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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

04
Mai20

#18/2020 - Fim, Fernanda Torres - a ressaca da vida

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Fim

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 187

Origem: promoções do dia Mundial do Livro

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"Uma vez, li que a morte era o momento mais significativo da vida, e é mesmo. A minha foi boa, está sendo, não por muito mais"

Este livro já se tinha cruzado comigo algumas vezes e fiquei sempre com vontade experimentar. Fernanda Torres, como é sabido, é filha da atriz brasileira, A Senhora Fernanda Montenegro (vénia), ela própria atriz também que a minha geração conhece e recorda das telenovelas brasileiras. Essas circunstãncias deixavam-me curiosa. Quem - na minha persptiva - conhecendo o sucesso e a fama por via da representação se dá ao trabalho de se dedicar à escrita, um ofício tão penoso e tão angustiante? Não há nada mais steressante que uma folha em branco, seja a primeira página do livro, do estudo, do teste, da tese. A página em branco é uma tortura.

Acontece ainda que esta é a obra de estreia de Fernanda Torres e a "desgraçada" conheceu uma fortuna crítica muito, muito invejável. A raiva que dá romances de estreia assim. Além do mais, nomes sonantes da cultura "encomendaram" o livro com admiração: Mario Sergio Conti, Manuel da costa Pinto, Antonio Cicero, João Moreira Salles, entre outros. Consensual é o reconhecimento da mestria e da técnica narrativas da autora.

O livro conta-nos a história, ou melhor o fim da história de cinco amigos cariocas. Como o título anuncia - portanto não há aqui spoilers - estas cinco personagens encontram-se no fim da vida, aliás o romance narra o momento exato da morte de cada um deles, vivido e descrito com intensidade. Atenção, não há lamúrias, não há clichés. Há sim, reviravoltas, clarividências, arrependimentos também. As personagens estão longe, muito longe, dos heróis românticos que determinada literatura cultivou. pertencem todos eles muito mais à categoria de anti-heróis e, na sua fraqueza, cinismo, violência, deboche, boémia, não deixam de nos ser simpáticos. São homens, as plavras que os cinzelam nestas páginas são cruas, são verosímeis, são cruéis e brutais em alguns momentos, moralmente discutíveis a passos. O romance está dividido em tantos capítulos quantas as personagens, a técnica adotada oscila entre o fluxo de consciência e a hetero narrativa (não sei se isto existe), mas cada um dos amigos completa no seu capítulo a visão dos outros, sendo que, do conjunto, resultam retratos fragmentários, complexos e multifacetados. Intervêm ainda as esposas, as amantes, os filhos, as amigas das esposas, as cunhadas, as amigas das amigas. Uma galeria que compõe a trama e os retratos, sem que nenhum seja definitivo. 

O fluxo narrativo, o ritmo das frases, a linguagem genuinamente carioca, com expressões idiomáticas e a liberdade criativa - literária e linguística - que os grandes autores brasileiros cultivam e que aprendi a apreciar estão lá. Dou-vos um exemplo, a palavra "quitinete" - têm de ler com pronúncia brasileira para perceberem que é kitchenette. O livro é, no seu conjunto, de uma riqueza literária, estética, narrativa, humana e filosófica como é raro encontrar-se.

Vão por mim, se já se cruzaram com este livro, se ficaram interessados, não hesitem. Vale mesmo muito a pena. Quanto a mim, já tenho na lista de desejos o outro livro da autora. Fiquei mesmo convencida. Além disso, não sendo um livro extenso, prende tanto que, assim que o comecei, não consegui parar, recordando-me o verso de Álvaro de Campos que diz mais ou menos isto "pão sem tempo de manteiga nos dentes" - não o devorei, engoli-o num trago. Sou uma esbanjadora. Preciso de arranjar outro livro assim rapidamente.

P.S. Os livros que se sucederam este fim de semana têm entre si uma relação, casual, mas interessante. O primeiro, Uma vida inteira, narra uma vida mais ou menos por ordem cronológica, este Fim centra-se no fim da vida e a narrativa é em retrospetiva, seguir-se-á Lincoln no Bardo (que já comecei) cujas personagens se encontram no "bardo" em não tempo nem espaço imediatamente após a morte. "E esta, hein?"

