Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

18
Mai20

#21/2020 - Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, Mathias Énard, é o domínio da linguagem, senhor

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes

Editora Dom Quixote

Páginas:159

Género: romance histórico (mas em bom, muito bom)

Comprado, graças a Deus! Senão teria de o comprar depois de o ter lido.

O interesse por este livro veio de uma lista deveras interessante que vi no sítio do Sapo, por ocasião do Dia Mundial do Livro e que era uma espécie de caixa de chocolates: uma lista com dez grandes obras com menos de 200 páginas para ler de um fôlego. Claro que copiei a lista para o meu caderninho com muita aplicação, cheia de vontade de os comprar a todos. Eu me confesso: experimetei colocá-los todos no carrinho da Wook, só para ver quando dava... depois desisti, mas com relutância. Depois fiz outro exercício, fui eliminando aqueles que achei que podiam esperar e sobrou este, em boa hora.

Defina este livro numa só palavra: MARAVILHOSO!

Apresente uma só razão para recomendar este livro a um amigo: o domínio magistral das virtuosidades da linguagem. Li devagar, saboreei deliciada cada frase, quase cada palavra. Decidi não o colocar na estante para o poder ler outra vez

Resuma o livro  com uma metáfora: uma jóia perfeitamente engastada e lapidada.

Defina o livro através de um símbolo: a ponte, as pontes, as projetadas, as que nunca se lançam, as que unem, as que estendidas nunca representam a junção.

Este livrinho ficciona a estadia do grande Miguel Ângelo Buonarrotti na Constantinopla do Grão-Turco, arriscada heresia. O momento em que o escultor desafia o Papa, pondo em risco a sua carreira, dando mais motivos às muitas invejas que se movem contra si, é igualmente o momento em que o Ocidente e o Oriente se defrontam. A visão de Constantinopla, diversa, dispersa, rica, opulenta, culta e heteróclita atinge a visão do homem do Renascimento, preso ainda às grilhetas do cristianismo, ao medo de perder a alma e à doce tentação de se deixar ir.

A obra está continuamente a reenviar-nos para as referências culturais do Renascimento e do próprio ocidente, bem como para esse lugar do mundo que continua a ser a foz onde desaguam dois mundos diamentralmente opostos: o ocidente e o oriente, a Europa e a Ásia, primeiro lugar da globalização. As referências à multiculturalidade da cidade de Constantinopla são recorrentes: gregos, judeus, genoveses, florentinos, latinos, refugiados de Granada, após a tomada do Reino pelos Reis Católicos. A obra resulta como a partícula do Big Bang, pequenina, mas carregada de significado, tal como é frenética e, ao mesmo tempo, marcada por uma certa placidez e vagares ritualizados, a cidade fascinante de Constantinopla. É toda uma Geografia destes tempos de ouro para a cultura, no entanto, mergulhados nas mesmas hesitações, confrontos, dúvidas, fraturas que até hoje não só não cicatrizaram como antes se parecem ter reaberto expondo uma ferida infetada.

Depois, é verdadeiramente, o fascínio da linguagem, servida com a delicadeza de um prato exótico, com uma riqueza sensorial que satura os nossos sentidos. Partindo das listas que Miguel Ângelo anota no seu próprio caderninho, cada palavra tem o aroma das especiarias, a suavidade dos tecidos ricos, a harmonia dos perfumes, o brilho das jóias. Apetece lê-las em voz alta, sentir a espécie de euforia dos sentidos que nos despertam ao mesmo tempo que parecem excertos de versos compostos pelo poeta que é também personagem do livro.

Por fim, o fascínio desta leitura vem de um certo encantamento que resulta de uma hábil, sábia e inteligente fusão de História e Ficção, que assenta também na paródia dos registos histórico, administrativo, poético, biográfico, memorialístico. Todos estes modos de dizer se fundem, se mesclam inebriando mais uma vez a perspicácia do leitor. A nota final, longe de tirar o encanto ao imaginário que se construiu ao longos destas curtas páginas, antes é mais uma nota de surpresa que torna o livro e a sabedoria com que foi escrito ainda mais cativante.

Para quê gastar aqui mais palavras? Se isto não vos convence a correr para o ler, nem sei para que o escrevi.

É - poucas vezes digo isto - a jóia da minha estante. É - ainda digo isto menos vezes, porque há tantos bons livros na vida - um dos livros da minha vida.  

 

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub