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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

31
Dez19

Livros a Ler

livrosparaadiarofimdomundo

O mês de dezembro ficou marcado pelo meu regresso às livrarias. Uma vez que sou uma desregrada na feira do livro, tenho observado mais ou menos o propósito de não voltar a comprar livros enquanto não tiver lido as aquisições da feira do livro. Nunca as consegui ler todas, mas em 2018, lembro-me que fui bastante contida. Ora, neste final de 2019, tenho deliberadamente - é verdade, confesso - ido a livrarias e, claro, pareço um alcoólico que entrou num bar de caipirinhas: foi a queda total. Mas um leitor também tem de se manter atualizado , não é?

Assim, pus na lista:

Wook.pt - Augustus

é do autor de Stonerrecentemente redescoberto e tornado leitura quase de culto (prometo falar dele).

A Fábula de um Barril

ainda no rescaldo da viagem à Irlanda. Afinal estive perante o túmulo deste grande homem que era de uma ironia e bravura incomparáveis.

Wook.pt - Órfãos de Brooklyn

da série Livros que deram um filme, ainda por cima realizado por Edward Norton. Vou começar pelo livro... quando não estiver a por em causa o sutento da minha família. 

Warm up para 2020...

30
Dez19

Os livros e a (minha) vida II

livrosparaadiarofimdomundo

Dou hoje continuação a este post, de novo levada por esta ideia de que, a determinada memória, ficou para sempre ligado o livro que  me acompanhava na altura. Já "entrei" na faculdade e houve uma espécie de epifania, primeiro que as leituras podiam ser orientadas, obedecendo a critérios e a objetivos, mais não fosse para fazer cadeiras com sucesso; segundo a descoberta de que os leitores funcionavam também como comunidade, uma rede social, antes das redes sociais.

1. A cadeira de Introdução aos estudos literários foi uma surpresa. Uma vez que ia tirar uma licenciatura em Línguas e Humanidades - Variante Estudos Portugueses, imaginei quatro anos da minha vida a ler e a conhecer a literatura portuguesa. Assim, a primeira leitura que tive de fazer foi nada mais nada menos que O Nome da Rosa, de Umberto Eco, e logo depois o opúsculo Porquê o Nome da Rosa A Biblioteca, também de Eco. Mas foi também a fase de Jorge de Sena, o dos contos. O Físico Prodigioso é parente muito chegado de A Fada Oriana. Para sempre ficou o fascínio pela Idade Média, anos mais tarde revisitado por outro livro que ficou para sempre, Os Pilares da Terra, de Ken Follett. Mas também a crueza e a dureza dos contos de Os Grãos-capitães ou de Antigas e Novas andanças do Demónio. Li completamente fascinada e siderada "Super Flumina Babylonis", cujo título remete logo para a canção de Camões "Sobolos Rios de Babilónia" e que ficciona os últimos dias da vida de Camões, pobre, doente, amargurado, como sabemos que terminou os seus dias. Mas o conto é uma homenagem sentida, apaixonada ao nosso poeta maior. Quanto mais conhecermos a sua obra melhor leremos o conto. Mas também pode ser o inverso, a leitura do conto pode muito bm funcionar como pretexto para (re)conhecer a canção e outros poemas de Camões. Recomendo muito a leitura de Jorge de Sena. Apetece-me largar o que estou a fazer e ir ali matar saudades desta prosa virtuosa.

