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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

19
Fev22

#1/2022 - Itália, Práticas de Viagem, António Mega Ferreira: das práticas à viagem

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Itália - Práticas de viagem

Sextante Editora

280 páginas

Tanto para dizer...

1. Lembro-me muito bem do António Mega Ferreira desde a sua crónica no Expresso, que li sempre interessadamente. É, para mim, o senhor Expo 98. Há tempos, cruzei-me com um romance escrito por ele e Mega Ferreira é ainda o autor do prefácio da edição da Leya de A Guerra do fim do Mundo, deVargas Llosa, mais um leitura que não é possível contornar. A última referência a este autor foi não sei quando nem sei onde, mas ficou uma reminiscência sobre um livro relacionado com a Itália e o apreço como foi referido. Essa reminiscência ficou a fermentar e, numa das últimas idas a uma livraria, cruzei-me com o livro sobre o qual incide este post em promoção, uns passinhos mais à frente, o outro, tinha de ser o outro da tal referência, que é Crónicas Italianas. Como sempre numa livraria e quando estou sozinha, acabei com um verdadeiro braçado de livros, que pousei e fui buscar de novo, e não quero saber, a vida é tão breve, mas tens tantos livros para ler, e daí... Acabou por prevalecer o bom senso e trouxe apenas estes dois de Mega Ferreira... não trouxe um terceiro sobre Roma, porque não estava lá. 

2. Nada arrependida da decisão tomada. Este livro tem a minha cara, é o meu nome do meio, decidiu o destino das  minhas férias de verão, e o livro em si é um lugar maravilhoso. As práticas de viagem do autor incidem sobre diferentes lugares de Itália e esse país petaloso emerge com as suas cores ocre, a sua sprezzatura, a sua comida, os seus monumentos, testemunhas de séculos de história da Arte e da Literatura, da música e do cinema italiano. É ler um livro pela primeira vez e regressar a lugares que, embora conhecendo, nos escaparam. É um circuito arredado das grandes massas de turistas, feito de capelas e igrejas retiradas, de quadro e frescos quase secretos, de poesia declamada na frescura de um claustro, de biografias criativas, de textos fundadores.

3. Bolonha, Florença, Siena, San Giminagno, Roma, Ferrara, Trieste, Ravena, Veneza... Dante, Petrarca, Rafael, Giotto, Botticelli, Miguel Ângelo, Caravaggio, Giordio Morandi, Montaigne, os Médici, os papas, Bernini... marcas portuguesas em Itália, os cafés, as bibliotecas, a história, as curiosidades... daí que persista a sensação de que até são lugares onde estive, em sentido lato, mas não estive, porque me faltavam as chaves para olhar que este livro nos entrega. 

4. Diz que é um livro de viagens, mas é muito mais do que isso, é Educação Visual, é um tratado de erudição e de cultura, é inteligência, é atenção e sensibilidade. É um livro de uma riqueza enorme, que desafia, que transborda das suas páginas, que esmaga pela sabedoria que dele extravasa, que é humanista no seu apreço pela arte como forma de superação e de aperfeiçaomento individual.

5. Por isso, tenho de regressar a Itália, mais viajante e menos turista (que nunca fui verdadeiramente...), mais para estudar do que para olhar, mais para ver do que para apenas passar e deixar, gravadas na retina, não apenas as imagens, mas, transformando-as em meórias, aprorpriar-me da lição da história e do humanismo, tornando-me mais sensível, mais atenta, mais empática. É todo um processo de aperfeiçoamento pessoal para o qual este livro me desafia, renovando os votos que, muito cedo, fiz para com a pintura, a arquitetura,  a literatura e a escultura, procurando nas obras primas sublimar o anódino quotidino em que se esvai a nossa existência.

6. Fiquem atentos ao último texto, é tão bonito.

6. Segue-se, de imediato, Crónicas Italianas, só para confirmar. 

03
Fev22

Escrita em atraso: ensaio para um regresso

livrosparaadiarofimdomundo

Há tempos que não vinha aqui.

Parte de mim foi atingida por uma segunda vaga de compromissos profissionais que assumi e que fizeram das coisas de que eu gosto(ler e escrever) reféns dessa outra forma de vida.

Apesar desse coma de escrita/leitura - ler como quem respira, escrever como quem expira -, o universo manda-me sinais de que devo/possocontinuar.

