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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

25
Jul21

#19/2021 - O vício dos livros, Afonso Cruz: um autor viciante.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Vício dos Livros

Companhia das letras

118 páginas

Maravilhoso!

Já devo ter dito/escrito várias vezes que Afonso Cruz é um dos escritores da atualidade que mais me entusiasma. É absolutamente versátil, reiventa-se em cada livro que dá a lume e é também inspirador.

O vício dos livros é composto de histórias curtas, umas de dois ou três parágrafos, outras de duas ou três páginas. Têm em comum, como o título anuncia, os livros, a leitura, a escrita, a relação extraordinária que mantemos com os livros, a forma como nos lemos neles e a forma como cada leitura é igualmente uma reescrita. 

O que faz deste livro uma obra apaixonante será talvez a imensa cultura literária de Afonso Cruz, leitor compulsivo, escritor apaixonado. Para além de ficar evidente que o autor acredita nos livros e na leitura como uma forma muio específica de afirmarmos a nossa condição humana, de nos sublimarmos, de ascendermos acima da barbárie que muitas vezes nos rodeia e de que é também feita a humanidade, é clara também uma certa forma de humanismo que é muito própria deste autor. É transversal aos seus textos uma certo otimismo, uma crença na bondade humana, nos valores da tolerância, da aceitação, da gentiliza, da compaixão que muito me dizem. Pedindo desculpa pelo exagero, é como se a escrita de Afonso Cruz me desafiasse sempre a ser melhor pessoa.

Este livrinho mantém esse desígnio, cada uma das histórias é uma inspiração, mais ainda do que para lermos ou para fazermos do livro um objeto privilegiado nas nossas vidas, há em cada uma das histórias um apelo diferente. Os livros estão na base de casamentos, de amizades, de guerras, de inimizades, de acidentes. Os livros permitem adiar a morte, dão-nos a cultura necessária para distinguir o essencial do acessório, são alimento, são liberdade, permitem respirar, descansam-nos, são exigentes, não são para todos e todos são para os livros, oferecem-nos a possiblidade de sermos felizes, são testemunhos de um tempo e aviso para a navegação, fazem-nos rir e chorar, ligam o passado e o presente, permitem-nos manter o diálogo com as pessoas que amamos e que perdemos, são um perigo, imortalizam os grandes homens (já dizia Camões), descomplicam, tornam a realidade suportável, levam-nos mais longe, são vozes que nos circundam e a que devemos estar atentos.

Está tudo neste compêndio, neste tratado sobre os livros. Vão lá ler se não acreditam no que estou a dizer. É um excelente livro para livro de cabeceira, para folhearmos ao acaso e deixarmos que o oráculo destes epigramas, destes adágios fale connosco e nos ilumine por instantes. Dá-me vontade de ler mais.

24
Jul21

18/2021 - Seda, Alessandro Baricco: nunca sabemos os porquês

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Seda

115 páginas

Releitura

Há dias, ao olhar os título da estante, deparei-me com este Seda, de Alessandro Baricco. Trata-se verdadeiramente de um opúsculo de 115 páginas, com capítulos curtos, a lembrar a exatidão dos Haiku. E apeteceu-me relê-lo, o que rendeu um curto serão de leitura muito bem passado.

Tinha-o lido em agosto de 1999. Lembro-me que, nessa época, quando terminavam as aulas, ia a uma livraria e comprava sacos de livros. Deste lembrava-me nitidamente de uma intensa paixão, de uma francês fascinado por uma concubina japonesa, misteriosa e inacessível. Pois lembrava-me de pouco e mal.

Do que não me lembrava era da delicadeza deste livro, do cuidado colocado na linguagem, da forma como tudo o que acessório tinha sisdo varrido. O romance copia a subtileza e a leveza da própria seda, matéria preciosa e rara na Europa do século XIX, criando uma atmosfera insólita, exótica, etérea, feita de gestos contidos, meticulosos, pensados. Numa das passagens, diz-se que a mulher do protagonista quando tomava nas mãos uma túnica de seda era como se agarrasse o vazio, o nada e quase acontece isso neste romance, tão poético é na forma como conta a história.

Há também a diferença cultural entre a Europa do século XIX, mercantilista, civilizada, crendo-se evoluída, e o Japão, do outro lado do mundo, quase feudal ainda, profundamente cerimonioso, regendo-se por leis, regras e costumes que é preciso respeitar sob pena de se perder a própria vida, bárbaro e ritualizado, mágico e perigoso para o "estrangeiro".

O mais espantoso é como é que um livro tão breve consegue desenhar personagens tão complexas, tão fascinantes, tão exatas e tão pouco nítidas, tão misteriosas e tão, mas tão belas. Poderíamos ser tentados a julgar que a bela japonesa por quem Hervé Joncour se perde e se arrisca seria a mais bela personagem do romance e, afinal, a bela Hélene, sempre fiel, sempre presente, sempre garantida, é a que se impõe no relato, não pela beleza da sua voz, mas por ser a verdadeira ave do paraíso que Hervé, tendo-a junto dele, não se paercebe da sua grandeza.

Dentre muitas passagens absolutamente primorosas, há uma que quase explica a índole enigmática do livro. A dada altura a voz do narrador, nitidamente a voz que escolhe o que é dito, afirma que "nunca nos lembramos dos porquês" e, na verdade, neste livro, nunca ficamos a saber os porquês, ou os como...

Mas, de um livro destes, não há muito a dizer, é preciso aproximarmo-nos dele como Hervé do lago da sua propriedade, fitando nele a fragilidade da própria vida, das certezas, como quem fita a água levemente agitada pelo vento, leve e inexplicável espetáculo. Calemo-nos pois.

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