2. O segundo ano aprofundou o meu fascínio pela Idade Média e, desta vez, através dos textos medievais. O encanto com que estudei a lírica peninsular. A delicadeza das cantigas de amigo, muito, muito mais do que as cantigas de amor, A Dama Pé de Cabra, Melusina, só a musicalidade deste nome, do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro. Depois a descoberta de A Demanda do Santo Graal, numa edição da INCM, lida integralmente em Português medieval. Que aventura maravilhosa. Aqueles heróis que deram origem ao desejo de ler tudo o que houvesse para ler sobre as lendas do Rei Artur: Galaaz, Lancelot, Artur, Merlim, a rainha Genebra e não a hollyoodesca Guinevere, claro muito mais apagada pela moral cristão. Daqui fui para os quatro volumes de As Brumas de Avalon, de Colleen Mccullough. Rendi-me totalmente a estes quatro livros, já os li três vezes na minha vida e nunca me cansei. Ainda não me libertei do choque de que Artur e Morgaine fossem irmãos, eles amavam-se tanto. Depois a recriação dos mitos e rituais druídicos, a Deusa, o poder feminino, o apego à terra e à natureza, Avalon, a barca, o crescimento do cristianismo, Artur dividido entre dois mundo e duas religiões, os mistérios... (suspiro nostálgico).

3. O terceiro ano foi o ano da descoberta da literatura lusófona, em especial a africana. Fiquei de Cabo Verde, por causa de A Vida e Morte de João Cabafume, Chuva Braba, de Manuel Lopes, que me ajudou a perceber o conceito de êxodo e porque é que a emigração é tão elevada em Cabo Verde. Continuo a querer tanto ir lá. Mais tarde, foi ainda a descoberta de Germano de Almeida e do seu livro Dois Irmãosque equaciona exemplarmente o choque entre a modernidade e os valores tradiconais na sociedade, sendo que a pressão da tradição é por vezes de um peso desmedido e nos devolve à história bíblica e primordial de Caim e Abel. No início, fui muito mais de África do que do Brasil, as vozes africanas, entre elas o soberbo Terra Sonâmbula, do hoje muito aclamado Mia Couto, ainda num período de menos fama e demais autenticiade (Nota à margem, desde O Pranto da leoa - de que não gostei - não voltei a Mia Couto) cativaram-me muito mais. Daí que alguns anos mais tarde me tenha candidatado a um mestrado, pensando que seria em Africanas e que acabou por ser em Literatura Brasileira. Os anos de faculdade foram ainda da descoberta desse evento anual que passei a viver assiduamente: A Feira do Livro!

4. Não sei se foi no 4º ano, mas nesse tempo as leituras não eram só as impostos pela faculdade. Li tudo o que havia para ler de Gabriel García Marquez, tudo desde Cem anos de Solidão e percebi que havia algo de mágico naquela escrita antes de conhecer o termo realismo mágico. Crónica de uma morte anunciada, O Outono do Patriarca, Olhos de cão azul, A revoada, Amor nos tempos de cólera, O general no seu labirinto e, nos anos que se seguiram, todos os títulos que iam saindo. Eu amo García Márquez, eu venero-o, sobretudo depois de conhecer uma pequena história: parece que, no momento de enviar o manuscrito de Cem anos de Solidão para a editora, o escritor gastou tudo o que tinha, além de o ter de fazer por duas vezes. Quando finalmente conseguiram fazer o envio, a sua mulher ter-lhe-á perguntado "E agora, Gabo, se o livro não presta?". Prestava sim, ainda hoje presta, e levou-o pelo menos ao Prémio Nobel. Há investimentos que valem a pena!  Também desta altura é o extraordinário A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, tinha de ser, tinha de estar no currículo, também gosto tanto deste livro e o conhecimento de que a leveza pode ser insustentável foi uma das revelações mais importantes para a minha formação, visto que a ela regressei e regresso em tantas fases da minha vida.

5. Nestes anos, havia dois colegas da residência universitária onde vivia que dominavam muito bem a arte de "conseguir livros gratuitamente" na feira do livro e que me conseguiram alguns dessa forma, que eu guardo com carinho e nostalgia. Partilhávamos leituras e à conta deles descobri Dostóievski e Henry Miller.

 6. Quem me mandou a mim começar esta tarefa interminável? Mas agora não posso desistir. Tenho de concluir o mural... portanto, CONTINUA.

