Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

26
Dez20

#45/2020 - A educação de uma fada, Didier Van Cauweleart: arqueologia das estantes

livrosparaadiarofimdomundo

Editora Ambar

196 páginas

Encontrado numa escavação arqueológica nas minhas estantes.

É verdade, o grau de desconhecimento do conteúdo das minhas estantes é preocupante, se não for senilidade, é decerto prova de que compro mais livros do que aqueles que leio e isso não me deixa feliz. Não me lembro onde comprei este livro, não me lembro quando o comprei. A edição é de 2001. é mais recente do que julgava.

Um dia destes, procurando outra coisa completamente diferente, deparei-me com este livro. Este ano, uma das ideias que tive para presente de Natal para uma pessoa de quem gosto muito foi oferecer um dos livros da minha estante. A ideia era dar um presente com verdadeirovalor afetivo - dar um dos meus livros é dar um pouco de mim, sem anestesia - além de ser mais sustentável. A decisão não foi fácil, era preciso que eu já o tivesse lido, era preciso que eu tivesse gostado, uma das hipóteses teve de ser colcada de parte, por ser demasiado triste. E isto já parece um episódio dos Simpsons, não era disto que eu vinha falar. Enquanto selecionava o livro, encontrei este, parecia-me excelente para oeferecer, mas não podia ser, eu não me lembrava de o ter lido. Acabei por me decidir por outro e por tirar este da estante e decidir-me a lê-lo.

Chegei neste preciso momento dessa leitura. Estou a escrever a quente. Hoje é um dos meus dias preferidos. Depois da azáfama do Natal, das idas e das vindas, da cozinha e etc, o dia 26 de dezembro calhou a um sábado e um sábado frio. Com a lareira acesa, dediquei-me a horas tranquilas de leitura. Se isto não é a felicidade, não sei o que seja. Mas não foi bem uma leitura, foi uma voragem.

A estrutura do romance obedece ao fluxo de consciência dos seus dois protagonistas: Nicolas, um criador de jogos e brinquedos, e Cesar, uma emigrante iraquiana, curda, operadora de caixa num supermercado, que se conhecem e se leem pelos olhares trocados na caixa, tentando conhecer o outro nesse entremeio breve. São almas sensíveis, que carregam as suas mágoas e incertezas acerca do futuro. Pelo meio, há Raoul, uma criança de sete anos, que precisa desesperadamente de uma fada que lhe conceda três desejos. E o resto é uma escrita inteligente, sensível, bem-humorada, comovente e fluida que nos permite horas de excelente leitura. Há, neste livro, passagens belíssimas, verdadeiros bombons de Natal, que somos forçados a reler para intensificar o sabor. É tão bonito este livro! Pontuado de episódios enternecedores, edificantes e verdadeiros momentos de inspiração para nos conduzirmos na vida. Tornou-se, neste dia, um dos melhores livros que li em 2020. A arqueologia é uma ativiade que compensa.

Já quanto ao autor, que parece não estar praticamente traduzido em português - agora que eu me sentia capaz de aprofundar  a sua obra - é um importante escritor francês, bastante premiado, cujos livros inclusivamente se encontram adaptados aos cinema, como o filme Desconhecido/Sem Identidade, com Liam Neeson, de 2011. Quem diria?

Vou ali às minhas estantes, procurar mais uns livros..., mas não é já, porque hoje comprei mais um livro, O barulho das coisas ao cair, de Juan Gabriel Vásquez, a culpa não foi minha, tinha 10 euros de desconto na Bertrand. Já vos conto.

23
Dez20

O melhor de 2020: as pessoas, definitivamente, as pessoas

livrosparaadiarofimdomundo

A melhor palavra para definir 2020 é: agridoce.

Li no facebook - e não posso dar os créditos, porque não vinha identificado - que 2020 não foi um ano, foi uma prova de resistência, e foi mesmo. 

Tivemos o confinamento, mas a família reagrupou-se e nunca tínhamos sido família de forma tão completa, reiventando maneiras de estarmos juntos.

O ensino passou a ser a distância, mas nunca me tinha sentido tão próxima dos meus alunos e a nossa despedida foi das coisas mais bonitas deste ano.

Houve dificuldades profissionais acrescidas, mas o espírito de equipa nunca tinha sido tão forte.

Não foi possível fazer férias em família, que nos últimos dez anos tinham sido sempre uma viagem de carro, mas, depois desses dez anos, voltei a ter dias de puro descanso a ler à beira-mar na companhia das duas mulheres da minha vida, a minha mãe e a minha filha.

Por fim, nesta última semana, quando já sentia que a corrida de obstáculos já estava quase a terminar, faltavam só dez dias para o fim do ano, até as cartas astrais falavam num fecho de ciclo de vinte e oito anos e no início de um novo ciclo de crescimento, o que poderia correr mal? Eis que, por causa de um estúpido acidente - como se houvesse acidentes inteligentes - fiquei sem carro. E eu sou daquelas pessoas - como alguém alguma vez disse com ar enfastiado, depois de bater num carro de outra pessoa "ainda por cima calhou-me uma daquelas pessoas que só tem um carro" - pois sou dessas, das que só têm um carro.

