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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

10
Jun21

Às vezes também saio de casa: instantâneos da Serra da Estrela II

livrosparaadiarofimdomundo

Depois de Loriga, regressámos a Lapa dos Dinheiros e toca a fazer o percurso pedestre (PR 10 Seia). No início, a coisa foi muito idílica, cerca de 15 minutos a descer por entre um bosque húmido, sombrio, perfumado e uma pessoa vai pensando que não há nada como uma boa caminhada na natureza. Daí a pouco, inverteu-se a coisa e toca a subir, a subir, a subir, a subir, ai que já não entra oxigénio, raios partam estas ideias de caminhar na natureza, já não tenho idade para isto. A praia da Lapa dos dinheiros estava um bocadinho "nheca" nesta altura e decidi logo que a de Loriga tinha mais encanto. Depois de restabelecer a respiração, como é que era o próximo troço? Pois, a subir e eu maldisse a minha vida muitas vezes, mas em modo fluxo de consciência que o meu mais que tudo não estava a achar mesmo graça nenhuma e eu não podia dar parte e fraca, alguém tinha de manter a moral em cima. Horas depois... o caminho esticou-se à beira de uma levada, onde uma água limpída corria veloz, caminhamos um bom bocado na horizontal e a serra está tão bonita nesta altura do ano que comecei a colher flores silvestres. Já levava comigo um vistoso bouquê de cravos do monte, de dentes de leão, de orquídeas, de botões azuis. Nisto, olhei para cima e estranhei ver a sinalização do percurso bem acima, pintada numa parede de rocha e, antes mesmo de perguntar porquê, vimos o sinal de virar à esquerda, mas à esquerda era praticamente uma parede de rocha, na vertical, com uns tufos de feno agarrados, mas era mesmo assim. Depois de convencer o mais que tudo que agora não íamos voltar para trás, toca a subir, de gatas, agarrados aos tufos e, como precisava mesmo das duas mãos, tive de deixar o meu bouquê, que foi o que mais me custou. Parece que havia por ali uma formação rochosa que se chama "Cornos do Diabo" e, efetivamente, aquilo parecia obra do demo. Depois da escalada, havia uma espécie de planalto e dali pudemos ver o ribeiro a escoar-se por entre rochas de enorme granito, a vista tornou-se bonita assim que conseguimos respirar. A partir daí o caminho espraiou-se, ou pelo menos foi assim que fiquei a lembrar-me dele, descendo por entre bosquezinhos, pinhais e ervas altíssimas, tudo outra vez muito bucólico, muito agradável e já se ouvia o sino de Lapa dos Dinheiros. Mais próximo da aldeia, mais um exercício de cabra montesa, descer ao lado de umas quedas de água lindíssimas, tudo muito húmido, muito medo de cair e, quando desembocámos na aldeia, demos com um hotelzinho com umas cercanias de fazer inveja, com umas espreguiçadeiras que só de olhar eram de apetite e nós a esfarrapar-nos pela serra. Começo a duvidar das minhas boas ideias.

Subimos para a serra pelo Sabugueiro. O sol brilhava agora num céu azul ferrete, como diria o Eça. Parámos no Sabugueiro, numa daquelas lojas que vendem tudo, desde barros do Alentejo a fontes budistas, passando por tapetes da china e queijos da serra e enchidos e ainda têm uma esplanada e um café e servem sandes e tábuas de queijo. Pedimos, cá fora, ao sol, uma tábua de queijos e tive o meu desgosto a sério, a senhora disse-nos que não tinha pão de centeio, tinha vendido o último e só sobravam duas carcças, que fossem as carcaças e a acompanhá-las uma tábua de queijos e enchidos. Entretanto, o demo abriu as portas e pôs-se um frio de novembro, entramos na loja e o senhor disse que havia uma mesa ao fundo, onde nos podíamos sentar, no meio dos casacos, dos barros, das loiças, dos tapetes (eu já tinha dito que isto era um blog de viagens brega), mas com uma vista soberba (estes clichés) para a encosta de serra. Veio a tábua, a garrafa de vinho para nos servirmos, e tivemos um momento tão tranquilo que não dá para descrever. Adoro o meu país, nestas suas idiossincrasias, nesta mistura de queijo amanteigado de excelência com tapetes importados da china. 

Regalados, continuamos a subir em direção à Torre para depois descermos para a Covilhã (já tinha dito que escolhemos mal o sítio onde ficar?). De repente, abaixo de nós formou-se um mar de nuvens e de névoa, que pareceu cristalizar, como um enorme merengue ou como se estivéssemos a andar de avião, por cima, mantinha-se o azul ferrete e o brilho doido do sol. Acho que foi das paisagens mais "misty" e serenantes que já contemplei. Chegados à Torre, decidimos ficar ali a contemplar o por do sol, e não éramos os únicos. É indescritível a magia daqueles instantes, o tapete/mar de nuvens, com aspeto quase sólido, consistente e aquele sol todo e o azul. Foi ficar ali contemplativamente e desceu sobre mim uma calma de que há muito precisava e que ainda conservo algures dentro de mim, mas, como os balões, vai perdendo volume.