26
Dez19

Os livros e a (minha) vida

livrosparaadiarofimdomundo

Gosto de tarefas que me libertem o pensamento: conduzir, engomar, cozinhar, esperar num sítio com pessoas, o duche. Foi assim que nos últimos dias me foi surgindo a ideia para este post. Há memórias da minha vida que ficaram para sempre ligadas aos livros que eu estava a ler nesse momento.

1. A escola primária. Foi quando descobri os livros, ou melhor o livro: A fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner. Havia um armário com portas envidraçadas ao fundo da sala de aulas. A professora guardava aí a máuina de stencil, os químicos, as cartolinas, algum material diverso e livros, poucos como é de ver. Entre eles, a fada mais mágica de toda a minha vida. Lembro-me tão bem da descrição da casa do lenhador, da melancolia do poeta, do carinho que Oriana tinha pela velha. Oriana é um narciso regatado.

2. Um presente de aniversário que mudou  a minha relação com o mundo. Uma tia da minha mãe, que morava em Lisboa, ofereceu-me o primeiro livro que seria mesmo meu: O  mistério da Gata desaparecida, de Enid Blyton. A partir daí a ida à missa de sábado passou a ser o dia em que eu comrava um livro, se fosse obediente... Li tudo o que a senhora escreveu e as palavras, chá, pudim, leite creme, scones, leite fresco e manteiga para mim têm sempre associadas reminiscências dessas leituras em que a hora do lanche era profusamente descrita. Até o pão, que eu não apreciava em criança parecia muito apetitoso.

3. As primas que me emprestaram alguns grandes livros, que elas iam comprando e lendo. Eram cinco irmãs que descobriram a leitura à revelia de um pai à antiga que não as deixou ir à escola, porque filhos, filhas em especial, eram para trabalhar e para entregar o salário ao pai. À conta das descobertas delas li 1984, de George Orwell, e Quo Vadis, de Henryk Sienkiewicz. Mais tarde, vi o filme e descobri que havia filmes baseados em livros.

4. A biblioteca da escola. Requisitei Rebeca, de Daphne du Maurier. Aprendi o que era o suspense e os mistérios que se adensam. Depois houve uma telenovela brasileira. Não me recordo do nome, mas a história era a mesma, ou muito idêntica. Descobri a coleção Dois Mundos, dos Livros do Brasil. Achava - erradamente - que os portugueses não sabiam escrever livros. Era comum achar que os portugueses não faziam nada d ejeito naquela altura.

5. As leituras do 11º Ano. Não gostei das Viagens, de Garrett, mas delirei com Eurico, o presbítero. Percebi a meio da leitura que o Carlos e a Maria Eduarda, em Os Maias, eram irmãos. Na altura, não percebi a grandeza de Eça, nem a força deste romance, mas a vida corrigiu essa lacuna.

6. As férias na Nazaré e a livraria do "centro comercial" na cave. Havia uma banca comprida ao fundo que acompanhava todo o comprimento da loja. Expostos e ao alcance da mão, os volumes todos da coleção Dois Mundos, comecei a selecionar a leitura pela lista dos livros publicados que era a contracapa de todos os livros. Descobri Pearl S. Buck e o oriente pelos olhos dela. Nunca mais me esqueci da descrição que ela faz das mulheres orientais: as japonesas são feias, as chinesas são bonitas, as coreanas são lindas. Li de rajada tudo o que ela tinha escrito. Recordo com mais precisão Mandala (ìndia), A Serpente Vermelha, Flor oculta (foi o primeiro) e tantos outros.

7. A feira do livro organizada pela escola. Foram os alunos que desempacotaram os livros, que os marcaram e que os venderam. Fiquei com a banca das Edições 70, pelas quais passei a guardar um carinho especial e quis muito ter O mistério das catedrais. Nunca o tive. Mas comprei dois volumes de Mafalda, do Quino. Anos mais tarde, compraria A Mafalda Toda, que releio sempre que posso. A partir da í, as feiras lo livro na escola parecem-me sempre insípidas e demasiado "pronto a vestir".