Acontece que foi preciso comprar um carro novo, de um dia para o outro, que na provínica os transportes públicos são uma miragem que nunca passa a horas decentes. E fui atendida num stand de excelência - a Benecar (justifica-se a publicidade, ainda que gratuita), por dois anjos, a Marisa Silva e o Ricardo Cardoso - não costumo dizer nomes, mas este caso obriga. Foram absolutamente extraordinários, disponíveis, atenciosos, pacientes, bem-humorados, delicados e outra vez pacientes. Estava tão atordoada que nem conseguia decidir entre automóvel ou carrinha, cilindradas e potência, ano de fabrico e extras. Fui literalmente guiada, aconselhada e tranquilizada. 

No momento de levantar o carro, depois de assinar a papelada, achei eu que me entregavam a chave, me davam uma pancadinha no ombro e vá lá à sua vida, que nós vendemos mais um carro. Não, não foi assim. Num espaço coberto, luxuoso quase, bonito sem dúvida, estava um carro com uma laço vermelho enorme - juro que nem me ocorreu que fosse o que tinha acabado de comprar - e era o meu. Além disso, quando o Ricardo - desculpe tratá-lo com esta familiaridade - abriu a porta para me explicar o funcionamento, tinha um ramo de flores - leram bem, um ramo de flores em cima do banco como gentiliza, além de uma oferta de duas garrafas de vinho. Quase desfaleci. Eu sei, é marketing, mas funiona, oh se funciona. Não havia nada que obrigasse a isto, só a perseguição da excelência e cai bem, dispõe bem. Eu já ficava feliz com a forma como fui atendida, mas estes pormenores, estas atenções, marcam a diferença. Senhores que vendem coisas, aprendam, é assim que se faz e se fidelizam clientes.

Volto ao início: neste ano agridoce, foram sempre as pessoas que me salvaram, as pessoas com quem tive o privilégio de me cruzar foram o melhor de 2020, o Ricardo e a Marisa são os rostos e os nomes de hoje, mas houve muitas mais. No fim de tudo... as pessoas.

21
Dez20

Um ano de livros para adiar o fim do mundo: parabéns!

livrosparaadiarofimdomundo

Dia Mundial do Livro - 10 curiosidades incríveis para leitor nenhum deixar  passar!!! - A Odisseia

Há alturas em que não sei muito bem sobre que escrever aqui e deixo passar algum tempo. Parece que não tenho muito jeito para o imediatismo deste presente social que vivemos. Para hoje, por acaso, havia dois ou três assuntos que queria abordar aqui e que ficam desde já prometidos: a minha última leitura - reli O velho que lia romances de amor - de Luís Sepúlveda; umas dicas giras, ecológicas e amorosas para presentes de Natal; um resumo deste ano 2020 - agridoce, agridoce este ano. Enfim, eis que abro o meu mail e o que é que lá está? Um relatório anual do blog. Foi uma ultrapassagem nos últimos metros: hoje o post tem de ser isto.

Assim, parece que há um ano iniciei este blog: "102 posts, que geraram 32 reações e 160 comentários. Foram mais de 5133 visitas, que geraram 9056 visualizações (entre comentários, pesquisas e todo o tipo de consultas)". Fiquei surpreendida, claro está, não imaginava este números - eu sei que são modestíssimos comparados com o Casal Mistério ou com a Pipoca Mais Doce, mas eu não estou na 1ª Divisão e não vou à Taça dos Campeões. Ainda assim, ter havido 5133 visitas a este blog e 9056 visualizações é um estrondoso sucesso relativamente ao ano de 2019. Afinal, em 2019 não havia blog, logo há um crescimento de cem por cento; mantive este blog ativo durante o ano mais exigente da minha vida - mas isso fica para outro post; superei alguma tendência para a procrastinação, para a desistência; houve 102 dias no ano em que me sentei a escrever. Mas, o feito maior de todos é manter alguma regularidade nas leituras acerca de assuntos que não são fáceis nem especialmente apelativos: livros e leituras sobretudo. E, cereja em cima deste meu bebé, houve quatro momentos no ano em que fui honrada com destaques na página do Sapo.

Estou feliz com este meu "bordado" que vou entretecendo ao sabor dos dias, de uma inspiração que é volátil, uma continuação do gosto da leitura, uma troca de experiências de que gostei sempre muito. Falar sobre livros é um dos meus passatempos favoritos e escrever sobre eles e trocar impressões com desconhecidos fica muito próximo disso. Por outro lado, o blog faz com que tenha mais consciência das minhas leituras e dos ritmos ao longo do ano, daí ter a impressão de que este ano li um pouco mais

Obrigada a todos os que me leram ao longo deste ano. Obrigada aos leitores que se mantiveram fiéis e assíduos - são poucos, mas bons. Obrigada à minha querida amiga que acreditou em mim e nas potencialidades deste blog antes de mim. Sem ela esta avantura nunca teria acontecido. Esta efusividade pode arrancar algumas expressões desdenhosas, afinal não subi nenhuma montanha, apenas dei uns passeios tranquilos pelos bosques da ficção, mas também eu nunca quis subir ao Olimpo, fico por aqui no rés dos blogs.

