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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

28
Abr21

O vício do sábado à tarde - episódio 1

livrosparaadiarofimdomundo

Quando era criança, não havia livros em minha casa. Nem um! Havia uma revista que, agora que a lembro, devia ter sido publicada logo após o 25 de abril, porque tinha umas caricaturas muito pouco abonatórias com figuras da igreja e da política e havia nessas caricaturas qualquer coisa que me deixavam perplexa, porque havia roupa mal composta e o vislumbre de uns rabos anafados. Perdi-lhe o rasto, não sei onde mora, não sei o que foi feito dela, suponho que tenha perecido num dos dias em que a minha mãe teve uns ataques de limpezite aguda que, hoje, são finos e se chamam destralhar. Antes disso, já a minha mãe destralhava e nunca se sabia bem avaliar os prejuízos desses dias. Às vezes, só nos apercebíamos tarde demais e os nosso tesouros desapareciam.

Anos mais tarde, houve um livro em formato A3, com capa dura, cor de terra argilosa, que foi oferta ao meu pai. Dele recordo uma biografia breve de Bevenuto Cellini, cujo busto observei extasiada na ponte em Florença, ainda presa do mesmo fascínio que essas páginas imprimiram em mim. Havia também, nas últimas páginas, a transcrição do conto de Eça de Queirós, O suave milagre, que continua a ser das minhas páginas favoritas deste autor, creio que devido a essa leitura precoce e solitária, feita de uma descoberta casual.

Depois, li na escola, acidentalmente, A fada Oriana, de Sophia. Depois, ainda, uma tia minha de Lisboa, ofereceu-me um livro de Enid Blyton, O mistério da gata desaparecida. A partir daí, comecei a pedir livros aos meus pais. A minha mãe era uma mãe exigente e achava sempre - no seu imenso amor - que eu ainda não tinha atingido a perfeição que ela tinha imaginado para mim e, para me incentivar a atingir os padrões de excelência que tinha, prometeu-me que me comprava um livro se eu me portasse bem. A minha biblioteca pessoal nasceu assim, dessa promessa e de todo o dinheiro que eu conseguia angariar. 

Quando olho para trás, para essa infância, vejo que, de alguma forma ela foi imensamente abençoada. Desde o chocolate com a mercearia do sábado - éramos quatro e havia um para cada um. Podia ser um chocolate com creme de fruta, não me lembro do nome, mas lembro que o meu preferido era o de laranja, podia ser o da Regina, que ainda se vende, mas que já não tem o sabor que a nostalgia e a memória lhe deram, podia ser o guarda-chuva com papel colorida, cujas "pratinhas" colecionávamos e guardávamos em encantamento. Eram também os bolos da praça, entre um bolo redondo, amarelado, macio, e a ferradura. Eram empre quatro e nós escolhíamos. Os meus pais sempre nos mimaram assim. Graças ao meu gosto pelos livros, passei a ter um mimo extra - o livro ao fim de semana.

O sábado à tarde era o dia da missa connosco. Muitas vezes, à boleia de tios - os meus pais tiveram automóvel muito tarde. Em frente à Igreja, havia uma papelaria-livraria. Juro que, às vezes, a visito de novo em sonhos. Ainda consigo descrever pormenorizadamente o balcão, com uma vitrine inferior em vidroa,onde estava exposto o materila escolar. À direita de quem entrava, havia uma prateleira, diminuta, onde estavam os livros, e que dividia a loja em dois, porque, por trás da estante havia a parte das loiças, que também aí eram vendidas. Mas nunca transpus essa fronteira, tinha muito medo de deitar alguma coisa ao chão. Ainda hoje, sinto o mesmo terror em lojas de loiças. Era aí que, depois da missa, enquanto os outros se iam arrumando no carro e se tinham as últimas conversas, que eu comprava o livro da semana. Corria pelo adro abaixo, levava o dinheiro na mão e comprava o livro. Fazia coleções, portanto, não havia verdadeiramente escolha, era um dos números que me faltava na coleção que estava a ler. Levei pouco tempo a esgotar toda a Enid Blyton, a minha primeira autora de eleição.

