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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

10
Fev21

#5/2021 - Rabos de lagartixa, Juan Marsé - como o leito seco de um rio.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Rabos de Lagartixa

Editora: Dom Quixote

304 páginas

Continuo bem comportada: este é um dos livros que tinha em casa sem o ter lido ainda. Já não me lembro quando o comprei, mas foi em 2020, sempre mais olho que barriga no que toca a livros.

Rabos de Lagartixa teve o azar, a pouca sorte, vá, de ser o livro que se seguiu a O barulho das coisas ao cair, o que me dificultou concentrar-me nele. No entanto, assim que me consegui embrenhar na sua história e na escrita - nem sempre fácil, ou melhor, para não desencorajar ninguém, a que é preciso estar muito atenta - ocorreu-me quase como um leitmotiv aquilo que Garrett escreveu acerca da simplicidade da sua obra-prima, Frei Luís de Sousa: dizia ele que, com um enredo simples, sem um vilão e sem outros "excitante" e uma ação que decorre toda no seio de uma família que, afinal, se ama intensamente, conseguiria convencer o seu publico - sabemos que sim, nunca (re)leio esta peça de teatro sem que me comova. Rabos de lagartixa consegue isso mesmo, as personagens são reduzidas: David, um adolescente sonhador, a mãe, a ruiva, ou Rosa, cujos traços distintivo são os seus cabelos, insistentemente referidos, o inspetor Gálvan, talvez apaixonado por esta mãe abandonada, Paulino, o melhor amigo de David, o irmão de David, que é o narrador, mas que ainda não nasceu no tempo dos acontecimentos, há ainda o cão Faísca e, em minha opinião, o barranco, lugar emblemático para onde se escoam todos os afetos e todos os sonhos de David.

A ação não é digna deste epíteto, pois, tal como as personagens, parece estagnada, cercada, oprimida, entre margens de um barranco que cerca Barcelona do tempo de Franco. Nada parece acontecer, mas, tal como David pressente no leito seco do ribeiro o tumulto das águas passadas de enxurradas que cavaram as margens, da mesma forma, há um tumulto invisível que agita a vida interior destas personagens, desenraizadas, melancólicas, sofridas, resistentes e resilientes. Rosa é uma figura magnética em torno da qual todos gravitam: David, o inspetor, o filho que traz no ventre. Mas as personagens comportam-se como retas paralelas, condenadas a nunca se cruzarem, próximas, mas irremediavelmente separadas, inconciliáveis. Todas são, à sua maneira, enternecedoras, comovedoras, merecedoras do nosso respeito, ao mesmo tempo que nos horrizamos com a forma como a tragédia vai borbulhando à sua volta, alimentada pelo fogo lento da sua impossibilidade de saída: é isso, não há saída para elas, porque vivem ali e naquele tempo.

Estas figuras individuais, tão humanas como nós, condenadas a permanecer enredadas neste labirinto, assumem a boca de cena de uma tragédia maior, que se pressente como pano de fundo: os tempos duros de uma ditadura. Há referência à polícia, às torturas, às mortes mal explicadas, ao medo, à sanha contra os homossexuais, à hipocrisia de uma sociedade que funciona apenas para os simpatizantes para com o regime - Rosa era professora primária, mas foi impedida de exercer, como tantos outros, assim colocada à margem - à pobreza, a uma Barcelona cuja periferia é retrato de um abandono, de uma degradação que está a anos luz da Barcelona cosmpolita de que hoje ouvimos falar, tão distante que parece não poder ser a mesma. É um retrato cru, duro, descarnado que tem sobre o leitor um efeito profundamente catártico.

É um livro que fica em nós, dolente, terno, amargo, profundamente sensorial. Levo comigo para sempre David e a forma como o sonho o liberta do medo e do desgosto, a sua fantasia arriscada, a forma de exprimir a sua revolta, a tortura dos seus ouvidos doentes que nunca deixam que o silêncio se instale, a afeição desmedida que consegue votar aos desafetados da norma, o seu cão Faísca, velho, doente, quase cego, e o seu amigo Paulino, vítima da maior violência, física e psicológica, mas que cita poesia como forma de expressar o seu carinho pelos outros. Deixou-me com uma certa amargura a inexorabilidade do inspetor Gálvan, polícia dado à oferta de uma rosa branca. Tudo se passa de forma pouco explícita, mais insinuado do que contado, subterrâneo, mas impetuoso. Magistral este livro, magistral.