8. As leituras do 12º Ano: Ilíada, Odisseia,  de Homero, falhei Vergílio. Porque quis, ninguém me mandou, ninguém me obrigou. Apeteceu-me e o fascínio pelos romances históricos nunca mais me abandonou. Vampririzo as pesquisas dos outros para aprender. Depois faço outras pesquisas por minha conta para completar espaços em branco, mas o livro é sempre o ponto de partida. Depois descobri, 10 anos antes do Nobel, José Saramago, quando li a propósito do estudo de Fernando Pessoa, O Ano da Morte de Ricardo Reisatravés do qual descobri outro fascínio: o da citação e o da intertextualidade, aquela piscadela de olho que o escritor nos faz, interpelando-nos: será que sabes? CONTINUA NO PRÓXIMO POST...  que já vai longa a lista.

 

26
Dez19

E foi Natal...

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As festas, quer dizer ainda só foi uma, mas ainda assim, as festas, dizia eu, são muito, muito absorventes e absorveram-me completamente nestes últimos dias.

Foi Natal. Pela segunda vez em muitos anos ofereceram-me livros. Talvez tenha forçado aqui um bocadinho a expressão. Na troca de presentes, houve livros. O primeiro ofereci-o a mim mesma. Foi difícil. Queria-o há muito tempo, comprei-o no dia 1 de dezembro, pedi para embrulhar e aguentei até ao dia 24 sem o abrir. Também me obriguei a isso, porque ando a ler pelo menos três livros ao mesmo tempo e não podia começar mais um. E o livro foi:

Wook.pt - Os Peixes Não Têm Pés

Stefánsson é um dos escritores de que mais gosto. Fica prometido um post sobre a trilogia que está publicada em Portugal. Tinha muita curiosidade sobre esta obra e agora já é minha.

Depois houve outro livro. Li uma recensão na revista Sábado sobre a publicação pela primeira vez em Portugal de um livro de Ralf Rothmann e, para não variar, também me pareceu interessante, em especial porque a obra é inspirada num episódio familiar relacionado com o avô do autor. A ação localiza-se nos finais da 2ª Guerra Mundial, quando se prenuncia a derrota do exército alemão, apesar disso, dois jovens são recrutados para as suas fileiras. Lida a recensão, não é que nesse sábado à noite passei por uma livraria e procurei o livro. Enquanto o folheava, o meu marido disse que era um livro que ele podia ler. Bastou isso. Pedi logo para o embrulharem e houve mais um livro debaixo da árvore. Ambos sabemos quem o vai ler. Fica prometido o post. E o livro é:

Wook.pt - Morrer na primavera

 

Por fim, houve mesmo um livro oferecido. Dizem as más línguas que é difícil oferecer-me livros. É assim que chegamos aqui. Pouca gente me oferece aquilo que eu mais gosto de receber, embora o diga em voz alta em todos os sorteios do amigo secreto. Não percebo. Mas este ano alguém resolveu arriscar. OBRIGADA! Porém, não resistiram a pedir o talão de troca. E o livro é:

Wook.pt - O Apelo da Tribo

LLosa é um escritor que acompanho há anos e de que gosto muito. Não de tudo nem da mesma maneira. Mas a verdade é que ele tem excelentes livros, posso citar O sonho do Celta, Pantaleão e as visitadoras, A tia júlia e o escrevedor, Conversa na catedral (MARAVILHOSO), Travessuras da menina má... Assim, este presente promete. Não se trata de um romance, mas sim de um conjunto ensaios.