Chegada a casa, se não fosse sábado de Festival da Canção, ou melhor ainda, de Festival Eurovisão da Canção, lia o livro de um fôlego. Havia dias em que não conseguia antes de dormir e, se havia coisa que aminha mãe não permitia - de todo, com direito a castigos físicos - era a leitura antes de dormir. Totalmente proibida. Assim fiz a minha primeira transgressão. Depois de todos se deitarem, levantava-me e ia esconder-me atrás do móvel da televisão, porque a minha mãe deixava uma luz acesa durante a noite - tínhamos um medo atávico do escuro - para não termos medo. Atrás do móvel, no círculo de luz desenhado pelo globo branco de vidro martelado do candeeiro, lia até à última página. Simplesmente não conseguia esperar. Algumas noites, o meu levantava-se para ir à casa de banho, via-me a ler e não dizia nada, mas, quando regressava, ouvia-o falar em voz baixa com a minha mãe e, daí a instantes, o furacão Celeste surgia apocalíptico junto de mim, o livro voava pelos ares, eu era enfiada à força na cama e obrigada a dormir. Umas vezes, adormecia, outras, esperava sorrateiramente, levantava-me de novo e voltava exatamente ao mesmo sítio para terminar a leitura. A minha mãe às vezes tinha requintes de malvadez e levava o livro com ela. Eu lia no limite, mas ir buscar o livro ao quarto dela, seria suicídio. Os miúdos de hoje não sabem o que é correr riscos para terem um gosto.

Nos dias restantes da semana, relia o livro, aquele e outros que ia colecionando. Esta é a melhor recordação da minha infância, os meus livros, comprados ao sábado à tarde. Atingi o pico da felicidade, quando a minha mãe mandou fazer uma prateleira branca para colocar por cima da minha cama, para eu arrumar os meus livros. Desde essse dia, luto sempre com falta de espaço para arrumar livros.

Wook.pt - Os Cinco na Ilha do Tesouro O Mistério da Gata Desaparecida  Wook.pt - As Gémeas no Colégio de Santa Clara

11
Abr21

#12/2021 - Um tambor diferente, William Melvey Kelley: aprendermos a caminhar ao som da nossa melodia interior

livrosparaadiarofimdomundo

Um Tambor Diferente

Quetzal Editores

265 páginas

Este romance foi o segundo que comprei na ida a uma livraria física - já sabem, adoro, blá, blá, confinamento, blá, blá, blá, isto nunca mais acaba, blá, blá, tinha pensado ir este fim de semana, blá, blá, blá, fecha tudo até às 13:00. Não fui, mas li, talvez tenha ficado a ganhar.

Já tinha ouvido falar deste livro quando saiu em Portugal e o canto de sereia tinha sido a frase: "O gigante perdido da literatura americana.", o que fez lembrar o Stoner, de John Williams. Quando peguei no livro, vi que o autor o tinha escrito com 24 anos, tendo sido desde logo aclamado pela crítica que o comparou a Faulkner e a Baldwin. A curiosidade ficou ainda mais aguçada. Depois vi a sinopse: a ação decorre num estado segregado (ficcional) do sul da América, onde, inesperadamente, Tucker Caliban abandona simplesmente as suas terras, salgando-as antes de partir, abatendo os animais da sua quinta e incendiando a sua casa. É, na verdade, um ato de rebeldia não violenta, silenciosa, mas estridente ao ponto de causar ondas de choque que se perpetuam durante dias e dias. Compre, li, gostei e estou aqui a recomendar.

Apesar da sinpse tão interessante, o livro é muito pouco centrado neste episódio exato. A forma como a narrativa está estruturada fez-me muito lembrar Lincoln no Bardo, por causa de uma certa ingenuidade que enforma o relato, que é intencionalmente fragmentário. Na verdade, a narrativa resulta do relato de uma espécie de fio de memórias de algumas pessoas que conviveram com Tucker Caliban e que, longe de tentarem explicar o que ele fez, vão rememorando episódios do passado que nunca chegam a explicar diretamete o que ali sucedeu. Diria que o leitmotiv do romance é precisamente a forma como as personagens tentam perceber, sem nunca chegarem a uma explicação definitiva. Dessa perplexidade apenas fica os efeitos que estes gestos de Tuccker vêm a ter em todo o estado, originando um êxodo da população negra sem precedentes.

Um aspeto verdadeiramente interessante é que a questão racial - é disso que se está a falar, sem sombra de dúvida - não nos é dada nos parâmetros canónicos, é percecionada através do ponto de vista dos brancos e nem sequer são brancos arreigadamente racistas, são sulistas, mas progressivos, diremos assim, são brancos, mas palco de conflitos, são brancos, mas esperam também em expectativa para verem o grande acontecimento que fermenta por todo o estado.