28
Jan21

A morte saiu à rua? Não, anda por lá a passear-se

livrosparaadiarofimdomundo

Não sei se aconteceu o mesmo a muita gente, mas a minha perceção disto tudo mudou drasticamente em pouco tempo. Como eu - porque há imensa gente assim - haverá por aí pessoas que cumpriram religiosamente tudo o que foi determinado. Apesar de trabalhar em educação, a minha função obrigou-me a sair de casa todos dias para trabalhar. Cumpro e esforço-me para que sejam cumpridas as regras de segurança. O espaço escolar tem menos um centímetro de altura tantas são as vezes em que o chão é limpo, as superfícies são desinfetadas. Depois do trabalho - durante todo o verão - não tomei um café, não me sentei numa esplanada, não fui a um restaurante - digo-o não como quem se lamenta, mas como quem o fez com a naturalidade que os tempos exigiam. Não fui a um centro comercial, as compras que fiz foram online, abusei talvez nas idas aos viveiros de plantas. De resto as minhas saídas foram perfeitamente justificadas pela necessidade.

Inciei o novo ano letivo cheia de esperança. As aulas no 1º período decorreram com muita tranquilidade, apesar de uns miúdos mais resistentes que teimavam em proteger-se da papeira em lugar da COVID-19. Os casos de contágio que surgiam eram absolutamente esporádicos, aqui e ali, às vezes, lá ia uma turma para isolamento. Nunca houve um surto. Continuamos a fazer uma vida sobretudo muito doméstica, mas, sinceramente, muito agradável, sem qualquer custo. Chegou dezembro e abriu-se a caixa de pandora.

Hoje, mesmo aqueles que chamaram a isto uma gripe, os que falaram de todas as teorias da conspiração, os que não quiseram saber, os que sairam, os que ainda hoje arranjam qualquer pretexto para furar o esquema, mesmo esses não podem deixar de estar esmagados com estes números. Faço contas de cabeça e imagino este número: numa semana, morrem - morrem - cerca de 1500 pessoas. E multiplico estes números por aqueles que amam estes mortos, que se deparam com estas perdas: 1500 esposas, 1500 maridos, 1500 filhos, 1500 pais, 1500 avós, 1500 amigos, milhares de vidas humanas perdidas, amputadas, separadas. Hoje oprime-me esta sensação de que a morte anda à solta na rua e que se vai aproximando, que nos vai cercando e que, quem sabe, se aproxima já dos nossos, insidiosa, indiferente, cega como a justiça. A morte anda aí.

Foi o pai que deu entrada no hospital e de quem as filhas não se puderam despedir, nem era COVID-19, era até outra coisa, mas os serviços estão pressionados e falta tudo e, não, eu não estou aqui a falar mal do SNS. Se a alguém falta motivos para pedir alguma coisa, peçam o SNS a funcionar, de forma deficiente? Digam-me que serviço de saúde aguentaria estes números? Foi o fotógrafo jornalista que toda uma pequena comunidade conhecia, a sua figura que andava pelas ruas da sua terra, identificando-se com ela e reproduzindo-a pela sua objetiva. Ouvimos falar destas mortes, como tiros de uma batalha que soam cada vez mais perto e o que sentimos começa a ser medo e a prece antiga que nos faz pedir pelos nossos. Foi a mãe internada a quem não foi possível dar um último beijo, foi a avó que foi sepultada sem que lhe fosse permitido usar a roupa que ela tinha escolhido e dito que queria usar na sua última viagem. 

A nossa existência é cinzenta agora, estamos cansados, estamos todos um bocadinho doentes, estamos todos muito mais tristes, estamos todos muito mais sós e, muitos de nós, nunca mais se hão sentir próximos daqueles que lhes alegravam os dias. Não sei se é pior que uma guerra, porque, felizmente, não conheço esses teatros, sei que é suficientemente mau e volto aos números 11608 mortos, fora os danos colaterais, incalculáveis, creio eu. Todos os dias os casos ativos crescem e fazem crescer não a avaga, mas o maremoto que engole as nossas esperanças. 

07
Jan21

E depois de tudo... a barbárie.

livrosparaadiarofimdomundo

Comecei este texto várias vezes. Apaguei o que tinha escrito e recomecei.

Como é que se escreve sobre a invasão do Capitólio na América? 

A invasão do Capitólio é como um sudoku: de todos os lados, ângulos e colunas o resultado é sempre barbárie.

Um presidente democraticamente eleito que se recusa a respeitar o regime que lhe permitiu exercer o seu mandato como quis, que incentiva o seu próprio povo a desrespeitar as instituições, que apela à violência dos seus apoiantes para fazer valer o seu apego ao poder: isso é barbárie.

Uma multidão que força barreiras, que invade, que trepa paredes, que grita, que urra, que destrói, que ameaça, enquanto calcorreia os corredores da casa da democracia, reiterando que o espaço lhe pertence ao mesmo tempo que o conspurca: isso é barbárie.

