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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

28
Jan21

A morte saiu à rua? Não, anda por lá a passear-se

livrosparaadiarofimdomundo

Não sei se aconteceu o mesmo a muita gente, mas a minha perceção disto tudo mudou drasticamente em pouco tempo. Como eu - porque há imensa gente assim - haverá por aí pessoas que cumpriram religiosamente tudo o que foi determinado. Apesar de trabalhar em educação, a minha função obrigou-me a sair de casa todos dias para trabalhar. Cumpro e esforço-me para que sejam cumpridas as regras de segurança. O espaço escolar tem menos um centímetro de altura tantas são as vezes em que o chão é limpo, as superfícies são desinfetadas. Depois do trabalho - durante todo o verão - não tomei um café, não me sentei numa esplanada, não fui a um restaurante - digo-o não como quem se lamenta, mas como quem o fez com a naturalidade que os tempos exigiam. Não fui a um centro comercial, as compras que fiz foram online, abusei talvez nas idas aos viveiros de plantas. De resto as minhas saídas foram perfeitamente justificadas pela necessidade.

Inciei o novo ano letivo cheia de esperança. As aulas no 1º período decorreram com muita tranquilidade, apesar de uns miúdos mais resistentes que teimavam em proteger-se da papeira em lugar da COVID-19. Os casos de contágio que surgiam eram absolutamente esporádicos, aqui e ali, às vezes, lá ia uma turma para isolamento. Nunca houve um surto. Continuamos a fazer uma vida sobretudo muito doméstica, mas, sinceramente, muito agradável, sem qualquer custo. Chegou dezembro e abriu-se a caixa de pandora.

Hoje, mesmo aqueles que chamaram a isto uma gripe, os que falaram de todas as teorias da conspiração, os que não quiseram saber, os que sairam, os que ainda hoje arranjam qualquer pretexto para furar o esquema, mesmo esses não podem deixar de estar esmagados com estes números. Faço contas de cabeça e imagino este número: numa semana, morrem - morrem - cerca de 1500 pessoas. E multiplico estes números por aqueles que amam estes mortos, que se deparam com estas perdas: 1500 esposas, 1500 maridos, 1500 filhos, 1500 pais, 1500 avós, 1500 amigos, milhares de vidas humanas perdidas, amputadas, separadas. Hoje oprime-me esta sensação de que a morte anda à solta na rua e que se vai aproximando, que nos vai cercando e que, quem sabe, se aproxima já dos nossos, insidiosa, indiferente, cega como a justiça. A morte anda aí.

Foi o pai que deu entrada no hospital e de quem as filhas não se puderam despedir, nem era COVID-19, era até outra coisa, mas os serviços estão pressionados e falta tudo e, não, eu não estou aqui a falar mal do SNS. Se a alguém falta motivos para pedir alguma coisa, peçam o SNS a funcionar, de forma deficiente? Digam-me que serviço de saúde aguentaria estes números? Foi o fotógrafo jornalista que toda uma pequena comunidade conhecia, a sua figura que andava pelas ruas da sua terra, identificando-se com ela e reproduzindo-a pela sua objetiva. Ouvimos falar destas mortes, como tiros de uma batalha que soam cada vez mais perto e o que sentimos começa a ser medo e a prece antiga que nos faz pedir pelos nossos. Foi a mãe internada a quem não foi possível dar um último beijo, foi a avó que foi sepultada sem que lhe fosse permitido usar a roupa que ela tinha escolhido e dito que queria usar na sua última viagem. 

A nossa existência é cinzenta agora, estamos cansados, estamos todos um bocadinho doentes, estamos todos muito mais tristes, estamos todos muito mais sós e, muitos de nós, nunca mais se hão sentir próximos daqueles que lhes alegravam os dias. Não sei se é pior que uma guerra, porque, felizmente, não conheço esses teatros, sei que é suficientemente mau e volto aos números 11608 mortos, fora os danos colaterais, incalculáveis, creio eu. Todos os dias os casos ativos crescem e fazem crescer não a avaga, mas o maremoto que engole as nossas esperanças. 

