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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

10
Mar20

Ode aos livros que não posso comprar, Jorge de Sena

livrosparaadiarofimdomundo

ODE AOS LIVROS QUE NÃO POSSO COMPRAR

Hoje, fiz uma lista de livros, e não tenho dinheiro para os poder comprar.

É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.

Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros

sem eles, também eu morreria de fome,
porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,
alguns outros que, se lhe falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanta humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que se não perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.

Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
nem de que, em breve, se morrerá de uma fome maior,
do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

Por isso, preciso de comprar alguns livros,
uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
e sair de casa, contando os tostões que me restam,
a ver se chegam para o carro eléctrico,
até outra porta.

Jorge de Sena, 1944

 

Roubei do blog da wook. É tão bonito.

05
Mar20

Eva Expusa do Paraíso #3 - Leonilde (continuação)

livrosparaadiarofimdomundo

Os meus filhos saíram há pouco. Estão cansados. Só a Luísa sente verdadeiramente a morte do pai, só ela soube criar laços com ele. Só ela sabia convencê-lo a fazer o que ele não queria fazer. Uma vez convenceu-o a ir à praia. Deus meu, aquele homem desajeitado foi com ela à praia e ficou lá um dia inteiro, vestido, só aceitou tirar os sapatos. Com os rapazes não foi assim, pareciam estranhos, forçados a viver no mesmo sítio, a partilharem por obrigação um espaço em que nenhum deles se sentia bem. Nestes anos todos, houve uma coisa boa, o meu homem não parava em casa, saía de manhã e voltava muito tarde à noite, quase sempre bêbado. Os meninos já dormiam, eu fingia que dormia, apagava a luz assim que ouvia as rodas do carro a rangerem no cascalho da entrada. Virava-me para a parede e fingia que dormia. Às vezes nem se despia para se deitar, caía na cama e começava a roncar quase instantaneamente. No dia seguinte, levantava-se à mesma hora de sempre, saía outra vez. A única coisa que eu não sabia era se tomava em casa o pequeno-almoço. Ele dizia-mo assim que se levantava. Eu levantava-me sempre primeiro, não queria estar na cama quando ele acordasse, isso poderia dar-lhe ideias e já há muito tempo que eu evitava que nos déssemos ao trabalho de cumprir qualquer papel conjugal. Mas ele nunca teve amantes. Não senhora, nem a esse trabalho se deu. Os afetos eram uma dimensão da vida que ele não sabia gerir. Só com a Luísa ele esgotou a sua capacidade de amar. Nunca lhe gritou, nunca lhe bateu, nunca lhe disse não. Com os rapazes não foi assim. Para eles guardou a violência que não se atrevia a descarregar em mim. Nunca me bateu, isso também não. Podia partir uma cadeira à minha frente, mas nunca me bateu. Não sei o que teria feito se ele me batesse. Eram assim os nossos dias, foram assim os nossos anos. Uma convivência difícil que cada um de nós suportou como soube. Acredito que nunca lhe tenha ocorrido procurar outra mulher, outras maneiras de estar com uma mulher. O que quer que fosse que ele queria do casamento parece ter encontrado comigo. A mim também não me ocorreu que pudesse ser de outra maneira. Nunca senti necessidade de outros afetos. Tinha os meus filhos. A minha Luísa. O Afonso, o mais velho, fez-se homem muito depressa e ficou doido por mulheres. Por todo o lado encontrava as revistas pornográficas que ele lia. Assim que atingiu a maioridade, não me tratava melhor do que o pai, chamava-me os mesmos nomes feios que tinha ouvido lá em casa. Não é de admirar que achasse que eu podia ser tratada assim. Tem hoje uma namorada, loira e branca, com ar de boneca delicada. Não percebo o que é que ela viu nele que a encantasse. Ele é tão bruto, tão rude. Tenho medo por ela, mas não sou eu que a vou avisar. Ultimamente, apesar de não ter medo dele, prefiro não o confrontar. Quase tenho receio que amanhã não vá ao funeral. É quase um bicho. O Manuel não é assim, ficou nervoso, fechado, tem às vezes umas reações bruscas que são a explosão do tímido que ele é, acho-o um tanto inadaptado, mas terá de se desenvencilhar, há de ser capaz. Depois a Luísa, tão desgostosa, um bocadinho arisca comigo, claro que ela sabe que eu não estou propriamente devastada pela dor. Como poderia estar? Este homem é para mim um estranho com quem fui obrigada a partilhar quase trinta anos. Não fugi a nenhuma das minhas responsabilidades. Limpei, cozinhei, mantive-lhe a casa sempre em ordem, fui séria e honesta, não abandonei a minha casa, mesmo depois da morte do meu pai, quando já não tinha medo da sua censura. Não, não o amei, mas como poderia amar este homem? Seria quase contranatura, ele não se fez para ser amado.  Por outro lado, não havia motivos para sair de casa. Ele estava tanto tempo fora. Só aos domingos almoçava connosco, mas saía à tarde. Era também aos domingos que explodiam os ralhos e as muitas tareias que aplicou aos rapazes, sem nenhuma razão que o fizesse prever. Às vezes bastava um olhar que ele interpretava como sendo desrespeitoso e ensinava-lhes logo uma lição que havia de fazer deles uns homens. Não sei se por isso, uma espécie de luta pela sobrevivência, se um apanhasse, podia ser que não apanhasse o outro, eles dividiram-se, nunca se aliaram. Quando um deles era contemplado com as lições do pai, o outro parecia respirar melhor, não era o seu dia, pois raramente havia dose dupla, e assim cresceram mais como rivais do que como irmãos. Nunca se aliaram contra o pai, que soube dividir para manter o seu poder.

