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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

30
Out22

Insólito e a brutalidade da realidade.

livrosparaadiarofimdomundo

Na fila do supermercado, estava um jovem um pouco deslocado, tímido. Perguntei-lhe se estava na fila. Acenou que sim. Disse-lhe que era melhor alinharmo-nos com a fila. Indicou-me que passasse à frente. Recusei e pedi-lhe que se colocasse à minha frente.

Entretanto, anunciaram que iram abrir a caixa 3. As pessoas atrás de nós precipitaram-se para a caixa 3, daquela maneira que não posso deixar de amar: a correr não vá dar-se o caso de perderem a oportunidade de sentirem que ganharam o dia por ultrapassarem os pouco inteligentes que respeitam a ordem nas filas. Permanecemos na fila, eu com a minha família e o jovem. Pela situação que vim a testemunhar, ainda bem que assim foi.

O jovem colocou as compras no tapete e, distraidamente, fui anotando aquilo que ele estava comprar: bananas, lima, um frango, duas embalagens de quiabos, três caixas de atum... e fui pensando que seriam compras para a sua semana. Entretanto, quando a menina da caixa indicou o preço das compras tudo se precipitou: aqueles bens alimentares custariam 20 euros. A surpresa, primeiro, o desnorte depois. O jovem começou a tirar do saco as compras que já tinha arrumadas e, num fio de voz, balbuciou qualquer coisa ininteligível. A menina perguntou-lhe quanto tinha e ele respondeu 10 euros e, lentamente, mas com atrapalhação, começou a tentar escolher o que poderia levar. Nesse momento, tive um momento de inspiração e disse à menina que pagaria a diferença. Num momento confuso, a menina explicou-lhe que podia levar tudo, enquanto ele continuava a estender os seus 10 euros. Perante o seu desamparo, disse à menina que pagaria tudo.

Quando ele percebeu, olhou-me e começou a agradecer inúmeras vezes. Perguntei-lhe se queria ajuda com as compras e ele continuava a dizer-me que Deus me recompensasse cinquenta vezes. Arrumámos as compras e ele foi. Eu fiquei a pagar as minhas compras. Não olhei em volta, desejosa de que tudo aquilo tivesse sido discreto e que ninguém se tivesse apercebido.

Obviamente, era um imigrante, obviamente perdido na língua, nos preços, talvez até na moeda. Obviamente, deslocado, só, longe da sua terra, longe da segurança, ou fugido da insegurança.

Fiquei tão triste. Gostava tanto que fosse possível fazer mais do que isto. O desconcerto do mundo é uma coisa que me aflige tanto. Não consigo deixar de pensar, a propósito do discurso de uma certa força política, que exigia a fiscalização à forma como os contribuintes portugueses vão gastar os 125, ou 50, distribuídos, que faz da desconfiança face aos mais desfavorecidos uma forma de estar, um paternalismo pernicioso, como se quem tem menos não soubesse senão gastar em drogas e bebidas alcoólicas...Dizia, não consigo deixar de pensar nisto: que será viver este desamparo, esta estranheza, esta solidão, este arriscar-se a isto, porque é o melhor a esperar.

Fiquei tão triste com o desconcerto do mundo.

24
Out22

#8/2022 - No jardim do Ogre, Leila Slimani: espreitar os abismos da alma

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - No Jardim do Ogre

Alfaguara

178 páginas

Leila Slimani foi, em conjunto com António Mega Ferreira, uma das minhas descobertas em 2022. Ao todo já li três dos títulos que tem publicados em Portugal. 

Imaginem o quadro: um pouco antes do almoço de domingo, enquanto se espera que o peixe fique pronto, pega-se num livro para queimar uns minutos... e cai-se numa teia que nos prende e da qual nem queremos assim tanto sair.

A abertura do romance, com uma Adéle a ceder, depois de uns dias a tentar resistir, às pulsões do seu corpo, a entregar-se ao vórtice que a consome como quem emerge da água e não como quem se afoga, é como uma alívio. E o leitor arrastado nestas duas primeiras páginas suspende também a respiração, só expira quando Adéle obtém o que quer e, como ela, mergulha numa espécie de relaxamento, para logo voltar a retesar-se, porque a resposta aos seus anseios não quer dizer nunca, como se verá ao longo da leitura, equilíbrio ou serenidade, é sempre mais medo até ceder de novo aos seus impulsos.