Há dias, fui contactada pela orientadora das duas teses que fiz a lembrar-me que continua a acreditar em mim e a querer que eu continue a trabalhar da forma como garante que eu sei, a querer que eu volte a produzir, dizendo-me que ainda sou jovem e que ainda tenho tanto para dar. E eu fico perplexa.

Hoje regressei a este lugar, tem sido quase impossível vir aqui, a minha energia tem-se gasto noutras latitudes. Não é que me deem menos gosto, não é que não sejam importantes, não é que não tenham um papel social que me é muito grato, mas não é um papel criativo... ou é, às vezes até é, de outra maneira, mas é. E tive uma surpresa enorme. Parece que um dos meus posts de 2021 mereceu destaque da equipa do sapo blogs. Que orgulho senti, que baque no estômago. Não escrevo há tanto tempo e isso deixa-me tão triste. Obrigada Sapo pelo "sucesso editorial".

Desde sempre quis fazer da escrita uma forma de vida. Imagino-me romanticamente ensimesmada no labirinto da escrita, a viver disso a respirar essa forma de viver. Mas a vida é como um oceano, fui apanhada por outras correntes, queria aportar em Ítaca e fui ter à Madeira. O meu sonho tinha uma espécie de misticismo e saiu-me a trivialidade. Um dia, a meio de uma conversa, desabafei afirmando que não me imaginaria a gerir uma empresa e é quase isso que faço agora: sou diretora de um mega agrupamento de escolas. A educação, ser professora, é outro dos meus sonhos, dos lugares onde sempre quis estar, mas esta forma de estar é muito burocrática, embora o tédio não me assista e haja momento de grande compensação. 

Mas eu queria mesmo era escrever. Por isso ensio este regresso, por isso prometo a mim mesma voltar aqui e permitir-me este simulacro de ateliê e, como sempre, torcer para que aqueles que um dia me leram continuem a querer fazê-lo. O meu blog diz-me que tenho 74 resistentes que seguem esta página, é um critério de sucesso, tenho a certeza. 

 

10
Nov21

#22/2021 - Ciclo Tatiana Salem Levy: A chave de casa

livrosparaadiarofimdomundo

A chave de casa

Palavras-chave: viagem, memória, amor, mãe, abuso, polifonia, fragmentação, passado, reconstrução, diáspora, exílio, círculo.

O primeiro romance de Tatiana Salem Levy é surpreeendente pela segurança com que a autora conduz a narrativa, pelo domínio da linguagem, pela utilização dos recursos narrativos oferecidos pela memória, a polifonia e a fragmentação.

Contado na 1ª pessoa, mas são várias as pessoas, há uma vocação clara para a polifonia o que, enquanto estratégia narrativa, implica automaticamente o leitor, a quem cabe montar a história, ligar os fragmentos, estabelecer as relações, preencher as lacunas e imaginar o que fica percetível na gestão dos silêncios da própria história. Daqui resulta um livro que se estilhaça, tornando-se vários livros, várias histórias que são, na verdade, a mesma história: o passado de uma das personagens. Descendente de judeus, o povo da diáspora, o povo perseguido, em constante movimento. O avô da personagem que viaja para Esmirna tinha partido de Esmirna, a personagem que desembarca em Lisboa, apesar de brasileira, tinha nascido em Lisboa, cidade onde os pais se tinham exilado por causa da ditadura, outra forma de diáspora, mas a mesma fuga à perseguição e aos desmandos da violência do homem contra o homem.

O amor sob as suas múltiplas formas. O amor proibido, que leva à morte pelo desespero; o amor e a devoção pela figura da mãe que persiste na memória, mesmo após a morte, o amor que não é amor, mas que prende, oprime e se torna palco da maior violência e do maior abuso; o amor catártico que é uma forma de resistir e de sobreviver, o amor possível, o amor esperança.