Olho este corpo que se ergue de perfil à minha frente. Umas mãos muito brancas, agora sei o que quer dizer a cor cerosa dos mortos, os meus olhos enchem-se dela. Devia, por certo, estar mais transtornada, afinal sou viúva. De onde venho, isso é pior que morrer. É ficar desprotegida, é ficar sem sustento, é ficar à mercê dos homens, sujeita a que eles se aproveitem. É assim que se pensa. Aperto com força uma mão na outra, aperto a boca, alteio os ombros, tudo isto para não me rir. Ninguém, ninguém se vai aproveitar de mim. Ah, mas eu hei de aproveitar-me de alguém, a história que for contada depois será contada por mim. Tomarei nas mãos as rédeas do que houver de ser a minha vida daqui para a frente. Basta. Olho para o corpo e em mim só há vazio, vazio. Não há uma centelha de ternura, não há um arrependimento, não há um estremecimento perante a morte. Que prisioneiro choraria a queda dos muros da prisão à sua volta? Mas respeito, respeito consigo sentir. Morreu alguém. Como quando sabemos da morte de outra pessoa com quem nos cruzávamos na rua e lamentamos a alteração da nossa paisagem diária. Pobre homem, pobre mulher, ainda era novo, tinha filhos, vai fazer falta, e outras palavras vazias, de circunstância, que pronunciamos porque assim tem de ser, ninguém é tão frio que não se comova perante o fim, brusco ou anunciado, ou prometido, de um semelhante. Mas nem isso, nem isso consigo encontrar dentro de mim. Só alívio e engrandecimento, porque serei dona de mim. Não deixarei que ninguém, ninguém, interfira. 

É preciso encontrar alguém que se renda aos meus encantos de ainda, costumo observar-me ao espelho quando me dispo. As minhas ancas ainda têm o desejo de uma jarra que se estreita. Os meus seios ainda são firmes. As minhas pernas são longas. Os meus olhos são rasgados e sabem acender-se quando quero. E o meu cabelo. É um trunfo de que não desisto. Parece uma juba. Aprendi a agitá-los. Dizem-me tantas vezes que é um cabelo de causar inveja, eu sei que é. Não disse a ninguém, mas já o pinto há anos, não quis esperar pelos fios brancos. Nem um só quis ver. Fui-o tingindo e já nem me lembro da sua cor verdadeira, tenho quase a certeza que há de ser bem parecida com esta de agora. A minha pele é branca, branca. Fui abençoada com esta pele, e mais, é macia. Se até eu gosto de me tocar, de passar as mãos pelos meus braços, não haverá homens, um homem, capaz de pagar para o fazerem? Sei muito bem o que é que a ideia do pagamento faz de mim. Não importa, é só preciso saber fazer as coisas, manter um ar respeitável e aproveitar. 