20
Dez20

#44/2020 - Mrs. Caliban, Rachel Ingalls: como um bordado.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Mrs. Caliban

 

Editora Cavalo de Ferro

126 páginas.

... foi comprado para oferecer, não estava embrulhado. Juro que ia só espreitar! Mas estava à lareira, li uma página, depois outra, li todo. É bastante sustentável, era um livro que eu queria para mim, agora já não vou comprar. Acho que para o ano vou oferecer livros a toda a gente que conheço, fica sempre bem, começo já a comprar em janeiro e embrulho em dezembro. Não há nada como antecipar e fugir às confusões de última hora.

Este Mrs Caliban fez-me lembrar o enredo do filme A forma da água: há um monstro aquático, uma história de amor, mais algumas coisitas em comum. Mas fui pesquisar e, pelos vistos, não têm nada a ver um com o outro. Este romance, que é considerado perfeito, é de uma delicadeza extrema. É uma obra pequenina, lê-se de um fôlego, é um pequeno prazer. A história é simultaneamente triste e alegre. Quando a vida nos dá limões azedos, quando não nos conseguimos libertar da nossa própria existência e daquilo que nos faz sofrer, às vezes suregem formas de evasão que poeticamente nos salvam. É isso que acontece a Dorothy, presa a um casamento infeliz, tratada com indiferença pelo marido, entregue à sua rotina, onde sobrevive mais do que vive. 

O livro, na sua ambibuidade, é belíssimo e Dorothy é uma heroína trágica, bondosa, naif, pura e sonhadora, que encontra em Aquarius tudo o que lhe falta na vida e que pode manter enquanto conseguir aguentar a ilusão.

Vão ler, é bonito, é simples, é como um pequeno bordado, uma filigrana. Gostei muito.

 

13
Dez20

#43/2020 - A vegetariana, Han Kang: um livro perturbador

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A Vegetariana

Editora: D. Quixote

Páginas: 190

Da biblioteca.

Depois de Atos Humanos,  fiquei decidida a ler os restantes títulos de Han Kang, por ter considerado que é uma escritora definitivamente interessante. No entanto, precisei de alguns meses para lá regressar, porque o primeiro livro lido foi assim para o pesado, de "digestão difícil", mesmo para mim que gosto de literatura a sério e não só de entretenimento.

Numa passagem pela biblioteca, este Vegetariana, atravessou-se-me no caminho e pensei que já podia regressar a esta autora. É um romance pouco extenso, mas, como a partícula do Big Bang, carregadíssimo de sentido. O ponto de partida do livro é mais ou menos conhecido e se não é consta da sinopse. Trata-se da decisão abrupta de uma jovem mulher de deixar de comer carne, sem que se pressentisse o enorme impacto que essa decisão tem sobre as pessoas que com ela convivem. A estrutura do texto é fragmentária, como voltará a ser em Atos Humanos, já que este último é posterior a este romance. São três os pontos de vista assumidos: o do marido, o do cunhado e o da irmã, visões complementares dos efeitos trágicos que esta decisão tem sobre a vida das personagens.

O que, de facto, me agarrou neste livro é a forma como cada uma das personagens vive imerso na sua bolha existencial, é um livro sobre a incomunicabilidade. Yeong-hye não consegue explicar a sua opção, à partida porque sabe que não será compreendida, e não é, ninguém a consegue compreender, embora ninguém fique indiferente. Quem se aproxima mais dessa compreensão é a sua irmã, que se vai apercebendo que a pressão que o quotidiano exerce sobre ela é da mesma índole do exercido sobre a irmão, só que a segunda se deixou ir, cedeu a essa pressão e, indiferente a todas a formas de pressão, tentou encontrar uma saída para todas as formas de violência com que foi convivendo. A dada altura, no romance, afirma-se que as personagens se moviam como se estivessem no vácuo e esse dado permite descrever a impresão com que se fica do livro: cada uma das personagens ensimesmada, introspetiva, voltada para a a sua vida interior, tragicamente só, embora partilhando espaços, vidas, sexo, alimento. Todos se desconhecem, todos se (in)compreeendem, todos embatem contra o limite invisível da bolha em que vivem suspensos.

