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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

15
Nov20

#40/2020 - A gorda, Isabela Figueiredo: contra a amargura, escrever, escrever

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A Gorda

Editora: Caminho

285 páginas

Emprestado. Vivam os amigos generosos.

Já tinha ouvido falar deste livro de Isabela Figueiredo, mas não me tinha ainda cruzado com ele, embora tivesse retido que as críticas eram boas. Até que aqui cheguei por recomendação de uma amiga. 

Lê-se muito bem este livro. Não há complexidade de maior, nem na linguagem, nem na estrutura. é uma leitura que flui, organizada linearmente, mas ensaiando alguns avanços e recuos ligados à orientação memorialística do relato. Não é tão imperdível quanto o afirmou José Tolentino de Mendonça, nem um safanão tão grande quanto o avisou Ricardo Nabais. É um livro honesto, que não nos marca profundamente, mas também não desagrada. Cumpre. Em alguns momentos, cumpre com denodo, noutros foge a um potencial que se pressente, mas que não chega a atingir.

É muito interessante a arquitetura do livro, estruturada em função das divisões da casa de família que Maria Luísa herdou e onde viveu com os pais, depois de eles terem regressado de Moçambique, após a descolonização. Cada capítulo corresponde a uma divisão da casa e tem como epígrafe a descrição dessa parte. Depois, partindo daí, o fluxo da memória de Maria Luísa conduz-nos numa viagem ao passado, a um presente disfórico, a um futuro talvez esperançoso.

Maria Luísa começa por ser uma criança que é criada pelas tias, enquanto os pais ainda permanecem em Moçambique, transitando depois para um colégio interno e daí para a casa dos pais na Margem Sul, a Outra Banda, aí conhece o amor, um amor para a vida toda, depois a desilusão, o esboço de uma depressão, o preconceito pelo seu corpo, o que dá o título ao livro, afinal ela é gorda. A protagonista conhece e relata a crueldade das crianças e dos adolescentes devido ao seu aspeto, o assédio sexual, o desejo quase ninfomaníaco pelo sexo, mas também pela comida, o amor e a desilusão amorosa, quando se vê rejeitada pelo seu aspto físico, a relação agridoce com os pais, em especial com a mãe. Como pano de fundo, temos pinceladas do que tem sido a história recente de Portugal: a descolonização, as presidências de Mário Soares, os governos de Cavaco Silva, a Troika, os cortes na economia, o custo de vida que se vai tornando mais insuportável para uma classe média que em Portugal continua a ser média baixa, dificultando a concretização de pequenas coisas que deviam ser dados adquiridos, mas não são.

Talvez me escape, nos escape, aquilo que o livro pretende ser. Se uma análise sobre a reintegração dos disto "retornados" na metrópole, presos de uma nostalgia insolucionável pela vida deixada para trás, recuperada nos pertences que conseguiram trazer consigo, não atinge a profundidade que se deseja. Se uma equação acerca dos preconceitos a que aqueles que fogem ao paradigma da beleza se veem sujeitos, também fica pelo superficial, afinal a protagonista conhece o amor e é desejada, como qualquer pessoa. Esse motivo só fica mais evidente, porque o seu amor tem vergonha de ser visto com ela. É pouco. Se uma visão acerca do que é ser-se professor em Portugal, não passam de breves apontamentos, que se ficam pelo excesso de trabalho, os testes para corrigir e as grelas excel. A protagonista teria de ter uma profissão, ser professora parece ser um simples acaso.

Por outro lado, as incongruências da sua relação com mãe, reconhecendo-a como um ser humano gentil, íntegro, correto, pilar da família que sustenta - no sentido físico e não económico -, mas igualmente detestável, distante, frio. Objeto de amor e de repulsa, como são sempre aqueles que amamos. É aí que o relato nos toca mais, amar é tão difícl, é sempre a "insustentáve leveza do ser". Também os avanços e recuos da relação para avida toda que Maria Luísa estabelece com David, ali tão perto, mantida tão longe, tão amante, tão físico e tão platónico ao mesmo tempo. Quem nunca sonhou com um grande amor que se transformasse com o tempo numa vida a dois, tranquila, serena, partilhada ao mais ínfimo pormenor.

Em suma, gostei do livro e estou capaz de recomendar sua leitura. É sempre literatura em português, é sempre um pouco de nós, é sempre um relato humano.

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