A literatura e a escrita como forma de viver e de reviver, mas acima de tudo como forma de ser: "Se não sangra, a minha escrita não existe. Se não rasga o corpo, tampouco existe. Insisto na dor, pois é ela que me faz escrever". Esta passagem parece-me emblemática. Encerra em si a negação de uma certa forma de literatura, aquela que dizemos leve, de mera fruição. Não, a escrita e o objeto que daí resulta não é para ser um lugar de conforto, não é para nos acolher, é para nos fustigar, para nos abalar, para nos levar tão longe quanto possa ser dito. Esta é uma característica da obra de Tatiana Levy, a linguagem quase brutal, crua, sem dourados, sem concessões. O indizível, como a própria autora afirmou, é para ser dito, porque é tangível e não pode ser oacultado. Tudo deve ser exposto de maneira a interpelar-nos a arrastar-nos perante um quadro que não quereríamos ver, mas perante o qual somos colocados sem qualquer piedade. É uma escrita que é didática. Em contraste, também lá está uma certa poeticidade, um quase fantástico e etéreo, em especial na relação que a filha estabelece com a mãe, mantendo-a viva pela persistência da memória, amando-a devotamente.

É um livro poderoso, irresistível, só tem um defeito: está esgotado e isso, por si só, é uma injustiça, porque este livro merece ser lido, relido e discutido.

 

09
Nov21

#22/2021 - Ciclo Tatiana Salem Levy I

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A chave de casa

Cotovia

126 páginas

Emprestado (a ferros, que o livro está esgotadíssimo).

A figura do círculo é geometricamente e existencialmente interessante. 

Para vos explicar esta metáfora, ou esta asserção, vou precisar de algum tempo, alguns livros, alguns posts.

Aqui há uns meses, talvez até mais do que um ano, numa daquelas publicações acerca dos melhores livros, ou da década, ou do ano, ou de sempre, ou porque sim, deparei-me com a referência a este livro e fiquei curiosa, mais a mais sendo a minha área de investigação a literatura brasileira. Pesquisei, mas não o encontrei e deixei-o esquecido, outros livros surgiram.

No início deste ano letivo, às escolas chegou a divulgação de uma iniciativa da Casa da Presidência da República, subordinada ao tema Mulheres de Coragem no Palácio de Belém. Num total de nove sessões, era possível ordená-las por ordem de preferência e inscrever duas turmas do ensino secundário. Uma dessas sessões era com Tatiana Salem Levy e aquela memória adormecida acerca de A Chave de Casa despertou e foi nessa sessão que inscrevi duas turmas do secundário. a possibilidade de participar nessa sessão levou-me a procurar outros livros da autora para conhecer o mais possível a obra e perceber a razão de ser de Tatiana Salem Levy testemunhar na qualidade de mulher de coragem.

Felizmente, a nossa escola foi selecionada. Hoje, dia 9 de novembro, pudemos então passar cerca de hora e meia a ouvir e a conhecer esta escritora.

A sessão decorreu no antigo Museu dos Coches, um espaço lindíssimo e um sítio maravilhos para ouvir uma pessoa interessante e para ouvir falar de livros e da importância da escrita e da literatura como operador catártico.

A um palanque modesto, em cima do qual estava uma cadeira e uma pequena mesa com água, chegou uma figura pequena, frágil, magra, de cabelo encaracolado. Já conhecedora dos seus livros, interroguei-me como é que desta aparência tão frágil saem palavras tão concretas, tão brutais, tão cruas, tão importantes.

A escritora parecia pouco à vontade, trazia umas páginas escritas que sustentariam o seu discurso, confirmou a sua timidez que se percebia nos gestos, na atitude corporal, nas mãos inquietas. Quando a sua voz se ouviu, senti uma espécie de magnetismo que me prendeu àquele discurso durante o tempo todo, confortavelmente instalada no conhecimento entretanto adquirido da sua escrita.

Tatiana Levy assentou o seu testemunho nas peripécias quase romanescas que fazem parte da sua biografia e da história da sua família. Há uma fusão tão completa entre a biografia da autora e as páginas dos seus livros que é quase desconcertante. Ao longo da viagem até Lisboa, fui lendo este A chave da Casa e, enquanto a ouvia, era como se ela nos estivesse a ler alguns excertos. Por outro lado, a sua coragem está presente na forma crua, concreta, específica com que ela aborda alguns temas, nomeadamente as questões ligadas a uma certa condição feminina. A autora refriu também a importância que dá à forma de dizer, de narrar, em detrimento da história propriamente dita e, para mim, a literatura é muito isso, a exploração do virtuosismo da linguagem. A coragem está também nos próprios temas da sua obra, cujas arestas nos sulcam a pele, nos deixam cicatrizes, nos incomodam, ao ponto de nos deixarem desconfortáveis.