Outro apontamento que considero estrutural é a forma como a omnipresença de Tucker nos é dada pela sua quase ausência. Aliás, a narrativa nunca assume o seu ponto de vista, não conheceremos as suas verdadeiras motivações. Ficam os gestos e o seu silência, um enigma como o da esfinge e é o mesmo texto oracular que dirige em surdina ao senhor Leland - apesar do nome, é uma criança, cujo ponto de vista é também assumido na narrativa. 

Outro aspeto ainda é a abertura do romance, absolutamente mítica, lendária. O antepassado de Tucker, chegado num navio negreiro à América, descrito como um verdadeiro titã, comprado à chegada Pelo General Dewey Willson, que o persegue pelo estado, tresloucado, numa caça ao homem em que tanto o perseguido como o que persegue se deleitam nesse jogo em que se medem as forças e a astúcia. É este Africano que é o tetravó de Tucker, enquanto Willson é o patriarca da família que tuteça os Caliban. Assim, a bertura do livro establece esta genealogia mítica, este sangue africano que pulsa nas veias de Tucker e que, para alguns, pode funcionar como uma explicação, um motivo.

Em termos literários, o livro é de uma modernidade surpreendente. Fragmentário, caleidoscópico, assentando em vários processos, entre eles o pastiche de vários textos, a paródia de diferentes discursos, diferentes pontos de vista, discurso ajustado à idade, educação e formação das personagens, o dialogismo dessas vozes que se erguem, não em coro,mas à sua vez para dar conta de uma trama que não é unívoca.

Um tambor diferente é, de facto, uma obra gigantesca que deve/merece ser resgatada do esquecimento: pela sua inegável qualidade literária, por ser a obra de um autor negro que a escreve aos 24 anos e que revela uma humanidade que a História havia de revelar em Nelson Mandela, por exemplo, pela sua atualidade, pela sua grandeza humana, por ser uma obra sobre a segregação que nos convida à reflexão, pela sua beleza, é um livro muito, muito belo.

07
Abr21

#11/2021 - As oitoMontanhas, Paolo Cognetti: histórias de quem vai e de quem fica.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - As Oito Montanhas

Editora Dom Quixote

222 páginas

Olá, querido blog, já sentias a minha falta, não é? Pois, não tenho tido tempo, as desculpas de sempre, a forma como nos autossabotamos. Mas, em tempo de passagem e renascimento, cá estou eu a retomar o meu trabalho de Penélope: escrever/ler.

Há dias, tive de ir a Lisboa fazer um exame médico: uau um pretexto para fazer uma viagem longa, é como a sensação de nos levantarmos depois de muito tempo sentado, como quem vai esticar as pernas. Coincidiu com a reabertura das livrarias e resolvi passar pela Livraria Barata, na avenida de Roma, por causa de se ter falado nas dificuldades que tem atravessado. Que saudades de estar numa livraria, de pegar num livro, ler a sinopse, ficar com ele na mãos, ainda indecisa, depois pegar noutro, reconhecer um de que se ouviu falar, outro que se viu ser um lançamento significativo, daí a pouco ter um braçado de livros e ter de começar a excluí-los.

Foi assim que cheguei a este As oito montanhas. Normalmente, não vou atrás de prémios, mas eles não deixam de ser indicadores. É um romance bastante premiado, o escritor é jovem e reparte o seu tempo entre a cidade e uma casa que tem na montanha, a alguns mil metros de altitude. Acabei por me decidir por ele e não me vim a arrepender.

A história conduz-nos ao seio de relações desencontradas, entre um pai e um filho, entre homens e mulheres que de desencontram nas relações, entre dois amigos, cuja amizade sobrevive ao tempo e à distância. Tudo isto é tutelado pela montanha, pelas montanhas, inóspitas, fascinantes, desafio constante, mas terra natal de uma certa identidade. A família de Pietro aluga uma casa no sopé de uma montanha, numa aldeia recôndita, parada no tempo, estagnada num modo de vida ainda muito enraizado na terra e nos ritmos das estações. Para ali vão passar todos os verões, exilados da citadina Milão. Em Grana, Pietro conhece Bruno e ficam amigos para a vida.