Na descida para a Covilhã, com o céu já de todas as variantes cromáticas, do lilás, ao rosa, com tons de azul muito ténue, fui, com uma voz que eu sei modular muito bem, falando, na minha ideia para o dia seguinte: levantar cedo, ir até ao Covão da Ametade, fazer a pé todo o vale glaciar de Manteigas. Silêncio como resposta - é um percurso linear. Acrescentei que podíamos ensaiar um dia de pastores, levando na mochila queijo, pão, um enchido, fruta e almoçar à beira do Zêzere. Continuei sem resposta. Terminei dando a ideia de, depois da caminhada, regressarmos de táxi ao Covão da Ametade. Como contraproposta, recebi a ideia de fazermos ao contrário: deixarmos o carro em Manteigas, subir ao Covão de táxi e depois fazer o percurso. Já estava! No dia seguinte, haveria outra caminhada.

Continua no próximo episódio, com cenas de ação que metem facas, condução perigosa e um final feliz.

07
Jun21

Às vezes também saio de casa: instantâneos da Serra da Estrela I

livrosparaadiarofimdomundo

No passado fim de semana, também eu saí para fora cá dentro.Escolhemos um destino que conhecemos pouco, no qual nunca tínhamos estado no verão - se é que o tempo que temo tido em Portugal se pode chamar verão: a Serra da Estrela.

O plano era assentar arraias num sítio e depois, daí, partir à descoberta dos sítios todos que, depois da consulta na Internet, nos pareceu essencial conhecer. Escolhemos a Covilhã e escolhemos mal e porquê? Não por culpa da Covilhã que me pareceu uma cidade dinâmica, embelezada e muito atraente. Pareceu-nos, porque nos limitamos a ir dormir à Covilhã e tomar o pequeno-almoço, incluído na dormida. Portanto, se queres passar uns dias nos montes hermínios, vai para a Manteigas, é mais central e em princípio não tens de andar a palmilhar estradas de montanha, num breu aterrador, com medo dos abismos à tua direita, por volta da meia noite, quando regressas para dormir. 

Por ser impossível resumir dois dias cheios num post sem ambições, vamos recorrer ao esquema tópicos e a vossa imaginação fará o resto.

1. Chegada à Covilhã, por volta das 23:30, telefonema para o local de dormida, cuja hora limite de check in indicava 23:00. Depois de um telefonema, o funcionário, amabilíssmo, garantiu-nos que não havia problema, tocaríamos à campainha e ele levantar-se-ia e viria abrir a porta. Mesmo com GPS, parecia impossível encontrar o local, depois de algumas voltas infrutíferas, como era, nitidamente, uma noite académica, perguntamos a um grupo de seis rapazes se nos podiam ajudar. Oh, se puderam, sacaram dos seus telemóveis, procuraram e guiaram-nos à residencial. Muito tocaditos, muito simpáticos, pelos meio ainda nos perguntaram "pagas umas jolas?" - a mim, que sou uma senhora!. Quando lhes agradeci, ainda me disseram: "Tudo bem, tamos (sic) juntos!". Há esperança para o futuro. Dormida extenuada.

2. No dia seguinte, subida à Torre, pois claro! Saída do carro, junto ao Covão do boi. Choque térmico. Com um vestido de verão, sem collants, completamente desprevenida, fui apanhada de supresa pelos gélidos 9 graus que se faziam sentir. Fogo! Corrida para o carro, que a paisagem também se aprecia muito bem de dentro dele, com o ar condicionado ligado. A subida da serra, nesta altura, com a primavera a explodir por todo o lado, as giestas a pintarem a paisagem de amarelo a perder de vista, as nuvens e o nevoeiro abaixo de nós, sentimo-nos numa "misty" paisagem. Recomendo. Depois da Torre, descida a manteigas, pelo fantástico vale glaciar. Paragem para café. Continuava frio e, de repente aborreci-me por andar de carro. Num repente, decidimos ir até Seia, porque lemos que havia um percurso pedestre fantástico, bem como duas praias fluviais a valer a pena, a de Loriga e da Lapa dos dinheiros. A vertente oeste (?) da Serra estava mergulhada num nevoeiro quase assustador, enjoei na viagem, tivemos de parar para eu vomitar. O dia estava mesmo a valer a pena! Chegamos a Seia e pareceu-me boa ideia visitar o Museu do Pão e almoçarmos, devi ser giro. Devia, devia, mas os preços pareceram-me um insulto. Sim, eu sei, este é blog de viagens brega, mas eu sou da classe média de Portugal, apesar de pagarmos impostos como se fossemos pré-ricos, a verdade é que não somos. Fugimos dali com medo de se pagar só de olhar. Fomos até ao Fim do Mundo e comemos uns chocos estufados maravilhosos, embora a decoração desencorajasse, mas a comida... quando elogiei o senhor que nos atendia, ele respondeu que as cozinheiras eram do campo e cozinhavam como sabiam... sabiam muito e sabiam bem. Só no fim, é que se descaiu a dizer que o borrego também era muito bom e que tinha uns míscaros muito saborosos... Se os chocos não fossem tão deliciosos, podia nem lhe perdoar. 

