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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

28
Fev20

#11/2020 - Khadji-Murat, Lev Tolstoi: a hora do clássico

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Khadji-Murat

Editora: Cavalo de Ferro

Género: novela (guerra, aventuras)

Páginas: 160

Para Guardar

"A corda é boa se for comprida, tal como a conversa é boa se for curta."

Eu gosto do Tolstoi, sempre, seja nas obras de grande fólego, como Guerra e Paz ou Anna Kerenina, seja nas novelas, como A morte de Ivan Ilitch, de quem alguém isso que era a obra que dizia tudo o que havia a dizer sobre a morte; ou a sonata de Kreutzer - tenho de reler - e também está cá em casa Cossacos, que ainda não li. 

O traço mais característico e surpreendente nas novelas de Tolstoi, em minha opinião, é a sua simplicidade, quase desconcertante, e, por outro lado, a poesia desses mundos possíveis e personagens verosímeis que o autor russo tão bem sabe pintar. Com a precisão de um pintor experiente, duas ou três pinceladas são suficientes para presentificar esses seres excecionais que ele cria. Os caracóis negros de Anna Karenina; o constrangimento de Pierre, a beleza de Helena, a vanidade de Ivan Ilitch, o orgulho de KHadji_Murat, a forma como a sua presença não passa despercebida numa sala, a grandeza da sua personalidade e a frustração dos seus planos.

A verdade é que já terminei a leitura deste livro há dois dias e persiste na minha imaginação a figura de Khadji-Murat. Este herói trágico impõe-se tanto no espírito do leitor como na aura mítica que vai ganhando tanto do lado dos seus inimigos russos, como dos seus discípulos tchetchenos, como do seu inimigo mortal, Chemil. As histórias que se vão entretecendo à volta das suas façanhas vão-no tornando digno de admiração e avaliado como um homem digno e honrado. Astuto, fantasmagórico, audaz, corajoso, estratega, calculista e um homem de família.

A sociedade e a cosmovisão que se desprendem do livro remetem-nos para um mundo de constrastes: as convenções dos salões, a rudeza da vida dos montanheses, a beleza de algumas mulheres, a ferocidade dos soldados, a bravura em combate, a preocupação em casa (há ali um episódio que é a narrativa correspondente ao poema de Pessoa, "O menino de sua mãe"), a grandeza da natureza do Cáucaso, a robustez dos fortes ou a estreiteza das aldeias, a delicadeza de um olhar, a fúria destruidora de um incêndio.

Para muitos, uma das melhores histórias da humanidade, para outros uma das melhores obras de Tolstoi, para mim, um clássico, uma viagem ao passado que nos permite sonhar, sofer com a fraqueza do género humano, com a dor e com a esperança. É uma obra que resulta sem que saibamos bem explicar porquê, mas suspeito que um dos motivos terá de ser a mestria do seu autor.

27
Fev20

#10/2020 - Britt- Marie Esteve Aqui [e ainda bem], FredrikBackman

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Britt-Marie esteve aqui

Editora: PortoEditora

Género: romance

Páginas: 299

Para Guardar:

"São precisos anos para conhecer um ser humano. Uma vida inteira. É isso que torna uma casa num lar";

"Não sou o tipo de pessoa que salta";

"O que é o amor, se não é amar aqueles que amamos, mesmo quando não o merecem".

 

Conheci a Britt- Marie através da sinopse do livro e as suas características obsessivo-compulsivas atrairam-me desde logo. Lembram-se de um filme com o Jack Nicholson e a Helen Hunt, Melhor é impossível [recomendo muito], em que a personagem de Nicholson era assim também? Agarrado às suas rotinas diárias e qualquer desvio o deixava transtornado. Pois bem, Britt-Marie é desse género.