Uma multidão que vandaliza, que ocupa alarvemente , que se bestializa e, ao mesmo tempo, vai tirando selfies, vai gravando, vai filmando para depois, eventualmente, partilhar orgulhasamente as imagens de que são capazes: isso é barbárie.

Um mandato presidencial que termina com o Capitólio vandalizado como qualquer prédio devoluto: placas arrancadas, estátuas pintadas, pés em cima de secretárias, vidros partidos, sujo, com fumo a sair pelas janelas: isso é barbárie.

Li em vários fóruns "this is not América", mas a verdade é que é, aconteceu na América. quem há de ser chamado para garantir que a democracia é restaurada? A América terá de salvar a América. A América é, hoje, um país a ferro e fogo; é, como alguém terá dito, um país de Terceiro Mundo com cinto Louis Vuitton.

Não sou americana, sei perfeitamente que a barbárie grassa pelo mundo inteiro, mas não costuma ser ali. A América é a terra de todos os sonhos, de todas as oportunidades e as suas instituições têm tentado garantir isso. O que se viu ontem é o colapso de um mito, a invasão dos bárbaros outra vez, a queda de um império, os pés de barro do ídolo, Nero a incendiar Roma, a repetição dos piores momentos da história: o regresso à barbárie.

Não é connosco, mas é com todos nós, é o crescimento descontrolado dos discursos simplistas, demagógicos, populistas, que fundem meias verdades com vulgares mentiras, que se alimentam da ignorância, da preguiça mental dos usuários das redes sociais, da ausência de espírito crítico: é a barbárie.

Resta-me, hoje, recomendar-vos a leitura como panaceia, tal como refere Maria do Rosário Pedreira no seu blog, de que vos deixo aqui o link:

https://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/qi-e-leitura-629110

Ou então, fazer como Arturo Pérez-Reverte, refugiar-me na minha biblioteca, embebedar-me de humanismo, como o autor sugere neste video:

https://rr.sapo.pt/video/113933/o-refugio-dos-livros-do-antigo-reporter-de-guerra-arturo-perez-reverte

Enfim, arranjar maneira de lavar os olhos.

05
Jan21

Às vezes também vejo séries#2: Alguém tem que morrer (minissérie Netflix)

livrosparaadiarofimdomundo

Alguém tem que morrer": com Ester Expósito, saiba tudo sobre a nova série  da Netflix - Purebreak

 

Gosto muito de minisséries. Não vejo séries com 250 temporadas, fora os anexos.

Algém tem que morrer é uma minissérie espanhola, em exibição na Netflix, com apenas três episódios, de cerca de 50 minutos cada. Dá para um serão bem passado. É de uma intensidade dramática capaz de nos pregar ao sofá, sem falarmos, às vezes sem respirarmos, mas indiferentes nunca.

Começo pelo título, muito bem achado, e que, quanto a mim está mais voltado para o espectador do que para a intriga. Alguém tem que morrer é aquilo que somos levados a pensar assim que o primeiro episódio se inicia: há muita tensão, há muita sisudez, há muita violência contida e explícita, há muito poder, há muita subjugação, há muita arma, para que no final todas as personagens sobrevivam aos acontecimentos cujo avanço mais não faz do que criar a sensação asfixiante de que aquilo só pode correr mal.

Ambientada na Espanha do pós-guerra, fechada, conservadora, homofóbica, retrógada de Franco, a ação coloca duas famílias do regime, movidas pelos interesses comuns - se o chefe de família da primeira gere prisioneiros, em especial aqueles acusados da degeneração ligada aos amores homossexuais; o segundo explora uma fábrica de calçado, impusionada pela mão de obra gratuita que recruta através do amigo. Se o primeiro é pai de um filho e o segundo pai de uma filha, nada melhor do que combinar-se o casamento e serem todos felizes para sempre. Se há um segredo de família - ou vários - porque no melhor pano cai a nódoa - é preciso fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para o sepultar para sempre e não permitir que a sua revelação coloque em causa o status quo: se for preciso mata-se, se for preciso exila-se, se for preciso tortura-se, se for preciso trai-se, se for preciso mente-se, se for preciso bate-se. Caso seja necessário satisfazer o desejo de poder, o desejo de brilhar, a incapacidade de se ser contrariado, recorre-se sempre aos mesmos processos.

E o que é que fica pelo meio? Os elos mais fracos; aquele que voltou as costas num momento de imprudência, aquele que testemunhou, aquele que ama, aquele que é a esposa submissa, aquele que é cônjuge de um preso político, aquele que não convém e, em especial, aquele que vinha só para ver as vistas e foi apanhado no tornado.

