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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

22
Set20

A poesia dos/nos dias

livrosparaadiarofimdomundo

Às vezes, ocorrem-me os versos de Sophia de Mello Breyner, não como citação, mas como qualidade. Explico melhor. A poesia de Sophia é luminosa, concreta, aguda como arestas, exata na escolha das palavras, que naquele lugar se tornam imagens.

Ocorre-me a impressão dessas qualidades em momentos, em instantes que me distraem da minha distração para a vida e que me forçam a olhar para a exatidão dos gestos.

A luz do sol que incide sobre os meus olhos, ainda fechados quando o dia nasce e é possível esperar por ele;

O toque macio da tijoleira encerada na pele nua dos pés;

A suavidade das folhas das plantas que acaricio enquanto ando pela casa.

O silêncio da cozinha, quebrado pela água a cair na chaleira.

O aroma do café.

O silêncio da cozinha enquanto, numa espécie de luxúria, tomo um pequeno-almoço solitário.

A água quente do banho matinal.

O momento em que finalmente desperto e me sinto presente a mim mesma.

A euforia que me domina ao aperceber-me da poesia no quotidiano.

A perfeição pode ser apenas a exatidão dos gestos que nos garantem a permanência e a continuidade. Um eterno retorno, um eterno princípio. 

Saber isto: estou aqui.

 

 

17
Set20

E depois de tudo... o otimismo

livrosparaadiarofimdomundo

O otismo permite-nos viver e, às vezes, é-nos oferecido mesmo quando estamos a precisar dele.

À entrada de um restaurante, quando ia a entrar, reparei que um casal se preparava para sair e afastei-me para lhe dar passagens. Eram ambos muito sábios - fica a metáfora, porque não me ocorre nenhuma outra palavra para me referir à sua idade - ela já muito frágil, ele ainda capaz de olhar por ela. Ela saiu primeiro, apoiando-se ora na porta, ora na parede, desceu o degrau da entrada com muito cuidado, aquele cuidado de quem tem muito cuidado para não cair. Era tão bonita, cabelo de neve, com o lenço à volta do pescoço, ainda cheia de galhardia. E de onde vem o otimismo? Disto, ele sempre a ampará-la, a pegar-lhe delicadamente no braço, a cuidar dela, também com medo que ela caísse. Se é possível cuidarmos uns dos outros, assim com amor até esta idade, vale a pena.

Mais tarde, uma música do Bruce Springsteen, triste como a vida, "you're missing", de uma beleza como só a arte nos pode dar, deu-me duas certezas: se um acontecimento como o 1 de setembro em Nova Iorque pode dar origem a uma canção desta beleza, então há esperança para o mundo e, segunda, tenho de sentir-me otimista, na minha vida ainda não há nenhum vazio deixado por alguém que me deixou órfã para sempre.

Sinto-me otimista.

 

23
Jul20

Post sem livros lá dentro #4

livrosparaadiarofimdomundo

Sou uma pessoa de bloqueios. Quando desenvolvo um, nunca mais me livro dele.

Há sítios onde deixei de ir, casas onde não entro, a menos que tenha de salvar alguém e mesmo assim... Hoje apetecia-me pizza para o jantar, mas, como não estavam reunidas as condições para conduzir até à pizzaria e esperar no carro enquanto uma das crias ia buscar a pizza, comi sopa de peixe que havia em casa. Não consigo ir buscar pizza, acho logo que o esforço é demasiado. Não sei.

Serve esta introdução para dizer que não vinha ao meu blog há muito tempo e fui percebendo que isto corria o risco de ser um bloqueio dos meus, depois abandonava isto e, de cada vez que visse a palavra blog a cruzar-se comigo, sentiria um aperto no coração, outro no estômago, porque teria consciência de que tinha deixado alguma coisa para trás.