Uma dona de casa, esposa exemplar, a viver em função das necessidades do seu marido vê-se, de repente, atirada para fora da sua zona de conforto - o seu apartamento, a sua cozinha, o seu lava-louça, o seu quarto, imaculadamente limpos e organizados - por força das circunstâncias. É preciso reaprender a viver, mas não é um processo fácil, porque Britt- Marie é muito pouco flexível. Faz lembrar também o Sheldon de A Teoria de Big Bang pelo facto de ser muito direta e absolutamente sincera em tudo o que diz. O seu mantra poderia traduzir-se em qualquer coisa como "perfeitamente adequado". A adequação da linguagem, dos gestos, da entoação, da forma de vestir, de caminhar, de estar, pautua a sua vida e a impressão que colhe dos outros. Britt- Marie, a dada altura do romance, define-se como não sendo uma pessoa que não salta, ou seja, nunca arrisca. A verdade é que essa atitude vai sendo clarificada ao longo do livro, afinal ela teve de se proteger e de se defender da forma como a vida e as pessoas a trataram para não arriscar, estreitando cada vez mais o seu raio de ação.

No entanto, a ação leva Britt-Marie para um cenário improvável, com pessoas não muito adequadas que a vão conduzir a descobertas muito interessantes e a uma metamorfose que modificará não só esta personagem, como também todos aqueles que com ela contactam e que, graças ao facto de serem disruptivos, conseguem entrever a verdadeira natureza de Britt- Marie.

Outros ingredientes desta história que a tornam invulgar: uma ratazana, uma equipa de futebol, um centro recreativo. Mas o que mais se destaca é a forma como o discurso do livro está "perfeitamente adequado" às características da própria Britt- Marie. Se ela saísse do livro e se sentasse connosco na sala, seria assim que se expressaria, de forma perfeitamente adequada às circunstâncias, mas, dada a sua inabilidade social, seria muito provável que fôssemos das gargalhadas à perplexidade devido ao inesperado das suas observações. Quanto ao futebol, metáfora e leitmotiv, traço distintivo das personagens, nunca me pareceu um desporto tão interessante como nestas páginas.

Em suma: quer uma leitura agradável, surpreendente, divertida, doce, enternecedora, comovente, que dispõe bem? Gosta de ir das lágrimas ao riso sem transição? Aprecia personagens literárias que parecem pessoas e a quem julga conhecer e a quem se sente tentado a tratar por tu? Assim quase um antidepressivo natural? Vá ler Britt-Marie esteve aqui. Será como o melhoral, faz mais bem que mal.

 

26
Fev20

Eva Expusa do Paraíso #1 - Natália

livrosparaadiarofimdomundo

A porta do quarto abriu-se, uma mulher saiu, corada e apressada, não olhou aqueles que esperavam na sala, que ocupava todo o centro da casa. Ouviam-se gemidos, umas vezes abafados, outras estridentes, quase gritos. No quarto, onde pontificavam as mulheres, Natália, dava à luz a sua sétima filha. Era um dia de mulheres. A D. Maria tinha sido chamada assim que rebentaram as águas, cuidaria das meninas enquanto durasse o rito, que as mais velhas já iam conhecendo. O homem da casa tinha sido expulso com condescendência, sorrisos e pancadinhas nas costas: vá lá à sua vida, que já sabe que isto demora. A Natália é sempre assim. Nunca é fácil. Vá lá, depois mandamos chamar. Desta vez é que é o rapaz, vai ver, vem aí o morgado, o herdeiro. A D. Alice, parteira certificada por todas as mulheres das redondezas e que tinha visto nascer metade das pessoas que se conheciam, veio um bocadinho mais tarde. Também ela sabia que o parto de Natália havia de custar, aquelas ancas estreitas, os bebés sempre grandes, já por duas vezes o cordão umbilical à volta do pescoço. Até que as dores se tornassem menos espaçadas, nada podia fazer, a não ser manter uma conversa sobre as pequenas coisas de que se faziam a vida daquelas mulheres, que viviam há séculos nesta espécie de gineceu que todas iam partilhando. Um mundo feminino do tamanho do próprio mundo. Antes da parteira, ainda viriam as irmãs de Natália preparar a refeição do fim do dia. Os seus homens chegariam mais tarde para tomarem essa refeição. Era assim que se passava o dia de um nascimento. Era um pretexto, como tantos outros que o calendário ia oferecendo, para que se juntassem e para que as ocasiões se transfigurassem em rituais festivos que eram vividos com um certo alheamento, mas dos quais a ninguém ocorreria não participar. Desta forma se iam tecendo as malhas da família que seriam quase impossíveis de desfazer. Iam-se apertando, estreitando, até ninguém poder desatar aqueles nós.