Há outro aspeto, que se prende com a forma como todos tentam "ajudar" a vegetariana, mas todas essas ajudas são outras tantas formas de violência: a do pai, a do marido, a do cunhado, a dos enfermeiros, a dos médicos, porque todos a querem forçar a voltar à tribo, a fazer parte, a adotar a mesma forma de viver, a reintegrar-se. A vegetariana resiste até abdicar da própria vida. Não quer comer carne, não quer comer de todo, quer ser árvore como forma de evitar toda a violência com que foi vivendo. Esta é a grande questão que o livro me colocou, quando temos a pretensão de salvar os outros, a apartir de que momento isso não é afinal uma forma de os condenarmos, de lhe impormos um sofrimento bem maior do que a morte? 

Por fim, tal como na outra leitura, é a lingugem, senhores, a linguagem é um supremíssimo íssimo íssimo bem na escrita de Han Kang. Apesar da crueza, do choque, da repugnância até, que visceralmente experimentamos na leitura, tudo é emoldurado numa expressão linguística que é quase poética, inefável, sublime. Daí que este livro seja, ainda assim, um texto belíssimo, estético e ético sobre a nossa miséria humana.

Mais um livro que é muito mais literatura que entretenimento. Vamos ao terceiro da autora? Vamos, pois.

10
Dez20

Calendário do advento... 10 no dia 10 #2

livrosparaadiarofimdomundo

Vamos continuar a listagem do nosso calendário do advento. Hoje alguém me disse que gostava de listas, o que me lembrou que, há cerca de dois ou três anos, fiz uma brincadeira com os meus filhos. Pegámos em três frascos, um para os filmes, outro para os livros que eu queria ler e o terceiro para os livros que a minha filha queria ler. Depois fizemos papelinhos com os títulos (como se fazem para o sorteio de natal), colocámo-los nos frascos e, quando fosse o momento de começar um livro novo ou de ver um filme, tirávamos o papelinho e éramos obrigados a obedecer ao que as cartas ditassem. Vou-me abster de vos contar o sucesso da ideia, que achei muito boa... mas eu não sou muito obediente e tenho alguma tendência para a rebeldia.

A propósito deste calendário do advento, voltei a lembrar-me do frasco e, como eu no que toca aos livros nunca consigo, ficar só por um, pelos vistos, nem para comprar, nem para requisitar (fui à biblioteca e trouxe dois), nem para emprestar, levo logo por atacado, achei que era boa ideia sugerir dez livros dos papelinhos do frasco que ainda está cá em casa. Vamos ver o que os astros nos reservam. Prometo ser honesta e "confessar" se os li ou não.

O Deus das Moscas, William Golding

Wook.pt - O Deus das Moscas

Os astros são mesmos tramados. Não é que hoje falei deste livro com uma colega da escola, que me perguntou se eu o conhecia, tendo eu de lhe confessar que nunca o tinha lido, mas que tenho um exemplar em casa... na prateleira dos livros a ler. Vou ler e prometo um post. 

2º 

O atalho dos ninhos de aranha, Italo Calvino

Pois... também não li. Adivinhem, tenho em casa na prateleira...

A fera na Selva, Henry james

idem, idem, aspas, aspas

4º 

Homens e Bichos, Axel Munthe

Homens e Bichos

Não li, tenho em casa, tem exatamente esta capa. Diz que está esgostado. 

5º 

Eneida, Vergílio

Tenho esta edição, não li. Está na prateleira dos livros a ler.

6º 

Terras do Demo, Aquilino Ribeiro

Tenho vergonha.

7º 

O Mensageiro das estrelas,

Sidereus Nuncius : O Mensageiro das Estrelas

Comprei por causa do Nuno Camarneiro. Tenho esta edição. Não o li.

Cisnes Selvagens, Jung Chang

Cisnes Selvagens

Tenho em casa, emprestado. Tenho a certeza que, pelo menos um dos meus leitores, sabe do que falo.

Paraíso e Inferno, Jón Stefánsson

 

Paraíso e Inferno

Pelo menos um para salvar a minha honra. Olhem para mim, inchada de orgulho. Tenho e já li. Adoro esta trilogia. Depois deste, li Os peixes não têm pés, e já não foi bem a mesma coisa.

10º

A rainha da neve, Michael Cunningham

A Rainha da Neve

É uma quase vergonha. Tenho, tem exatamente esta capa e já comecei. Foi há tanto tempo, que mais vale recomeçar. Mas é um quase. Pelo menos mereço pontos pela participação.

Resumo desta infeliz ideia: não valia mais eu estar sossegadinha. Então eu faço um frasco com livros que quero ler, descubro anos depois que os livros que quero ler tenho-os em casa e ainda não os li? Não é preciso ninguém pôr-me a ridículo, eu, pelos vistos, trato disso muito bem sozinha. Posso ter ainda o descaramento de fazer um desafio aos meus leitores: que acham de fazermos um desafio de leitura com estes títulos, exatamente por esta ordem? Quem ler primeiro, eu ofereço um livro! 

Enfim, o chocolate de hoje é mais agridoce que o Mon chéri, é assim apimentado, pimenta na língua para quem fala/escreve antes de pensar...hummmm, vou fazer uma encomenda na WooK...

