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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

05
Mar20

Eva Expusa do Paraíso #3 - Leonilde (continuação)

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Os meus filhos saíram há pouco. Estão cansados. Só a Luísa sente verdadeiramente a morte do pai, só ela soube criar laços com ele. Só ela sabia convencê-lo a fazer o que ele não queria fazer. Uma vez convenceu-o a ir à praia. Deus meu, aquele homem desajeitado foi com ela à praia e ficou lá um dia inteiro, vestido, só aceitou tirar os sapatos. Com os rapazes não foi assim, pareciam estranhos, forçados a viver no mesmo sítio, a partilharem por obrigação um espaço em que nenhum deles se sentia bem. Nestes anos todos, houve uma coisa boa, o meu homem não parava em casa, saía de manhã e voltava muito tarde à noite, quase sempre bêbado. Os meninos já dormiam, eu fingia que dormia, apagava a luz assim que ouvia as rodas do carro a rangerem no cascalho da entrada. Virava-me para a parede e fingia que dormia. Às vezes nem se despia para se deitar, caía na cama e começava a roncar quase instantaneamente. No dia seguinte, levantava-se à mesma hora de sempre, saía outra vez. A única coisa que eu não sabia era se tomava em casa o pequeno-almoço. Ele dizia-mo assim que se levantava. Eu levantava-me sempre primeiro, não queria estar na cama quando ele acordasse, isso poderia dar-lhe ideias e já há muito tempo que eu evitava que nos déssemos ao trabalho de cumprir qualquer papel conjugal. Mas ele nunca teve amantes. Não senhora, nem a esse trabalho se deu. Os afetos eram uma dimensão da vida que ele não sabia gerir. Só com a Luísa ele esgotou a sua capacidade de amar. Nunca lhe gritou, nunca lhe bateu, nunca lhe disse não. Com os rapazes não foi assim. Para eles guardou a violência que não se atrevia a descarregar em mim. Nunca me bateu, isso também não. Podia partir uma cadeira à minha frente, mas nunca me bateu. Não sei o que teria feito se ele me batesse. Eram assim os nossos dias, foram assim os nossos anos. Uma convivência difícil que cada um de nós suportou como soube. Acredito que nunca lhe tenha ocorrido procurar outra mulher, outras maneiras de estar com uma mulher. O que quer que fosse que ele queria do casamento parece ter encontrado comigo. A mim também não me ocorreu que pudesse ser de outra maneira. Nunca senti necessidade de outros afetos. Tinha os meus filhos. A minha Luísa. O Afonso, o mais velho, fez-se homem muito depressa e ficou doido por mulheres. Por todo o lado encontrava as revistas pornográficas que ele lia. Assim que atingiu a maioridade, não me tratava melhor do que o pai, chamava-me os mesmos nomes feios que tinha ouvido lá em casa. Não é de admirar que achasse que eu podia ser tratada assim. Tem hoje uma namorada, loira e branca, com ar de boneca delicada. Não percebo o que é que ela viu nele que a encantasse. Ele é tão bruto, tão rude. Tenho medo por ela, mas não sou eu que a vou avisar. Ultimamente, apesar de não ter medo dele, prefiro não o confrontar. Quase tenho receio que amanhã não vá ao funeral. É quase um bicho. O Manuel não é assim, ficou nervoso, fechado, tem às vezes umas reações bruscas que são a explosão do tímido que ele é, acho-o um tanto inadaptado, mas terá de se desenvencilhar, há de ser capaz. Depois a Luísa, tão desgostosa, um bocadinho arisca comigo, claro que ela sabe que eu não estou propriamente devastada pela dor. Como poderia estar? Este homem é para mim um estranho com quem fui obrigada a partilhar quase trinta anos. Não fugi a nenhuma das minhas responsabilidades. Limpei, cozinhei, mantive-lhe a casa sempre em ordem, fui séria e honesta, não abandonei a minha casa, mesmo depois da morte do meu pai, quando já não tinha medo da sua censura. Não, não o amei, mas como poderia amar este homem? Seria quase contranatura, ele não se fez para ser amado.  Por outro lado, não havia motivos para sair de casa. Ele estava tanto tempo fora. Só aos domingos almoçava connosco, mas saía à tarde. Era também aos domingos que explodiam os ralhos e as muitas tareias que aplicou aos rapazes, sem nenhuma razão que o fizesse prever. Às vezes bastava um olhar que ele interpretava como sendo desrespeitoso e ensinava-lhes logo uma lição que havia de fazer deles uns homens. Não sei se por isso, uma espécie de luta pela sobrevivência, se um apanhasse, podia ser que não apanhasse o outro, eles dividiram-se, nunca se aliaram. Quando um deles era contemplado com as lições do pai, o outro parecia respirar melhor, não era o seu dia, pois raramente havia dose dupla, e assim cresceram mais como rivais do que como irmãos. Nunca se aliaram contra o pai, que soube dividir para manter o seu poder.