Depois deste tempo bem passado, ganhei coragem e dirigi-me à escritora, atrevendo-me a dizer-lhe o quanto gostei dos seus livros e daquela sessão.

Amanhã, falo-vos deste livro, que li entre a viagem de ida e a viagem de volta, as últimas páginas, enquanto a noite caía, já com a lanterna do telemóvel. 

05
Out21

Feliz Dia do professor

livrosparaadiarofimdomundo
A minha professora primária foi a D. Teresa. começou a dar-nos aulas muito jovem e recém casada, o marido levava-a para a escola de bicicleta. Aos meus olhos, era lindíssima. Aprendi imenso com ela durante três anos, aprendi a gostar da escola de maneira absoluta, de tal forma que não gostava das férias porque interrompiam a escola, que era o sítio onde eu mais gostava de estar, só concedendo um bocadinho à leitura, depois que a descobri. Foi com ela que descobri que queria ser professora.

 

Quando terminei a 4ª classe, a D. Teresa deu-me um presente, um livro de autógrafos, com capa verde, que ainda conservo. O primeiro autógrafo que pedi foi o dela.

 

A D. Teresa foi a primeira pessoa a acreditar em mim, acreditava tanto em mim que conseguiu convencer os meus pais a deixarem-me prosseguir estudos, porque era mesmo uma pena..., escapando assim ao destino da maior parte das meninas da minha idade: trabalhar nas fábricas, onde a oferta de emprego era muito maior que a procura.

 

Mantive com ela uma relação que se tornou amizade: eu seria para ela sempre a Nelinha e ela nunca deixou de olhar para mim como quem acredita. No dia da benção das fitas, no final do percurso académico, ofereci-lhe uma fotografia, reconhecendo que tudo tinha começado com ela. Foi ao meu casamento e ao batizado do meu primeiro filho e foi ela quem ofereceu a conha com que sobre ele se derramou a água da unção.

 

A D. Teresa veio a falecer de cancro, pouco tempo depois, uma doença que também acompanhei de perto, visitando-o no hospital. No seu funeral, chorei como quem chora alguém de família, ainda hoje sinto falta dela na minha paisagem emocional.

 

Partilho convosco esta história, porque para cada um de nós, há de haver um aluno que contará a alguém a forma como fomos importantes na sua vida. Não somos importantes para todos, não somos importantes para todos da mesma forma, mas tocamos muitos, fazemos aquela diferença que as estatísticas não contabilizem, porque não é do domínio do contável, mas é a diferença que conta.

 

Partilho também para que nos recordemos que temos a profissão mais bonita do mundo, mesmo que, na espuma dos dias, isso não seja relevado, a verdade é que é mesmo assim. Todos nós fomos alunos, todos nós temos as nossas referências, as minhas são muito mais do que a D. Teresa, mas, acima de tudo, todos nós já constituímos uma referência especial para alguém. É isso que nos escora.

 

Feliz dia do Professor,
21
Set21

#Às vezes também vejo séries 3 - Stateless, da arbitrariedade

livrosparaadiarofimdomundo

Tem sido assim nestes últimos tempos, muito trabalho e pouco, muito pouco do que me permite sentir que vivo. A leitura tem estado em banho maria. Entretanto, consegui ver séries na modalidade de que mais gosto: minisséries.

Assim, cheguei a Stateless, cujo título significa de "sem estado", estado político, tutela. Vi na Netflix, tudo de rajada que foi para isso que se fizeram os domingos e para que as segundas-feiras custem um bocadinho mais, já que me deitei a horas inconfessáveis, mas vi, tive de ver até ao fim, a suster a respiração e a falar um bocadinho sozinha.

Os aspetos técnicos da série são muito bons, em especial a linha narrativa que faz confluir as histórias dispersas que se vêm a cruzar no lugar onde não se tem estado,  um campo para refugiados na Austrália. Entre esses, por engano, encontra-se uma australiana que foge de si mesma e que aí permanece (esta parte é baseada em factos verídicos).

