com o carro einstalarmo-nos à nossa vontade.
Assim fizemos.O parque é muito, muito verde, fica mesmo no sopé de um dos picos. Estavacomposto em termos de ocupação, mas ainda havia muitos lugares disponíveis. Acabámospor escolher um quase à entrada, junto à zona de balneários e dos lava-louças. Talveztenha sido uma escolha arriscada. O resto da semana o dirá. Segue-se a montagemda tenda e posterior instalação. Os miúdos vão mesmo ter que acordar…






               

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