O que o livro nos narra é sobretudo o pulsar da montanha, os carreiros íngremes, as neves eternas, os lagos gelados, a fauna e a flora das alturas, os abrigos, o frio e uma nudez que até no verão persiste. É uma terra árida, altíssima, desconfortável, para poucos, para duros, para quem tem as pernas tonificadas, para quem se arrisca nos glaciares. É um lugar ao mesmo tempo edénico, mas conspurcado pelas ruínas de um certo modo de vida e de uma economia agonizante, cujo golpe de misericórdia há de ser dado pelos anos de chumbo da crise de início do século XXI. Mas a montanha é acima de tudo inexpugnável, de tempos a tempos reclama o que é seu, sobretudo através de tempestades épicas ou de forma surpreendente quando uma avalanche sepulta tudo o que fica no seu caminho. Há outras coisas no livro, há, mas foi isto que ficou, esta frugalidade, esta primordialidade que nada tem a ver com as hordas de turismo, as estâncias elegantes, ou uma moda. É mais uma forma de ser e de estar, é o montanhês, tanto o que vai - na verade, em busca de outras montanhas - como o que fica - agarrado à sua montanha natal.

Depois de ler este livro, só me apetece ir caminhar para a montanha e reacende-se a nostalgia de umas férias em Ordesa, de um trilho até ao Monte perdido, as florestas de árvores colossais derrubadas depois dos invernos agrestes. Este livro - passe o cliché - é sobre o espírito da montanha, uma coisa quase totémica. Quando isto tudo acabar, gostava muito de ir às Dolomitas, já tinha esse sonho, depois deste livro, passou a ser um desígnio. Como diria Caeiro, que presos estamos na cidade. Última recomendação: fiquem atentos à descodificação do título.

26
Mar21

Dia do livro Português

livrosparaadiarofimdomundo

Diz que é dia do livro português. 

Enumeração de livros portugueses que foram tijolos na parede da minha identidade, o meu cânone

Livro de Linhagens do Conde D. Pedro

"Sôbolos rios", "Canção X", "Alma minha gentil", Episódio de Inês de Castro, Luís de Camões

Padre António Vieira

Mensagem, Fernando Pessoa;

Os Maias, Contos ("Civilização", "Frei Genebro", "A Aia", "O Tesouro", "O Suave Milagre"), O Primo Basílio, A cidade e as Serras... enfim, toda a obra de Eça de Queirós e não se fala mais nisso.

Eurico, o presbítero, Alexandre Herculano

Viagens na minha Terra, Frei Luís de Sousa, Folhas Caídas, Almeida Garrett

Contos da montanha, Novos Contos da Montanha, Bichos, A criação do Mundo, Obra poética, Miguel Torga.

Em nome da Terra, Contos ("A galinha";  "A palavra mágica", "Adeus"), Vergílio Ferreira

O romance da raposa, Aquilino Ribeiro

Saga, Contos Exemplares, Obra poética, Sophia de Mello Breyner

O Físico prodigioso, Sinais de Fogo, Antigas e novas Andanças do Demónio, Os Grão-Capitães, Jorge de Sena

Mau tempo no canal, Vitorino Nemésio

Um amor feliz, Contos, Obra Poética, David Mourão-Ferreira

Memorial do Convento, Jangada de Pedra, O ano da morte de Ricardo Reis, História do Cerco de Lisboa, Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago

Para onde vão os guarda-chuvas, A boneca de kokoschka, Jesus Cristo Bebia Cerveja, Afonso Cruz

O homem sem nome, A Voz dos deuses, A hora de Sertório, Uma deusa na bruma, Inês de Portugal, O trono do AltíssimoI, João Aguiar

Os três casamentos de Camilla S, Os linhos da avó, O sétimo véu, A trança de Inês,  Romance de Cordélia, O sétimo véu, O pranto de lúcifer, O prenúncio das águas, Os pássaros de seda, Rosa Lobato Faria

A máquina de fazer Espanhóis, Walter Hugo Mãe

Não se pode morar nos olhos de um gato, Ana Margarida de Carvalho

Rua de Paris em dia de chuva, Isabel Rio Novo

No meu peito não cabem pássaros, Debaixo de algum céu, Se eu fosse chão, Nuno Camarneiro,

Devo ter esquecido imensos autores e imensos livros, mas isto foi uma citação de cor.

Bom dia do livro Português!

 

 

 

 

25
Mar21

Onde estás, poesia?

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A horas mortas, penso nas palavras.

Queria escolhê-las como quem escolhe entre a vida e a morte.

Queria encontrá-las como quem encontra o objeto perdido.

Queria sabê-las como quem as sabe.

Queria compô-las como quem cria.

A horas mortas, sonho com as palavras.

E não escolho as sublimes,

E não encontro as veementes,

E não as sei,

E não consigo criar.

A horas mortas, 

naufraga na praia, sedenta à beira do poço,

Fico em silêncio, à espera de uma maré que não sobe.

Eterna baixa-mar da poesia.