Há três eixos narrativos que sustentam a ação e que representam outras tantas perspetivas sobre o que ali se passa: os refugiados - sublinho a forma como as palavras, a designação escolhida destitui aquelas pessoas, que são os não-cidadãos ilegais -; os guardas do campo, as instituições que gerem o campo. Todos são objeto de forças que os esmagam, todos se digladiam perante a humanidade/desumanidade com que têm de lidar. O diretor do campo e a agente do governo, cuja maior preocupação é não ser notícia dos jornais, sobretudo se essas disserem respeito às condições em que se encontram os "habitantes do campo". Os guardas do campo, uns aproveitando o poder que têm sobre aquelas pessoas "sem estado" para darem largas a um certo impulso para a violência que sempre parece surgir perante aqueles que estão verdadeiramente indefesos; outros vivendo em conflito com a sua consciência perante a crueza do que observam e que os vai transformando. Os refugiados, histórias repetidas de violência, de perda, de pobreza, de oportunismo, de esperança, de humilhação, de rostos maltratados de quem a tudo se submete para obter um visto e não ser obrigado a voltar.

Tudo na série concorre para esse ambiente opressivo que esmaga o espetador, que nos envergonha, que nos obriga a tomar consciência da nossa impotência. A localização do campo, no meio do deserto australiano, a cor vermelha da terra, o calor opressivo, a sujidade, o pó. As roupas transpiradas dos guardas,  a sua falta de preparação para o serviço que prestam, a sua brutalidade, as armas, a troça e o riso, a incompreensão. Mas, em especial, os refugiados, cuja única opção é esperar: esperar pelo agente da imigração, esperar pela entrevista, esperar não errar com as  palavras, esperar não cometer nenhum erro que impeça a atribuição do visto, esperar pelo visto, esperar em vão durante anos, esperar não ser repatriado, esperar para se reunirem à família, esperar apenas. A agente do governo assoberbada, os processos que se acumulam, a impotência, a gestão da pressão, a gestão de um campo que sintomaticamente é comparado a uma panela de pressão prestes a rebentar.

Não me posso alongar. É, apesar de tudo isto, uma série muito bonita, que vale muito a pena ver. Consegue evitar o facilitismo da narrativa. É dramática com autenticidade. É crua sem condescendência. É didática. É reveladora da enorme confusão que é para o mundo esta questão das pessoas deslocadas, estes não cidadãos, como a jovem curda que não se atemoriza com as condições do campo, porque tinha passado por atrocidades bem maiores. Gostei muito, mesmo muito.

22
Ago21

#21/2021: Antes que o café arrefeça - podia ser mais.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Antes que o Café Arrefeça

Editorial Presença

184 páginas

Um dos prazeres da vida é, antes das férias, ir à livraria comprar livros. Lembram-se da birra do outro dia? Não devem lembrar-se que têm mais do que fazer do que prestar atenção ao que eu escrevo. Mas, enfim, a verdade é que em véspera de viajar ainda fui à livraria e comprei umas coisinhas, nada daquilo que me parecia querer. Como este ano, arrisquei outra vez a vida a viajar de avião, pensei que precisava de um policial para conseguir suportar a viagem, ou livros fáceis, ou qualquer coisa que eu pegasse e não conseguisse largar. Depois, tomei uns comprimidos e vim amodorrada e não li nada. Mas na bagagem de toda a gente da família vieram livros (cinco para ser mais precisa)já que tenho horror a que eles me faltem. 

Um que veio comigo foi este e, assim que o li, tornou-se em mais uma preciosa lição de vida: Manuela Lourenço não se comprar livros que diz que são fenómenos e que tda a gente leu! Não vás atrás dessas euforias. Mas eu fui... e arrependi-me um bocadinho.

O livro é light, mas tem, para mim, o mesmo defeito que sempre encontrei na série A Guerra dos Tronos e que é eu sentir-me manipulada, ou que o autor nã se esforçou muito, ou que é tudo tão previsível, ou que é fácil, porque se pega em temas que o são: um casal separado pela doença, uma mãe e uma filha separadas pela morte, duas irmãs e também a morte... Antes disto, já o Nicholas Sparks tinha esgotado este filão. Logo, fiquei assim a modos que "dinheiro tão aml empregue".