20
Jan21

As migalhas são de graça

livrosparaadiarofimdomundo

Estávamos nós ali atrás a ansiar pela passagem de ano, acreditando mesmo, mesmo que doze badaladas seriam com uma rajada de metralhdora sobre tudo aquilo que nos custou no ano mais longo de que muitos de nós têm memória. Afinal quem vivia mal, passou a viver pior, qum vivia bem, passou a viver pior - é reconfortante acreditar que foi assim - quem vivia muito bem, pelo menos não pôde sair de casa. 

E vem 2021 e entrou a pés juntos, esse bruto: morreram Carlos do Carmo e João Cutileiro, tivemos uma vaga de frio que nos ia congelando a alma, os americanos estão mesmo doidos e os mais doidos invadiram o Capitólio e agora os americanos têm de se proteger dos americanos God doesn´t save America, o estupor do vírus não nos largou e ficou ainda mais virulento, morreram em Portugal nos primeiros vinte dias do ano mais de dois milhares de pessoas só por causa desta pandemia que está cada vez mais pandémica, voltamos todos a confinar, está tudo fechado outra vez - estou a exagerar, eu sei - fala-se de novo no encerramento das escolas e a minha alma fica mais gelada do que ficou por causa da vaga do frio, temos medo, muito medo - estou a exagerar, eu sei, há gente que não tem medo nem vergonha, nem noção, nem senso de noção, mas não posso ir por aí, senão ninguém me segura e eu sou uma senhora - temos pouco orgulho do nosso país, fianlmente percebemos a importãncia do SNS e porque é que alguns setores da sociedade não podem ser privatizados. É difícil, até para uma otimista patológica como eu sou, manter-nos positivos. Ups, agora é mau estar positivo. Rephrasing: é difícil mantermo-nos, chega assim.

Ficam as migalhas: os almoços na sala de professores, com toda a gente a comer de caixinhas, mas com um clima muito simpático, a conversar animadamente, a rir, meu Deus, a rir; a manutenção, a prazo, das aulas presenciais, até gostamos mais dos alunos na quase-hora da despedida; o fim de semana com sol, que deu para ler no alpendre, para cuidar das plantas de exterior e que despertou o desjo de ir ao horto comprar amores-perfeitos e toda a qualidade de plantas que floresçam na primavera - mas não fui, que eu sou cumpridora e faço tudo para manter as escolas a funcionar, faço a minha parte e nem sei se chega; as visitas muito esgarçadas à mãe e ao pai; as refeições em família, a quatro, animadas; a sala de aula com os meus meninos que me recebem sempre com ânimo, doces como alguns conseguem ser; a senhora da banca da fruta, tão humilde (no bom sentido), tão amável, tão atenciosa, que corre a abrir outro saco de cebolas, que pede desculpa por não ter mais coisas de encher o olho; os que dizem que gostam de nós, os que dão a palavra amável, os que são solidários; as anedotas para antologia, como aquele aluno que, tendo faltado por uns dias, quando questionado sobre o motivo da ausência, mentiu, dizendo que tinha sido operado ao apêndice e, ao ver que a professora lhe pedia para ver a costura, disse, na sua ingenuidade (ou não) que se tinha esquecido dela em casa.

São migalhas de um quotidino de chumbo, mas podemos fazer como nos diz o aforismo da pedra, não um castelo, mas podemos amassá-las e fazer um pão e comê-lo com a gana de que nos fala Álvaro de Campos: comê-lo sem tempo de manteiga nos dentes. São migalhas, mas pelo menos são de graça.

19
Jan21

#3/2021 - Adeus, até amanhã, de William Maxwell: pequenas obras, grandes prazeres

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Adeus, até amanhã

Sextante Editora,

140 páginas

Espero que ninguém consiga ler as letras pequeninas, mas, apesar de ter prometido que, em janeiro, só leria livros que tivesse começado e posto de lado, este comprei-o. Tenho uma desculpa, tinha um desconto de 5 euros na Wook e o livro custava 6 e qualquer coisa, mas depois achei que pagar só 1 euro era indecoroso e comprei outro e gastei 14 euros, mas fiquei feliz, os livros tinham desconto. Já sabemos que 2021 não é mais meigo que 2020, o que se vê nestes pequenos dissabores.