3. Estava na hora de viver a tarde. Saímos de Seia em direção a Loriga, ignorando a placa que indicava Lapa dos dinheiros. A praia de Loriga fica bem à beira da estrada e é... linda, linda. Tem várias pisicinas, umas mais naturais que outras, mas de uma água transparente. À volta, socalcos e prados verdes, sem multidões. À beirinha da água, uma inglesa mudou de roupa para fato de banho e com uma coragem monárquica, enfiou-se lentamente na água, enquanto ia dizendo que era "mad", eu respondi-lhe que ela era "a brave woman". Quando a hipotermia lhe permitiu ficar submersa na água, gritou "I'm in, I'm in" . Percebi que sou uma pessoa que não sabe o que é a inveja, porque não senti nenhuma. Tenho muito medo de cair e, mais ainda, do ridículo, pelo que não arrisquei saltar sobre a água para desfrutar das mesas do parquezinho de merendas. O meu mais que tudo roubou-me o livro para me convencer. Fiquei só a olhar para as pessoas, sem ler, não me importei, gosto da contemplação. Desceu sobre mim uma paz enorme e deixei-me ficar. Depois, seguimos para a Lapa dos dinheiros.

 

Já é tarde, amanhã conto o resto, está bem?

31
Mai21

#17/2021 - Cidade Infecta, Teresa Veiga: também não contagiou.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Cidade Infecta

Editora Tinta da China

172 páginas

Façamos como em alguns títulos dos livros, que anunciam logo ao que vão, indicando a morte da personagem principal, por exemplo: não gostei! Pronto, venham daí dizer que eu não percebo nada de livros, pode muito bem ser verdade. Posso ser uma ignara, mas não gostei, até senti uma ligeira irritação.

Tudo neste livro me pareceu ora gratuito, ora forçado. As personagens parecem perdidas e desconectadas umas das outras. Talvez houvesse ali matéria para fazer melhor, talvez a ideia tenha potencial, talvez haja ali umas personagens com algum interesse, como o anódino funcionário público, que se revela no final, num jogo de luz e sombra que deixa o leitor a preencher o texto lacunar, doseando - talvez o melhor do livro - aquilo que se diz e aquilo que se deixa a pairar.

Depois falta convicção, nenhuma destas personagens é convincente, nenhuma delas é inesquecível, nenhuma delas marca, nenhuma delas supera a sua condição de seres feitos de palavras. Decerto ninguém irá a Oliveira à procura daquelas casas, imaginando aquelas vidas de papel, acreditando que a sua força as faz vivas. Nem o adolescente, nem as duas mulheres, nem os casamentos, nem as profissões (a professora, então...), nem personagens tipo chegam a ser. Parece-me tudo uma coleção de lugares comuns. Mesmo o spaço, supostamente sufocante, supostamente infecto, nem uma alergia chega a causar

Se calhar não percebi nada, se calhar não era tempo desta leitura, se calhar perdi o dinheiro que paguei pelo livro. Se calhar devia ter ficado calada.

Leiam à mesma, eu posso estar em dia não e ter tido um derrame da veia cáustica. Vá, pelo menos lê-se bem, mas não como um romance.

 

26
Mai21

O insólito aconteceu: Zoran Zivkovic esteve no nosso clube de leitura

livrosparaadiarofimdomundo

Comecemos pela parte programática deste acontecimento: no dia 25 de maio, numa sessão do clube de leitura da escola onde trabalho - clube de grande informalidade, mas que vai crescendo aos poucos, talvez por essa mesma informalidade - esteve presente (a distância) o escritor Zoran Zivkovc, ligado a partir de Belgrado, para nos falar da sua obra e, muito em especial, de O Livro, que foi a obra lida para esta sessão. O encontro foi falado em inglês, essa língua franca do século XXI e contou com o contributo inestimável das colegas de Inglês, que nos salvou a todos os outros de fazermos figuras tristes. Foi uma sessão participada, enriquecedora, fascinante mesmo. Como é que aconteceu? Como é que um clube amador, anónimo, quase caseiro, conseguiu a participação deste autor? Graças a um comentário que Zoran, ele mesmo, deixou a propósito de um post aqui no blog e graças a uma certa "lata" de que, às vezes, sou capaz, para não deixar escapar as oportunidades: eu peguntei se ele aceitaria e Zoran disse que sim. 

Despachada que está a nota quase jornalística, tentarei dar conta de tudo o resto, o que não mensurável, objetivável, mas que deixa a tal cicatriz de que já falei: os livros e, como alguém me disse, também as pessoas deixam-nos por vezes cicatrizes e ontem ganhei (ganhamos) uma bem pronunciada. Falemos das coisas bonitas, memoráveis:

1. A generosidade, a simpatia, a humanidade, a genuína disponibilidade para estar connosco, respondendo às nossas perguntas com uma paciência infinita, e foram muitas as perguntas.

2. Os episódios marcantes de uma vida dedicada à escrita, como o facto de ter escrito dois ensaios sobre Dostoievski, e de ter sido por causa disso a única vez que escreveu nas margens de um livro; ou a de um menino autista que, numa escola dos EUA, a propósito da leitura de um excerto de um conto deste autor, retirado da obra Cinco Notas Musicais, ter falado para agradecer, era uma criança que não falava. Para Zoran, este foi o topo da sua carreira literária. De facto, os livros deixam cicatrizes.