 

 

22
Mar21

O insólito acontece

livrosparaadiarofimdomundo

Então, eu li o livro A biblioteca, de Zoran Zivkovic, por causa do clube de leitura que, mais ou menos, dinamizo (mais ou menos, porque não acredito em atos solitários, só fazemos alguma coisa, porque o fazemos com alguém).

Então eu escrevi no blog sobre essa leitura, aqueles textos sobre os livros que resultam da organização de uma sideias a respeito do que li, tudo muito impressivo, tudo pouco académico.

Então, pouco depois de publicado o texto, recebo a notificação de um comentário e eu venho sempre ver, gosto tanto que os textos provoquem interatividade (eu sei que se diz interação, mas eu quero antes este termo). E o comentário era este:

image.png

E então eu respondi como se não tivesse acreditado, certa de que seria uma piada de bom gosto.

E então depois de responder fiquei aflita, porque podia ser verdade - até hoje não sei,

Mas tudo me parece tão insólito como as pequenas histórias que compõem este livro e eu faço como o protagonista de um dos contos, vou aceitar que estas coisas podem acontecer, que o improvável, às vezes, também se manifesta.

18
Mar21

#10/2021 - A Biblioteca, de Zoran Zivkovic, a escrita como jogo

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A Biblioteca 

Editora Cavalo de Ferro

101 páginas

Da Biblioteca, a propósito do clube de leitura.

Trata-se de um pequeno livro de contos, todos eles intitulados A Biblioteca, seguido de um predicado diferente: virtual, particular, noturna, infernal, minimal, requintada. Além do título partilham um certo cariz fantástico, insólito, inesperado e surpreendente.

A propósito dele, lembrei-me de uma cena do filme Shrek, em que o protagonista tenta explicar ao burro a essência dos ogres, dizendo que os ogres são como as cebolas, têm camadas. O mesmo se passa com este livro, podemos lê-lo em função de diferentes camadas significativas. Pode ler-se como um livro fantástico em que o improvável acontece, pode ler-se como uma obra divertida, pode ler-se como uma série de contos que apontam para as possibilidades da biblioteca. Eu li-o na sua estreita relação com os livros: desde os virtuais - os que não foram ainda escritos - aos feios - como os de bolso que desfeiam as bibliotecas requintadas - ao livro da vida, oas géneros mais indicados aos condenados ao inferno, porque nunca leram um livro; aos que constituem a nossa bilioteca pessoal, aos que são oferecidos ao escritor num momento de bloqueio criativo. Por isso tudo, é um livro que glosa a relação do escritor com a sua obra, com os seus livros, mas também a relação dos leitores com os livros que leem, que formam a sua bilioteca. Mas é ainda um livro que nos alerta para a importância da leitura, cuja extinção parece fazer perigar a própria humanidade, afinal se se lesse mais, haveria menos tempo para praticar crimes. Por último, é efetivamente um livro sobre a biblioteca enquanto espaço de acervo, de acumulação desse objeto mágico que é o livro, aind assim não defendido de se tornar um abjeto a continuarem as previsões da biblioteca infernal. é um livro que nos fala daqueles que amam os livros e esvaziam a sua casa e as suas vidas para aí arrumarem mais um livro da Literatura Universal. É um livro que retrata a forma amorosa como cada um arruma a sua biblioteca. é um livro sobre o sofrimento ligado à arte de escrever. Infelizmente, a edição que li não tem a capa da figura da imagem que aqui coloquei, mas, quando vi esta edição não pude deixar de me maravilhar, pois há realmente algo da obra de Escher neste pequeno livro, esse mesmo desafio à nossa racionalidade.

É um livro que podemos arrumar na prateleira dos pequenos prazeres, que nos deixa de sorriso no rosto, que nos deixa felizes por estarmos um pouquinho mais longe do inferno uma vez que lemos livros, quanto mais melhor. É um livro que motiva para a leitura. é um livro que nos faz reavivar a paixão pela nossa biblioteca particular, como os casados de longa data que redescobrem o fogo da juventude. É um livro que nos desafia a relê-lo, que se presta a isso mesmo, recusando-se a encerrar-se quando o fechamos, porque se estivermos atentos, sabemos que ainda não o esgotámos. Muito bem, Zoran, posso tratá-lo assim?

 

08
Mar21

Pessoas - uma mulher.

livrosparaadiarofimdomundo

Este não é um texto sobre o Dia da Mulher, apesar de ser escrito neste dia e ser, de facto, uma homenagem. Este é um texto sobre esta mulher na sua inteireza.