Adéle é ninfomaníaca. Apesar da vida perfeita em Paris, mergulha constantemente numa espiral de queda e degradação. Esse constraste não chega para definir o livro, porque, pelo meio, temos o amor de Adéle pelo filho, o seu terror de alguém vir a conhecer o seu segredo, a necessidade de manter a sua segunda vida a salvo - segunda vida, porque é no seio da família, com os colegas de profissão, com o marido, com os amigos e familiares que Adéle finge. 

Apesar de tudo isso, Adéle não evita qualquer risco, aliás procura-o, compraz-se nele, desde contratar quem a satisfaça até seduzir os amigos mais próximos. Leva os homens que seduz a uma espécie de adição, levando-os a prometer-lhe tudo, mas Adéle não deseja mais do que tem, só o seu corpo é sujeito de desejo e a sua concretização Adéle pode encontrá-la onde quiser, enquanto for jovem, bonita, atraente e puder chamar a atenção dos homens, que parecem cair sempre na sua teia de sedução assim que ela queira.

Adéle teme a velhice, mas não pelos mesmos motivos que as outras mulheres. A velhice a terroriza-a porque significa o fim da sua adição.

O livro é também sobre o amor, a abnegação de quem ama e, mesmo sabendo a verdade, procura a redenção para o ser amado, ser capaz do perdão e viver mergulhado noutra espécie de medo.

Lê-se, não enquanto o peixe se faz, mas numa tarde, num sorvo, num hausto tenso e quase desesperado. O leitor oscila entre a repugnância e o fascínio, a condenação e o desejo salvífico, a censura e o perdão, acabando por torcer muito por Adéle.

Recomendo a leitura. Como dizia há dias Gonçalo M. Tavares, mas não vão à procura de uma leitura para descansar, se é isso que querem, tal não mora neste livro de Leila Slimani. Se vale a pena? Vale muito a pena.

20
Out22

Ideias para fugir ao fim do mundo: ser bloqueado na vida real

livrosparaadiarofimdomundo

Isto não anda nada bem.

Afinal não ficamos todos bem, alguns ficaram bem pior: uns com muito menos do que tinham antes, outros soltaram a gárgula que vive dentro deles e desvendarem uma face violenta.

Hoje é da violência que me apetece falar. Quer dizer, não me apetecia muito, mas a violência esteve tão presente no meu dia, que escrever sobre as várias formas através das quais me visitou me parece uma boa forma de a exorcizar.

Apareceram à minha frente dois garotos com o rosto marcado pela agressão. Tinha sido um outro, um miúdo de dezasseis anos, que se sentira provocado pela forma como tinha sido olhado e resolvera tratar disso com uma bofetada. Da mesma forma, um pouco mais à frente, resolvera dar um murro a um outro mais ou menos pelos mesmos motivos. Tudo aquilo parecia vir a escalar nas horas seguintes. Preocupam-me os três. Os agredidos, porque ninguém tem de ou merece ser agredido, porque ninguém tem se estar exposto à coação, à limitação, à instigação ao medo. Preocupa-me o miúdo que agrediu os outros. E se ele não for capaz de aprender que não é assim que se resolvem as coisas? E se ele não for capaz de olhar para o outro e não conseguir sentir empatia e viver a verdade de que só somos dignos quando tratarmos os outros com dignidade?

Recebi vários emails redigidos num tom que transpirava animosidade, muita consciência do direito de questionar - que temos -, de inquirir - que temos -, de discordar - que temos! Mas não sob qualquer forma, não sob qualquer pretexto, não sob uma só perspetiva e que, invariavelmente, é sempre o ser-se cioso de direitos e dos deveres dos outros e nunca a assunção dos nossos próprios deveres, pelo menos o da correção, da urbanidade... E as palavras, ai a escolha das palavras.

As palavras lançadas como armas, mais como punhais, como coisas afiadas para ferir cegamente. Não são de cristal as palavras, são de ferro e fogo e de gelo, usadas para ferir.

Os gestos de afronta, a sobranceria, o narcisismo, o egoísmo e o egocentrismo, os egos hipertrofiados, a violência latente nos olhares e nos gestos.

Este dia quase que abalava o meu crónico otimismo.