3. O facto de Zoran nos ter mostrado os livros de Saramago que tinha na sua estante, vários deles, admirador também do nosso prémio Nobel, mas revelador também de uma cultura literária vastíssima, de uma curiosidade e de uma atenção que, decerto, explicam alguns traços insólitos da sua escrita.

4. A revelação de que escreve no teclado apenas com os dois dedos indicadores, em especial o direito (espero que seja este), de tal forma que há uma diferença na morfologia dos dois dedos.

5. Outra revelação, a de que escreve sem plano, apenas ouvindo as palavras que a sua mente lhe dita, sofrendo de pressa para escrever, mas ao mesmo tempo sofrendo de uma certa orfandade quando um livro termina.

6. O exemplo de resiliência, de superação, de (para mim) heroísmo, já que escreveu O Livro sob um cenário de guerra, de caos e de destruição, ouvindo os bombardeamentos na sua cidade, no ano de 1999. Sublinhe-se que esta obra é profundamente cómica, irónica e, por vezes sarcástica. Se isto não é uma lição de vida e de otimismo, não sei onde mais as haveremos de colher.

7. O amor aos livros, traduzido numa fidelidade ao formato papel, como objeto sensual quase, em detrimento dessa aberração que é o ebook, explicado desta forma: pode ir-se para a cama com m livro em papel, mas ir com um ebook parece quase uma perversão. O amor aos livros expresso numa preocupação quanto ao futuro, que será dosmeus livros, quando eu já não for?

8. O insólito de ter um dos seu livros pirateado no Iraque e dele haver inúmeras referências na aplicação Good Readers. 

9. A sala do autor, uma estante belíssima, uma janela aberta, uma organização meticulosa, um espaço de estudo e criativade e um espaço onde zoran Zivkovic continua a dar as suas aulas de escrita criativa, para as quais tem o seu método e, já agora, convidou-nos a assistir a uma dessas sessões.

10. O pedido para nos mantermos em contacto, para não deixarmos de o contactar. A promessa de visitar Alcobaça no momento em que regressar a Portugal. A promessa de nos enviar livros como oferta.

11. A pergunta "Are you happy, Manuela?"  e como estava feliz, mas mais do que isso, tocada, sem palavras, comovida, deliciada, fascinada. Zoran Zivkovic é um escritor de grande qualidade, mas, de certeza, que isso está relacionado com o facto de ser uma pessoa ímpar, fascinante e, acima de tudo, de uma generosidade como poucas vezes conhecemos.

12. A revelação de que terminou o seu último livro e que conta venha a ser o último que escreve - esperemos que não, que este espírito é demasiado inquieto para isso.

13. Uma coisa triste: Zoran Zivkovic não tem, presentemente, editor português...

Obrigada, Zoran (já sei que o posso tratar assim), tudo o que escrevi expressa mal a gratidão e o maravilhamento que sinto.

 

19
Mai21

#16/2021 - Cães maus não dançam, Arturo Pérez-Reverte: não deixou cicatriz

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Cães Maus Não Dançam

Editora Asa

156 páginas

Aruro Pérez-Reverte é um dos escritores de que mais gosto, sobretudo por causa de dois títulos que, para mim, são duas obras primas de dois géneros completamente diferentes: O HussardoA sombra da Águia. Mas também gostei imenso de Homens Bons. Além disso, gosto do homem (até em mais do que um sentido) e dos valores pelos quais pugna e a forma como, através dele, vemos valorizadas as letras. Por tudo isto e mais uns pós, é sempre com grande expectativa que chego a um dos seus livros, em especial porque Pérez-Reverte é um escritor de enorme versatilidade.

Assim, achei piada ao facto de haver dois livros nos escaparates que remetiam para a raça canina, A cadela, a minha mais recente leitura, e este Cães maus não dançam. Comprei os dois e li-os de seguida. Sobre o livro de Pilar Quintana já escrevi, faltava-me este.

Comecemos pelo título, a frase do título aponta duas pistas de leitura: que há cães maus, que estes não dançam, ou seja, não são dados a seda. Quanto a esses pressupostos, o livro não desilude. As personagens do texto são todas cães... e cadelas, organizam-se à maneira dos cães, carregam uma memória biológica que os leva a procurarem um dono e a ele se manterem ligados... desde que isso assegure o alimento pelo menos. O ponto de vist assumido é o dos cães, é do mundo animal que se ergue a história, em parte condicionada pela proximidade aos humanos. Já no seu elogio aos peixes, António Vieira frisava o facto de uma das virtudes dos peixes ser o facto de estes não se domesticarem, ao contrário de muitos outros animais. Sem dúvida que, no outro extremo, se encontram os cães, cuja má fortuna nasce da sua proximidade aos homens e da sua lealdade tantas vezes atraiçoada. A galeria de personagens cumpre duas funcionalidades distintas: por um lado desvela os maus tratos que os cães sofrem às mãos dos humanos, em especial daqueles que os exploram em função do lucro resultante da barbárie como são as lutas de cães e a arena não podia ser mais cruel: ali se mata ou ali se morre, só muito raramente é outro o destino. Os cães são verdadeiros gladiadores dos novos coliseus, vivem enquanto alimentarem o lucro e o sadismo. Por outro lado, esta cosmovisão canina funciona como uma alegoria da sociedade atual, um fresco amargo daquilo que nos move e daquilo que são as feridas abertas e sangrentas da nossa sociedade.

