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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

13
Set20

#28/2020 - Não se pode morar nos olhos de um gato, Ana Margarida Carvalho

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato

Editora Teorema

Páginas: 342

Regresso às lides da escrita, depois da silly season, que para mim teve pouco de silly e pouco de sason - só me posso gabar de nove dias de férias, cinco deles passados a limpar desenfreadamente uma casa em estado de cataclismo pós-obras, mas li. Li muito, li desvairadamente, li compulsivamente, li como há muito tempo não lia e percebi porque é que gosto de ler. Não há, para mim, outra forma de evasão e todos sabemos como precisamos de nos evadir nos tempos que correm.

Vai daí, regresso aqui anarquicamente, não pela ordem de leitura, mas pela ordem da marca deixada. Eu invejo alguns escritores. Invejo, invejo! É o caso da Ana Margarida Carvalho e deste excelente, excelente "Não se pode morar nos olhos de um gato". Não sou crítica literária, sou amadora - no sentido literal - o fazer é resultado do gostar. Porque é que este livro me parece excelente? A 

1. A autora arrisca em algum experimentalismo na linguagem, sem o levar ao expoente máximo, sem com isso perturbar o nosso ritmo de leitura. São maneiras de driblar a língua, dando-nos a saborarear o seu virtuosismo, mas sem fazer disso uma camuflagem ou um gongorismo que nos afaste do livro, maçados com tanta forma em detrimento do conteúdo. Nada disso, é uma técnica que se plasma bem na narrativa e mais, que lá faz todo o sentido, como as quedas dos pássaros tantas vezes enunciadas.

2. A força da história. 2020 tem sido um ano muito feliz em livros. Este foi daqueles que me obcecaram, no trabalho pensave nele, ansiosa por me ver a sós com estas personagens, tão fortes, tão no limite, tão testadas, tão falhas de heroísmo, às vezes repugnantes, mas no seu imperfeito humanisto, absolutamente inesquecíveis. Este ano, no verão, almocei sozinha muitas vezes, levava sempre um livro e, no caso deste, aborrecia-me mesmo ter de interromper a leitura para regressar à vil tarefa de trabalhar para viver.

3. As técnicas narrativas. O narrador a quem foi entregue a contagem desta história não é um narrador cronológico, certinho, seguro de que um romance, uma história de fôlego, não tem necessariamente de ser contada do princípio ao fim. A história tem um fio condutor: acompanha os dissabores de sete náufragos que vão dar a uma praia minúscula, que desaparece com a maré cheia e que têm de sobreviver a todo um conjunto de privações: fome, sede, sol inclemente. No entanto, o maior desafio de todos é coabitar num espaço tão exíguo e tão privado de conforto e de condições de sobrevivência com a profunda estratificação socila de finais do século XIX. Afinal os sobreviventes são: um escravo, que vajava no tumbeiro, o capataz do navio negreiro, um criado anónimo, perito em não se fazer notar, uma mulher e a sua filha, um estudante e um bebé negro que o criado salva dos braços da mãe moribunda que lho passa aos braços numa tentativa de o poupar ao terrível destino. Só isto bastaria para despertar o interesse. Mas estes "Robinsons Crusoe" trazem consigo uma biografia, cada uma mais surpreendente que a outra  e o narrador apresenta-no-la paulatinamente, à exceção de uma das personagens que não vou revelar qual. Há ainda uma santa, a quem também é dada voz, surpreendente também na sua exaustão e não consciência da inutilidade das preces que lhe são dirigidas.

4. O título: Não se pode morar nos olhos de um gato é um título criativo e que, terminada a leitura, conhecidos os malogros das personagens, os seus remorsos, as suas tragédias, a sua imperfeição, faz todo o sentido.

Recomendo vivamente sobretudo por ser um livro excelente de criação portuguesa. Neste caso, o nacional não é bom, é mesmo muito bom.

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