As personagens frequentam um clube de elite, cuja principal atividade -além daquela mais velha do mundo: ver e ser visto, manter-se na berlinda, afinar a aceitação - é o tiro aos pombos. E há neste desporto predatório toda uma mise en abîme da série. Se não estás do lado daqueles que seguram a arma, é porque estás no lado da presa, se não atiras, és alvo. Aliás a omnipresença das armas, do som dos tiros só agudiza esse ambiente opressivo em que as personagens dominadas vivem. Só há uma forma de escapar: matar ou morrer.

Poupo-vos os pormenores técnicos, quem é quem, garanto-vos que o desempenho artístico dos atores é bastante bom, os figurinos também, a frieza do ambiente outonal igualmente. Vejam a série, é muito interessante, pertinente, atual - afinal há por aí países em que foram aprovadas leis homofóbicas bastante recentemente - e põe-nos a pensar em que sociedade queremos viver, para não adormecermos no embalo das demagogias. Eu gostei!

07
Dez20

#42/2020 - Tu não és uma mãe como as outras, Angelika Schrobsdorff: afinal, em 2020, li um livro sobre o holocausto.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Tu Não És Como as Outras Mães

Editora Alfaguara

568 páginas

Emprestado

Neste post, convergem uma série de coincidências e de circunstâncias que não deixam de ser curiosas. Desde que li Se isto é um homem, de Primo Levi, passei a ter alguma dificuldade em ler livros sobre o holocausto, por crer que só quem o viveu pode efetivamente dar dele testemunho, tudo o resto, se não for cuidadoso, serão exercíos arriscados. Talvez aqui a literatura perca um pouco para o cinema, porque o segundo pode contar com a força das imagens, como esse admirável A Lista de Schindler. Depois de Levi, li ainda Os loucos da rua Mazur, de Joaõ Pinto Coelho e a verdade é que o livro me despertou um interesse genuíno, muito pelo facto de nos dar uma perspetiva que se tem tentado silenciar: a de que os nazis tiveram também os seus apoiantes na Europa que iam esmagando. Acontece também por estes dias a publicação de um livro de José Rodrigues dos Santos, cujas observações a propósito de um entrevista têm merecido alguns posts nas redes sociais, no mínimo "entusiastas", mas, segundo li, ele pô-se a jeito, mas sobre este livro não me alongarei, porque não o li, nem tenciono lê-lo, pelo menos para já. E li, nesta última semana, este livro de Angelika Schrobsdorff, cuja ação decorre entre os anos da 1ª Guerra Mundial e os últimos anos da década de 40, do século XX.

Angelika dá-nos um relato simultaneamente familiar e universal. A vivência de Else, a sua mãe, corresponde à experiência de muitos judeus que eram identitariamente alemães, bem mais próximos do rigor, da disciplina, da ordem, da limpeza, da cultura riquíssima, da literatura, da música alemãs do que propriamente das suas raízes judaicas. As ondas de choque da Primeira Guerra Mundial não chegaram talvez a ter grande impacto na vida de muitos alemães (judeus ou não) e terá havido uma classe social que continuou a sua vida um pouco alheada do que ia contecendo à sua volta, imersos em rotinas que aparentemente contribuíam para essa ilusão de que as coisas continuavam iguais. Enquanto assim viviam, o nacionalismo e o nazismo iam crescendo e os éditos que comprometiam a sobrevivência dos judeus iam-se sucendendo e apertando o cerco em torno a muitos alemães que continuavam incrédulos de que a infâmia pudesse ser levada tão longe.

Else e as filhas, Bettina e Angelika, devido ao seu casamento com um alemão acima de qualquer suspeita, semi convertidas ao cristianismo, vão sendo poupadas até que a fuga da Alemanha se impõe como a única hipótese de sobrevivência. Através de um casamento de fachada com um búlgaro, refugiam-se na Bulgária, onde sobrevivem numa escalada de privações aos anos mais negros da Segunda Guerra Mundial e da ascenção e glória do nazismo. Mais uma vez, os búlgaros apoiaram os nazis quando estes chegaram ao seu país.

O romance - custa-me um pouco esta designação pela autenticidade da história - oferece-nos um valioso testemunho biográfico sobre esses anos da história da Alemanha e da Europa. Nem todos os romances sobre este período podem ser sobre os campos de trabalho, as câmaras de gás. Nem todos por lá passaram, lá morreram ou lhe sobreviveram, mas isso não quer dizer que não houvesse outros dramas a serem vividos. O desenraizamento, a perda de identidade, as fraturas familiares, as privações, o sofrimento, a perda de familiares e amigos, separações que nunca mais puderem ser superadas, a pobreza, a miséria, são outras tantas faces destes anos, outras formas de morte psicológica.