Não pude deixar de pensar em Espártaco, o gladiador, enquanto lia o livro, creio que é um pouco a inspiração subjacente ao livro: o campeão da arena que, pela amizade, subverte as regras do jogo, que se une ao adversário, quebrando o jugo e vivendo até à última centelha os sorvos de uma liberdade condenada, mas inebriante, com um preço incluído, mas por muito elevado que seja, que vale a pena pagar.

Mas há aqui uma pontinha de desilusão: não há nada de verdadeiramente inesperado neste livro. É um texto comprometido, bem intencionado - muito bem intencionado e cumpre honestamente aquilo a que se propõe . mas não me maravilhou, isso não, e eu estou numa idade em que preciso de maravilhamento, de ser tocada, até pode ser de maneira sacudida e brutal, desde que, depois do livro, fique uma espécie de cicatriz. Neste caso, houve um arranhão, mas isto passa. Ainda assim, experimentem e venham cá desenganar-me se me tiver escapado algum promenor.

12
Mai21

Da inclusão e de um verdadeiro artista

livrosparaadiarofimdomundo

Muito se fala em inclusão, conceito que ganhou mais significado do que integração, por ser mais ambicioso, por apontar na direção de um mundo melhor.

Hoje, pude ver um pequeno "arranjo" no mundo e hoje esse mundo ficou um bocadinho melhor.

Acontece que numa das escolas do Agrupamento há uma menina, a quem vamos chamar Helena (o nome é fictício para a proteger, mas também é o pesudónimo que ela hoje usou, porque há dias em que ela não usa o seu verdadeiro nome), que é cega. Por escolha da Helena e da mãe, não frequenta uma escola de referência para alunos cegos e com baixa visão, tendo preferido uma escola normal (inclusiva), que a recebeu de braços abertos e que tudo fez para lhe proporcionar os meios, o apoio, os recursos físicos e humanos para que a Helena se sentisse bem na sua escola.

Acontece que a Helena referiu a uma das suas professoras que gostava muito de ouvir Vitorino, sim, o da menina que estava à janela.

Acontece que um outro professor da escola soube do interesse e do gosto da Helena e conhecia alguém que conhecia o Vitorino.

Acontece que esse alguém contou ao Vitorino o interesse da Helena e o gosto que ela teria em conecê-la.

Acontece que o Vitorino disse que sim e veio de longe, de propósito para que a a Helena o conhecesse e para que ela o ouvisse cantar.

Hoje, à chegada à escola, Vitorino encontrou uma menina que tremia de excitação e de alegria. À chegada à escola, O Vitorino abraçou a Helena e nunca mais a largou. Caminhou com ela até ao campo de jogos, onde um outro grupo de alunos, ensaiados pelos professores de Música, cantaram em coro, como boas-vindas, a queda do império. 

Hoje o Vitorino colocou-se lado a lado com a Helena e juntos cantaram para uma plateia de alunos e de professores menina estás à janela e o Vitorino deu todo o protagonismo à Helena. Depois ainda cantaram juntos a queda do império e o Vitorino chamou com gestos os outros meninos para se juntarem a eles e a magia aconteceu.

Foi só isto, não é um Coliseu, não houve rádios, não houve jornais, não houve holofotes, houve este momento belíssimo numa escola, onde uma menina realizou o seu sonho graças à imensurável generosidade de um homem e de um artista que disse que sim, que foi gigante neste gesto, discreto, quase anónimo, concretizando aquilo que ele mesmo disse: a música é a única linguagem.

Há uns anos, por causa de uma certa senhora e de alguma sociedade, brincava, dizendo que não queria que as pessoas soubessem que eu era professora, porque tinha medo de ser insultada. Hoje, o meu orgulho fala mais alto. Quero ser parte desta magia que cuida, que gosta, que acarinha o nosso futuro. Enquanto Helenas e professores como estes e artistas como o Vitorino conseguirem estas pequenas coisas, há esperança para o mundo e para o futuro.

06
Mai21

Da saúde mental

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O papel da escola preocupa-me. Não por causa daquilo que não faz - porque faz muito -, mas por causa daquilo que precisa de ser feito e que não pode ser resolvido pela escola e na escola. 

Apesar de os alunos passarem muito tempo na escola (é mesmo muito) e de toda a gente parecer querer que os alunos lá passem mais ainda, vai germinando em mim uma certa ideia de impotência que me sufoca. E, como um náufrago, vou esbracejando para me salvar a mim e à minha obra, como o "épico de outrora", tentando que esse tempo seja significativo para estes jovens, procurando que eles se recentrem na escola e que a vejam como um lugar privilegiado de desenvolvimento, de conhecimento, de experiências e da troca delas, enfim, um lugar onde crescem.