 

09
Dez20

Calendário do advento... a partir do dia 9 de dezembro #1

livrosparaadiarofimdomundo

Tinha esta ideia, que era tão boa: a partir do dia 1 de dezembro, faria um calendário do advento com livros recomendados para o Natal e para quem quisesse. Depois a minha vida é como aqueles poemas da adolescência: "a minha vida é como um carro sem travões/ que me atropela como se eu tivesse dois corações", e não consegui. Mas, como sou teimosamente otimista, ou leviana, ou sem noção, ou acredito mesmo que vale sempre a pena, mesmo quando sou uma mulher pequena, achei que podia fazê-lo à mesma, a partir do dia de hoje.

Até ao famigerado ano de 2020, fazia a àrvore de natal no dia 8 de dezembro. Porquê? Normalmente, havia muitos testes para corrigir nesta altura do ano letivo e a partir deste dia já ninguém calava os meus filhos. Era por isso...

Já há Natal por todo o lado. Aliás acho que podíamos despachar este ano mais cedo e fazíamos o Natal a 25 de novembro e a passagem de ano a 1 de dezembro, mas já deixámos passar a oportunidade.

Um livro pode recomendar-se quando um homem quer, uma mulher deve lutar pela igualdade de direitos, portanto também recomendo quando me apetece.

Vou fazer como as crianças com o calendário de advento, como cheguei atrasada, como os nove chocolates todos de uma vez, ou seja, deixo aqui nove sugestões de livros para ler, para oeferecer, para comprar se for como eu e se achar que é mesmo importante acrescentar a prateleira dos livros que ainda não leu, para equilibrar a estante, que um livro é muito melhor que qulquer bibelot e fica muitíssimo bem em qualquer reunião ZOOM (e elas estão para durar). O compromisso é recomendar livros de que ainda não tenha falado aqui no blog

1º 

Os Loucos da Rua Mazur, Joaõ Pinto Coelho

À partida, será melhor que os do José Rodrigues dos Santos, é mais pequeno de certeza e também é mais barato. A verdade é que é muito bom e baseado num caso verídico e já que o Holocausto anda por aí como tendência...

Wook.pt - Os Loucos da Rua Mazur

2º 

Contos, Gabriel García Márquez

Conheci Gabriel Garcia Marquez precisamente através dos contos. Este volume reúne os contos que o escritor tinha publicado em vários volumes. É volumoso, causa tanto mpacto como um volume de José Rodrigues dos Santos, mas é mais literatura. É literatura muito a sério, com a pitada de realismo mágico que fez deste escritor um amigo para a vida. Faz parte do Plano Nacional de Leitura e é de confiar nessas pessoas, pelo menos a responsabildiade é grande.

Wook.pt - Gabriel García Márquez

3º 

Pantaleão e as visitadoras, Mário Vargas Llosa.

É um livro maroto, acho eu que melhor que as sombras todas que se têm publicado por aí com rostos de mulheres de batom vermelho em êxtase muito pouco cristão. Além de maroto, é muito, muito, muito engraçado. Deus sabe como precisamos de rir. Além disso, Vargas Llosa fica bem em qualquer lista.

Pantaleão e as Visitadoras

4º 

As pequenas Memórias, José Saramago

É importante trabalhar com a prata da casa, neste caso, é mais com o diamante. Nunca escondi que venero o escritor José Saramago. É tão genial. Recomendo este para que parem de dizer que o nosso Zézinho não usava as vírgulas. Tipo de observações literárias que me faz enumerar insultos sem vírgulas, mentalmente... em voz alta, respondo com muita calma e atiro com uma explicação técnica sobre a impossibilidade de lermos um texto sem vírgulas. Eu sei que há gente que acha que sim, mas não, não. Não sei porque é que não tem o carimbo do PNL.

Wook.pt - As Pequenas Memórias

 

5º 

Contos, Eça de Queirós

Também cheguei a Eça de Queirós através dos contos. Um conto em especial, "O Suave Milagre". Li-o tão nova, comoveu-me tanto. Vinha num livro castanho muito formato A3 que uma tia freira deu ao meu pai. Era o único livro que havia lá em casa. Trazia também a história de Benvenutto Cellini e depois vi uma estátua dele na ponte em Florença e fui feliz. Enfim, os contos de Eça de Queirós dão-nos uma formaçãozinha em humanismo. Recomendo também o "Frei Genebro". Está no PNL, logo é uma leitura/presente que fica bem.

Contos

 

6º 

A fada Oriana, Sophia de Mello Breyner

Foi o primeiro livro que li e lembrei-me dele quando falei em humanismo. É uma pérola. Só por causa disso, vou relê-lo. É tão bonito. Gosto tanto da Oriana e fiquei tão aliviada por ela ter conseguido salvar a velhinha (alerta spoiler).