Olho este corpo que se ergue de perfil à minha frente. Umas mãos muito brancas, agora sei o que quer dizer a cor cerosa dos mortos, os meus olhos enchem-se dela. Devia, por certo, estar mais transtornada, afinal sou viúva. De onde venho, isso é pior que morrer. É ficar desprotegida, é ficar sem sustento, é ficar à mercê dos homens, sujeita a que eles se aproveitem. É assim que se pensa. Aperto com força uma mão na outra, aperto a boca, alteio os ombros, tudo isto para não me rir. Ninguém, ninguém se vai aproveitar de mim. Ah, mas eu hei de aproveitar-me de alguém, a história que for contada depois será contada por mim. Tomarei nas mãos as rédeas do que houver de ser a minha vida daqui para a frente. Basta. Olho para o corpo e em mim só há vazio, vazio. Não há uma centelha de ternura, não há um arrependimento, não há um estremecimento perante a morte. Que prisioneiro choraria a queda dos muros da prisão à sua volta? Mas respeito, respeito consigo sentir. Morreu alguém. Como quando sabemos da morte de outra pessoa com quem nos cruzávamos na rua e lamentamos a alteração da nossa paisagem diária. Pobre homem, pobre mulher, ainda era novo, tinha filhos, vai fazer falta, e outras palavras vazias, de circunstância, que pronunciamos porque assim tem de ser, ninguém é tão frio que não se comova perante o fim, brusco ou anunciado, ou prometido, de um semelhante. Mas nem isso, nem isso consigo encontrar dentro de mim. Só alívio e engrandecimento, porque serei dona de mim. Não deixarei que ninguém, ninguém, interfira. 

É preciso encontrar alguém que se renda aos meus encantos de ainda, costumo observar-me ao espelho quando me dispo. As minhas ancas ainda têm o desejo de uma jarra que se estreita. Os meus seios ainda são firmes. As minhas pernas são longas. Os meus olhos são rasgados e sabem acender-se quando quero. E o meu cabelo. É um trunfo de que não desisto. Parece uma juba. Aprendi a agitá-los. Dizem-me tantas vezes que é um cabelo de causar inveja, eu sei que é. Não disse a ninguém, mas já o pinto há anos, não quis esperar pelos fios brancos. Nem um só quis ver. Fui-o tingindo e já nem me lembro da sua cor verdadeira, tenho quase a certeza que há de ser bem parecida com esta de agora. A minha pele é branca, branca. Fui abençoada com esta pele, e mais, é macia. Se até eu gosto de me tocar, de passar as mãos pelos meus braços, não haverá homens, um homem, capaz de pagar para o fazerem? Sei muito bem o que é que a ideia do pagamento faz de mim. Não importa, é só preciso saber fazer as coisas, manter um ar respeitável e aproveitar. 

O negro não há de ser para mim. Estes corvos que se sentam ao meu lado, já à espera de me envolverem nas suas malhas negras, já contando com mais uma para partilhar com elas as conversas feitas de murmúrios lamurientos, ai o meu homem, ai as dificuldades… As idas ao cemitério, as campas como prateleiras de floristas, para que se veja pelos botões de flores, pelas verduras, pelo tamanho, a dimensão da sua dedicação. Bruxas, bruxas. Não, não será assim. Há por aí mais mundo do que as paredes fechadas de uma casa, portadas cerradas, há mais luz do que a que banha as pedras brancas do cemitério, ferindo a vista destas viúvas que se deixam amarelecer, como se não se pudesse respirar a não ser através de um homem, de um marido. Apetecia-me cuspir-lhes em cima, gritar a minha revolta, a minha repugnância, o meu desprezo pelas suas dores, a sua desgraça, que infelizes, que coitadas, e gostam de ser assim e que as vejam assim. Eu não. Hoje fui libertada, tenciono viver essa liberdade, respirá-la juntamente com o ar. Viver dela e viver para ela. Estas que agora me estendem as mãos, que me dão pancadinhas na face, que suspiram à minha volta, hão de negar-me muito mais do que três vezes, hão de excomungar-me, hão de arrastar o meu nome pela lama. Mas hão invejar-me, hão de rilhar os dentes de raiva por não terem aquilo que eu vou ter.

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