Esta reflexão vem a propósito de uma atividade que desenvolvi com os meus alunos. A propósito do estudo da lírica de Camões, pedi aos meus alunos que saíssem da sala de aula, munidos do seu caderno de português, que procurassem, no exterior (porque estava um dia de sol maravilhoso), um lugar sossegado e que escrevessem uma reflexão sobre a sua vida, à imagem do soneto "Erros meus, má fortuna, amor ardente". Dei-lhes tempo suficiente, aceitei que não quisessem ler o texto perante os colegas (sou uma fácil com os alunos, talvez já esteja numa fase em que já não me sinto mãe e me sinto mais avó) e, no final, eles entregar-me-iam os textos para eu ler/corrigir.

Daqui resultou o verdadeiros agridoce.

Quando regressaram às aulas, os alunos vinham eufóricos, felizes, alguns deles disseram que se tinham comovido com o que escreveram, outros chamaram-me a atenção para o facto de o conteúdo do texto ser confidencial, um ou outro pediu para ainda terminar, outro chorou, porque o texto despertou memórias dolorosas. Enfim, do ponto de vista pedagógico, estou convencida que a atividade foi um sucesso.

A amargura veio quando li os textos. Na sua esmagadora maioria, são textos de gente que está triste, que encara a vida - a vida de quem tem dezasseis anos, de quem é jovem, bonito, de quem ainda só começou a caminhada, de quem tem um leque enorme de possibilidades à sua frente - como um arrastar de horas rotineiras, entediantes, vazias. Em alguns casos, é notório o desânimo - na sua vertente etimológica, sem anima.  Noutros ainda, há uma angústia existencial que está para lá da angústia existencial que marca os jovens. É um tudo nada mais preocupante, porque é tristeza, assim sem mais nada, tristeza. E eu fiquei triste com eles. Outra coisa que senti de forma pungente foi a necessidade de serem ouvidos, de lhes darem atenção, de os deixarem verbalizar os seus receios e o seu tédio. Outra ainda foi a transformação da escola - ensino secundário, neste caso - como um mero trampolim, depois de conseguida a tão almejada média, para o ensino superior. Só isto. E a escolaridade fica refém de um número. E os meus alunos não leem, não veem filmes, não passeiam, não convivem, ou como alguém me disse, nem têm furos que lhes deem uma folga de tanta escola e de tanta preocupação, só se preocupam com a média e o teste (reconhecidamente mais do que os seus professores). E eu fiquei preocupada, muito preocupada com os meus meninos.

Intimamente prometi-lhes aulas interessantes, abertas, divergentes, uma escola mais apelativa, mais bonita, que os deixe mais felizes... Vamos lá ver se sou capaz. 

05
Mai21

#15/2021 - A Cadela, Pilar Quintana: um livr perturbador e inquietante

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A Cadela

Editora D. Quixote

128 páginas

Numa segunda ida a uma livraria física, neste ano da desgraça de 2021, vim de lá com um braçado de livros - já sabemos que eu tenho uma adição - criteriosamente escolhidos: queria muito por pouco, queria diversidade por pouco, queria livros que me tinham despertado a curiosidade por pouco, daí que tenha trazido 5 livros, cujo preço se situou entre os 12 e os 13 euros. Se isto não é critério, não sei o que seja.

Entre eles, veio este A Cadela, de Pilar Quintana. 

Começando por alguma motivação, é um livro pequenino, tem 128 páginas, com capítulos curtos, a impressão é numa fonte que facilita a leitura, é leve... e acabaram-se as facilidades. A partir daí, do momento preciso em que se abre o livro e se mergulha na leitura - ah, não duvidem, é uma leitura imersiva, que prende, que absorve - a partir da primeira palavra, nada mais é fácil, tudo neste livro é duro, duro, duro, sobretudo quando levamos em linha de conta o lugar de onde o lemos, Portugal a ocidente da Europa  (espero que a orientação esteja correta, que isto nunca foi o meu forte), no conforto de lares mais ou menos seguros.

Sublinhe-se o espaço, desde as praias pejadas de lixo, onde morrem animais envenenados pelos homens; os braços de mar, que dividem, verdadeiros obstáculos, as falésias vertigionosas, por onde se perdem vidas várias, os buracos disfarçados pela lama, por onde podem cair pessoas e animais, os limites da selva, permanetemente húmida, densa, ameaçadora, pejada de insetos gigantescos e de cobras venenosas. Mas também os elementos, as tempestades, os trovões, os raios, a chuva intermitente, ora a potes, ora cacimba, o frio, o calor sufocante. Tudo é de extremos neste ambiente.

Também a paisagem humana é igualmente desconjuntada, desconfortável, precária, as aldeias são distantes umas das outras, as ruas são sujas, as casas são velhas, o sal e o salitre contaminam tudo. A economia não chega a ser de subsistência, é mais de sobrevivência, mas proliferando o excesso de álcool, de drogas, de um certo desnorte. Ao fundo, sabemos que há zonas turísticas, diferenciadas, distantes e inacessíveis, de que vivem exilados estes seres quase fantasmagóricos que habitam estas páginas.