A Fada Oriana

7º 

Gaspar, Belchior e Baltasar, Michel Tournier

Sim, é verdade, é a história dos reis magos. É tão maravilhoso este livro. Emprestei-o a alguém que não mo devolveu e o pior é que não sei quem foi (se me estás a ler e tens o meu livro, devolve-mo, gosto tanto dele). Antes de o Vasco Palmeirim ter escrito a letra da canção "Santiago, o quarto rei mago", Tournier tinha escrito este romance. Tem um arzinho de natal e é muito, muito, muito, bom. Leiam primeiro, ofereçam depois, não emprestem.

 

Gaspar, Belchior & Baltasar

 

O silêncio do mar, Vercors

Ora cá está a 2ª Gurra Mundial de novo. Li este livro em francês, leitura obrigatória no secundário. Não percebi metade, acho eu, mas ficou aquela imagem de alguém que se unia pela música e que falava contra um muro de silêncio. Acabei de o comprar para ler em português e tenho a certeza que vou gostar de novo. Como aliciante extra, é muito pequenino e e conta para a estatística como os romances de José Rodrigues dos Santos. Ainda vai a tempo de dizer que leu um livro este ano, nem tudo se perdeu.

O Silêncio do Mar

 

9º 

Tess dos D'Ubervilles, Thomas Hardy

Como acredito que ninguém aguentou ler isto até aqui, vou permitir-me (se permita!) a falácia. Não li. Era leitura de inglês no secundário. Mas eu não consegui, juro, eu percebia muito pouco o inglês. Vi o filme com um grupo de colegas. Lembro-me muito bem. Acho que o livro também deve ser bom. Quero ver quem é que me denuncia, ou seja, quero ver quem lê textos até ao fim. Se podemos fazer isto no facebook, aqui também deve dar. Não é preciso partilhar com 200 contactos e a pobreza no mundo vai continuar e a nossa pouca sorte também.

 

E pronto. Comemos os nove chocolates do advento. Leiam muito, é mais barato que outras coisas e tem menos efeitos secundários e os que tem não são maus. Mandem-me ler em vez de escrever tantos disparates.

07
Dez20

#42/2020 - Tu não és uma mãe como as outras, Angelika Schrobsdorff: afinal, em 2020, li um livro sobre o holocausto.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Tu Não És Como as Outras Mães

Editora Alfaguara

568 páginas

Emprestado

Neste post, convergem uma série de coincidências e de circunstâncias que não deixam de ser curiosas. Desde que li Se isto é um homem, de Primo Levi, passei a ter alguma dificuldade em ler livros sobre o holocausto, por crer que só quem o viveu pode efetivamente dar dele testemunho, tudo o resto, se não for cuidadoso, serão exercíos arriscados. Talvez aqui a literatura perca um pouco para o cinema, porque o segundo pode contar com a força das imagens, como esse admirável A Lista de Schindler. Depois de Levi, li ainda Os loucos da rua Mazur, de Joaõ Pinto Coelho e a verdade é que o livro me despertou um interesse genuíno, muito pelo facto de nos dar uma perspetiva que se tem tentado silenciar: a de que os nazis tiveram também os seus apoiantes na Europa que iam esmagando. Acontece também por estes dias a publicação de um livro de José Rodrigues dos Santos, cujas observações a propósito de um entrevista têm merecido alguns posts nas redes sociais, no mínimo "entusiastas", mas, segundo li, ele pô-se a jeito, mas sobre este livro não me alongarei, porque não o li, nem tenciono lê-lo, pelo menos para já. E li, nesta última semana, este livro de Angelika Schrobsdorff, cuja ação decorre entre os anos da 1ª Guerra Mundial e os últimos anos da década de 40, do século XX.

Angelika dá-nos um relato simultaneamente familiar e universal. A vivência de Else, a sua mãe, corresponde à experiência de muitos judeus que eram identitariamente alemães, bem mais próximos do rigor, da disciplina, da ordem, da limpeza, da cultura riquíssima, da literatura, da música alemãs do que propriamente das suas raízes judaicas. As ondas de choque da Primeira Guerra Mundial não chegaram talvez a ter grande impacto na vida de muitos alemães (judeus ou não) e terá havido uma classe social que continuou a sua vida um pouco alheada do que ia contecendo à sua volta, imersos em rotinas que aparentemente contribuíam para essa ilusão de que as coisas continuavam iguais. Enquanto assim viviam, o nacionalismo e o nazismo iam crescendo e os éditos que comprometiam a sobrevivência dos judeus iam-se sucendendo e apertando o cerco em torno a muitos alemães que continuavam incrédulos de que a infâmia pudesse ser levada tão longe.

Else e as filhas, Bettina e Angelika, devido ao seu casamento com um alemão acima de qualquer suspeita, semi convertidas ao cristianismo, vão sendo poupadas até que a fuga da Alemanha se impõe como a única hipótese de sobrevivência. Através de um casamento de fachada com um búlgaro, refugiam-se na Bulgária, onde sobrevivem numa escalada de privações aos anos mais negros da Segunda Guerra Mundial e da ascenção e glória do nazismo. Mais uma vez, os búlgaros apoiaram os nazis quando estes chegaram ao seu país.