O negro não há de ser para mim. Estes corvos que se sentam ao meu lado, já à espera de me envolverem nas suas malhas negras, já contando com mais uma para partilhar com elas as conversas feitas de murmúrios lamurientos, ai o meu homem, ai as dificuldades… As idas ao cemitério, as campas como prateleiras de floristas, para que se veja pelos botões de flores, pelas verduras, pelo tamanho, a dimensão da sua dedicação. Bruxas, bruxas. Não, não será assim. Há por aí mais mundo do que as paredes fechadas de uma casa, portadas cerradas, há mais luz do que a que banha as pedras brancas do cemitério, ferindo a vista destas viúvas que se deixam amarelecer, como se não se pudesse respirar a não ser através de um homem, de um marido. Apetecia-me cuspir-lhes em cima, gritar a minha revolta, a minha repugnância, o meu desprezo pelas suas dores, a sua desgraça, que infelizes, que coitadas, e gostam de ser assim e que as vejam assim. Eu não. Hoje fui libertada, tenciono viver essa liberdade, respirá-la juntamente com o ar. Viver dela e viver para ela. Estas que agora me estendem as mãos, que me dão pancadinhas na face, que suspiram à minha volta, hão de negar-me muito mais do que três vezes, hão de excomungar-me, hão de arrastar o meu nome pela lama. Mas hão invejar-me, hão de rilhar os dentes de raiva por não terem aquilo que eu vou ter.

04
Mar20

#12/2020 - O Carteiro de Pablo Neruda - humor e ternura em livro

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Carteiro de Pablo Neruda

Editora: Teorema

Páginas: 120

Género: romance

Adquirido no OLX - correu muito bem.

Para Guardar

"A poesia não é de quem a escreve mas sim de quem a usa"

 

Este pequenino romance lê-se de um fólego, e não é apenas por ter poucas páginas é porque nos embala em poesia. É, efetivamente, um romance maravilhoso, delicioso, enternecedor e comovente, plangente como um longo tango.

A ação do livro é sobejamente conhecida, sobretudo por causa do filme, que lhe faz a maior justiça, até porque o último recupera os diálogos fantásticos entre o poeta e o seu carteiro. Partindo da premissa que Pablo Neruda tem uma casa na Ilha Negra, recebendo copiosa correspondência, o que justifica que se abra um lugar de carteiro, ocupado por Mário Jimenez que, ao contrário da maioria dos habitantes da ilha não quer ser pescador. Estas circunstâncias insólitas levam ao nascimento de uma amizade improvável que nunca poderemos esquecer.

No prefácio da obra, o autor insiste em apequená-la, pela sua dimensão, comparativamente a outras obras de vulto suas contemprâneas, como Conversa na Catedral, de Mário Vargas Llosa, por se confessar um preguiçoso, por ter levado catorze anos a escrevê-la, mas, quanto a nós, foram bem gastos dada a beleza do resultado final.

A verdade é que Antonio Skármeta conseguiu criar duas personagens gigantescas. Se a Neruda nos rendemos pela sua grandeza história, a Mário rendemo-nos pela poesia do seu espírito, pela sua ingenuidade, pela sua capacidade de amar e de se deslumbrar, tanto perante Neruda como perante a sensualidade da sua musa Beatriz. O ritmo narrativo é marcado pelos diálogos desconcertantes (na perspetiva de Neruda) entre estes dois, que acabam numa amizade imortal, já que o poeta terá um papel fundamental na conquista da bela Beatriz. 