Nesta história como na dos reis magos, que eram três, mas afinal eram quatro - não, não estou a falar da canção do Vasco Palmeirim, estou a referir-me a um livro, daqueles que se amam, mas que se perderam na vida, que é Gaspar, Belchior e Baltsar, de Michel Tournier - outro escritor que adoro. Estava eu a dizer que ainda há outro. Entretanto, com as comprinhas que fiz, havia 8 euros no meu cartão de cliente da Bertrand e havia o apelo de um outro livro, que não foi embrulhado, veio nu aqui para casa, sem embrulhos, sem saco sequer. E o livro é:

Bertrand.pt - Milkman

Este despertou-me a curiosidade, porque, desde que fui à Irlanda, país que amei assim que o avistei do avião e depois mais ainda, tenho procurado lá voltar através dos livros. A ação do livro remete para a violência que faz parte de muita da história da Irlanda. 

É este o balanço do mês de Dezembro. Só vos posso dizer que a minha lista dos livros por ler aumentou consideravelmente. Se alguém já leu algum destes, agradeço os vossos comentários. Entretanto darei notícias.

16
Dez19

Grande Sertão Veredas, João Guimarães Rosa, a obra maior de um gigante da literatura

livrosparaadiarofimdomundo

Grande Sertão: Veredas

 

(Re)surgiu nos escaparates das livrarias o romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa e não resisti a fazer um post sobre esta magnífica obra da língua portuguesa, que merece ser revisitada por quem a conhece e ser conhecida por quem nunca a visitou. É o livro maior de João Guimarães Rosa, esse gigante da literatura brasileira, que é um bocadinho o Tolkien da lusofonia, não tanto por enveredar pelo fantástico, mas mais pela originalidade da escrita e pela criatividade inesgotável. O romance é denso, é rico, é enigmático, é extenso, é desafiante... por esse motivo vou dividir este post em fragmentos para não me perder e não vos levar a aborrecerem-se com um texto demasiado longo. Afinal, na era das redes sociais, há que cultivar o imediato se queremos merecer a atenção.

1. É verdade, não vos vou mentir, não é um livro para qualquer um! Se a sua resolução de Ano Novo for começar a ler, guarde este conteúdo para 2021. Tem de ir aos treinos primeiro, precisa mesmo, diria eu de fazer uma recruta, um programa, de contratar um personal trainer da leitura, nos tempos modernos, aposto que existe, se não existir, ofereço os meus préstimos. Grande Sertão: Veredas é extenso e as primeiras cem páginas estão lá como casting, como prova de seleção, se as superar vai ler o livro, se lhe parecer difícil, não desista e persista. Eu tentei três vezes, só à terceira é que a leitura arrancou, mas que leitura! 

2. Não tenho um livro da minha vida, nem vários, tenho uma estante. Grande Sertão: Veredas ocupa o centro da prateleira do meio. É uma leitura que consigo rememorar quase sensivelmente, leia-se pelos sentidos. Ainda me ardem a garganta e os olhos por causa da seca do sertão. Ainda não chorei totalmente por causa da história de amor que o atravessa. Ainda não superei a memória de Fausto que pontua as páginas. Ainda não encontrei nem na literatura nem na vida personagem tão enigmática e profunda e sedutora como Diadorim, que o protagonista venera, com um incómodo como o de Alberto Caeiro, como quem tem um pé dormente. Ainda não fiz o luto por aquelas personagens errantes do cangaço. A obra tem merecido bibliotecas de estudos que a procuram decifrar, interpretar, explicar. É a mãe de todas as obras, é o anel dos críticos literários, é o Graal de todos os leitores, para o possuir é preciso sofrer provações, mas o final é redentor.