E temos Damaris, mulher já madura, angustiada pela impossibilidade de ser mãe, desiludida já, espécie de prisioneira desse mundo e de si mesma. No entanto, Damaris e Rogélio, cuidam de uma propriedade, revelando um labor consciente e consciencioso. Diria que o que define esta personagem é o sema do equívoco, de uma série de equívocos que se foram acmulando na sua vida, feitos de culpa, de violência, de tragédia, de esperança e desengano, de resignação. Há um crescendo em torno de Damaris que só pode levar a uma espécie de condenação, tudo é feito de arestas aguçadas na sua vida e as suas formas de resistência são tão inúteis quanto é inútil dominar a antureza.

E temos a cadela, a quem Damaris dedica o seu carinho, amor, esperança, abnegadamente, maternalmente, obsessivamente, e a cadela é isso mesmo, uma cadela...

A verdade é que, com pouco, muito pouco, mas cirurgicamente tratado, se cria neste livro uma atmosfera opressiva, que resulta disto tudo e de tudo o mais que não se chega a dizer, é como qualquer coisa que fermenta, que labora de forma subterrânea, mas que vai crescendo, crescendo, apertando, asfixiando, até se desesperar por uma forma de libertação, às vezes, um equívoco.

Não sei se isto chega a ser uma recomendação, é mais um aviso, quem for afoite, quem tiver coragem, quem não se deixar atemorizar, que experimente ler o livro. A mim, perturbou-me, mas ainda bem que li...

Já alguém leu? Que vos pareceu?

03
Mai21

#14/2021 - A leste do paraíso, John Steibeck: a força dos clássicos

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A Leste do Paraíso

Livros do Brasil

744 páginas

Emprestado

Cheguei a este livro por causa do aniversário do meu irmão: a minha mãe encarregou-me de lhe comprar um livro e ele, não fosse a coisa correr mal, orientou-me no sentido dos clássicos. Depois daquele tempo na livraria - que também era papelaria - com escolhas muito limitadas, mas ainda assim sem aqueles livros que vêm em saquinhos de organza, com títulos brilhantes e lábios vermelhos na capa, tive de decidir entre este e O último tambor. O meu irmão gosta de livros com biografia e o segundo tinha aquele carisma de ser uma redescoberta, tal como sucedeu com Stoner,  de que o meu irmão também gostou muito e que me deu a ler. Acabei por me decidir pelo Steinbeck, porque já tinha o outro e sempre podíamos fazer troca de livros.

Depois de terminar esta leitura de fôlego - começo a achar que a idade traz alguma limitação de páginas, ou pode ser a fase em que se lê - afinal são quase oitocentas páginas, mais uma vez se colocou a questão dos cem mil euros: como é que eu li tão pouca coisa de Steinbeck? Parece que só tinha lido A pérola, de que recordo a música da pérola. Lá vou eu ter de corrigir este desvio cósmico, ficou já apalavrado As vinhas da ira.

A leste do paraíso é um romance que se localiza no vale do Salinas, na Califórnia, e a ação remete para o povoamento desse vale, com raízes nos colonizadores espanhóis, passando por outras vagas de imigrantes, como os irlandeses, com a figura de Samuel Hamilton a representá-los e que surge como avô materno do próprio autor, cuja jovalidade, criatividade, visionarismo e humanidade o fazem uma personagem inesquecível; ou como os chineses que, tal como Lee, são suficientemente astutos de maneira a garantirem o seu sustento, vestindo uma espécie de figurino que se coaduna com o que se espera deles, mas não deixando de, com grande comicidade, desvendar as enormes vantagens de se tornarem criados indispensáveis. A primeira "personagem" do livro é precisamente o vale, com as suas quatro estações, distinguindo-se a exuberância da primavera da aridez, seca e poeirenta do verão, que faz do Salinas um leito pedregoso, a riqueza das cores do outono em contraste com o frio gélido do inverno, aos homens cabe-lhes adapatar-se ao meio e colher os frutos que a terra lhes permite. Da personagem física passamos para as figuras humanas, subordinadas ao tópico ancestral retirado da Bíblia - o mito fundador de Caim e Abel - repetido ao longo das páginas do romance, primeiro com Adam e Charles, ambos despertando sentimentos diferentes ao pai, o que origina o ciúme e o desejo de vingança, depois com Aaron e com Caleb, filhos de Adam, mas talvez de Charles..., marcados pelo mesmo estigma nascido das diferenças de personalidade e agudizado pelo facto de Aaron se fazer amar sem qualquer esforço.

O romance é profundamente filosófico, tocando em várias questões que se prendem com a explicação da condição humana, a visão desnuda das fraquezas, das complexidades e, embora tomando o tópico bíblico da disputa entre os irmãos, o drama existencial não estão tão bem demarcado como surge no texto bíblico, não há aqui a diferença a preto e branco entre o bem e o mal. Se Aaron é belo, branco e louro, fácil de amar, impusionado pelos melhores sentimentos, de que se destaca a compaixão, a verdade é que é demasiado inflexível, intolerante, sem capacidade de perdão, diríamos nós - no esquema de valores que fomos privilegiando, que lhe falta resiliência. É Caleb, o rimão, escuro, atormentado, muito mais perspicaz, manipulador, inteligente, sensível, obrgado a proteger-se debaixo de uma capa de indiferença, de força, de dureza que mais não faz do que evitar que seja conhecido na sua fragilidade, a não ser por Lee que, verdadeiramente, o criou e que conhece a sua natureza, tentando, ora protegê-lo, ora espicaçá-lo para que se defenda das suas próprias torutras, da forma como se vai punindo por uma culpa que nem sequer está formada, a não ser a de Caleb surgir como a figura mais complexa, logo mais ricamente humana de todo o romance. Aliás, não pude deixar de sentir que a monstruosa Cathy, egoista, perigosa, esteriotipada, verdadeira mulher demónio, condenando à perdição todos os que dela se aproximam - fez-me lembrar a descrição do polvo no Sermão de Santo António, do padre António Vieira. Em última análise, o mito de Caim e Abel é como que espiralizado, vai-se desdobrando a partir desse ponto inicial e a humanidade, no seu longo trajeto pela história, mais não faz do que glosar esses poucos versículos que se vêm - tal como explicam as próprias personagens - a tornar a história mais importante para toda a humanidade.