É a terceira de onze filhos, nasceu com uma deficiência no pé. Desde que a conheço, desde o tempo em que me conheço, usou sempre o mesmo modelo de sapatos adaptado, o modelo mais anacrónico que se possa conceber. Pretos, atados com cordões pretos, rendilhados no peito do pé, rasos, masculinos quase. Já velhos, porque o modelo é exclusivo e, por isso, caro. 

As fotografias antigas mostram-na linda como qualquer estrela de cinema. Foi tão bonita que chega a parecer improvável. Usava um penteado quase curto, bem armado, um porte de senhora. Ao pescoço e nas orelhas, pérolas, ao estilo da Jacqueline. No rosto uma expressão cristalizada, olhar um pouco erguido, o sorriso de sempre na boca.

Casou, jovem - que jovem era - com um cabo-verdiano, embarcadiço, que a levou a viver para o Barreiro, na outra margem. Era raro visitá-la, mas lembro-me de a visitar grávida, talvez do primeiro filho, com uma eterna blusa verde, sobre umas calças pretas. Por causa do pé e da perna nunca, nunca usou saias, nem nos tempos idos da década de quarenta do século passado. Nesse tempo, não trabalhava fora de casa, cuidava dos filhos e esperava que o marido chegasse. 

Quando o marido chegava era uma festa, malas e malas abertas na presença de todos, de onde distribuídos recuerdos  de todas as partes do mundo. Fixei um sombrero mexicano, que perdurou por anos a fio, facas da argentina, artefactos de madeira e pedra certamente africanos. Numa dessas vezes, trouxe para a minha Madrinha - até hoje é a Madrinha - um largo chapéu de renda branco, que lhe acentuou os traços de estrela de cinema.

Mais tarde, muitos anos mais tarde, tomámos conhecimento do acoolismo - antes de ser considerado uma dependência - e das tareias que apanhava. Depois, o marido desapareceu durante anos e ela ficou sozinha com dois filhos, em idade escolar e ela foi mãe sem queixumes, sempre igual a si mesma. Nunca teve outro homem, nunca procurou outra vida. Depois, anos ainda mais tarde, o marido regressou e entrou em casa como se tivesse sido só uma curta ausência, sentou-se à mesa, deitou-se na cama dela. E ela acomodou-se a essas novidades, sem questionar. Os filhos igual. Depois, não muito depois, voltou a violência e a brutalidade. Um dia, entrou em nossa casa, a cara cheia de hematomas, laivos de sangue aqui e ali, os braços amassados. tinha conseguido fugir. Ele tinha andado à procura dela com um fio elétrico nas mãos e uma embalagem de inseticida.

Fez-se entre todos um silêncio. Ele deixou de vir a nossa casa. Só vinha quando a minha mãe estava sozinha e nunca, nunca, falaram daquele assunto. É assim. Todos diziam que ele era muito boa pessoa, era o vinho. É assim que o recordo, como boa pessoa, porque, para todos nós, foi sempre bom, para ela é que não. Depois, um dia voltou a desaparecer. Até hoje. E ela ficou outra vez sozinha e vive como se sempre tivesse sido assim.

Trabalhou durante anos e anos, naquelas profissões que uma mulher pode desempenhar sem qualificações. Comprou um carro, tirou a carta, já bem tarde na vida. Criou os filhos, ajudou-os a constituir família. O mais velho vive em Itália, um ano destes, ele pagou-lhe a viagem para ela o visitar e ela foi, sozinha, sem medo, sem receios, porque nunca os teve. Adoeceu gravemente, uma primeira vez, esteve internada, com enfisema pulmonar. Tem um problema respiratório crónico que a debilitou muito. Recuperou, voltou para casa, continuou a trabalhar. Adoeceu gravemente pela segunda vez, teve cancro em plena pandemia, foi operada, recuperou, pesa 38 quilos. Pesa-se sempre depois de comer, porque é quando pesa mais.

Digo isto tudo, não como quem narra uma história miserabilista, de fazer chorar as pedras da calçada. Não dessa maneira. Digo-o a seco, porque é assim, porque esta mulher fustigada pela vida é a pessoa mais inspiradora que conheço. É a mais divertida. É a mais resiliente. É a mais generosa. É a mais abnegada. É a mais corajosa. Às vezes, penso nela e sorrio, porque pensar nela faz-me bem. Foi a minha segunda mãe. Lembro-me de ficar muitas vezes em casa dela, durante muitos dias, de ela estar a passar a ferro e de me deixar brincar a passar a ferro com a escova do fato e dizer-me que não conseguiria acabar se não fosse com a minha ajuda, e de me sentir importante. Nunca ralhava. Tinha umas chávenas Bordallo Pinheiro, coleção da couve. Era a pessoa mais carinhosa e, ainda assim, não era comum haver abraços e beijinhos, mas o afeto andava por lá, mesmo sem nome. Vive de uma pensão de subsistência, mas não é só disso que vive, sustenta-se também de uma rede familiar que providencia tudo aquilo que a sociedade - essa abstração - não fez, não faz por ela. 

