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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

19
Jan21

#3/2021 - Adeus, até amanhã, de William Maxwell: pequenas obras, grandes prazeres

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Adeus, até amanhã

Sextante Editora,

140 páginas

Espero que ninguém consiga ler as letras pequeninas, mas, apesar de ter prometido que, em janeiro, só leria livros que tivesse começado e posto de lado, este comprei-o. Tenho uma desculpa, tinha um desconto de 5 euros na Wook e o livro custava 6 e qualquer coisa, mas depois achei que pagar só 1 euro era indecoroso e comprei outro e gastei 14 euros, mas fiquei feliz, os livros tinham desconto. Já sabemos que 2021 não é mais meigo que 2020, o que se vê nestes pequenos dissabores.

Não me consigo lembrar onde é que li sobre este livro, mas eu não sou difícil de convencer e, sempre que um livro é anunciado com epítetos como "um pequeno romance perfeito", uma leitora compulsiva sente-se como uma solteirona a quem dizem que vai ter um date com o George Clooney, porque a Amal vai trabalhar até tarde. Ninguém resiste.

Adeus, até amanhã tem tudo o que eu gosto num livro, uma escrita maravilhosa, maravilhosa, repito, porque só uma vez pode parecer pouco convincente. Faz lembrar a poesia de Fernando Pessoa, cuja simplicidade de vocabulário é desarmante, mas que atinge uma complexidade quase impenetrável (que o digam os alunos do Secundário). Num estilo límpido, pouco ornamentado, fluido, mas com uma linguagem cuidadosa, o autor acompanha os fragmentos do passado que o marcaram de forma indelével. A memória é a estratégia narrativa dotada e, já se sabe, a memória é a memória da memória, é uma reconstrução, é uma tentativa de reorganizar, de criar um mundo a partir do caos. 

O narrador volta-se para um episódio da infância que o marcou para a vida, gravando no seu espírito a culpa, a perda e o arrependimento para sempre. Voltar-se para o passado é interrogá-lo, é uma tentativa de o superar, de o compreender, de o corrigir, não quer é dizer que a tentativa seja bem conseguida. Dito assim, pode parecer pouco, mas este romance, apesar de o seu tamanho é monumental. Está ao nível de um Tolstói das novelas, é depurado, seco, duro, mas de uma sensibilidade incomparável, tudo é tão delicado, tão frágil, tão assustador, tão incompreensível e também tão cruel.

Desprendem-se destas páginas fiapos de uma certa América, rural, fechada, machista, pobre, inculta, onde as crianças trabalham nas quintas arrendadas pelos pais desde cedo, em que a escola rouba tempo às colheitas e aos animais, em que os homens parecem vazios de sonhos e, quando conhecem a paixão, ela só pode ser trágica, porque é desmedida e incontrolável. Em que as mulheres se esqueceram da sua feminilidade, até que ela surge nos espelho dos olhos de alguém e se descobrem merecedoras de viver a paixão que nem sabiam que podia ser sentida. Em que a mentalidade é muito pouco cosmopolita, em que Deus e a Igreja ocupam um espaço que castra e condicona. Em que o estigma da homossexualidade espreita e devora quem é um pouco mais sensível. Em que a morte, o abandono e a degradação estão omnipresentes, em que a queda se anuncia e se precipita como uma avalanche, sem apleo, sem remédio, sem redenção.

A pergunta que vos incomoda neste momento é, decerto, como é que um livro de pouco mais de cem páginas pode ter isto tudo e um pouco mais que não consigo exprimir em palavras? Porque é perfeita, porque é um exemplo de que menos, embora raramente, é mais, muito mais. é um livro lind´ssimo, delicioso, precioso. Gostei tanto.

PS: também foi uma sorte ser tão pequeno. A minha concentração anda em níveis assustadores de tão baixos, estou praticamente em coma, ou pelo menos, vivo como se tivesse sido programada para desempenhar as funções que me ficaria muito mal não desempenhar. Mas ler este livrinho ressuscitou-me um bocadinho, oxigenou-me este cérebro intoxicado de negativismo, de desesperança nesta humanidade que naõ conseguimos sublimar. Que os livros nos salvem um bocadinho.

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