Vamos lá ver uma coisa: há momentos no livro que são bem conseguidos, há ideias bonitas, há referências interessantes. Há, sobretudo o aroma do café. É isso, nesse aspeto o livro é muito sensorial e a figuração do espaço é também enigmática. Quase a mesma sugestãoq ue havia nos livros da Enyd Blyton quando descrevia os lanches dos cinco. Mas é pouco paraum livro. É muito pouco.

Agora não me batam muito, já sabem aquilo que eu defendo sempre, livros não são evangelhos e nem todos professamos a mesma religião. Se alguém tiver lido e quiser vir discordar comigo, eu agradeço, pode sempre ter-me escapada alguma coisa e hoje decerto não foi a veia caústica, porque estou de férias.

Amanhã, venho aqui falar-vos de outro, que podia ser um bocadinho menos...

11
Ago21

Motivos pelos quais eu podia fazer birra

livrosparaadiarofimdomundo

Os livros são, desde sempre, objetos de desejo, uma adição, uma dependência.

Hoje, estive numa livraria. Depois de um dia de trabalho intenso, rumei a uma catedral da não-vida, o maravilhoso shopping, arrastada por uma filha que tem muito mais energia do que eu para essas coisas. Não entrei nas muitas inditex das nossas vidas, entrei contariada numa parafarmácia, a pontos de não o fazer, mas aí tinha mesmo de ser, e comprei uma mochila de que também precisava mesmo. Foram esses os motivos porque me deixei arrastar para ali.

Depois demorei-me numa Fnac,  apaixonei-me por vários coisas ao mesmo tempo:

Wook.pt - Jalan, Jalan    A Forma das Ruínas - IPS   Wook.pt - O País dos Outros

  Se o Disseres na Montanha

 

Mas os livros são caros e, num instante me arruinaria, além disso, não me faltam livros para ler em casa, mas faltam-me estes, estes estão mesmo a fazer-em muita falta...

Vierm duas pessoas silenciosas no carro, porque lhes faltava um objeto de desejo, as jardineiras inditex eram mais baratas que os livros...

Faltam estes livros para poder ser feliz estas férias e tenho a certeza que há tratamento, mas esta não é uma doença perigosa. Faltam-me estes livros e estou a pontos de fazer uma birra.

 

09
Ago21

#20/2021 - Gaspar, Belchior e Baltasar, Michel Tournier: voltar ao lugar onde se foi feliz.

livrosparaadiarofimdomundo

 

Wook.pt - Gaspar, Belchior & Baltasar

D. Quixote

255 páginas

Releitura

Tudo o que está relacionado com este livro me faz feliz. Li-o há muitos anos, ainda estudante em Lisboa, e ele lembra-me esse tempo de deslumbramento em que descobri Michel Tournier, um dos escritores de que li tudo o que está publicado em português. Lembra-me também o Natal, mas um Natal secreto e misterioso, com raízes na história anónima do Rei Taor, que é a mais humana e a mais comovente. Lembra-me ainda a ternura, a surpresa e o fascínio que este livro exerceu em mim quando o li. Lembra-me, por fim, a vida secreta dos livros, porque, sendo um livro de que gosto muito, recomendei-o a toda a gente que conheço e mais além, até que ele se perdeu de mim e, um dia, quando o procurei nas minhas prateleiras, ele não estava. Espero que esteja a fazer alguém feliz. Mas uma amiga muito querida ofereceu-mo no último Natal, ou seja, ofereceu-me o próprio Natal no Natal. E há dias terminei a sua leitura e, ficou decidido, os livros também se fizeram para serem relidos, para serem revisitados e, felizmente, para se tornarem confirmações e, como neste caso, amplificações dessa primeira leitura.