É difícil explicar, é difícil entender. Apesar de estar tanta coisa errada neste percurso, está tudo certo.

 

 

07
Mar21

#9/2021 - A única História, de Julian Barnes: voltar ao lugar onde já fui feliz

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A Única História

Editora: Quetzal

Páginas: 253

Ponto prévio: tenho a dizer que as minhas resoluções para o ano de 2021 - que já paecem ter sido no ano passado - continuam a correr lindamente: ainda só comprei 4 livros este ano! Bem sei que as resoluções diziam que, para aí durante seis meses, eu não compraria livro nenhum, mas aqueles que prometeram perder peso que atirem a primeira pedra (prece-me que também era uma resolução minha). Mas isto é um post sobre livros ou uma sessão de autocrítica? Que mania de desviar conversa!

Pois bem, a propósito do clube de leitura que vai acontecendo, acontece que eu já tinha lido o livro votado, que foi O sentido do fim, de Julian Barnes (também havia outro, A Biblioteca, de Zoran Živković, que requisitei na biblioteca, mas é pequenino...). Como se estava ali a falar de Julian Barnes, achei que o melhor era ler mais livros dele, portanto comprei logo mais dois e depois comprei O sentido do fim no OLX... sou capaz de ser uma pessoa doente.

Ler Julian Barnes é como regressar a um lugar onde já fomos felizes. Nunca desilude. A única história é um livro maravilhoso, cheio de "truques" que fazem dele um acontecimento literário. Está escrito ao estilo de O papagaio de Flaubert, fragmentário, peças de um objeto estilhaçado que o autor vai colando, consciente de que o lugar por onde se voltaram a unir ficará sempre à vista, nunca nos será devolvido na sua integridade. Ora é isso mesmo que o livro demonstra: ao recuperar os acontecimentos do passado através da memória,  a linearidade e a diacronia ficam excluídas, porque a memória é indisciplinada, centrífuga, anda à deriva. Quando lerem, ou se já leram, verificarão que os acontecimentos narrados em cada um dos blocos são contemporâneos, mas são narrados assumindo perspetivas diferentes. Dessa forma, o relato reformula-se, mas também se aprofunda, é uma narrativa autofágica, na medida em que se nutre de si mesma, re-narrando, repetindo, mas em espiral, porque não é um regresso ao ponto de partida, há um desfasamento. Outro "truque" está relacionado com a utilização das pessoas gramaticais, também elas intencionalmente distintas em cada um dos blocos: eu/nós; ela; ele. Há um movimento de desagregação, de distanciamento, que não é só temporal e que estará explicado na última frase do primeiro bloco - vão lá ver se não acreditam em mim.

Há um pormenor maravilhoso, que é o facto de Susan, a protagonista, tratar jocosamente o narrador por Casey Paul: ora Casey, como se explica na própria história, resulta do facto de Susan considerar que as características de Paul fazem dele um caso de estudo. Na verdade,  e na minha perspetiva, a narrativa, tão deliberadamente analítica, tão vincadamente reconstruída, é-nos dada como se se tratasse efetivamente de um estudo de caso: aquele em que se ama mais e, consequentemente, se sofre mais, em que se é mais estragado para a vida, ou se cristaliza a parte da vida que vale a pena preservar. Não  é despiciendo este Casey pelo livro todo.

E no fim de tudo isto, temos a escrita de Barnes, imagética, metafórica, cheia de "níveis" da escrita, o que a torna tão sensorial, tão magnética, tão fluida. Que mestria nesse domínio. Ainda assim, não recuem por causa destes preciosismos quase académicos, A única história é um romance multifacetado, riquíssimo: é uma história de amor - e o amor é a única história - é um romance de formação, é uma análise sociológico sobre o poder que os outros não deviam ter sobre nós, é um romance de queda, são memórias, é um metatexto... é múltiplo, insperado, intenso como a própria vida... e profundamente humano, terno, digno.

Em termos de recomendação, diria qualquer coisa como: larguem tudo o que estão a fazer e vão ler este livro.