O romance - custa-me um pouco esta designação pela autenticidade da história - oferece-nos um valioso testemunho biográfico sobre esses anos da história da Alemanha e da Europa. Nem todos os romances sobre este período podem ser sobre os campos de trabalho, as câmaras de gás. Nem todos por lá passaram, lá morreram ou lhe sobreviveram, mas isso não quer dizer que não houvesse outros dramas a serem vividos. O desenraizamento, a perda de identidade, as fraturas familiares, as privações, o sofrimento, a perda de familiares e amigos, separações que nunca mais puderem ser superadas, a pobreza, a miséria, são outras tantas faces destes anos, outras formas de morte psicológica.

Há no livro três aspetos que me tocaram. O primeiro é o destino dos avós judeus de Angelika. O avô morre já no auge da perseguição dos judeus e acaba por ser poupado. A avó conhece ainda um campo de concentração, ali perecendo. Outro tem a ver com o percurso de Else, de uma vida de boémia, de procura de prazeres, da vida em pleno, da liberdade, do amor, guiada sempre mais pelo coração do que pela razão, a uma consciência dos limites humanos, da nossa profunda fragilidade, da ausência de certezas, da insegurança em que verdadeiramente vivemos, da própria imperfeição da humanidade, da falta de limites para aquilo que os homens podem fazer uns aos outros. No final da vida, percebe-se que Else conhece o despojamento para se centrar apenas no amor pelos filhos e é isso que ela é acima de tudo: mãe dos seus filhos. Por fim, a frieza de Angelika, porque, na verdade, a descida aos infernos não é garantia de sairmos de lá mais aperfeiçoados, o conhecimento do horror tem um impacto sobre a nossa humanidade que, a menos que façamos o caminho, nunca poderemos ajuizar. Voltemos a Levi: quando é que deixamos de poder dizer que somos homens, até quando aguentamos o nossa dignidade quando estamos privados de qualquer alento?

Recomendo vivamente esta leitura acima de tudo por ser um relato de quem a viveu e isso confere uma habilitação que poucos escritos ficcionais sobre o holocausto parecem ter, numa proliferação nos escaparates das livrarias que nos levanta algumas suspeitas de que mais não sejam do que um aproveitamento de um episódio histórico - trágico, sórdido, desumano que nos deve continuar a colocar questões cruciais, sobretudo de memória - que é tratado como a última receita literária mais rentável.

 

25
Nov20

#41/2020 - Adoração, Cristina Drios: arriscada escolha

livrosparaadiarofimdomundo

Adoração

Editora Teorema

214 páginas.

Emprestado Hashtag proud ( hei de contar quantos livros li emprestados este ano, bati um record de certeza)

Não conheço quase nada da autora, nem vida nem obra. Ouvi falar deste livro no clube de leitura da Leya, numa sessão dinamizada pela editora Maria do Rosário Pedreira. Os meus olhos brilharam logo, com estrelinhas como nos desenhos animados. Eis uma combinação a que não resisto: obras literárias que versem aspetos relacionados com as artes plásticas. Acresce que o Caravaggio sempre exerceu sobre mim um enorme fascínio, conto a sua obra entre aquelas que, se não a que mais, admiro. (Parentesis para desabafar um desgosto enorme: quando estive em Roma, no dia em que tinha planeado visitar a igreja de Santa Maria del Popolo, demoramos tempo demais no Vaticano e na basílica de São Pedro e, já com o tempo contado, a minha filha resolveu comprar roupa numa loja que tinha tamanhos muito pequenos. Quando chegamos, a igreja já tinha fechado e não pude ver duas das obras que mais me fascinam: A cruxifição de São Pedro e A Conversão de São Paulo. No entanto, pude ver a cabeça de Medusa na galeria Delli Uffizi. Há pelo menos essa consolação).

Mas eu vim aqui foi para vos falar do livro de Cristina Drios, que uma amiga comprou em segunda mão e generosamente me emprestou (Parentesis para contar uma curiosidade sobre o livro. O volume vem autografado, e esta hein? Este é um dos fascínios dos livros em segunda mão, além de serem aquisições mais sustentáveis. Hoje pareço mesmo uma mulher a escrever. Prometo não me desviar mais).