Não me consigo lembrar onde é que li sobre este livro, mas eu não sou difícil de convencer e, sempre que um livro é anunciado com epítetos como "um pequeno romance perfeito", uma leitora compulsiva sente-se como uma solteirona a quem dizem que vai ter um date com o George Clooney, porque a Amal vai trabalhar até tarde. Ninguém resiste.

Adeus, até amanhã tem tudo o que eu gosto num livro, uma escrita maravilhosa, maravilhosa, repito, porque só uma vez pode parecer pouco convincente. Faz lembrar a poesia de Fernando Pessoa, cuja simplicidade de vocabulário é desarmante, mas que atinge uma complexidade quase impenetrável (que o digam os alunos do Secundário). Num estilo límpido, pouco ornamentado, fluido, mas com uma linguagem cuidadosa, o autor acompanha os fragmentos do passado que o marcaram de forma indelével. A memória é a estratégia narrativa dotada e, já se sabe, a memória é a memória da memória, é uma reconstrução, é uma tentativa de reorganizar, de criar um mundo a partir do caos. 

O narrador volta-se para um episódio da infância que o marcou para a vida, gravando no seu espírito a culpa, a perda e o arrependimento para sempre. Voltar-se para o passado é interrogá-lo, é uma tentativa de o superar, de o compreender, de o corrigir, não quer é dizer que a tentativa seja bem conseguida. Dito assim, pode parecer pouco, mas este romance, apesar de o seu tamanho é monumental. Está ao nível de um Tolstói das novelas, é depurado, seco, duro, mas de uma sensibilidade incomparável, tudo é tão delicado, tão frágil, tão assustador, tão incompreensível e também tão cruel.

Desprendem-se destas páginas fiapos de uma certa América, rural, fechada, machista, pobre, inculta, onde as crianças trabalham nas quintas arrendadas pelos pais desde cedo, em que a escola rouba tempo às colheitas e aos animais, em que os homens parecem vazios de sonhos e, quando conhecem a paixão, ela só pode ser trágica, porque é desmedida e incontrolável. Em que as mulheres se esqueceram da sua feminilidade, até que ela surge nos espelho dos olhos de alguém e se descobrem merecedoras de viver a paixão que nem sabiam que podia ser sentida. Em que a mentalidade é muito pouco cosmopolita, em que Deus e a Igreja ocupam um espaço que castra e condicona. Em que o estigma da homossexualidade espreita e devora quem é um pouco mais sensível. Em que a morte, o abandono e a degradação estão omnipresentes, em que a queda se anuncia e se precipita como uma avalanche, sem apleo, sem remédio, sem redenção.

A pergunta que vos incomoda neste momento é, decerto, como é que um livro de pouco mais de cem páginas pode ter isto tudo e um pouco mais que não consigo exprimir em palavras? Porque é perfeita, porque é um exemplo de que menos, embora raramente, é mais, muito mais. é um livro lind´ssimo, delicioso, precioso. Gostei tanto.

PS: também foi uma sorte ser tão pequeno. A minha concentração anda em níveis assustadores de tão baixos, estou praticamente em coma, ou pelo menos, vivo como se tivesse sido programada para desempenhar as funções que me ficaria muito mal não desempenhar. Mas ler este livrinho ressuscitou-me um bocadinho, oxigenou-me este cérebro intoxicado de negativismo, de desesperança nesta humanidade que naõ conseguimos sublimar. Que os livros nos salvem um bocadinho.

07
Jan21

E depois de tudo... a barbárie.

livrosparaadiarofimdomundo

Comecei este texto várias vezes. Apaguei o que tinha escrito e recomecei.

Como é que se escreve sobre a invasão do Capitólio na América? 

A invasão do Capitólio é como um sudoku: de todos os lados, ângulos e colunas o resultado é sempre barbárie.

Um presidente democraticamente eleito que se recusa a respeitar o regime que lhe permitiu exercer o seu mandato como quis, que incentiva o seu próprio povo a desrespeitar as instituições, que apela à violência dos seus apoiantes para fazer valer o seu apego ao poder: isso é barbárie.