Há no livro três aspetos que me tocaram. O primeiro é o destino dos avós judeus de Angelika. O avô morre já no auge da perseguição dos judeus e acaba por ser poupado. A avó conhece ainda um campo de concentração, ali perecendo. Outro tem a ver com o percurso de Else, de uma vida de boémia, de procura de prazeres, da vida em pleno, da liberdade, do amor, guiada sempre mais pelo coração do que pela razão, a uma consciência dos limites humanos, da nossa profunda fragilidade, da ausência de certezas, da insegurança em que verdadeiramente vivemos, da própria imperfeição da humanidade, da falta de limites para aquilo que os homens podem fazer uns aos outros. No final da vida, percebe-se que Else conhece o despojamento para se centrar apenas no amor pelos filhos e é isso que ela é acima de tudo: mãe dos seus filhos. Por fim, a frieza de Angelika, porque, na verdade, a descida aos infernos não é garantia de sairmos de lá mais aperfeiçoados, o conhecimento do horror tem um impacto sobre a nossa humanidade que, a menos que façamos o caminho, nunca poderemos ajuizar. Voltemos a Levi: quando é que deixamos de poder dizer que somos homens, até quando aguentamos o nossa dignidade quando estamos privados de qualquer alento?

Recomendo vivamente esta leitura acima de tudo por ser um relato de quem a viveu e isso confere uma habilitação que poucos escritos ficcionais sobre o holocausto parecem ter, numa proliferação nos escaparates das livrarias que nos levanta algumas suspeitas de que mais não sejam do que um aproveitamento de um episódio histórico - trágico, sórdido, desumano que nos deve continuar a colocar questões cruciais, sobretudo de memória - que é tratado como a última receita literária mais rentável.

 

16
Nov20

Às vezes também vejo séries: O Método Kominsky

livrosparaadiarofimdomundo

É verdade, às vezes também vejo séries. Às vezes... é muitas vezes, só que ainda não me tinha ocorrido falar sobre elas. Tenho um problema com séries que, de certeza, ajudará a diganosticar um comportamento obsessivo compulsivo: quando começo a ver uma (que me agrade), não consigo parar e lá vão as temporadas todas que puder ser, enquanto um cantinho do meu cérebro me lembra que o dia seguinte é de trabalho, mas não dá, não dá, tenho de chegar ao fim. Depois consolo-me ainda bem que as séries não são pacotes de bolachas. Antes olheiras que peso a mais. Isso é que não.

Felizmente, para mim e para as pessoas que têm de lidar comigo, sou muito exigente com as séries e tem de haver qualquer coisa que justifique a eutanásia do meu tempo, que não é assim tanto. 

Acontece que comecei a ver este Método Kominsky, uma série original da Netflix e... bastou o primeiro episódio. Protagonizada por esse senhor do cinema, Michael Douglas, a fazer de si mesmo (ou quase) um ator que, como todos nós, não escapou ao esmerilar do tempo. Envelhecido, com problemas de próstata, sem ter a certeza de conseguir ainda um desempenho sexual satisfatório, cobarde para a crueza da vida e... encantador neste papel disfórico, autêntico e humano. Não sei se é esse o traço que procuro em todas as obras de arte: a essência da humanidade, superada/sublimada por fugas que nos resgatem, mas a humanidade e o humanismo têm de estar lá, o "bicho da terra tão pequeno", que, às vezes, é mais do que promete essa humanidade. Entretanto, o que faz o nosso protagonista? Dá aulas de representação - ah Manuela, o ensino está-te no sangue - recorrendo, pois claro, ao seu método, que dá o título à série e esse é um ponto de partida para boas cenas, mas muito longe de ser o único.

Para além do desempenho desassombrado e assombrador dos atores - o elenco é facilmente reconhecido e ninguém envergonha ninguém (desculpem, mas é maçador estar aqui a dizer quem e quem fez o quê, deixem-se ir como alguém que eu conheço que, ao ver algum ator familiar, exclama sempre "olha quem é ela/ele!". Vejam a série para reencontrarem velhos "amigos"), o que me fez render desde logo foi mesmo a qualidade do guião. Quem escreveu a série - não faço a mínima ideia, porque não fui ver e hoje estou em modo impressivo - escreve bem, tem muuuuuuuuuuiiiiiito sentido de humor, daquele mais negro, que é o que eu gosto, e domina a arte do sarcasmo - outro recurso que me convence e que não está ao alcance de qualquer um. Não está não. E, nestes tempos de "virgens ofendidas", ironia sarcástica, corrosiva, fora do politicamente correto é uma lufada de ar fresco.