Hoje vim aqui. Escrevi estes pensamentos soltos, regressei a mim, ao gosto de escrever e vou pensando nos gestos. As teclas são suaves, deixo as palavras fluirem da mente para as pontas dos dedos. Vou divagando. Penso nas plantas e imediatamente me vem à memória - como as madalenas do proust - os versos de Ricardo Reis: "Segue o teu destino,/Rega as tuas plantas,/Ama as tuas rosas./O resto é a sombra/De árvores alheias./A realidade/Sempre é mais ou menos/Do que nós queremos./Só nós somos sempre/Iguais a nós-próprios. O que eu gosto destes versos, o que eles me inspiram da placidez de Reis, da mediocritas clássica. É um anseio, um sonho, abdicar e ser rei de mim mesma. Como é que isso se faz? Como é que nos deixamos ir, tratando tudo como "a sombra de árvores alheias".

E penso nisto, na lição de Reis, e desce sobre mim essa calma e penso que podia desenvolver um bloqueio às resposabilidades que me esmagam, ao trabalho, à dificuldade em respirar normalmente.

Vou procurando nichos nos dias: bebo o café à janela aberta, sinto a frescura da manhã e contemplo as plantas. Hoje o hibisco tinha uma flor exuberante, à noite quando regressei aquela florescência tinha mirrado. Efémera, breve, frágil. Que lição de vida! Quando conduzo, embedo-me da luz destas manhãs de verão. Gosto do verão, por causa da luz, do ar, do contraste entre o calor e a frescura. Sento-me lá fora enquanto o dia cai e escuto os pássaros doidos a cantar e a acomodarem-se nas tileiras. Os cães ladram doidos por não os poderem alcançar e tenho um daqueles momentos em que sinto que a vida está "arrumada", tudo encaixa e enfim repousa/repouso. Bebo o chá, preto, forte, à inglesa, com uma nuvem de leite, mesmo nos dias quentes devolve-me alguma coisa beber aquele chá.

Coitado de quem hoje cair na asneira de me ler. Só espero que não crie um bloqueio, já eu, quebrei um. 

 

23
Jun20

Carta aos meus alunos 2020

livrosparaadiarofimdomundo

Carta aos meus alunos de 2020

 

Dois mil e vinte, ou vinte vinte, ou outra forma de o dizer, talvez ano bissexto, ficará para sempre na nossa memória como um ano marcante. Dois mil e vinte quererá para sempre dizer COVID-19, porque a onda de choque só chegou em vinte, mas a contagem começou antes. 

Mas temos outras opções…

Vou recordar para sempre a minha turma de 2020, os meus alunos de vinte vinte. Foram/são um conjunto de pessoas maravilhosas. Quando faço a retrospetiva deste ano letivo, não me lembro de uma única vez em que me tenha sentido zangada convosco, ou sequer desiludida.  Entrar na nossa sala de aula significou sempre entrar numa zona protegida, onde esquecia ansiedade, os nervos, a tristeza, as responsabilidades que, às vezes, não me deixam respirar. Cada hora que passei convosco foi uma hora que valeu a pena. Vejam, eu não vou dar apenas vintes, eu não falo de avaliações, eu não falo apenas da excelência académica, eu falo precisamente do painel das diferenças, eu falo dos tímidos, dos negligentes, dos interessados, dos empenhados, dos assim assim, dos resistentes, dos críticos, dos empenhados. Eu falo de pessoas. 

Não chego a saber se tem sido a idade que me tem amolecido, se já fui uma professora rígida, não sei se sou chata. Sei apenas que gosto muito dos meus alunos, sei que gosto muito de vocês e, hoje, nas vésperas de dar a última aula nesta ano de insólitos, sinto me comovida, saudosa, com uma sensação de perda terrível. A minha paisagem escolar vai ressentir-se durante muito tempo da vossa ausência.

