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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

18
Jun20

#26/2020 - Pátria, Fernando Aramburu - cristalizar a história na literatura

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Pátria

Editora: Dom Quixote

Páginas: 720

Cheguei a Pátria, de Fernando Aramburu, também através do clube de leitura Próximo capítulo, no mês de maio foi um dos livros a votação.

Trata-se de um extenso romance, cuja ação decorre no país Basco desde os anos dos atentados armados da ETA, até aos anos que se sucederam ao tratado de paz e ao abandono da luta armada por parte deste grupo separatista.

Há um momento em que a personagem Xabier, cujo pai é uma das vítimas do terrorismo, vai indeciso ainda a uma palestra promovida por um juiz e um escritor sobre esses anos da história espanhola. Curiosamente, é na intervenção do escritor que incide o foco narrativo e a ficção coloca um escritor a problematizar e a equacionar as limitações da literatura para abordar estes acontecimentos históricos que se aproximam de uma guerra civil, já que os bascos estiveram também contra o próprios bascos. Este episódio, que faz parte de um longo processo que a família viveu para aprender a coabitar com a morte e procura de camainhos de superação, não é, como evidente, um lapso, uma distração ou uma piscadela de olho ao leitor para captar a sua benevolência para a obra que se desenrola perante ele. Fernando Aramburu não necessita dessa benevolência, mas talvez tenha conhecido hesitações e a escrita tenha sido assombrada pela gravidade e delicadeza do assunto.

O que é que este livro tem de convincente? Pois muita coisa! (se alguém reconhecer aqui uma marca de estilo, não é impulse, é que o livro em dados momentos é absolutamente polifónico fundindo as vozes da narração com as das personagens, colocando-as em diálogo e interpelação, o que dá um ritmo coloquial a todo o livro). Entre muitas outras vou destacar este feito: Aramburu não assenta a sua história apenas num lado, cruza as narrativas, expondo as suas fragilidades e os seus equívocos. A ação da ETA no país Basco constituiu um processo longo e doloroso acima de tudo para os próprios bascos. Os espanhóis quase não intervêm na ação, nem sequer são os "culpados". A verdade é que o livro consegue mostrar de forma magistral, sem paternalismos, sem concessões, que, nestas páginas da história, todos, todos perderam, todos todos foram atingidos e as ondas de choque perpetuaram-se durante décadas e amarguraram a vida de todos os envolvidos. As famílias dos assassinados conhecem um sofrimento diferente das famílias dos terroristas, mas estas sofreram também e, no fim de tudo, sofrimento é sofrimento. Outro aspeto igualmente interessante é a forma como estas situações dividem famílias e vizinhos de toda a vida, um pouco como aconteceu nos conflitos nos balcãs.

Notem bem, o livro não é miserabilista, não vitimiza as suas personagens, eleva-as ao descrevê-las num processo de sobrevivência e superação. São rijos os bascos. O livro está também muito bem escrito e não terá sido um exercício fácil aquele tratamento calidoscópico de um microcosmos que sintetiza tudo o que aconteceu no país basco. As personagens são humanas, frágeis, imperfeitas, por isso as sentimos tão autênticas, tão próximas de nós, com os seus medos, as suas reticências, a sua irredutibilidade.

Mesmo que seja para conhecer e mergulhar na complexidade nascida destes tempos trágicos, vale a pena determo-nos neste livro, mas a obra é muito mais do que isso. É daquelas em que andamos a pensar durante o dia, ansiosos que os afazeres nos deem alguma paz para voltarmos a fechar-nos neste livro para nos abrirmos ao entendimento das coisas e aprendermos a temer qualquer forma de radicalismo.

Leiam, vão ver que vale a pena.

 

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