De modos que estou a poupar episódios, como um alcoólico perante a última garrafa, um bocadinho de cada vez, para durar e estou a adorar. É isto, hoje lembrei-me de recomendar esta série, é uma pena se as pessoas inteligentes, capazes de reconhecer a inteligência, não a virem. Além disso, uma série é uma forma de leitura: alguém está a ler um guião para nós, na sociedade vitoriana era uma ocupação muito requisitada.

Não recuse um método que, à partida, não conhece, já dizia um dos oráculos da praça.

08
Nov20

Eu também segui as eleições americanas

livrosparaadiarofimdomundo

Não sei falar de política, nem tenho raiva de quem sabe, nem mesmo de quem finge que sabe, mas a verdade é que também eu acompanhei essa minissérie que foi a contagem dos votos para a eleição do presidente americano.

Recuemos um pouco. Há quatro anos, não acompanhei com tanto interesse a primeira temporada. Vivi a coisa mais desinteressadamente, convencida que a Hillary Clinton ganharia as eleições, talvez um bocadinho enjoada, porque a presidência da América não deveria ser uma espécie de monarquia, ou oligarquia. Por esse motivo, no dia seguinte de manhã, saída do cabeleireiro, ficquei em choque quando tomei conhecimento de que Trump tinha sido eleito. Confesso a minha ingenuidade, eu acreditava mesmo que as pessoas não levariam a sério este candidato. Não era possível. De maneiras que lá fui seguindo os primeiros discursos e a minha perplexidade manteve-se ao longo de quatro anos. Temos tanto para recordar. Nunca mais dissemos huge da mesma forma, huge tronou-se um trumpismo. Make America Great Again tornou-se um leitmotiv que pudemos usar a propósito de tudo e de nada. Todos conhecemos o penteado de Trump e o olhar semicerrado de Melania, aquela olhar de quem nos atira um "I really don't care", como só uma primeira-dama consegue fazer e só por usar um casaquinho. O Twitter passou a ser seguido com muito mais interesse, porque as pérolas eram quase diárias. Por fim, mesmo a pandemia assumiu uma faceta inusitada pela abordagem que Trump dela fez. E depois os seguidores que o homem tem e ganhou, um verdadeiro influencer, é ver os Bolsonaros da nossa vida, os Venturas ali tão perto. Por fim, os discursos de ódio, de fratura, de supremacia também puderem sair da gaveta, sacudidos da poeira e, finalmente, chegar à luz do dia. Não, não me venham com a economia, parece o argumento para o saudosismo do Salazar, "era assim e assado, mas tínhamos os cofre cheios de ouro". E para que é que servem cofres cheios de ouro se a maioria da população vivia mergulhada na pobreza e na ignorância, orgulhosamente esquecidos?

A eleição de Biden não me entusiasma por aí além. Todos nós, todos talvez não, as a maioria de nós, vem calejando um certo ceticismo acerca de tudo. Afinal os jogos de poder são a verdadeira profissão mais velha do mundo, tenho a certeza que a outra que costuma receber este epíteto é apenas uma sucursal e estaria por certo, nos primórdios, ao serviço da primeira. Tenho a certeza de que a razão de Biden se ter candidatado está longe de ser apenas humanista ou uma questão de messianismo. É um sacrifício que qualquer um está disposto a fazer, porque compensa, vá, a verdade é que compensa. Ainda assim, o facto de ser a terceira vez que se candidata e de ter vencido, a sua vasta experiência de vida e na política, faz de Biden um senador e tudo o que viveu não poderá deixar de ser um trunfo. Já Kamala Harris é toda uma promessa que aguardamos para ver cumprida. 

Apesar de todo esse cinismo com que observamos estes Games of throne, há a diferença nas palavras: união, nós, sarar, todos, justiça, igualdade, arco da moral... Hoje, para mim, basta isto, outras palavras, outra semântica, outro discurso. A governação de Trump levou-nos a acreditar nisto, pelos menos, as palavras têm poder gerardor. Portanto, palavras diferentes hão de gerar um cenário diferente, apaziguado, mais tolerante, mais compassivo, tendencialmente mais justo.

Afinal, até para este ano horribilis  pode ser que ainda haja esperança, foi o ano em que Trump não foi reeleito.

16
Mar20

#13/2020 - O meu amor absoluto, Gabriel Tallent, ler pode doer (muito)

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Meu Amor Absoluto

Editora: Relógio d' Água

Páginas: 347

Este livro tem sido o motivo pelo qual não tenho escrito de forma tão assídua no blog. Porque custa, custa muito e, no entanto, é crucial escrever sobre este livro e recomendá-lo.