Ao longo do ano, tentei mostrar-vos um lado da existência humana que as sociedades atuais tendem a esquecer: a arte, o espírito, a superação da nossa bestialidade, por via da educação para as humanidades - que não terão este nome por acaso, reúnem os saberes que nos educam para a realização máxima da nossa dimensão humana. É a arte que nos sublima, que nos salva, que nos define, que nos protege de todos os assomos opressivos, ditatoriais que todos os dias investem contra a nossa liberdade individual. 

Levem convosco um pouco de literatura: não se conformem com o vosso lar, façam do sonho e da loucura, da ambição e da insatisfação o vosso lema de vida, o força que vos impele para o futuro. Eduquem-se, formem-se, não esqueçam as humanidades. Eduquem os vossos filhos. Vale a pena quando a alma não é pequena. Não deixem nunca que a vossa vontade abandone o corpo antes da morte, lembrem-se que são um pouco do ar que deus respira e que é preciso voar.

É gratidão que sinto, por ter feito parte da vossa vida. Enumero os vossos nomes, mentalmente, em todos os rostos pressinto um milagre, o dos adultos que vão ser.

É um ano estranho. Foi a primeira vez que escrevi uma carta aos meus alunos.

Vou ficar aqui a ver-vos erguerem-se nos céus, numa qualquer passarola movida com os vossos sonhos.

 

28
Mai20

Post sem livros lá dentro #3

livrosparaadiarofimdomundo

Sei.

Há um outro tempo, outras memórias, que estão em mim, que fazem parte de mim. É preciso ressucitá-las e deixar que permaneçam.

Os olhos fechados com o sol a bater-lhe de fora, deixar o olhar inundado de luz e o calor espalhar-se pelo rosto.

Deambular pela casa vazia, silenciosa e sentir na exatidão de cada objeto que o mundo está concertado.

Ouvir o silêncio.

Ouvir o chilreio doido dos pássaros.

Ver a natureza numa festa de cores, numa explosão de texturas e de cheiros.

Alargar a vista pelo horizonte, amplo e inspirar a distância.

Saber-me segura, saber-me longe, saber-me salva.

Os pequenos prazeres, pequenos, pequenos, colocar a flor na jarra, abrir o livro, sorver o chá, afastar as cortinas, encolher os joelhos, sentar-me e deixar o pensamento fugir.

Distrair-me, perder-me, afastar-me e depois regressar e saber que por um momento não me assiti.

A mão na minha, um toque de pele, o calor de outra presença que me devolve ao sítio onde posso ser.

Esquecer.

Esquecer.

Esquecer.

Chegar a casa.

Regressar, devolver-me, viver no meu tempo, viver na minha existência.

Centrar-me. Tornar-me o centro de mim mesma.

Arranjar-me, curar-me, sarar.

Sei que é possível.

Concentrar-me.

 

11
Mai20

Viagens na minha estante #1

livrosparaadiarofimdomundo

A COVIDa obrigou-me a muita coisa - nem todas fáceis - sobretudo no que diz respeito ao meu trabalho (mas não foi disso que eu vim falar aqui), uma delas foi voltar-me para a minha casa, uma espécie de regresso às origens de onde parece que tinha saído há muito tempo. É verdade, descobri que os últimos dez anos pelo menos - não não estou a exagerar - estive como visitant em minha própria casa, vivendo-a e tratando-a como uma espécie de área de serviço, onde vinha ter quando fazia uma pausa na viagem que, juro não saber, não sei onde me anda a levar.

A propósito dessa redescoberta - que passou pela descoberta chocada de que o pó, as teias, o bolor têm tendência a instalar-se - limpei, limpei, tenho limpado. Até que cheguei à estante - uma das - onde guardo os meus livros. E não é que me surpreendi? Ficam a saber que há A rapariga que roubava livros, A mulher que ama livros e a mulher que compra livros - eu! Descobri, quando separei as águas, cerca de sessenta títulos que tenho em casa e que ainda não li. Descobri livros de que gostei tanto, que também separei para reler - ai, ai, as coisas que eu digo, mentindo a mim mesma. Descobri ainda livros que li e que sinto que não li. 