É impossível, num texto tão breve, dar conta das imensas veredas que se abrem nesta narrativa, riquíssima, oferecendo um mundo de interpretações e de leituras possíveis, daí que o melhor remédio seja ler, pois claro e, depois, propor um ciclo de estudos sobre esta obra. Está lá tudo o que é ingrediente para compor uma belíssima história, capaz de nos prender e de nos mudar.

Como em outras situações, recordo alguns livros que versaram a mesma história, o que só vem atestar a força fundadora do mito dos dois irmãos separados pelos primeiros sentimentos que puseram o homem contra o seu semelhante, mito que, se não fecundou a realidade, fecundou para sempre a literatura. Alguém conhece outros irmãos de papel que deem conta deste pecado original?Wook.pt - Os Dois Irmãos   Dois Irmãos

 

29
Abr21

#23/2021 - Ecologia, Joana Bértolo - o bom, o mau e o não se sabe bem.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Ecologia

Editora Caminho

Páginas - 504

O bom:

  • a capa, é lindíssima.
  • a qualidade do papel;
  • a ideia original do livro: criar uma distopia, na qual, num futuro não muito longínquo, teríamos de pagar pelas palavras, a forma como se chega à implementação de um plano para a humanidade através da criação de um clima de medo, como forma de levar as pessoas a aderirem mansamente ao que lhes é imposto;
  • a ideia da mulher-eco, como gadget perfeitamente inútil, espelho da vacuidade e da vaidade;
  • a diversificação dos modos do discurso verdadeira carnavalização da literatura, o pastiche, a paródia, o intertexto;
  • o trabalho por trás do livro, a pesquisa, a composição, o conhecimento da autora;
  • a arrepiante atualidade, a forma quase oracular como o livro reflete a nossa realidade neste último ano e alguns meses;
  • a transcrição de notícias reais, de aparente surrealismo, mas a acontecerem nos dias de hoje, em que, quem tem dinheiro se permite prazeres e gostos absurdos, só porque são compráveis e têm um preço;
  • algumas passagens do livro, pérolas da linguagem, frases musicais, ritmadas, surpreendentes;
  • a intenção, ou pelo mesmo, o valor pedagógico do livro, grito  no meio da cacofonia presente, chamada de atenção para o rsico em que efetivamente vivemos.
  • já disse a ideia que dá origem ao livro?

____________________________________________________________________________________________________

O mau:

  • a extensão do livro, são páginas, senhores, páginas e páginas, não era preciso tanto, mais nem sempre é valor;
  • a dispersão da história, embora a contemporaneidade tenha trazido a desagregação da narrativa, formas surprrendentes de "montagem", mais ou menos fragmentárias, mais ou menos elípticas, menos menos lineares, é preciso um fio, é preciso uma ideia, é preciso um desenlace, mesmo que sob a forma do final aberto, a narrativa que não se fecha sobre si mesmo, mas sentir que se faz sentido;
  • a desagregação das próprias personagens, nenhuma delas verdadeiramente inesquecível, nenhuma delas verdadeiramente autêntica, todas erráticas, todas amputadas de uma humanidade que, às vezes, nos leva a apaixonarmo-nos, a sofrermos, a vivermos a vida de outrém só porque a personagem romanesca se ergue perante nós, esmagadoramente concreta, ainda que tecida de palavras;
  • a narrativa errática, confusa, redundante, prolixa -  é isso prolixa;
  • o virtuosismo quase barroco, o gongorismo, o cultismo, sem chegar a atingir o concetismo, a concetualização, redundando quase numa opacidade desnecessária;
  • o excesso de recursos sem evidente significado na obra, a não ser a mera acumulação.
  • a oportunidade quase perdida enquanto distopia, tanto, tanto que se podia fazer com a questão da linguagem...

____________________________________________________________________________________________________

O não se sabe bem

  • o entusiasmo, o fascínio com que se começa esta leitura;
  • o aborrecimento a que se chega a meio da narrativa, questionado-se constantemente, mas para onde é que isto vai?
  • apesar de tudo, o levar a aleitura até ao fim...
  • leiam e venham cá contar-me o que acharam;
  • foi a obra discutida na última sessão do clube de leitura e, em resumo, disse-se aquilo que aqui resumo, não houve consenso, mas o partido do não tinha mais eleitores.

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