Natália jaz na cama. Está apoiada nos braços, a cabeça deitada para trás, o corpo tenso, percorrido por uma dor que cada vez se torna mais forte. Geme com os dentes rilhados, o som sai rouco, profundo, arrancado bem lá do fundo da garganta. É um som que parece um urro. A barriga eleva-se como um bombo. Os lençóis foram branqueados à custa de barrelas obstinadas, corados ao sol, sobre as pedras. É uma brancura que quase fere a vista se ali houvesse alguém capaz de reparar nisso, ou capaz de formular este pensamento assim tão literário. As mulheres que rodeiam Natália estão orgulhosas dela e do lençol imaculado, mesmo assim vão vistoriando pelo canto do olho, não vá haver ali alguma mancha que as desonre a todas. Não há mesmo. Podem dedicar-se a Natália. Natália que encara a parteira fixamente, os olhos abrem-se e arredondam-se. Não são precisas palavras, todas sabem o que está a acontecer e o que é preciso fazer. A parteira senta-se no banco baixo que está ao fundo da cama, empurra os joelhos de Natália para trás, ajuda-a assim a fazer força no sítio certo. Vê-se já a cabeça da criança, tem um cabelo muito preto e muito farto que se funde nos pêlos púbicos da mãe. Está mesmo na hora. É a última contração. Força Natália, a força toda que puderes, este bebé tem de nascer agora, tu já sabes como é, faz força, força! A irmã mais velha de Natália percebe que está a custar. Dobra-se sobre ela e carrega-lhe no ventre para fazer a criança descer. Há vozes que se enrodilham umas nas outras enquanto encorajam a mulher que dá à luz. O vinco na testa da parteira é suficiente para todas, mesmo Natália, perceberem que é o momento mais delicado. O bebé tem de nascer, é a hora mais perigosa do parto, quando a criança atravessa o canal do nascimento e não pode estar muito tempo sem sorver o ar que o espera cá fora. O urro de Natália cresce, cresce, não se sabe se depois deste parto ela manterá as cordas vocais que parecem a pontos de se rasgar. Tudo está tenso naquele quarto, o ventre de Natália vai-se rasgando, o seu corpo avizinha-se perigosamente da morte para que aconteça mais uma vida. Já saiu a cabeça, agora são as exclamações de alegria, o rostinho pequenino já se avista. A parteira roda conhecedoramente a cabecinha para facilitar a saída do resto do corpo. Todas esperam a nova contração, a expulsão acontece e uma nova vida entrou na vida, mais um elo na cadeia.

As mulheres voltam a afadigar-se. A parteira corta o cordão umbilical. A irmã mais velha pega na criança e diz em voz alta, é uma menina. O choro do bebé sobe no ar e não podia ser mais veemente. Ouve-se a água a ser deitada numa pequena bacia, mãos experientes vão-na temperando. A menina é lavada rapidamente, depois é embrulhada numa toalha que já tinha sido aquecida. O pequeno ventre é envolvido numa faixa de tecido também branca, também aquecida, a faixa é depois cuidadosamente ajeitada. Colocam-se as fraldas. Uma camisinha branca, umas peúgas feitas por Natália, um cueiro de xadrez, uma touquinha e um xaile de lã. A menina tem os olhos muito abertos, são duas contas negras na pele rosada do rosto muito redondo. Uma mulher diz, é tão bonita, outra exclama, olha o narizinho dela tão perfeito. Voltam-se para a mãe e tranquilizam-na, é perfeitinha.

Enquanto umas cuidavam da criança, outras cuidavam da mãe. A parteira esperou pela expulsão da placenta. Depois fez uma ligadura com panos brancos e procurou estancar o sangue. A irmã de Natália ia-a limpando com uma toalha humedecida. Ajudaram-na a virar na cama e substituíram os lençóis, trouxeram-lhe uma camisa lavada, já quente. Recostaram-na na cama e estenderam-lhe a menina que ia gesticulando no casulo de lã, os olhos sempre abertos. Natália abriu a camisa, puxou o seio túmido e aproximou a bebé que o sugou como quem não espera outra coisa. Com um reflexo aprendido há milénios, ficou a mamar, ainda um pouco desajeitada, fazendo um barulho que era um allegro naquele quarto. 