Cheia de boas intenções, separei esses livros, coloquei-os num lugar bem visível que passarei a tratar como uma prateleira de uma livraria, dando início, a esse propósito a uma série de posts  a que darei o título de Viagens na minha estante, prometendo tirar o pó, as teias e o mofo a estes negligenciados da minha leitura. 

Adivinhem o que fiz, depois dessa sessão intensa de limpeza, selecionei 12 títulos para a minha lista de desejos numa livraria virtual. O que é me apetece? Comprar livros! 

Não tenho emenda!

26
Mar20

Apontamentos para um diário de COVida#3

livrosparaadiarofimdomundo

Levantar pela manhã, obrigar o cérebro a perceber que horas são, em que dia da semana estamos. Uns dias com energia, outros impelidos pela força do teletrabalho.

Pequeno-almoço, pode ser com calma, afinal o dia de trabalhou-se espraiou-se (imagem de uma vaga de espuma branca a espraiar-se, saudades da praia, do sal e do sol, de mergulhar no veludo da água)

Teletrabalho. Devia ser com menos stress, mas não é. Medo de falhar, medo de não dar conta. Medo do correio eletrónico que também se comporta como vagas de espuma branca na praia... pensando melhor é mais tsunami.

Resistir ao vício do trabalho. Ainda assim, as tarefas domésticas começaram a gritar connosco. O cesto da roupa está vazio. Hiperventilamos se uma peça está por engomar. A cama feita todos os dias. A roupa pendurada. O fogão limpo. A cozinha limpa e arrumada. Depois do pequeno-almoço, para facilitar, despeja-se a máquina e arruma-se logo a loiça do pequeno-almoço. Tiques obsessivos. Diz que é importante cuidarmos da saúde mental. Para isso, podemos contar com os filhos, desorganizam num instante a nossa organização obsessiva. Ainda bem que há quem cuide nós.

Teletrabalho, outra vez. Uma lista de tarefas. Meu Deus, tanta coisa! Não sei se vou conseguir. Começar. Limpar os itens da lista. O dia está a esvanecer-se a lista ainda não. Sobram duas tarefas. Já volto. Tenho de acudir a outro lado.

Teletrabalho. Uma aula. Hoje o som funcionou mal. Estive em pânico por eles. Não gosto desta coisa a tele. Dei o meu melhor. Eles sorriram, às vezes. Encurtei o tempo, distribui tarefas. Os meus heróis por estes dias. Fizeram. Estiveram. cumpriram a parte deles. Não os posso dececionar, nem deixar cair. Tenho de os escorar nesta vida de ficção. Ainda parece um sonho.

Estava sol. Levei a cadeira para fora e o livro. Li cinquenta páginas. Estava na lista. O maior gosto que tenho na vida descurado. Não tenho tempo. Esta ironia. Mas li, por causa da saúde mental. Menos um item na minha lista. Vai ser um dia bom.

A lista vai espelhando o meu receio de desconcertação. Pus lá: sopa, caminhada, estender roupa, apanhar roupa, passar a ferro, leitura, escrever no blog. Às vezes cumpro tudo.

Jantar. As refeições tornaram-se pouco organizadas. Cada um vai à cozinha e serve-se em regime de take away, para o computador, a vida deles também a funcionar a distância. 

Às vezes, há risos, piadas e correrias. Deve ser por causa da saúde mental.

Teletrabalho. Há agora uma quitude. Um deles parece que ficou de férias. Que bom. O Outro comporta-se como se estivesse de férias. Não está. É o semestre. Mais um prega de preocupação. A saúde mental nunca mais se alisa.

Teletrabalho. Ainda consigo fazer mais duas ou três coisas. Também por causa da saúde mental.

Ler antes de dormir.