Do que gostei mais? da maneira difusa como Caravaggio é representado e que está bem de acordo com a sua vida enigmática e marginal. O fascínio que este artista exerce sobre quem se cruza com ele atravessa séculos e começou a fazer sentir-se ainda em vida do artista. Esse aspeto está muito bem trabalhado no livro. Também a referência às circunstâncias em que algumas das obras foram pintadas, causadoras de uma espécie de exaustão física e mental e de uma eterna insatisfação e desgosto estão bem pintadas e em harmonia com alguns relatos que apontam para o facto de Michel Angelo Merisi sofrer de algum distúbio mental, tal como Van Gogh, mal explicado, algumas vezes explicado pelos eflúvios venenosos do chumbo contido nas tintas. Assim, o livro valeu por essa revisitação, por funcionar como um impulso para rever a reprodução das suas obras, agora iluminadas por esta interpretação. Na linha de outros livros que li este ano, não vou cometer a injustiça de os comparar. São objetos estéticos diferentes, os leitores são diferentes e não reagimos da mesma maneira a estímulos idênticos.

Do que menos gostei? da ligação um pouco mal amanhada - quanto a mim - ao presente, à Máfia, à polícia, ao crime e ao clima de insegurança que a Itália tem atravessado. Não é que a ideia seja má. É um bocadinho na linha dos romances de Dan Brown. É uma estratégia narrativa arriscada e, neste caso, não me pareceu muito convincente. Depois penso neste atrevimento que é vir para aqui vampirizar o trabalho de outrém, quando ainda não provei que faria melhor.

Em suma, vale a pena ler, porque é de uma autora portuguesa, porque é uma obra interessante honesta. Não é deslumbrante, não será talvez inesquecível, mas aproxima-se da experiência do Belo e tem esse mérito de arriscar na escolha e na forma de tratar o tema. Mexer com gigantes é sempre uma arroubo de David perante Golias. Às vezes, é preciso armar a funda de novo. Só por causa disso, vou colocar na lista de livros a ler Os olhos de Tirésias  e dar os parabéns à Cristina Drios.

 

17
Nov20

De muito longe

livrosparaadiarofimdomundo

"Não são as tuas memórias que te perseguem/Não é o que registaste por escrito./É o que esqueceste, o que tens de esquecer./O que devias continuar a esquecer ao longo da vida."

James Fenton, Um Requiem Alemão

(epígrafe do livro Refugiados, de Viet Thanh Nguyen )

Há dias em que me orgulho deste país, dos seus políticos, das suas instituições, independentemente da cor partidária, do quadrante social, da área de intervenção.

Acontece que a Grécia lançou uma iniciativa para a recolocação voluntária de menores estrangeiros não acompanhados, a que corresponde o acrónimo MENA. Acontece que, nos campos de refugiados existentes na Grécia, havia cerca de 1600 crianças e jovens elegíveis para o efeito. Acontece que a iniciativa recebeu um forte impulso da Comissão Europeia junto dos Estados-membros. Acontece que Portugal assumiu o compromisso de receber 500 MENA, até 2021, de forma faseada. Isto deixou-me orgulhosa nos nossos políticos. Quer isto dizer que, para além dos jogos palacianos de trazer por casa que nos vão desgostando, a um nível europeu temos gente capaz de assumir compromissos com esta grandeza.

Quando chegam a Portugal, estes jovens são instalados em lares de acolhimento, que recebem também muitas crianças e jovens portuguesas que são institucionalizadas por não terem famílias que garantam a sua segurança - outras formas de se ser refugiado. As pessoas que dirigem estes lares revelam preocupações genuínas com o bem-estar destes jovens, proporcionando-lhe um lar, conforto, calor humano, estrutura e suporte que escoram, sustentadamente, existências desagregadas. Além disso, estes jovens integram naturalmente o sistema educativo português, acompanhados de muito perto pelas instituições que o tutelam: DGE, DGEstE, ANEQP, preocupadíssimos com o seu encaminhamento, assumindo um discurso humanista, empático, protetor, de quem tem perfeita consciência de que estes jovens não só vieram de muito longe como foram colecionando cicatrizes na viagem. E isto deixa-me muito orgulhosa nas instituições.

Há, por fim, um conjunto de profissionais que recebe, acarinha, encaminha, acolhe, imagina, cria e proporciona ambientes de integração, de inclusão que são verdadeiramente edificantes. Muito se ganha a observar seres humanos a serem humanos, uns na procura, outros na resposta. Imaginar a distância que o nosso cérebro não consegue abranger, imaginar o desamparo, imaginar as privações, imaginar os medos, as incertezas, o indizível não é sequer possível. Tomar consciência das histórias que se repetem e se perpetuam noutros hemisférios, noutras coordenadas - pai e mãe desaparecidos, separados de irmãos, rejeitados por familiares já instalados, vítimas de guerras, de conflitos a que são alheios, a sobrarem em todos os quadrantes - apequena-nos, faz-nos encolher. Isto deixa-me muito orgulhosa - mesmo nestes tempos de chumbo, de desventuras, de covidas, de regressão, de trumpalhadas, de raiva e violência - do género humano. Ainda há braços abertos, há empatia sem paternalismo, há entusiasmo sem condescendência, há autenticidade fora dos holofotes do reconhecimento.

Eles vieram de muito longe, mas, embora poucos, encontraram um lugar para começarem a ser outra vez.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D