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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

15
Fev14

365 dias depois (II)

livrosparaadiarofimdomundo
           Há vinte anosatrás, também era verão e também era amor. Uma rapariga muito jovemdespedia-se, numa rua lateral a esta avenida movimentada, de um jovem tão jovemquanto ela. Mais alto, ele debruça-se sobre ela e beija-a com suavidade natesta. É um beijo leve, não houve uma pressão mais forte. Os dois sabiam queera a última vez que se viam, que tudo acabava ali e não era por não se amarem.Ela não devolveu o beijo, deixou-se beijar apenas e, sem o saber ainda, aquelemomento ficou para sempre, nunca mais o esqueceu e aprendeu a viver com elecomo se fosse uma cicatriz. Os anos fizeram com que olhasse para a cicatriz equase não se lembrasse como tinha sido feita, habitando-se à marca,familiarizando-se com ela.
            Com o autocarro ainda parado, olheifixamente para aquele ponto da rua. Os edifícios eram exatamente os mesmos, as mesmasas cores, o mesmo movimento de pessoas a ir e a vir, os mesmos carros parados eem movimento. Como há vinte anos atrás, nenhum destes pormenores é realmente vistopor mim. O que estou a olhar é para aquela rapariga que fui, capaz de amarassim, talvez por ter sido uma vez jovem, talvez porque o tempo não me tivesseainda corroído. Nesse tempo, aguentei aquela despedida quase sem uma palavra,sem uma lágrima, nem uma queixa. Não perguntei porquê, sabia que tinha de ser.Nos dias que se seguiram, tive que aprender a encher aquele vazio. Soube muitobem viver apesar de ter morrido um pouco e soube mostrar-me como se aqueleinstante não tivesse acontecido e, até hoje, ninguém soube que um dia medespedi de alguém que era tão importante para mim. Nunca mais o vi, nunca maissoube nada dele. Mesmo quando me encontrei com pessoas que o conheciam, nuncaperguntei por ele. Ninguém sabia o que tínhamos tido juntos e eu nunca dei omais pequeno sinal. As coincidências da vida são tão curiosas. Há vinte anosatrás, depois de me ter despedido dele, fui apanhar um autocarro. Desci estaavenida que agora subo para fazer mais uma viagem que há de ser decisiva.Também hoje é um dia de despedida. Sorrio àquela rapariga e despeço-me delatambém. A mulher que sou hoje está feliz por ela ter vivido um amor assim, tudovale a pena quando alma não é pequena, e a minha creio que nunca o foi,parece-me mais de um tamanho excessivo para poder caber em mim.
            O autocarro arrancou finalmente,outra vez o mesmo balanço pesado. Tomada a faixa lateral que dá acesso à autoestrada,começámos a andar cada vez mais depressa, os prédios começaram a suceder-secada vez com mais rapidez, as pessoas pareciam paradas nos passeios e eu deixeide me conseguir fixar em pontos que me entretivessem os pensamento. Voltei aficar consciente de mim. Fui obrigada a pensar no que ia fazer. Fiz uma revisãoda minha vida. Divorciada, por vontade minha, a bem do rigor é importantedizê-lo para que depois não se diga que isso explica alguma coisa. Mãe de umfilho de catorze anos, com quem não consegui ligar-me tanto como desejaria.Ultimamente, tem passado mais tempo com o pai, porque sim, e eu não tenho feitonada para que seja de outra. Microempresária de sucesso – consigo sustentar-me.Sou bastante bonita e sei que sou, daí ser bastante segura. Quando caminho,tenho um tique que é abrir bem os ombros e levantar ligeiramente a cabeça,pareço um pouco altiva, mas é porque quero. Amei e fui amada, mais do que deviae, possivelmente, mais do que merecia. Traí e fui traída, rejeitei e fuirejeitada, sempre mais do que podia ou devia. Excedi-me e os deuses não perdoame talvez me queiram castigar. Pode bem ser que não haja deuses, que ojulgamento a temer seja o nosso, que a condenação tenhamos que ser nós a executá-la.Não sei e sei-o bem.
            O autocarro rola agora livremente naautoestrada pouco congestionada. Vem-me outra cena à memória. Dia de balanço? Aviagem é propícia a estes devaneios, a estes reencontros com o nosso passado. Sou,por natureza, reflexiva, ensimesmada. A minha memória não me dá tréguas. Derepente, lembro-me de pequenos episódios da minha vida e, à distância dos anos,revivo tão nitidamente esses passos lembrados que eles me despertam, no momentoda lembrança, sentimentos de quem está na posição de juiz. Avalio o que fiz, oque disse, as opções que tomei, os deslizes, o mal que fiz aos outros e coro devergonha, surpreendo-me, sobressalto-me com a minha frieza. Descobri alguresque sou uma pessoa fria, que não me emociono com facilidade, que não arrancocabelos, que não grito, não choro, não me apiedo pelos outros. Tenho um bocadinhode desgosto de mim. Há pouco mudei de música, alguém canta nos meus ouvidos quedevemos tomar conta de nós próprios. Concordo, tenho de tomar conta de mim,como sei, mais mal do que bem. Deixo aos outros a mesma liberdade. Não tenhotomado bem conta de mim, tenho-me ferido e mutilado, sempre em excesso, sempremais do que devia.

            Lá me enredei eu nestes meuspensamentos dispersos que se embaraçam uns nos outros. É outra vez verão. Uma pequenavila balnear, numas férias. Uma relação que já durava há tempo, duas pessoasque se conheciam bem e já cansadas um do outro. Não souberam ler os sinais. Odia tinha sido de tensão. Estavam mal-humorados. Não tinham conseguidosintonizar a mesma onda de frequência. Pareciam estar em desacordo acerca detudo: horários, o que fazer, o que comer. Duas pessoas que nunca se tivessemvisto conseguiriam sintonizar-se melhor. Já tinham passado a fase em que eram bem-educadosum com o outro. A familiaridade tinha revelado tantas diferenças que já não sabiamem que se sustentar. Depois de um dia feito de pequenas batalhas feita deironias e de subentendidos, saíram para jantar. Desentenderam-se logo no pedidoe a tensão atingiu um tal nível que até o empregado parecia evitar aquela mesa.Houve um momento em, inadvertidamente, as mãos se tocaram e sentiram umadescarga de eletricidade estática. Deve ter sido esse choque que acendeu orastilho. Quando saíram do restaurante, estavam descontrolados e não havia decoroque os pudesse conter. Discutiram no meio da rua, primeiro em surdina, dedentes rilhados, e olhos baixos. Pararam a meio da marginal e enfrentaram-secomo inimigos em que se estavam a tornar. Empurraram-se com força. Avançaramassim pela rua, aos empurrões, bêbados de raiva. As vozes levantaram-se sem darempor isso, porque já não se ouviam. Palavras que quiseram dizer e que nunca poderiamter sido ditas se fosse amor. Em casa, cega de raiva, atirei-lhe uma bofetada àcara. Não tive tempo de saborear o gosto desse gesto violento, instantaneamentesenti a minha cabeça a rodopiar com o impacto da sua mão na minha cara e logo aseguir outra. Caí sobre a cama e ele caiu sobre mim. Perdi a conta às vezes quenos batemos. Não se podia descer mais baixo. Era o fim de tudo. Nessa noite fizsozinha uma viagem de regresso, em solilóquio a ensinar-me o que fazer depois. Sintomais viva do que nunca a vergonha daquele dia, só isso. Nada que possa serlamentado, foi um erro, um dos muitos que cometi. Desta mulher excessiva não meposso despedir, levo-a comigo para onde for, preciso dela para a solução que encontrei.

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