As mulheres foram arrumando o quarto, restituindo-lhe a ordem, enquanto Natália e a bebé celebravam o mistério mais antigo de todos, atando os primeiros fios dos laços que unem mãe e filha para sempre. A cabeça da mãe inclinava-se gentilmente para a filha, a mão livre tocava-lhe a face, ia-lhe beijando a testa franzida e sorvia o cheiro doce que reconhecia em cada uma das filhas. O seu homem entrou, já sabia que era uma menina. Deu de ombros e disse, não se lhe pode chamar Manuel. Ela respondeu-lhe, séria, fica Margarida, a minha última flor. Tenho quarenta anos, não quero mais filhos. Ele assentiu e sentou-se na beira da cama, olhou a menina e disse, é bonita. Pois é, disse a mãe.

Lá fora, as mulheres e os homens preparavam-se para fazerem a refeição da noite. O dia ia escurecendo. A vela sobre a cómoda dourava o quarto de luz. Natália estendeu a menina ao seu lado que já dormia serenamente. Ficou a olhá-la e acabou por cair num sono leve. Caiu a noite. 

26
Fev20

#9/2020 - Uma Educação. Tara Westover - parece mentira, mas não é...

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Uma Educação

Editora: Bertrand

Género: Biografia/memórias

Páginas: 372

Imagine-se numa comunidade fechada, em que um chefe de família acredita que Deus comunica diretamente com ele, em que se recusa os avanços da medicina como perigos espirituais de que devemos fugir, em que se vê a escola e a educação como um caminho para a perdição, em que todos os gestos diários estão ligados à preparação da vinda de Deus, em que tudo é interpretado como manifestação de um sinal de Deus. Agora feche os olhos e tente localizar estes acontecimentos num período histórico... Se pensou na Idade Média, no obscurantismo da Inquisição Peninsular ou em qualquer coisa deste género, enganou-se: este livro é um relato biográfico/memorialístico de uma jovem americana e reporta-se ao final do século XX e início do século XXI. A autora está viva e de boa saúde, é bonita e tem um doutoramento... porque conseguiu à conta de um fratura dolorosa com esse mundo contar a sua história e ter uma educação.

Não é um livro propriamente de domingo à tarde. Para nós, pessoas da segunda década do século XXI, preocupadas com a educação dos nossos filhos, com a abertura de espírito e o pensamento crítico, a liberdade sob todas as formas, o direito à saúde, a preocupação com o programa nacional de vacinação como forma de escaparmos a doenças que dizimam populações, é manifestamente difícil imaginar um mundo em que estas "comodidades", chamemos-lhe assim, são liminarmente recusadas, não porque não se tem direito, ou não estão garantidas, mas porque não se quer, porque não estão de acordo com a intepretação dos textos sagrados. Não há nesta reflexão o mais ténue juízo de valor - há só perplexidade a partir da minha perspetiva. Ainda assim, até que ponto é que privar as pessoas da liberdade de escolha está certo?

A autora, Tara Westover, imerge nas suas memórias de infância e de juventude e recupera o mundo em que viveu, rude, violento, áspero, quase tão agreste quanto as montanhas sob as quais viveu. No entanto, o mais interessante do livro nem é isso. É em primeiro lugar a superação de tudo o que a podia limitar, uma enorme capacidade de empenho, de luta, de determinação - afinal ela chega à Universidade sem nunca ter ido à Escola Secundária. Mas, a um nível mais profundo, é também uma história de amor pela família, uma história de escolhas difíceis: entre o individual e o coletivo, entre as memórias e a sua reescrita, entre a afirmação e a submissão, entre a dor de ser assertivo e o conforto de se deixar convencer. Além disto tudo, o pormenor que mais me impressionou foi o facto de Tara chegar a duvidar das suas próprias memórias por lhe terem afirmado e reafirmado que a sua versão não era verdadeira.