3. Grande sertão: Veredas  conduz-nos como numa demanda, o leitor veste a armadura do cavaleiro e erra pelo sertão brasileiro, mergulhando nas suas questões sociais, políticas, económicas, de mentalidade. Percebemos a razão de ser dos chefes capangas, dos bandos, do banditismo, tudo se explica pelo cadinho que é o Brasil e em especial o sertão. Mas estão lá, plasmadas na secura da vastdão do sertão, grandes questões da condição humana: a vida e a morte, a culpa e o pecado, o amor e o ódio, a paz e a guerra, a beleza e o sublime. Os cangaceiros de Guimarães Rosa são grandes como qualquer cavaleiro andante, são trágicos como Quixote, são homens como nós, estão divididos, encontram-se só para se voltarem a perder, questionam a razão de ser do destino como qualquer filósofo grego, são platónicos e aristotélicos a um só tempo, são, acima de tudo, um produto cultural que é a soma da realidade brasileira com a cultura inesgotável deste autor. Vale a pena ler este livro. É uma experiência que nos recria e que recria a nossa relação com a cultura. Se ao chegarmos a este livro tivermos a alma pequena, depois de o lermos, será impossível que ela volta à dimensão original.

4. No fim de tudo é o amor, a tragédia do amor que esteve sempre próximos e estavamos cegos e não o vimos e era tão óbvio.

5. Último conselho: à exceção deste post, que mais não é do que um incentivo, uma provocação - quem serei eu para dizer que este livro não é para si, caro leitor? - não leia mais nada sobre Grande Sertão: Veredas, comece a leitura como se fosse cego e aprendesse a ver, acompanhe a narrativa de Riobaldo com a suas hesitações e derivas, comece a perceber pouca a pouco sobre o que é o livro, decifre o enigma, e, no final surprenda-se, porque estava enganado. Fico à espera que venha aqui, ou descompor-me, porque um livro destes não se recomenda, ou agradecer-me, porque se eu não falasse nele, podia nunca o descobrir. Vista a armadura e percorra o sertão, veredas não lhe hão de faltar!

 

 

11
Dez19

O Nome da Rosa, Umberto Eco

livrosparaadiarofimdomundo

Resultado de imagem para o nome da rosa livro

Li o Nome da Rosa, de Umberto Eco, quando entrei para a faculdade (parece-me que talvez fosse boa ideia relê-lo). Desde muito jovem, sempre mantive um fascínio pela Idade Média que, explica por exemplo, o verdadeiro culto que tenho pelo romance Os Pilares da Terra, de Ken Follet. O Nome da Rosa leva-nos a esse tempo misterioso, a uma cosmovisão que nos é, primeiro estranha, mas que descobrimos atual e, nos tempos que correm, em que nuvens ameaçadores de um certo obscurantismo nos assombram o céu, acaba por funcionar como uma sacudidela para certos perigos que nos vão sendo apresentados como panaceias.

A ação decorre numa abadia medieval em que uma sucessão de crimes rouba a serenidade e a tranquilidade que deviam existir num mosteiro onde frades se entregam à vida devota. Ora, submerso há um conflito terrível que opõe o desejo de conhecimento (de uma obra antiga e julgada perdida) - alerta livro sobre o poder dos livros - à vontade férrea de o limitar, reconhecendo-se o perigo que a leitura e o conhecimento por ela adquirido podem representar.

É uma intriga absorvente, conduzida de forma inteligente, vestindo o detetive dos policiais modernos com um hábito de monge. Por entre a questão, mas afinal quem é o assassino ?, abordam-se algumas das cismas da Idade Média, nomeadamente as muito pouco santas querelas entre as ordens religiosas. 

Está longe de ser uma novidade editorial, mas é um daqueles livros que se recomendam sempre e que um leitor de carreira deve conhecer. A capa da edição que partilho é dos finais dos anos 80 e é a que eu tenho. O Nome da Rosa é daqueles livros que nunca hão de deixar  a minha estante. Está nas listas e na minha lista. Tenho saudades deste livro.

Claro que recomendo igualmente o filme, há realizadores que fazem muito bem o seu trabalho e a apatação desta obra ao cinema resulta em outra obra-prima.

Ponham na lista.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

11
Dez19

Lista das listas

livrosparaadiarofimdomundo

Inauguro uma nova tag. Vou partilhando convosco as listas de livros que, de vez em quando são publicadas a lembrarem-nos que há obras que ainda escaparam das nossas redes. 