Uma multidão que força barreiras, que invade, que trepa paredes, que grita, que urra, que destrói, que ameaça, enquanto calcorreia os corredores da casa da democracia, reiterando que o espaço lhe pertence ao mesmo tempo que o conspurca: isso é barbárie.

Uma multidão que vandaliza, que ocupa alarvemente , que se bestializa e, ao mesmo tempo, vai tirando selfies, vai gravando, vai filmando para depois, eventualmente, partilhar orgulhasamente as imagens de que são capazes: isso é barbárie.

Um mandato presidencial que termina com o Capitólio vandalizado como qualquer prédio devoluto: placas arrancadas, estátuas pintadas, pés em cima de secretárias, vidros partidos, sujo, com fumo a sair pelas janelas: isso é barbárie.

Li em vários fóruns "this is not América", mas a verdade é que é, aconteceu na América. quem há de ser chamado para garantir que a democracia é restaurada? A América terá de salvar a América. A América é, hoje, um país a ferro e fogo; é, como alguém terá dito, um país de Terceiro Mundo com cinto Louis Vuitton.

Não sou americana, sei perfeitamente que a barbárie grassa pelo mundo inteiro, mas não costuma ser ali. A América é a terra de todos os sonhos, de todas as oportunidades e as suas instituições têm tentado garantir isso. O que se viu ontem é o colapso de um mito, a invasão dos bárbaros outra vez, a queda de um império, os pés de barro do ídolo, Nero a incendiar Roma, a repetição dos piores momentos da história: o regresso à barbárie.

Não é connosco, mas é com todos nós, é o crescimento descontrolado dos discursos simplistas, demagógicos, populistas, que fundem meias verdades com vulgares mentiras, que se alimentam da ignorância, da preguiça mental dos usuários das redes sociais, da ausência de espírito crítico: é a barbárie.

Resta-me, hoje, recomendar-vos a leitura como panaceia, tal como refere Maria do Rosário Pedreira no seu blog, de que vos deixo aqui o link:

https://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/qi-e-leitura-629110

Ou então, fazer como Arturo Pérez-Reverte, refugiar-me na minha biblioteca, embebedar-me de humanismo, como o autor sugere neste video:

https://rr.sapo.pt/video/113933/o-refugio-dos-livros-do-antigo-reporter-de-guerra-arturo-perez-reverte

Enfim, arranjar maneira de lavar os olhos.

05
Jan21

Às vezes também vejo séries#2: Alguém tem que morrer (minissérie Netflix)

livrosparaadiarofimdomundo

Alguém tem que morrer": com Ester Expósito, saiba tudo sobre a nova série  da Netflix - Purebreak

 

Gosto muito de minisséries. Não vejo séries com 250 temporadas, fora os anexos.

Algém tem que morrer é uma minissérie espanhola, em exibição na Netflix, com apenas três episódios, de cerca de 50 minutos cada. Dá para um serão bem passado. É de uma intensidade dramática capaz de nos pregar ao sofá, sem falarmos, às vezes sem respirarmos, mas indiferentes nunca.

Começo pelo título, muito bem achado, e que, quanto a mim está mais voltado para o espectador do que para a intriga. Alguém tem que morrer é aquilo que somos levados a pensar assim que o primeiro episódio se inicia: há muita tensão, há muita sisudez, há muita violência contida e explícita, há muito poder, há muita subjugação, há muita arma, para que no final todas as personagens sobrevivam aos acontecimentos cujo avanço mais não faz do que criar a sensação asfixiante de que aquilo só pode correr mal.

Ambientada na Espanha do pós-guerra, fechada, conservadora, homofóbica, retrógada de Franco, a ação coloca duas famílias do regime, movidas pelos interesses comuns - se o chefe de família da primeira gere prisioneiros, em especial aqueles acusados da degeneração ligada aos amores homossexuais; o segundo explora uma fábrica de calçado, impusionada pela mão de obra gratuita que recruta através do amigo. Se o primeiro é pai de um filho e o segundo pai de uma filha, nada melhor do que combinar-se o casamento e serem todos felizes para sempre. Se há um segredo de família - ou vários - porque no melhor pano cai a nódoa - é preciso fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para o sepultar para sempre e não permitir que a sua revelação coloque em causa o status quo: se for preciso mata-se, se for preciso exila-se, se for preciso tortura-se, se for preciso trai-se, se for preciso mente-se, se for preciso bate-se. Caso seja necessário satisfazer o desejo de poder, o desejo de brilhar, a incapacidade de se ser contrariado, recorre-se sempre aos mesmos processos.