04
Mai20

#17/2020 - Uma vida Inteira, Robert Seethaler: quando menos é mais.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Uma vida inteira

Editora: Porto Editora

Páginas: 120

Origem: recomendado por uma amiga, comprado nas promoções do Dia Mundial do Livro (diga-se de passagem, bem fraquinhas)

A propósito de uma reunião ZOOM, uma colega falou-me que ia ler este livro, recomendado por outra colega. Uma espécie de favores em cadeia. Fiquei interessada, fui procurar a sinopse e mais interessada fiquei. No dia Mundial do Livro, aproveitando os vinte por cento de desconto oeferecidos na wook, comprei o livro. chegou-me às mãos no dia 30. Comei a ler no dia 1 de maio, por volta das 21:00. Não dormi sem o terminar. É um daqueles casos em que, com menos, se fez mais, muito mais.

O livro é todo em tom menor: é um opúsculo, são 120 páginas; o seu protagonista é um homem comum, com um destino comum. Não, não modificou o destino do mundo, não desempenhou um papel fundamental no decorrer dos grandes acontecimentos que presenciou ou viveu. É protagonista da sua vida simples. E é aqui que se coloca a primeira interrogação, afinal o que é uma vida simples? A verdade é que Egger conheceu e viveu tudo aquilo que costumamoss intgrar na perspetiva de uma vida complexa e preenchida: a violência, a superação, a doença, o amor, a dor, a felicidade, a privação, a violência, o progresso, a solidão, a fome e a fartura, a posse e a perda, o sonho e o devaneio, a poesia e o romantismo, um olhar apaixonado e vibrante, um olhar despojado, distante e indiferente, a fúria da natureza e a sua inegável beleza, o assombro perante a simplicadade e a sensação de esmagamento perante o que não se controla, a guerra e a destruição, o mistério e o inédito, a morte. Conclusão, ao contrário do que se julga e acredita, a vida não é simples, não há vidas simples. a condição humana tem no seu ADN a universalidade.

Esta obra, que vou apresento assim de rajada, oferece-se a imensas perspetivas e reflexões. O ponto de partida pode ser este: quando um escritor, um romancista, nos consegue desta forma despojada, poética é porque é um mestre da escrita e estamos perante uma obra maior. Este pequeno romance é como um Haiku - funde no mesmo relato o individual e o universal, o instantâneo e o eterno. Na capa da edição que li, vem o testemunho de Margaret Atwood asseverando a qualidade da escrita. Sempre é uma recomendação de alguém que conhece o ofício. Há ainda uma série de "atestados" da grandeza e da importância da obra, que servem para, pelo menos, entendermos que se trata de um fenómeno comum: ficar-se rendido a este relato.

No entanto, não se pense que a escrita é pouco interessante. Nada disso. O ritmo da frase é envolvente, a beleza da escrita é tocante, a imersão na vida de Egger é intimista e delicada. Há uma espécie de silêncio que perpassa pelas páginas do livro, espelhando - digo eu - a forma quase anónima como o protagonista atravessa a sua existência. 

Melhor, muito melhor, do que estarem aqui a ler a opinião de outrem sobre o livro é não perderem mais tempo e correrem a lê-lo. Afinal as livrarias reabrem hoje e este seria um livro perfeito para ler neste momento histórico que atravessamos e que também tem algo de inédito e que também nos obrigou a regressar a uma certa forma de despojamento e simplicidade. Também seria uma forma de marcar esta fase em que agora entramos: no dia em que recuperamos a possibilidade de repetir gestos simples como entrar numa livraria, mas que significado tomou, li um livro simples que significou muito. Experimentem, não se vão arrepender.

 

P.S. No dia Mundial do livro, o Sapo publicou uma lista de "pequenos livros" para ler de uma assentada. Este não constava, podíamos acrescentar, também não estava lá o Carteiro de pablo Neruda, nem Crónica de Uma Morte Anunciada, nem Morte em Veneza e tantos outros. As listas devem ser encaradas como formas de completarmos as nossas listas.

P.S. II Este livro recordou-me outro que li há tempo de que gostei muito e que também recomendo, porque os livros dialogam, porque são sobre a vida e sobre a morte. Também não constava d alista de livros para ler numa ssentada (o limite eram as 200 páginas), mas podia...

Wook.pt - A Morte de Um Apicultor

A BELEZA DA VIDA FRENTE AO SOFRIMENTO FÍSICO
João Mendes | 13-06-2016

Uma obra aparentemente simples mas de um sentido profundo e simultaneamente perturbador.

Citação da página da Wook.

Pág. 2/2

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