Há, por último,a questão da educação: Tara confirma o dito de Einstein: "uma mente que se abre a ma nova ideia, jamais poderá voltar ao tamanho original". Apetece dizer, é a educação, estúpido. Sim, a educação é fundamental, é o caminho que resta a uma enorme percentagem de pessoas que dela necessitam para se libertarem e para refletirem sobre o mundo e sobre o seu próprio papel nesse mundo.

Recomendo a leitura deste livro, como inspiração, como lição de humildade, como lembrete do muito que temos, como forma de nos tornarmos mais gratos.

É uma leitura para nossa educação. 

25
Fev20

Livros a Ler

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Um Homem Chamado Ove

Wook.pt - A minha avó pede desculpa

Ambos são de Fredrik Backman, que descobri à conta do Britt- Marie esteve aqui. Gostei mesmo muito do livro, sobretudo pela originalidade da personagem principal. Fiquei curiosa acerca do escritor, que me parece muito criativo e com um dom que muito aprecio, a capacidade de me fazer rir num livro, com as situações hilariantes que imagina, susportadas por um virtuosismo linguístico irresistível.

Pus na lista... mas o Ove está esgotado. É assim que Deus nos põe à prova: fazendo esgotar o livro que mais queríamos ler agora.

Algém tem para vender? Trocar? Emprestar? Qualquer coisa...

 

18
Fev20

Porquê ler Os Maias, de Eça de Queirós?

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Os Maias

Em primeiro lugar, parece-me que uma boa motivação pode ser o preço. Acabei de ver na WOOK  e a versão dos Livros do Brasil, a única que aceito ler, custava menos de dez euros. Peço desculpa pela publicidade, ainda por cima não ganho nada com ela. De qualquer forma, se se pode ter um clássico por este preço a cultura acaba por nem ser elitista. Já ir à Ópera é outra história.

Ironias à parte, que este é um assunto sério, hoje deu-me para falar d'Os Maias, porque há cá em casa um estudante do ensino secundário que está a pasar pela fase de ler Eça de Queirós. A verdade é que está a correr bem e passamos a ter assunto. Ouvem-se exclamações do género "Esta Miss Sara é uma vadia";  "A Condessa é uma depravada"; "O Afonso é muito fofinho"; "A Maria Eduarda é querida para o Carlos e para Rosa". Está claro que não se tratam de recensões críticas, mas denotam interesse e uma relação com as personagens que só as grandes obras nos permitem.

Nuno Camarneiro, esse escritor que eu adoro, disse um dia que a literatura é a única forma de arte que nos permite andar com uma obra-prima debaixo do braço. E, como já disse noutras ocasiões, quando a obra é prima, ninguém lhe fica indiferente.

Sempre que me cruzo com a obra-prima de Eça de Queirós - e ele tem várias - acabo por a reler. Há passagens extraordinárias. Como nos dizia Italo Calvino, "Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer" e essa é uma qualidade do romance de Eça. A frescura daquela sátira a Portugal teima em não empalidecer. Já reli a obra em décadas diferentes e as críticas mantêm-se atuais. Os episódios da vida romântica perpetuam-se no século XXI, daí que haja uma universalidade que faz com o livro nunca perca o vigor e o interesse. Há uns anos, recomendei o livro ao meu irmão, que nem sequer é um leitor muito assíduo, mas o fascínio que o romance exerceu sobre ele foi te tal forma que me ligava a meio da noite para comentar uma tirada, um episódio, uma ironia. Voltando a Calvino, temos nesta obra a novidade, o inesperado, o inédito que se renovam cada leitura.

Recordo só alguns momentos, episódios imortais: o arrebatamento da paixão de Pedro por Maria Monforte; as cenas da Educação de Carlos, o extraordinário Eusébiozinho, o pedante Dâmaso, a estupidez das senhores da sociedade, apesar do cuidado nas toillets, que o Eça descreve melhor que o Cláudio Ramos no programa da Cristina, a ternura do amor de Carlos e Maria Eduarda, a força de Afonso, a amizade de Carlos e Ega - quem não desejaria na vida ter uma amizade assim, o retrato desapiedado de Portugal e a escrita, Meu Deus, a escrita de Eça, ninguém como ele trabalhou as palavras deixando que elas digam de forma simplesmente perfeita tudo o que é preciso para que uma imagem fique gravada no nosso espírito.