E o que é que fica pelo meio? Os elos mais fracos; aquele que voltou as costas num momento de imprudência, aquele que testemunhou, aquele que ama, aquele que é a esposa submissa, aquele que é cônjuge de um preso político, aquele que não convém e, em especial, aquele que vinha só para ver as vistas e foi apanhado no tornado.

As personagens frequentam um clube de elite, cuja principal atividade -além daquela mais velha do mundo: ver e ser visto, manter-se na berlinda, afinar a aceitação - é o tiro aos pombos. E há neste desporto predatório toda uma mise en abîme da série. Se não estás do lado daqueles que seguram a arma, é porque estás no lado da presa, se não atiras, és alvo. Aliás a omnipresença das armas, do som dos tiros só agudiza esse ambiente opressivo em que as personagens dominadas vivem. Só há uma forma de escapar: matar ou morrer.

Poupo-vos os pormenores técnicos, quem é quem, garanto-vos que o desempenho artístico dos atores é bastante bom, os figurinos também, a frieza do ambiente outonal igualmente. Vejam a série, é muito interessante, pertinente, atual - afinal há por aí países em que foram aprovadas leis homofóbicas bastante recentemente - e põe-nos a pensar em que sociedade queremos viver, para não adormecermos no embalo das demagogias. Eu gostei!

03
Jan21

#2/2021 - A Guitarra Azul, John Banville: da memória como tema literário

livrosparaadiarofimdomundo

Porto Editora

239 páginas

Leitura terminada

Este romance andou por aqui sem estar terminado cerca de dois meses. Ia tão bem e, de repente, pu-lo de parte. A razão por que ponho um livro de parte pode ser tão ridícula como querer ler e não me apatecer subir as escadas para ir buscar  o livro que estou a ler e começo a ler outro, coisas assim. Faltava muito pouco para o terminar, não encontro explicação.

John Banville foi dos poucos escritores de quem li mais de um livro em 2020 (2021...?). Gostei tanto de O Mar, que comprei este A Guitarra Azul. Narrado na primeira pessoa, acompanha o fluxo da memória de Oliver Orne, desde o momento em que foge de casa, devido ao facto de ver descoberta a relação extraconjugal que mantém com a mulher do seu melhor amigo. Desiludam-se, o livro é muito mais do que a descrição deste triângulo amoroso, é sobretudo uma viagem ao centro de si mesmo, crua, despudorada, sem filtros, como já contecia no romance anterior. O narrador/protagonista abre o romance refeindo-se à sua cleptomia, o desejo de possuir coisas dos outros, apropriando-se delas de maneira subtil e dissimuladamente. Polly, a sua amante, surge como mais uma posse que se lhe impõe a partir de um jantar em que Oliver fica quase obcecado por ela.

Partindo deste motivo, Olly revisita a sua infância, a relação quer com o pai quer com mãe, mas também com a irmã, com a sua arte - é pintor - e com o bloqueio que o domina no presente, o seu casamento com Glória, o impacto que a morte da sua filha teve sobre ambos, entre outros episódios que, longe de o caracterizarem, mais esborratam as tintas e mais diluídas parecem as linhas.

Outro aspecto interessante,  e que eu valorizo sempre muito nas minhas leituras, é o constante reenvio para objetos estéticos exteriores ao próprio livro: obras de pintores famosos, poemas, livros, que continuamente espelham o momento ou o episodio abordado no livro. A memória nas suas diferentes aceções é tambem um tópico literário que me desperta muito interesse e, neste romance, cruzam-se várias memórias. Também a força da linguagem, a mestria no domínio das palavras, medidas e pesadas para ocuparem o seu lugar na frase - aspeto reconhecido em muitas das críticas sobre este livro - é notória. Aplica-se a estas páginas a metáfora da filigrana: delicados fios que são soldados uns aos outros para formar um objeto muito maior, um padrão, é isso que acontece neste livro.