Eu devorei-o e ele ficou em mim por vários dias, num estado como ficam as beatas depois de comungarem... é isso comunguei dele.

05
Mar21

A literatura nos tempos de cólera - no que eu me vou meter.

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Li ontem, num post da Maria Rosário Pedreira, no seu blog Horas Extraordinárias - en passant, um blog também ele extraordinário - que a tradução da obra da poeta negra que declamou um poema na tomada de posse de Joe Biden - sou péssima para nomes - entregue a uma escritora, vencedora do Man booker prize - sou péssima para nomes - foi contestada e acabou abortada por decisão da escritora por (alerta perplexidade) a dita não ser negra (nem sei se este é o termo politicamente correto agora, mas eu não consigo dizer preto, sinto-me ofensiva), logo não estaria habilitada a compreender a obra que teria de traduzir. Fiquei toda arrepiada e, daí, que os nomes nem tenham grande importância, o destaque vai todo para esta ideia absolutamente trágica: a literatura passou a ter cor! E se a moda pega, não sei onde iremos parar. Começo a estar cansada do radicalmente politcamente correto.

Proponho um exercício. Para mim, a sanha do comunismo contra a religião, o ópio do povo, contra a confissão, a figura de Cristo, e outros adereços, é por demais irónica, quando no lugar de Cristo se pôs o Grande Lider, ou o Querido Líder, no lugar da confissão, se pôs a crítica e a autocrítica, ainda mais penosa, porque havia uma dimensão de humilhação pública, em lugar da missa se puseram as paradas militares, em lugar do evangelho se pôs a doutrina. Enfim, mudaram-se os nomes, mas a lógica era a mesma - disclaimer, gosto de colher das coisas aquilo que elas têm de bom e que pode fazer de mim uma pessoa melhor, e há coisas no comunismo que, nos princípios, me agradam, como a ideia de olharmos uns pelos outros; mas também há coisas no liberalismo de Adam Smith que acho muito acertadas. Voltemos à necessidade de uma obra literária de um autor negro ser traduzida por um negro: se começamos a achar que há coisas de negros e coisas de brancos, não estamos a ser muito originais, já houve quem pensasse assim e até fizesse disso uma forma de organização social, chamava-se apartheid, parece-me que era isso. O que me assusta é uma espécie de auto segregação em nome não sei de quê.

Agora levemos o exercío ao limite: se não sou judia e não estive num campo de concentração, não posso compreender o horror do nazismo e do extermínio concertado. Só os judeus que estiveram em campos de concentração é que podem, já há é poucos, que já passaram alguns anos, mas convém que alguém lá volte. Porquê? Para não nos esquecermos! Não posso ler literatura japonesa, porque não sou japonesa e, de facto, há uma enorme distância cultural que não é sobreponível. Não posso ler literatura africana, em especial a dos países de língua portuguesa, por causa do colonialismo e eu, sendo portuguesa, estou do lado do opressor - mesmo que não fosse nascida, mesmo que queira perceber, mesmo que queira conhecer, mesmo que entenda a literatura como uma forma de me aproximar do outro e de moldar a empatia.

Isto é tudo um disparate enorme, mas um disparate que começa a ser preocupante. Por um lado, andam os cheganos dos nossos dia a clamar a divisão à força da nossa sociedade, estratificando-a - também não é original, em tempos remotos chamou-se feudalismo; por outro, andam as minorias - ou outras coisas, ajudem-me que me faltam as palavras - a defender um orgulhosamente só, que me faz lembrar as feministas mais encarniçadas, que acham que devemos matar o homem, em tempos quisemos matar o pai, uma redoma onde se vão encerrar, não já humilhados e ofendidos, mas orgulhosos e sobranceiros.

Digo eu, humildemente, que a arte não tem cor, nem género, nem cheiro, nem sabor, nem religião. Está, na sua forma mais perfeita, ao serviço do Belo, do Bem, do Ético. Quanto mais mestiça - é de propósito - melhor, quanto mais plural, melhor, quanto mais impura melhor, quanto mais olhares se cruzarem, melhor. Está, parece-me, na hora dos sensatos começarem também a falar, porque, se só os idiotas continuarem a agitar-se na ágora, ainda acham que estão certos. Basta! Pim Pam Pum! Os idiotas são idiotas, abaixo os idiotas!!!

Ou então, leiam os versos de Pessoa: "O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente/E os que leem o que escreve/na dor lida sentem bem/não as duas que ele teve/mas só as que eles não têm". Está tudo dito.

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