É uma felicidade e um privilégio revisitar Os Maias. Quando lá regresso, sinto sempre que tive saudades daquele universo. Tenho dito - e acredito - que se Eça tivesse nascido Russo ou Francês a sua universalidade seria ainda maior. Nasceu português e ainda bem, que não nos sobram muitos motivos de orgulho, ou vão sobrando que, no presente, já somos um país de "conseguimentos" (Vou ali penitenciar-me por ter usado este palavrão num texto em que se fala do Santo Eça, mas decerto ele haveria de rir com a piada).

Leiam Os Maias, vai valer a pena correr o risco.

 

 

17
Fev20

Post sem livros lá dentro #2

livrosparaadiarofimdomundo

O lugar é no aeroporto de Lisboa.

É preciso parar um carro, por momentos, para apanhar uma passageiro recém-chegado. Faz-se o que todos nós fazemos. Encostamos um bocadinho.

Meio na faixa de rodagem, meio no passeio está um homem. Há uma quase tangente e um pretexto perfeito para deitar cá para fora aquilo que sem pretexto nunca sairia.

Houve insultos. 

O condutor do carro, noutro dia qualquer, talvez tivesse ouvido sem respingar. Talvez tivesse sido educado, talvez tivesse pedido desculpa.

Mas naquele dia não. Voltou-se para o homem enquanto a amiga arrumava a mala no porta bagagens. E respondeu à letra. 

Houve altercações.

À falta de argumentos, o homem cuspiu-lhe para o rosto.

O condutor, ainda assim, não se calou. Entrou no carro e rematou que além de estúpido o homem era porco. 

Mas tinha perdido.

Nunca devemos discutir com pessoas que só estão à espera de discutir. Tal como se costuma dizer - a frase/pensamento não são meus - é como lutar com um porco na lama. Ao fim de umas horas, percebemos que o porco está a gostar.

17
Fev20

Livros a Ler - O Carteiro de Pablo Neruda - correção de um desvio cósmico

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Carteiro de Pablo Neruda

Parece que a RTP2 vai passar o filme. Faz bem, que é lindíssimo e aquele canal é para serviço público. Assim é que é.

Agora o que sucede é que eu vi o filme, e bem, mas nunca li o livro. Shame, shame, shame (esta parte é para ler a pensar em Guerra dos Tronos).

Pus agora na lista dos a ler.

Estamos sempre a tempo de corrigir os nossos erros e caminhar no sentido do aperfeiçoamento. isto nem nos livros de autoajuda se encontra!

13
Fev20

Post sem livros lá dentro

livrosparaadiarofimdomundo

É um senhor de idade. Cruzo-me com ele quase todos os dias no restaurante onde almoço.

É um cavalheiro à moda antiga, de uma delicadeza como não há. É uma pessoa doce.

Cede a sua vez quando nos aproximamos. Diz que não tem pressa. Tem o dia todo.

Fica atrás de nós na fila, mas sorri sempre.

Graças a este encontro diário, começámos a ter breves conversas.

É viúvo há quatro anos. Diz que durante o dia não lhe custa muito. Custa é quando chega a noite. Sente-se muito só. Diz que é terrível. Diz que vacila.

Contou que a sua mulher foi o amor da sua vida. Uma paixão única. Não quer outra mulher. Nem pensar nisso.

Vai uma vez por mês ao cemitério e uma vez por mês à Igreja, porque a mulher era crente e muito praticante. Diz que esse dia é angustiante, que a ansiedade que o domina é sufocante. Disse-lhe que, se era assim, que seria melhor não ir. (A nossa sobranceria!). Diz que não, que sente que tem de ir. É uma homenagem ao amor da sua vida.

Não está zangado. Nem revoltado. Sorri. É amável. Apenas esta só.

Disse-lhe a rir que podia arranjar um cãozinho. Respondeu-me que tem cinco gatos. Sentam-se com ele na sala. Os gatos em cima do sofá. Pôs uma manta para não lhe estragarem o estofo. Ele senta-se numa cadeira. Veem juntos a televisão.

Ofereceram-lhe um livro. Enorme. Já leu cem páginas. Disse que queria muito lê-lo, porque o senhor que lho ofereceu o fez com tanto empenho. Não o quer desiludir.