A guitarra azul  foi mais uma experiência de verdadeira literatura, um objeto estético exigente. 

PS. Há também no livro uma ambiência tipicamente irlandesa: do chá, do frio, da chuva, das relações sociais, de que também gosto muito, talvez por causa das minhas memórias das leituras de Enid Blyton.

02
Jan21

#1/2021 - Torto Arado, Itamar Vieira Júnior: mirar o passado para não perceber o presente

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Torto Arado

Editora Leya

279 páginas

Comprado

Esta primeira leitura de 2021 é devedora de 2020, porque a verdade é comecei ainda em 2020, mas terminei, numa tarde bem passada do dia 1, já a estrear o novo ano literário. Quem leu as minhas resoluções para 2021 perceberá que já cumpri uma nano parte: terminei um livro que estava começado em casa (sou tão ardilosa nestes esquemas mentais). Sabe-me sempre a um regresso a casa ler literatura brasileira, a pátria da minha especialização em Estudos Românicos, mas é sempre um regresso sofrido, porque o povo brsileiro parece votado a um desígnio de sofrimento e privações que nada parece poder por fim, nem a política nacional, nem a internacional, nem a cultura, nem os homens de boa vontade.

A biografia deste livro é já ilustre, começou por ser o vencedor do prémio Leya, foi depois galardoado com o prémio Jabuti e com o prémio Oceanos. Assim sendo, é uma aposta segura, não pode andar tanta gente enganada.

Torto Arado é marcado pela ambivalência: é uma leitura aparentemente fluida - não leve, mas fluida - mas que pesa na alma, se a alma for sensível e humanista, não podendo ficar alheia ao sofrimento do outro; é uma obra que remonta ao passado do Brasil, num período em que a escravatura já tinha sido abolida, mas que persistiu sob outras formas de subjugação, que está na génese dos movimentos dos Sem Terra, que nos é devidamente explicado nas suas raízes históricas, sociais e culturais, porém aponta para o presente e para as muitas fraturas e assimetrias que estão longe de ser sanadas - daí o título do post; a ação decorre no Estado da Bahia, numa fazenda que beneficia dos terrenos férteis irrigados pelas águas fartas de dois grandes rios, mas é centrada nas pequenas roças e aglomerados que foram nascendo do trabalho árduo das mulheres enquanto os homens trabalhavam para o senhor da fazenda; é uma obra protagonizada pelas mulheres, cuja submissão e subjugação é igualmente ambivalente, mas não deixa de equacionar a dureza, a miséria e a insegurança que atormentam igualmente os homens; é no Brasil, mas já foi ou continua a ser em qualquer ponto do globo, já que "sobre a terra há de viver sempre o mais forte" - é preciso descobrir quem o é efetivamente, daí a sua universalidade.

A narrativa conjuga os pontos de vista de duas irmãs sobre a sua história comum: Bibiana e Belonísia, flhas de Zeca Chapéu Grande, o curador do terreiro que dá corpo aos encantados que estruturam a vida espiritual da comunidade da fazenda, negros que se dizem índios para não serem expulsos das terras. As irmãs ficarão unidas por um laço ditado por um acidente de infância, mas também se desunem e voltam a unir por causa de pequenos episódios, mágicos, oníricos, encantados, quotidianos, simples, que ditam as suas/nossas escolhas e caminhos. Todas as personagens partilham uma cosmovisão mágica, generosa, idílica, submissa, mas inocentes dessa submissão, acreditando que o facto de o senhor permitir que tenham a sua roça é motivo de gratidão e desígnio para a sua froma de vida, nem sequer percebendo a sua própria indigência nem a verdade das suas prorrogativas.

Torto Arado ilustra bem o cadinho cultural que é o Brasil, uma herança que não pode ser negada, esquecida, obliterada, justamente porque nos ajuda a perceber algumas das fragilidades do presente deste país, mas também do mundo. O brasileiro tem, desde a origem e mercê das suas raízes índias e africanas, um pensamento mágico, crê nele e orienta-se pelos seus ditames e isso não foi ainda expurgado dos tempos que se vivem no Brasil. Além disso, desafortunadamente, as condições de vida de muitos dos seus habitantes não mudaram tanto assim, as vagas de imigrantes que chegam a Portugal à procura de um lugar de ser são a herança de um povo em êxodo à procura de uma terra prometida, chame-se ela Àgua Negra, Lisboa, ou outra coisa qualquer.

