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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

03
Fev21

#4/2020 - O barulho das coisas ao cair, Juan Gabriel Vásquez: tão bom como Narcos

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Barulho das Coisas ao Cair

Editora Alfaguara

302 páginas

Olá blog, olá leituras, isto não tem andado muito fácil, pois não? Poucas leituras ultimamente, pouca escrita sobre as leituras. Vamos lá quebrar o enguiço.

Já li este O barulho das coisas ao cair há cerca de uma semana, mas a escrita não me tem saído.  Vamos esclarecer uma coisa: adorei este livro, mesmo, foi assim o primeiro hit de 2021 - no toal respeito das minhas resoluções para o ano novo, era um livro que eu já tinha começado em 2020, o facto de só ter lido uma página, não quer dizer nada. Li com sofreguidão e tentei ler mais  devagar para me render um bocadinho mais. Depois aconteceu-me o que me acontece muitas vezes, depois de ler um livro de que gosto muito, custa-me muito fazer a transição para outro. Pego noutro livro e parece que tive gripe e fiquei sem paladar. É uma orfandade de que já falei aqui.

Para quem viu a série Narcos, em especial as temporadas que retratam Pablo Escobar e o império que construiu através do narcotráfico, há um contexto familiar, que permite reconhecer alguns dos episódios que avassalam a vida das personagens deste romance. Mas as semelhanças ficam por aí. Há uma citação na badana do livro que considerei muito certeira, retirada da recensão do Sunday Telegraph, que refere que "Vásquez segue a máxima de Balzac de que os romances são a história privada das nações". Efetivamente, o autor, através de duas histórias que se cruzam, a do professor universitário e a do ex-piloto de um dos aviões que faziam o tranporte da droga da Colômbia para a a América, "amigos improváveis, devolve-nos um instantâneo das convulsões irremediáveis causadas pelo narcotráfico, verdadeiras ondas de choque que se perpetuam ao longo de anos.

Não é um romance violento, longe disso, não é documental, não é especificamente sobre o mundo do crime, nada disso. Não sei se já referi que o melhor filme sobre a guerra que vi é esse fantástico A vida secreta das palavras. Tudo o que há para perceber sobre o horror da guerra está lá, sem que se dispare um tiro, sem que ninguém morra, e o filme é todo sobre os mortos. O mesmo sucede com este livro, tudo o que nos pode ser dado a perceber sobre a forma como o narcotráfico perdeu toda uma geração, sobre a forma como comprometeu tudo, destruindo a sociedade até aos alicerces, está neste livro. Um relato intimista, rememorativo, sensível, melancólico, sobre a perda, sobre as múltiplas ironias - da vida, do destino, dos deuses, que parecem sempre mais cruéis do que o necessáro - sobre a inexorabilidade e sobre as muitas formas através das quais cada um tenta inverter essa inexorabilidade. Mas é também um livro sobre a esperança, a amizade, a família, a procura de um sentido e, acima de tudo, sobre o amor, nas suas múltiplas formas, todas elas absolutas.

Nunca tinha lido nada deste autor, mas a sua escrita encantou-me. Em primeiro lugar, a arquitetura do romance é de grande inteligência, conjungando realidade e ficção, fazendo confluir no mesmo tempo e no mesmo espaço circunstâncias que parecem estar tão afastadas como o sol da lua. Consegue, depois, emprestar, um ar de intriga e mistério que nos prendem a estas páginas, levando-nos a fazer as mesmas perguntas que as personagens, para as quais não há mais do que esta lacónica resposta "Alguma coisa há de ter feito". As personagens, com a dimensão de pessoas, estão longe dos heróis literários, acima do comum dos homens, tocados pelo divino, marcados por uma aura de superioridade. Não. Estas personagens são como nós, viveram foi naquele tempo e naquele espaço e foi isso que as distinguiu para o bem e para o mal. A tessitura do romance é feita de motivos que se entrelaçam como o fio das moiras, numa dimensão tão trágica como é característico das grandes tragédias gregas - depois de lerem, hão de perceber do que falo - estão lá todos os elementos da tragédia grega: a hybris (o desafio) e o pathos (o sofrimento), o ágon (a agonia), a catarse. Vidas à beira do abismo, vidas em suspenso, vidas numa encruzilhada, mortes em vida.

A fortuna crítica do romance deixa perceber a transversalidade do fascínio que este livro exerce sobre quem o lê. Premiadíssimo, é, de facto, um relato a não perder. É daqueles para o qual guardamos um lugarzinho no olimpo dos livros, o cantinho da nossa estante para os livros da nossa vida.

Ocorre-me esta questão: ler é viver num dilema, se, por um lado, nos apetece descobrir o próximo livro, por outro, fica-nos uma espécie de saudade dos bons livros que lemos. Devíamos ter todos duas vidas, uma para ler e outra para reler.

Viva a Literatura, Viva. Pum! 

Viva a Literatura, viva Pim, Pam; Pum!!! fica também a homenagem ao Almada Negreiros.

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