Hoje descobri uma partilhada no facebook que, ousadamente, acrescenta 60 livros às listas dos 100 qualquer coisa. A verdade é que estas listas repetem muitas vezes as mesmas obras e isso pode querer dizer duas coisas: ou que são listas que repetem listas, ou que as obras são mesmo "primas".

Entretanto, também me parece um bom propósito debruçar-me sobre algumas das obras que aí constam e que eu, em algum momento da vida li, num tempo que foi o tempo antes das listas.

Deixo-vos o link para, ao consultarem a lista, "pesarem" as vossas leituras.

https://www.revistaprosaversoearte.com/160-livros-essenciais-da-literatura-mundial-quais-voce-ja-leu/?fbclid=IwAR2Lie6X9qmhcFzUExHEwutjsu7DqlXy7_4OVNLS4G6v2T2Nk3OLCfnhmj8

 

09
Dez19

O Papagaio de Flaubert, Julian Barnes: um livro sublime!

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Procura um livro diferente? Gosta de ser surpreendido a cada página? Quer experimentar aquela sensação entre o riso e o espanto que uma boa tirada lhe arranca? Agrada-lhe um livro fragmentário que lhe permita saboreá-lo como se fosse uma caixa de bombons? Adora um ltexto que lhe permita colecionar frases para colecionar no seu "citador"?  Costuma deter-se em passagens que impulsivamente sublinha como forma de as fazer suas? Então leia O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes.

Há uma passagem no livro que é especialmente curiosa, uma espécie de myse en abîme, e que, para mim, é lapidar: "Esta exigência da ausência do leitor acentuou-se ainda mais. Alguns escritores concordam com este princípio de uma maneira ostensiva, mas entram às escondidas pela porta das traseiras e falam ao leitor num estilo altamente pessoal." A verdade é que, página após página, não consigo libertar-me da sensação de que este livro cria a ilusão de que é Julian Barnes que assume simultaneamente o papel de escritor, narrador, personagem e palestrante, alguém que ouvimos com prazer e que nos seduz pela forma como tece o seu texto, costurando pequenas histórias, umas sublimes, outras comoventes, algumas prosaicas, outras ainda quase obscenas, mas todas de uma dimensão humana quase palpável.

Outro aspeto a que não resisto é à intertextualidade, àqueles livros que continuamente nos levam a rememorar outros livros, que reconfiguram a nossa própria leitura e os livros que até já tínhamos lido, e também este ingrediente se encontra neste livro que não deixa de se prestar à metáfora da cozinha de fusão. 

E ainda o facto de nos atiçar a vontade de ler Flaubert, dar uma nova oportunidade a Emma Bovary, e depois voltar a este Papagaio. Como terá sido possível que na minha carreira de leitora a figura de Flaubert não ocupe um lugar cimeiro? Terei de voltar atrás e corrigir esse lapso, essa lacuna, porque afinal não terei percebido o génio de Flaubert.

Barnes consegue a proeza de nos dar uma imagem de Flaubert que o reduz à condição de homem comum, com os seus defeitos e fraquezas, sem, no entanto, beliscar a imagem de génio e de sublime escritor. Como? Talvez não vos consiga explicar, mas suspeito que tenha a ver com uma espécie de mensagem subliminar, no fim, tal como  no princípio, o que interessa é o verbo, entenda-se a obra, a literatura, as palavras imortais do escritor que verdadeiramente criam o mundo, não em sete dias, mas decerto para a eternidade. Interessante é que a ideia do escritor estar na obra como Deus na criação é igualmente glosada. 

Sente a falta de uma obra-prima? Ainda não comprou todos os presentes de Natal? Não precisa de uma desculpa para comprar um livro? Vá a um site; amanhã passe pela livraria; pare na biblioteca; peça emprestado; não interessa como, mas não deixe de ler este livro extraordinário que faz parecer o fim do mundo mais longe. Afinal, enquanto se escrever assim, há esperança para a humanidade. 

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