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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

07
Dez20

#42/2020 - Tu não és uma mãe como as outras, Angelika Schrobsdorff: afinal, em 2020, li um livro sobre o holocausto.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Tu Não És Como as Outras Mães

Editora Alfaguara

568 páginas

Emprestado

Neste post, convergem uma série de coincidências e de circunstâncias que não deixam de ser curiosas. Desde que li Se isto é um homem, de Primo Levi, passei a ter alguma dificuldade em ler livros sobre o holocausto, por crer que só quem o viveu pode efetivamente dar dele testemunho, tudo o resto, se não for cuidadoso, serão exercíos arriscados. Talvez aqui a literatura perca um pouco para o cinema, porque o segundo pode contar com a força das imagens, como esse admirável A Lista de Schindler. Depois de Levi, li ainda Os loucos da rua Mazur, de Joaõ Pinto Coelho e a verdade é que o livro me despertou um interesse genuíno, muito pelo facto de nos dar uma perspetiva que se tem tentado silenciar: a de que os nazis tiveram também os seus apoiantes na Europa que iam esmagando. Acontece também por estes dias a publicação de um livro de José Rodrigues dos Santos, cujas observações a propósito de um entrevista têm merecido alguns posts nas redes sociais, no mínimo "entusiastas", mas, segundo li, ele pô-se a jeito, mas sobre este livro não me alongarei, porque não o li, nem tenciono lê-lo, pelo menos para já. E li, nesta última semana, este livro de Angelika Schrobsdorff, cuja ação decorre entre os anos da 1ª Guerra Mundial e os últimos anos da década de 40, do século XX.

Angelika dá-nos um relato simultaneamente familiar e universal. A vivência de Else, a sua mãe, corresponde à experiência de muitos judeus que eram identitariamente alemães, bem mais próximos do rigor, da disciplina, da ordem, da limpeza, da cultura riquíssima, da literatura, da música alemãs do que propriamente das suas raízes judaicas. As ondas de choque da Primeira Guerra Mundial não chegaram talvez a ter grande impacto na vida de muitos alemães (judeus ou não) e terá havido uma classe social que continuou a sua vida um pouco alheada do que ia contecendo à sua volta, imersos em rotinas que aparentemente contribuíam para essa ilusão de que as coisas continuavam iguais. Enquanto assim viviam, o nacionalismo e o nazismo iam crescendo e os éditos que comprometiam a sobrevivência dos judeus iam-se sucendendo e apertando o cerco em torno a muitos alemães que continuavam incrédulos de que a infâmia pudesse ser levada tão longe.

Else e as filhas, Bettina e Angelika, devido ao seu casamento com um alemão acima de qualquer suspeita, semi convertidas ao cristianismo, vão sendo poupadas até que a fuga da Alemanha se impõe como a única hipótese de sobrevivência. Através de um casamento de fachada com um búlgaro, refugiam-se na Bulgária, onde sobrevivem numa escalada de privações aos anos mais negros da Segunda Guerra Mundial e da ascenção e glória do nazismo. Mais uma vez, os búlgaros apoiaram os nazis quando estes chegaram ao seu país.

O romance - custa-me um pouco esta designação pela autenticidade da história - oferece-nos um valioso testemunho biográfico sobre esses anos da história da Alemanha e da Europa. Nem todos os romances sobre este período podem ser sobre os campos de trabalho, as câmaras de gás. Nem todos por lá passaram, lá morreram ou lhe sobreviveram, mas isso não quer dizer que não houvesse outros dramas a serem vividos. O desenraizamento, a perda de identidade, as fraturas familiares, as privações, o sofrimento, a perda de familiares e amigos, separações que nunca mais puderem ser superadas, a pobreza, a miséria, são outras tantas faces destes anos, outras formas de morte psicológica.

Há no livro três aspetos que me tocaram. O primeiro é o destino dos avós judeus de Angelika. O avô morre já no auge da perseguição dos judeus e acaba por ser poupado. A avó conhece ainda um campo de concentração, ali perecendo. Outro tem a ver com o percurso de Else, de uma vida de boémia, de procura de prazeres, da vida em pleno, da liberdade, do amor, guiada sempre mais pelo coração do que pela razão, a uma consciência dos limites humanos, da nossa profunda fragilidade, da ausência de certezas, da insegurança em que verdadeiramente vivemos, da própria imperfeição da humanidade, da falta de limites para aquilo que os homens podem fazer uns aos outros. No final da vida, percebe-se que Else conhece o despojamento para se centrar apenas no amor pelos filhos e é isso que ela é acima de tudo: mãe dos seus filhos. Por fim, a frieza de Angelika, porque, na verdade, a descida aos infernos não é garantia de sairmos de lá mais aperfeiçoados, o conhecimento do horror tem um impacto sobre a nossa humanidade que, a menos que façamos o caminho, nunca poderemos ajuizar. Voltemos a Levi: quando é que deixamos de poder dizer que somos homens, até quando aguentamos o nossa dignidade quando estamos privados de qualquer alento?

Recomendo vivamente esta leitura acima de tudo por ser um relato de quem a viveu e isso confere uma habilitação que poucos escritos ficcionais sobre o holocausto parecem ter, numa proliferação nos escaparates das livrarias que nos levanta algumas suspeitas de que mais não sejam do que um aproveitamento de um episódio histórico - trágico, sórdido, desumano que nos deve continuar a colocar questões cruciais, sobretudo de memória - que é tratado como a última receita literária mais rentável.

 

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