Destacam-se igualmente as marina da Ilha Negra. Aliás o livro é todo profundamente sensorial: as cores, os cheiros, os gostos, o tato, o olfacto, todos os sentidos são exacerbadamente convocados naquele ambiente, ao que se acrescenta o ritmo da música. Diria que é um livro que convida a ser lido a compasso das referências musicais que o pontuam. Há ainda o humor, a desenvoltura dos argumentos e contra-argumentos que as personagens vão digladiando, seja no âmbito da política, do amor, da música, das metáforas, da poesia. Por último, o pano de fundo histórico, os apontamento dessa tragédia que tem sido o devir do continente sul americano em geral e do Chile em particular: a ascensão ao poder de Salavador Allende, o consulado de Neruda em Paris, a atribuição do prémio Nobel, as greves, o golpe de Estado militar, a repressão, tudo ali se conjuga.

O Carteiro de Pablo Neruda, se me permitem a metáfora, é filigrana pura, é bordado delicado, é uma elegia, é prosa poética, é música celeste. A ler, a reler, o que quer que seja.

 

03
Mar20

Lista - Público: 30 anos de escolhas

livrosparaadiarofimdomundo

Partilho mais uma lista, e esta é tão interessante. É a opinião de gente entendida, o que tem as suas limitações. No entanto, podemos aplicar um método científico: quando um livro aparece em muitas listas pode ser que seja um bom indício da sua qualidade. Outro aspeto interessante é o facto de nos levar até um bocadinho atrás e de nos relembrar títulos que fomos deixando escapar.

Bom proveito. Se tiverem lido algum destes, deixem-me as vossas sugestões. Agradeço desde já.

 

https://www.publico.pt/culturaipsilon/interactivo/cronologia-livros-30-anos-escolhas?fbclid=IwAR2RFW7hoZOVZRHvBvfUgHVaOoeL8Uth0YfEzUNz6JkIFPynwu15wowIilc#29

02
Mar20

Eva Expulsa do Paraíso #2 - Leonilde

livrosparaadiarofimdomundo

A partir de hoje sou viúva. Oficialmente. O meu homem morreu. Não choro, como seria de esperar, não choro. Não há aqui motivo para choro. Não me casei por amor e nunca encontrei o amor depois de casada. Encontrei de tudo um pouco, mas nunca o amor. Respeitei este casamento, respeitei-me a mim mesma, respeitei os filhos deste casamento, respeitei tudo aquilo que se esperava de uma mulher casada. Fui virtuosa. Ninguém poderá sequer soprar a mais pequena suspeita sobre a minha conduta. A única coisa, nestes anos de suplício, que não consegui respeitar foi o meu homem, este meu marido que velo respeitosamente, como seria de esperar.

Morreste às tuas próprias mãos! Nunca fizeste muito na vida, mas dinheiro nunca faltou. Sou como uma senhora graças a ti. Pude adornar-me sempre do melhor, pude escolher o que queria. A minha imagem foi-se aperfeiçoando. Da rapariga rude que fui já não resta nada. Só as mãos não recuperaram a delicadeza, porque não houve tempo para serem delicadas. Foste buscar-me a casa dos meus pais, foi isso que aconteceu. Os seis meses que durou o nosso namoro, nunca foram gastos a namorar. Só se namoravas o meu pai, ou talvez fosse ele que te namorasse a ti. Pelo meio havia esse acordo, mais ou menos apalavrado, de que eu seria a tua mulher. O meu pai assim queria, a ti tanto se dava como se deu. Um homem tem de ter uma mulher, eu era uma mulher, portanto, podia ser eu. E o trabalho que o meu pai te poupava? Nem precisavas de ir procurar outra, nem sequer de lhe fazer a corte, não saberias como fazê-lo. O meu pai resolveu-te de uma assentada três ou quatro problemas que tu precisavas de ver resolvidos para cumprires o que se espera de um homem. Nunca olhaste para mim como um homem olha para uma mulher. Nunca vi desejo nos teus olhos, quanto ao amor, já estamos conversados, nunca soubemos o que era isso. Tentámos aprender com muita dificuldade e grandes tormentos a conviver um com o outro e, até morreres, nunca o soubemos fazer bem. O que aprendemos, logo na primeira noite, ainda se ouviam os risos e as conversas da festa de casamento, foi como nos insultarmos. A pior palavra que se pode dar a uma mulher, tu deste-me logo nessa noite, quando te atiraste para cima de mim, a cheirar a vinho, a balbuciar um discurso entrecortado de que eu não percebia metade das palavras. Quando tentei afastar-me, achando que o cheiro me havia de fazer vomitar, tu prendeste-me com as pernas e puxaste os meus braços para cima, com força, e disseste, quieta, puta. Depois foram as mãos, as pernas, a boca, tudo em ti me forçou e tudo eu suportei numa fúria que ainda agora me acelera o sangue. Não chorei, como seria de esperar, que eu não choro. Respondi-te com o que sabia, como qualquer carroceiro. Sempre fui boa observadora e aprendia depressa. Por isso não ficaste sem resposta, mas não sei se chegaste a ouvir os insultos que te dirigi, nunca te interessaste muito por mim, nem quando estava bonita, nem quando estava feliz, nem quando fui mãe, nem quando te insultava. Nessa altura, ainda não sabia dessa tua capacidade de indiferença, por isso usei tudo o que sabia, mas tratei de aprender mais, porque ocasiões de aplicar esses conhecimentos nunca me faltaram.

