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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

25
Mai20

#23/2020 - Crónica de Um Vendedor de Sangue, Yu Hua: a desconcertante ingenuidade no meio da tragédia

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Crónica de um Vendedor de Sangue

Editora: Relógio de Água

Páginas: 240

Da Biblioteca escolar

Durante o ano letivo 2018-2019, a escola onde trabalho foi selecionada no âmbito do Concurso Leituras d'Oriente e d'Ocidente, que visava promover o diálogo entre estes dois universos culturais precisamente através da Literatura. Um dos incentivos do concurso era precisamente a aquisição de obras para a BiBlioteca Escolar. Foi toda uma pesquisa e uma descoberta não só de autores, mas também dessas outras formas de pensar e de entender o mundo com que a arte e a cultura nos permitem contactar, para encetarmos diálogos e das interpelações aprendermos a aceitar o outro, a criarmos com ele empatia. A verdade é que o acervo da biblioteca ficou bem mais rico e, sobretudo, diversificado.

Esta Crónica de Um  Vendedor de Sangue fez parte dessas aquisições. Em tempo de confinamento, requisitei-o e trouxe-o para casa, mas só lhe peguei na última quinta-feira. A contracapa apresenta-o como um dos dez livros mais influentes da última década na China, além de ser da autoria de um dos mais importantes escritores chineses contemporâneos. A sua leitura estabeleceu um diálogo inequívoco com um outro livro, este de Mo Yan, Prémio Nobel, Peito Grande, Ancas Largas, porque ambos traçam um retrato impiedoso, mas cândido, das últimas décadas da história da China, com especial enfoque nos anos do presidente Mao (embora Mo Yan faça uma incursão também muito aprofundada pela ocupação japonesa).

É um romance de família, porque acompanhamos o percurso de Xu Sanguan, casado com Xu Yulan, e dos seus três filhos. Até aqui nada de muito improvável, parece mais uma história, mas não é. Este é um livro original, com um discurso que eu diria desconcertante, porque parodia uma certa ingenuidade na apreensão dos acontecimentos que vão sendo desfiados ao longo do relato. O título remete para uma prática que se afigura comum: as pessoas vendiam o seu sangue aos hospitais, duas tigelas. A venda do sangue obedecia a uma série de práticas e cuidados, para dar mais fluidez ao sangue, bebia-se água até "doer os dentes", depois da venda, comia-se fígado de porco frito e bebia-se aguardente de arroz. Este é um pequeno fio que se entretece no romance.

O livro é enternecedor e comovente na forma como esta família enfrenta e resolve os seus problemas, sejam eles económicos, sociais, de afeto, de relação com a vizinhança e com o passado. No final, o livro é uma belíssima história de amor, de abnegação, de encontros e desencantos, de personagens inesquecíveis, de laços que nada parece quebrar. É ainda o desnudar de uma certa visão da China pelos próprios chineses, de uma pobreza que agudiza o engenho, da dádiva de pequenos gestos que humanizam e resgatam estas personagens de uma indigência a que parecem ser indiferentes.

É uma história que prende, que lemos, pela qual avançamos, comovidos mas perturbados. Destas páginas erguem-se figuras que representam uma trajetória de redenção em meio a enormes adversidades, que cuidam umas das outras, que cedem, que tocam, que amam e que expressam esse amor, por exemplo guardando açucar para as papas em dia de aniversário, ou poupando bagos de arroz da porção diária que hão de ser providenciais em tempos de fome. 

É preciso lermos livros assim, para fazermos um exercício cada vez mais pertinente: calçarmos os sapatos dos outros e percorrermos um pouco os seus caminhos.

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