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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

16
Jun20

#25/2020 - O nervo ótico, María Gainza, a escrita como olhar

livrosparaadiarofimdomundo

 

Wook.pt - O Nervo Ótico

Editora: D. Quixote

Páginas: 167

Origem: comprado a pretexto da participação no clube de leitura "Próximo capítulo", da Leya.

Numa palavra: Maravilhoso!

Diz que é um livro de estreia - a raiva que me dão estas estreias. Mas entendo. É uma estreia madura e amadurecida. O nervo ótico é um livro muito muito inteligente, muito muito erudito, muito, muito complexo na simplicidade com que as histórias que compõem a história se ligam e emergem.

Começa, talvez, por ser um livro de memórias, pois muitos dos episódios aqui contados são reminiscências autobiográficas da sua autora. Estes oscilam entre o insólito, o comum, o familiar, os inegáveis traumas que todos nós inevitavelmente carregamos, as aventuras da juventude, o resgatar das ruturas com que sedimentamos a nossa personalidade e assumimos o nosso lugar no mundo. Desde que nascemos, não fazemos mais nada a não ser cortes de cordões umbilicais.

É também um livro de crónicas, porque muitas das histórias constituem também esse exercício reflexivo sobre episódios do quotidiano, sobre circunstâncias do tempo comum que nos atiram para o domínio do extraordinário. 

É um livro sobre as artes plásticas, em especial a pintura. É nesse campo, nessa face, que a sua riqueza é maior - atenção que a autora é crítica de arte e essa "profissão" contaminou a forma como escreve, mas sobretudo a forma como olha. Daí que o livro nos esteja sempre a reenviar para fora dele. Temos de ir ver o quadro referido para percebermos, temos de ir à net ver quem é aquele pintor, temos de ir confirmar aquelas notas. Também é um hino aos museus e galerias onde a narradora/autora/crítica se refugia a propósito de tudo e de nada. Permite-nos aprender e aprender e aprender com o seu inquieto nervo ótico, que é mais do que um traço biológico para se tornar num estado de espírito, numa estranha forma de vida e, por fim, num estilo novo. Apetece largar o livro e irmos deambular para as salas vazias de um museu e esperarmos também termos aquela espécie de nirvana que a contemplação proporciona, mas cuja experiência nunca vivi plenamente. 

É um daqueles livros que, apesar do seu tamanho, não pode ser lido depressa. A pressa neste caso atropelaria essa lentidão requerida na leitura que reflete uma atitude contemplativa que a arte nos solicita, aqui transposta do olhar para o ritmo da leitura. Eu, devoradora de livros me confesso: obriguei-me a ler devagar, a poupar estas páginas, fazendo-as render mais do que os dois serões que decerto me levariam a ler. Este livro merece outra forma de ler, uma extensão da forma de olhar.

 

 

 

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