Prometi que lhe levava um livro. Perguntou-me sobre o que seria. Disse-lhe que ainda não sabia. Realçou que primeiro tinha de ler o outro.

Queria muito que um livro minimizasse aquela solidão.

Hoje cruzei-me com a solidão. É humana, tem corpo. Estava ali à minha frente.

Às vezes nem os livros são suficientes para adiar o fim do mundo... nem afastar a solidão.

 

11
Fev20

#8/2020 - A arte de chorar em coro, Erling Jepser: para ler já!

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A Arte de Chorar em Coro

Editora: Cavalo de Ferro

Páginas: 211

Género: romance picaresco/de aventuras... ou outra coisa qualquer.

Para Guardar

O livro todo, em bloco, só assim é que ele faz sentido.

Estou absolutamente desconcertada com este livro! Quase que me apetece dizer que não tenho estudos para isto. Atenção, eu adorei o livro. Não é qualquer um que consegue numa moldura quase lhana, simplista, abordar assuntos complexos; não é para todos falar de atos brutais, de crueldade sob um manto diáfano de inocência, humor e sensibilidade. Este romance é - não duvidem por um segundo - uma verdadeira obra-prima. Mas, mesmo assim, estou desconcertada e abalada.

Vamos por partes.

Parece que Erling Jepsen se estreou tardiamente no romance (nasceu em 1956 e só publicou o primeiro romance em 2002), mas, antes disso, escreveu muito, muito teatro e, de facto, foi escola que aproveitou sobejamente na composição deste A arte de chorar em público, precisamente o seu romance de estreia, que foi adaptado ao cinema e que chegou à cerimónia dos Óscares nomeado para melhor filme estrangeiro. Não se pode dizer que seja coisa pouca. (note to self: ir a correr procurar o filme para ver).

O romance, quanto a mim, é indefinível: será de formação? serão memórias? picaresco é seguramente e as aventuras não são bem assim... Talvez nem tudo possa ser definido, talvez o primeiro encanto do livro seja esse, escapar a um formato, essa é a primeira zona de conforto que temos de abandonar nesta experiência literária. Agora que a leitura é extraordinariamente abosorvente, isso é seguramente. A estranheza do género não deixa de nos agarrar, de nos puxar para aquele vórtice discursivo que nos enreda e nos deixa perplexos, embora divertidos. Ai, mas com que amargura. Portanto, pensem num bom prato agridoce, em que ao cozinheiro lhe escapou a mão ao juntar os ingredientes amargos.

A ação é crua, alguns momentos raiam a monstruosidade, desvendando os demónios que se escondem em muitos peitos aparentemente piedosos. Todavia, tudo o que aqui é terrível é suavizado pelo facto de ser narrado através de um filtro poderoso: os olhos de um rapaz de onze anos, cuja compreensão imperfeita das coisas nos poupa imenso à possível violência do relato. Por causa disso, o romance resulta num documento comovente, em especial porque essa estratégia narrativa permite ao autor não contar tudo, deixando muito por dizer, restando-nos adivinhar e completar a narrativa. A visão que nos é dada é inocente, marcada pelo amor desta criança à sua família, pela idolatração do seu pai, pela disposição para fazer tudo para os ver bem e felizes. A verdade é que este rapaz é um Cândido dinamarquês, tanto mais autêntico quanto a sua é a candura da infância. Esta circunstância explica a veia cómica, mordaz, divertida em que a história vem embulhada.

A minha teoria é que o facto de Jepsen ter sido, antes de romancista, dramaturgo explica em grande medida a forma como o autor soube construir o romance num tom coloquial, aproximando-se ao discurso de uma criança, mantendo a sua focalização. A fluidez e autenticidade desse discurso é um dos maiores trunfos do livro. É impossível não nos enternecermos, não amarmos este rapaz, não torcermos por ele.

Apetece-me suplicar a todo o leitor, a todo o verdadeiro amante de livros que não passe por cima desta obra. É incontornável. Leiam, vai doer, mas vale a pena. 

Balancete: 2020 vai muito promissor em leituras, começo a recear não conseguir manter o nível até dezembro.

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