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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

05
Fev20

#6/2020 - Augustus, John Williams

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Augustus

Editora: D. Quixote

Género: romance histórico

Páginas: 359

Para Guardar

"Todos os sucessos desvendam dificuldades que não prevíramos, e todas as vitórias ampliam a magnitude da nossa possível derrota"

"do facto aterrador de que está só, e separado, e que não pode ser mais nada a não ser a pobre coisa que é ele próprio".

"não há muro que possa ser construído para proteger o corpo humano da sua própria fraqueza"

... e podia continuar nisto até quase transcrever o livro todo tal a profundidade que ele evidencia.

John Williams é um escritor maior. Tanto este Augustus como Stoner  foram escritos num tom quase menor que nos revela duas personagens na sua humanidade mais simples, tanto o obscuro professor de uma universidade, como o senhor do mundo. Ambos homens perante si mesmos e na procura de um sentido para a sua exisência, que é sempre a questão: que fica de nós no mundo depois de desaparecermos?

Este romance tem uma arquitetura que espelha o efeito que procura alcançar. É um romance que oscila entre o memorialístico, o diarístico e o epistolar. Dessa estratégia narrativa ressalta um retrato multifacetado do homem que foi Otávio e acabou o divino Augusto. Mas a questão é mesmo essa, nenhum homem é apreendido como uno, o seu retrato tem necessariamente que ser um composto, uma amálgama, um somatório das imagens que aqueles que o amaram, que o odiaram, que o temeram, que o veneraram, que dele ouviram falar, que primeiro o amaram e que depois o odiaram foram construindo dele. E é assim este romance. Organizado em três livros, ou partes, na primeira aborda-se a ascensão de Otávio a Imperador, na segunda a consolidação do seu poder, na terceira a primeira vez que a voz de Augusto se faz ouvir, numa longa carta ao seu amigo Nicolau de Damasco, envelhecido, poucos dias antes de morrer, colocando-se questões que procuram alcançar o sentido da sua vida. Augusto está só, as pessoas que mais amou e em quem confiou estão mortas ou tiveram de ser afastadas e ja não lhe custa abandonar o mundo que ajudou  a construir.

O tom deste romance é contido, melancólico, nostálgico. A escrita é profunda, reflexiva de uma riqueza que só a sua leitura permitirá apreciar. É verdadeiramente um livro extraordinário. Gostei tanto, mas tanto deste livro. Eu que tenho lido muito do que se tem escrito sobre Roma - Quo Vadis; O Primeiro Homam de Roma (6 volumes); Claúdio; Eu, CláudioMemórias de Adriano, considero Augustos  o melhor de todos, o meu preferido - com tristeza por causa das Memórias de Adriano. 

Jonh Williams ancorou o seu romance num período histórico que conhecemos bem e no qual viveram pessoas como Horácio, Virgílio, Tito Lívio, Marco António, Cleópatra, Júlio César, Cícero e tantos outros. Destas páginas a figura de Augusto que emerge é a de um pai atencioso, um esposo respeitador, um governante que desconcerta pela sua simpliciade e bom gosto, mas e enigmático, misterioso e distante. Não sei se há verdade histórica neste recorte, sei que a personagem literária me apaixonou e me fascinou.

Vou deixar passar um tempo e depois vou reler este livro, porque ele merece vagares de estudioso.

Que experiência de leitura tão surpreendente, tão didática, tão filosofica... tão agradável, tão prazerosa. Espero que se permitam privar com este Otávio César Augusto, vão gostar de o conhecer.

 

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