Também conservo na memória que uma das razões pelas quais este livro exerce um enorme fascínio em mim tinha a ver com o seu ponto de partida: sobre os Reis Magos, como os conhecemos, ou os Reis do Oriente, a Bílbia apenas refere cerca de dezasseis versículos, no Evangelho Segundo S. Mateus, nenhum outro evangelista lhes faz referência; o número três infere-se do facto de serem três os presentes oferecidos: ouro, incenso e mirra, tudo o resto são textos apócrifos, lendas e um maravilhoso romance de um autor francês que nos dá uma obra cheia de beleza, mistério, exotismo e humanismo. Michel Tournier inventa uma biografia completa para cada uma das personagens que dão título ao romance, coloca a génese da sua viagem como uma necessidade de encontrar refrigério, respostas, pacificação, cada um dos reis tem uma motivação diferente e todos se cruzam na corte do Rei Herodes, ele mesmo personagem e voz do romance, explicado por si mesmo, explicado também o massacre dos inocentes. A estas figuras que nos são mais familiares se junta Taor, o Rei que vem de mais longe, o mais ingénuo, o mais preso às coisas da terra, mas igualmente o que mais as sublima e o que mais se espiritualiza. E é deveras intrigante, espantosa mesmo a forma como a mestria do romancista costura estas histórias, cerzindo-as com tal meticulosidade que tudo nos parece verosímil e, tal como afirmava Umberto Eco, quase esperamos ver estas referências nos textos sagrados do Novo Testamento.

Mas é de um testamento também que Tournier trata: é o testamento do amor desinteressado, da necessidade da beleza para nos elevarmos da nossa condição de animais, da efemeridade do poder e da glória, da inocência como idade primordial, como uma espécie de grau zero a partir do qual se pode moldar a verdadeira grandeza humana. É também testemunho contra a intolerância, a traição, a vileza e a violência e outra vez a inocência...

É acima de tudo a beleza da linguagem, a perfeição das frases, a delicadez das imagens criadas, o realismo e o maravilhos, céu e terra, fogo e água, sal e açucar, dor e redenção, queda e ascensão, martírio e exaltação. Tudo servido ao leitor com toques de sublime, de génio, de individualidade. É tão bonito, mas tão bonito este livro. 

25
Jul21

#19/2021 - O vício dos livros, Afonso Cruz: um autor viciante.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Vício dos Livros

Companhia das letras

118 páginas

Maravilhoso!

Já devo ter dito/escrito várias vezes que Afonso Cruz é um dos escritores da atualidade que mais me entusiasma. É absolutamente versátil, reiventa-se em cada livro que dá a lume e é também inspirador.

O vício dos livros é composto de histórias curtas, umas de dois ou três parágrafos, outras de duas ou três páginas. Têm em comum, como o título anuncia, os livros, a leitura, a escrita, a relação extraordinária que mantemos com os livros, a forma como nos lemos neles e a forma como cada leitura é igualmente uma reescrita. 

O que faz deste livro uma obra apaixonante será talvez a imensa cultura literária de Afonso Cruz, leitor compulsivo, escritor apaixonado. Para além de ficar evidente que o autor acredita nos livros e na leitura como uma forma muio específica de afirmarmos a nossa condição humana, de nos sublimarmos, de ascendermos acima da barbárie que muitas vezes nos rodeia e de que é também feita a humanidade, é clara também uma certa forma de humanismo que é muito própria deste autor. É transversal aos seus textos uma certo otimismo, uma crença na bondade humana, nos valores da tolerância, da aceitação, da gentiliza, da compaixão que muito me dizem. Pedindo desculpa pelo exagero, é como se a escrita de Afonso Cruz me desafiasse sempre a ser melhor pessoa.

Este livrinho mantém esse desígnio, cada uma das histórias é uma inspiração, mais ainda do que para lermos ou para fazermos do livro um objeto privilegiado nas nossas vidas, há em cada uma das histórias um apelo diferente. Os livros estão na base de casamentos, de amizades, de guerras, de inimizades, de acidentes. Os livros permitem adiar a morte, dão-nos a cultura necessária para distinguir o essencial do acessório, são alimento, são liberdade, permitem respirar, descansam-nos, são exigentes, não são para todos e todos são para os livros, oferecem-nos a possiblidade de sermos felizes, são testemunhos de um tempo e aviso para a navegação, fazem-nos rir e chorar, ligam o passado e o presente, permitem-nos manter o diálogo com as pessoas que amamos e que perdemos, são um perigo, imortalizam os grandes homens (já dizia Camões), descomplicam, tornam a realidade suportável, levam-nos mais longe, são vozes que nos circundam e a que devemos estar atentos.

Está tudo neste compêndio, neste tratado sobre os livros. Vão lá ler se não acreditam no que estou a dizer. É um excelente livro para livro de cabeceira, para folhearmos ao acaso e deixarmos que o oráculo destes epigramas, destes adágios fale connosco e nos ilumine por instantes. Dá-me vontade de ler mais.

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