Como os livros dialogam, recomendo, a propósito deste, a leitura de dois outros que se contam entre os livros da minha vida: 

Wook.pt - A Guerra do Fim do Mundo      Wook.pt - Grande Sertão: Veredas

Este tríptico ajuda-nos a compreender e a conhecer o Brasil.

E no fim de tudo... os bons livros!

 

 

 

01
Jan21

Resoluções 2021 - só para cá voltar no fim do ano a ver...

livrosparaadiarofimdomundo

Efetivamente, depois de a Terra ter completado as suas 365 voltas em torno dos eu próprio eixo, somos tomados por esta sensação de recomeço, de que podemos emendar, de que podemos mais e melhor. Eu, a otimista, creio que, se houver um dia no ano em que nos propomos a mais e melhor, esse dia é sempre um ganho.

Em dia de resoluções, as que trago a um blog que está sobretudo voltado para os livros e as experiências ligadas à leitura, estão mioritariamente ligadas a esses asuntos, a outras são de mim para mim, na expectativa de haver um ano em que o balanço me dignifique. Ainda assim, mau grado todas as resoluções naõ cumpridas, renovo este ritual de compromisso para comigo.

Mas vamos às resoluções literárias:

1. Ler todos os livros que tenho começados em casa e que abandonei sabe Deus porquê. Esta á resolução para janeiro (há aqui uma batotazinha, assim vai parecer que leio muito mais...);

2. Ler apenas livros que tenho em casa, comprados e nunca lidos, sabe Deus porquê (volta a haver batotazinha, não me parece que nos próximos tempos vá ter muita disponibilidade económica para comprar livros), esta é a resolução do mês de fevereiro;

3. Ler apenas livros emprestados (aqui é contar com a boa vontade dos meus amigos leitores, que não me tem faltado e que me tem proporcionado excelentes experiências de leitura), esta é a resolução para o mês de março;

4. Ler apenas livros requisitados em bibliotecas (como sou procrastinadora, tenho esperança que até abril me tenha decidido a inscrever-me na biblioteca municipal e a frequentá-la), esta é a resolução para abril.

5. Ler apenas livros comprados em segunda mão, em especial em livrarias solidárias (há aqui seriamente uma preocupação com a sustentabilidade), esta é a resolução para maio.

6. Voltar às resoluções 1 e 2, porque ainda não as devo ter esgotado, além de que vou estar muito infeliz, porque todas resoluções me afastam do prazer enorme de ir a uma livraria e deixar que um livro ou muitos me pisquem oolho e me digam "leva-me contigo", esta é a resolução para o mês de junho;

7. Esperar que os meus amigos, que me vão emprestar livros, tenham bom gosto para comprar livros, esta é a resolução para o mês de julho;

8. Tentar perceber porque é me meti nestas resoluções mensais, quando se nota que já estou aqui a inventar para conseguir chegar até ao fim, de qualquer maneira, em agosto, acho que já mereço ir a uma livraria e ficar lá horas e vir para casa com uma braçada de livros, ou então, pronto, comprar livros para ler no mês de agosto, esta é a minha resolução para o mês de agosto;

9. Ler apenas livros sugeridos nos blogs do sapo, esta é a resolução para o mês de setembro.

10. Ler livros de autores que nunca li, incluindo uma quota para autores portugueses, resolução de outubro.

11. Ler só o que me apetecer, que já me contive o ano inteiro: comprados, emprestados, achados, roubados, o que vier à rede e me parecer consumível, resolução para novembro.

12. Pedir livros como presente de Natal a toda a gente, fazendo oportunamente posts sobre os que quero e partilhando-os com toda a gente que me conhece.

EXTRA: tentar cumprir estas resoluções, que me parecem tão sensatas, só a de roubar livros é que não, pelo meio emagrecer e cuidar melhor de mim. Vai dar certo, afinal o que pode correr mal nestas resoluções. Até dezembro!

 

 

 

3. 

 

 

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