Mas o meu pai ficou feliz, tu eras o filho que ele não teve. Sete filhas! Havia lá desdita maior que pudesse atingir um pai de família. Oh, mas o nosso pai amava-nos, à sua maneira descabida, à sua maneira desajeitada, à sua maneira tirânica, amava-nos, ninguém duvidaria disso. Mesmo com sete filhas, a minha mãe pôde sempre dispor de mulheres a quem ele pagava para a ajudarem nas tarefas. Mas as filhas dele trabalhavam, era preciso preparar as mulheres para o governo da casa. Depois, quando começámos a ficar espigadas, a preocupação de nos casar e de evitar que ficássemos de barriga de um qualquer valdevinos tornou-se uma obsessão, uma preocupação, que ele começou a resolver de uma forma atabalhoada, como resolvia sempre os assuntos que o pressionavam. Assim que via um homem que a ele lhe parecia dar um bom genro, só faltava oferecer-nos diretamente, como as mercadorias que ele vendia de feira em feira. Eu era a mais velha, pela lógica teria de ser a primeira a ser despachada, a minha mãe deu-lhe sete filhas com pouco mais de um ano de intervalo e o meu pai não podia perder tempo ou correr o risco que algumas delas ficasse para tia, como ainda hoje se diz. Não sei se por seres o primeiro, se por seres o mais fácil de convencer, se por seres menos meu marido do que o compincha dele, tu foste o seu preferido até ao dia em que morreu. 

Estou viúva e hei de ser livre. Não hei de voltar a casar. Mas isso não quer dizer que não vá haver homens na minha vida. Agora posso tê-los à minha maneira. Bem vejo como eles me olham. Mesmo depois de vinte e quatro anos de casada, ainda olham para mim. Uma viúva relativamente jovem não pode deixar de despertar nestes homens caprichosos toda uma série de fantasias, e as viúvas têm medo de estar sozinhas e são mais dóceis e às viúvas não se tem que prometer muito, só o calor do corpo na cama que elas coitadinhas bem precisam de quem lhes aqueça os pés. Enganam-se, como seria de esperar, que os homens, tão convencidos que estão da sua força e superioridade e poder de decisão, nem se dão conta da facilidade com que as mulheres os governam. Eles são fáceis de governar, porque põem sempre a mesma coisa em primeiro lugar e nós sabemos muito bem o que é. Hão de vir, hão de vir e eu estarei à espera deles. Saberei esperar por aquele que mais me convier, saberei esperar por aquele que estiver disposto a fazer como quero e a dar-me o que quero.

Distraí-me um bocado e estas bruxas que me olham, a vigiar a minha conduta, ciosas da minha virtude e do cumprimento dos passos de uma viúva para que ela não faça nada que não fique bem, ainda hão de conseguir adivinhar o que penso. É melhor baixar a cabeça, não olhar para ninguém. Talvez dar uma olhadela de lado àquele homem de camisola azul que está de pé junto à porta. É cliente do restaurante há pouco tempo e seria uma boa aposta e vai-me comendo com os olhos. Talvez.

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