Comecemos pelos paratextos. O título não é, como poderá parecer enganador, é, na verdade, bastante explícito sobre o conteúdo. Só que não da forma como imaginaríamos. Daí que a leitura e a verdade do título seja como um murro no estômago. Aqui pensei em não dizer isto, com receio de afastar potenciais leitores, mas fica assim como um penso rápido que é preciso arrancar sem contemplações. Esta leitura é como um murro no estômago, não uma, mas várias vezes. Já o texto da contracapa revela-nos que se trata da obra de estreia de Gabriel Tallent e... o trocadilho com o nome impõe-se. Gabriel é um talento na escrita. Uma revelação a acompanhar atentatamente. Tomemos nota.

A relação do leitor com este romance é um bocadinho o reflexo da relação que Turtle, a personagem feminina, de 14 anos, mantém com Martin: somos brutalizados pelas descrições, a violência das descrições apanha-nos tantas vezes desprevenidos como Turtle perante Martin. Ainda assim, defendemos este livro e recomendamo-lo muito. É minha convicção que a arte, a literatura, não tem de ser panaceia. O objeto artístico tem como primeira função interpelar-nos, incomodar-nos e este O meu amor absoluto cumpre com excelência esse papel. Com disse, de maneira muito feliz, a amiga que mo emprestou "É um livro que nos persegue". É verdade! Às vezes, lemos livros que apenas nos passaram pelas mãos, de que mais tarde apenas lembraremos o título na nossa enciclopédia pessoal. Mas este não, este fica gravado e, se me pedissem, seria capaz de recontar toda a história e até falar da impressão com que se fica desta leitura.

Da leitura fica uma forte impressão de silêncio, o silêncio das vítimas. Todo o texto é profundamente introspetivo. Mergulhamos a fundo no espírito de Turtle, testemunhando catarticamente a forma como a violência a moldou e a preparou para enfim a superar. Depois temos a natureza, exuberante, selvagem, pletórica que cerca as personagens de cor, de vida, de veneno, de emaranhados, de fungos. Toda a diversidade da natureza há de ali estar como reflexo do que o livro nos pretende ensinar. A omnipresença das armas, a forma simbólica como o cuidado com as armas constitui uma aprendizagem para cuidar de outros. O mar, como pano de fundo, símbolo crescente do perigo e dos escolhos onde nos podemos ferir. 

É uma leitura fácil? Não! Mas há, apesar de tudo, beleza neste texto, uma beleza estranha e que até agora não consigo definir. Sinto-me culpada quando penso que gostei deste livro, como se este não pudesse ser um livro para se gostar, como se daí viesse uma espécie de culpa. 

Quem se atreve a ler? 

Fico na expectativa de que o leiam e que, depois, venham a correr "falar" comigo.

 

 

11
Fev20

#8/2020 - A arte de chorar em coro, Erling Jepser: para ler já!

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A Arte de Chorar em Coro

Editora: Cavalo de Ferro

Páginas: 211

Género: romance picaresco/de aventuras... ou outra coisa qualquer.

Para Guardar

O livro todo, em bloco, só assim é que ele faz sentido.

Estou absolutamente desconcertada com este livro! Quase que me apetece dizer que não tenho estudos para isto. Atenção, eu adorei o livro. Não é qualquer um que consegue numa moldura quase lhana, simplista, abordar assuntos complexos; não é para todos falar de atos brutais, de crueldade sob um manto diáfano de inocência, humor e sensibilidade. Este romance é - não duvidem por um segundo - uma verdadeira obra-prima. Mas, mesmo assim, estou desconcertada e abalada.

Vamos por partes.

Parece que Erling Jepsen se estreou tardiamente no romance (nasceu em 1956 e só publicou o primeiro romance em 2002), mas, antes disso, escreveu muito, muito teatro e, de facto, foi escola que aproveitou sobejamente na composição deste A arte de chorar em público, precisamente o seu romance de estreia, que foi adaptado ao cinema e que chegou à cerimónia dos Óscares nomeado para melhor filme estrangeiro. Não se pode dizer que seja coisa pouca. (note to self: ir a correr procurar o filme para ver).

O romance, quanto a mim, é indefinível: será de formação? serão memórias? picaresco é seguramente e as aventuras não são bem assim... Talvez nem tudo possa ser definido, talvez o primeiro encanto do livro seja esse, escapar a um formato, essa é a primeira zona de conforto que temos de abandonar nesta experiência literária. Agora que a leitura é extraordinariamente abosorvente, isso é seguramente. A estranheza do género não deixa de nos agarrar, de nos puxar para aquele vórtice discursivo que nos enreda e nos deixa perplexos, embora divertidos. Ai, mas com que amargura. Portanto, pensem num bom prato agridoce, em que ao cozinheiro lhe escapou a mão ao juntar os ingredientes amargos.