À noite, em casa, olho as minhas estantes, aqueço-me com a manta, bebo um chá forte, cotejo os gestos de bondade que este dia não deixou de ter, as gargalhadas que dei e que fiz dar, a doçura de alguns olhares e de alguns gestos, as mensagens dos bons amigos que tenho, e vou recuperando, convalescendo desta enfermidade social, que é outra pandemia, não tão silenciosa assim, porque se manifesta em tom muito elevado e inflamado. Há-de haver, tem de haver, um refúgio para aqueles que são do bem.

Bem-aventuados os pacíficos...

Bem-aventurados os que são bloqueados... Peço para ser bloqueada na vida real por um certo tipo de gente. Onde é que se entregam os papéis?

 

 

03
Out22

#7/2022 - Crónicas italianas, António Mega Ferreira: melhor livro de viagem

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Crónicas Italianas

Sextante Editora

252 páginas

Vem este post a propósito do facto de este livro de António Mega Ferreira ser o vencedor do Grande Prémio de Literatura de Viagem Ondina Braga 2022.

Mega Ferreira é um exímio prosador, diria que tal, como no verso de Camões, ele é o amador que se transforma na coisa amada: o livro inscreve-se numa tradição secular, a da viagem como formação, a da viagem a Itália como uma espécie de pós-graduação nesse circuito, já que grandes nomes da literatura, da pintura,  do cinema e da música viveram o mesmo fascínio por essa terra de superlativos atributos que é a Itália. O livro resulta de um amor maduro pela Itália, que é transversal a todos os textos, e nos faz amar esse país e nos leva a querer ir até lá e seguir essas linhas do que é uma autêntica educação visual.

Tecido de uma erudição que nele se verte de maneira bastante elegante, nada ostensiva, leva-nos a perspetivar algumas das cidades mais conhecidas de Itália fora dos circuitos do  turismo de massas, atento aos "leões" dos folhetos, levando-nos a procurar lugares arredados dessses centros para procurar tesouros supreendentes, artistas menos badalados,  pérolas fora do bulício das ruas mais movimentadas, permitindo-nos o luxo da contemplação em sossego, quase exclusiva.

Li este livro enlevada e, por causa dele, o meu destino de férias este verão foi Itália. Na bagagem, este e o Práticas de viagem. E dei-me a esse luxo, andar por cidades fora dos circuitos mais badalados, sem multidões (à exceção de Florença), em agosto, mas deambulando como se fosse sempre domingo, demorando o olhar, sentando-me em dezenas de lugares, maravilhando-me perante um património que parece inesgotável e relendo vagarosamente em algumas das "estações" as páginas destes livros. Foi o que se chama uma experiência de leitura imersiva. Devia haver mais livros assim, conhecedores e amadores, devolvendo-nos essa forma de olhar que nos permite também a viagem como formação.

Partilho aqui uma pequena história desses dias e por causa deste livro. A crónica "Uma parede em Prato", que começa assim "Eu tinha querido ir a Prato", foi determinante para que eu também quisesse ir, contemplar essa parede, na senda de Fra Filippo Lippi. Mas os últimos dias em Itália foram de tempestades e de trovoadas e eu não gosto de trovoadas, daí que fosse adiando Prato, por causa da previsão de trovoadas... até que, no último dia, a caminho de Bolonha, tinha ficado combinado que iríamos à Duomo de Prato ver a tal parede, seja o altar mor. Chegados a Prato, foi um percurso direto até à catedral, e ia tão cega que quase não via os quatro sujeitos à entrada, vestidos a rigor com traje a lembrar uma qualquer confraria e... barraram-me a entrada e, perante o meu espanto e um esforço para nos entendermos, lá percebi que não poderia entrar, que não veria a parede nem os frescos, que a minha ida a Prato teria de esperar talvez por outra viagem: tinha morrido o bispo de Prato, naquele dia 31 de agosto de 2022, àquela hora precisa estava a decorrer com pompa e circunstância a missa do seu funeral. E Prato ficou adiada, apesar de, talvez ter sido a principal razão de me ter decidido por Itália. Salvou esta manhã um café primoroso numa rua lateral da catedral, pouco italiano, de um bom gosto extremo, onde pontificava um amável gigante e onde se serviam umas tardes de comer e chorar por mais, misturando-se nessas lágrimas o desgosto acabado de viver e o prazer provocado por uma perfeitíssima tarde de maçã.

Volarei a este livro, porque o queria saber de cor, e sonho voltar a Itália, começando, claro está, por Prato. Isto tudo para dizer que o galardão atribuído ao livro é justíssimo.

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