A ação é crua, alguns momentos raiam a monstruosidade, desvendando os demónios que se escondem em muitos peitos aparentemente piedosos. Todavia, tudo o que aqui é terrível é suavizado pelo facto de ser narrado através de um filtro poderoso: os olhos de um rapaz de onze anos, cuja compreensão imperfeita das coisas nos poupa imenso à possível violência do relato. Por causa disso, o romance resulta num documento comovente, em especial porque essa estratégia narrativa permite ao autor não contar tudo, deixando muito por dizer, restando-nos adivinhar e completar a narrativa. A visão que nos é dada é inocente, marcada pelo amor desta criança à sua família, pela idolatração do seu pai, pela disposição para fazer tudo para os ver bem e felizes. A verdade é que este rapaz é um Cândido dinamarquês, tanto mais autêntico quanto a sua é a candura da infância. Esta circunstância explica a veia cómica, mordaz, divertida em que a história vem embulhada.

A minha teoria é que o facto de Jepsen ter sido, antes de romancista, dramaturgo explica em grande medida a forma como o autor soube construir o romance num tom coloquial, aproximando-se ao discurso de uma criança, mantendo a sua focalização. A fluidez e autenticidade desse discurso é um dos maiores trunfos do livro. É impossível não nos enternecermos, não amarmos este rapaz, não torcermos por ele.

Apetece-me suplicar a todo o leitor, a todo o verdadeiro amante de livros que não passe por cima desta obra. É incontornável. Leiam, vai doer, mas vale a pena. 

Balancete: 2020 vai muito promissor em leituras, começo a recear não conseguir manter o nível até dezembro.

03
Fev20

O ministério da felicidade suprema, Arundhati Roy vinte anos depois

livrosparaadiarofimdomundo

 

Wook.pt - O Ministério da Felicidade Suprema

Editora: Asa

Páginas: 464

Género: romance histórico/romance de aventuras

Arundathi Roy ganhou o meu coração com o seu primeiro livro, O Deus das Pequenas Coisas, um romance brutal sobre a Índia, sobre o preconceito, sobre dois irmãos, sobre uma família, sobre a arbitrariedade. 

Em 2018, saiu este Ministério da Felicidade Suprema, vinte anos depois da publicação do primeiro romance. Roy não publicou nenhum outro neste lapso de tempo. A expectativa acerca deste lançamento era muita, mas também havia muito receio. Quando amamos um escritor, temos sempre medo que ele nos desiluda, ou que seja aquele tipo de escritor que descobriu uma receita vencedora e que se deixa ficar nessa zona de conforto, publicando "sempre o mesmo livro", como as novelas da TVI.

Sim, sim, mas Roy não fez nada disso. Deu-nos um outro romance grandioso, que se lê obsessivamente - como eu gosto - que nos desperta a curiosidade - como eu gosto, fiquei a saber tanto sobre o terceiro género na Índia, porque este é mais um daqueles livros que me atira para pesquisas intermináveis - que nos forma e nos molda - como eu gosto, confirmei que, em alguns pontos do globo, os muçulmanos são perseguidos e massacrados - que nos desenvolve a consicência social e global - como eu gosto e, à conta disso, fui tentar perceber o que se passa afinal em Caxemira, um vale paradisíaco entalado entre três países, uma zona tampão importantíssima para o equilíbrio geoestratégico, mas cujas consequências atiram os seus habitantes de maioria muçulmano para um verdadeiro inferno.

Mas não é apenas disto que se tece este romance, é também do desenho de personagens inesquecíveis, como Anjum, dilaceradas entre a sua poesia intrínseca, a sua humanidade sublime e o preconceito, a violência, a miséria e a tragédia de se viver na Índia, onde crescem os nacionalismos exacerbados e onde a maioria hindu vai esmagando outras etnias e outros credos. O romance vive ainda do sonho e do fantástico, da conjugação de circunstâncias inesperadas, do cruzamento de vidas que pareciam afastadas anos luz umas das outras e, no fim, deixa na boca um travo doce de esperança, de superação, de encontro e de redenção, de pureza e bondade no meio do caos, da arbitrariedade e da morte.

É mais um dos livros que integro na categoria dos livros imprtantes, daqueles que nos sacodem e nos despertam.

Leiam, vão ver que doi, mas que o alívio da dor corresponde, de certa forma, a um renascimento.

 

 

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