Insónia às 04:00 por causa do teletrabalho.

 

 

24
Mar20

Apontamentos para um diário de COVida#2

livrosparaadiarofimdomundo

Sim, também eu estou em teletrabalho!

Declaração de interesses: sou professora, com muito orgulho. Ensinar, dar aulas, orientar alunos, o que lhe quiserem chamar, é mesmo o que eu gosto de fazer. 

O COVID-19 separou-me dos meus meninos (a verdade é que são alunos do 12º ano), mas são os meus meninos. Estão num ano decisivo das suas vidas e, de repente, ficaram sem chão.

No último dia em que estive com eles, presencialmente, uma das minhas meninas chorava copiosamente, não consegui consolá-la. Tinha tanta razão, pertencem à geração que fez exames do 4º ano, exames do 6º ano, provas de aferição, Decreto- Lei 55... e o COVID-19. Dizia-me que trabalhou tanto para poder ir à viagem de finalistas, tinham tantas expetativas e, ainda por cima, o teste de Matemática tinha corrido mal. Afastei-me dela também com lágrimas nos olhos.

É tempo de teletrabalho e, depois de os meus meninos terem terminado um trabalho que já estavam a fazer, hoje arriscamos uma aula por videoconferência através do ZOOM. Que bom foi vê-los, mesmo à distância, ouvi-los, brincar com eles. Eram vinte e sete na minha "sala de aula", atentos, interessados. Estivemos os 90 minutos a que tínhamos direito a trabalhar em conjunto. Revimos matéria, trocámos impressões, leram, fizemos exercícios.

Hoje, os meus heróis foram eles. Não consegui deixar de exclamar no fim: "Gosto mesmo de vós".

Hoje, o teletrabalho, devolveu-me um pálido reflexo da minha sala de aula, ainda ssim tão precioso.

Vai-te daqui, COVID-19. 

20
Mar20

Apontamentos para um diário de COVida

livrosparaadiarofimdomundo

Vou fazer um diário positivo!

Pela primeira vez na vida, tomei um antibiótico até ao fim. Estou muito orgulhosa. É certo que acabei por não tomar sempre à mesma hora, mas acho que mereço pontos pelo empenho... e pela participação... e por ter ido até ao fim, sem desistir.

A nossa estranha forma de COVida tem sido uma oportunidade de aprendizagem. Ontem, quase entrei em pânico. Toda a gente sabe que a nossa preocupação hoje em dia são duas: não apanhar o maldito do vírus que parece Deus, é omnipresente e, se não ficarmos em casa, é omnipotente, e abastecer a despensa. Começo a acreditar que a segunda preocupação supera a primeira. Uma pessoa quase é levada a pensar que, se os sintomas forem leves, vale a pena um contágiozinho se conseguirmos comprar comida. 

Na semana passada, senti-me mesmo inteligente. Fui ao sítio (sítio, porque eu sou portuguesa) do Continente e descobri que, na zona, existia essa coisa maravilhosa chamada Click e Go. Enchi o meu carrinho sentadinha no sofá, sem máscara, sem luvas, sem distância social e, voilá, compras para duas semanas. Depois foi só enviar o homem da casa numa missão quase suicida à loja física. Eu e as crias ficámos em casa a rezar "para que volte cedo e bem". E ele voltou... e eu pensei que o problema estaria resolvido até dia 27, pelo menos. Era o dia 15 de março do ano da Graça do Senhor de 2020. Pensei eu, pensei, mas pensei mal. Há evidências científicas que o vírus, ou os filhos a tempo inteiro em casa, desintegram os mantimentos da despensa. Acreditem ou não, no dia 18 - leram bem - no dia 18 o frigorífico estava vazio e havia um sentimento de revolta cuja palavra de ordem era "Não há nada em casa para comer".  Cheia de medo de ser sequestrada se não arranjasse comida, voltei ao mesmo sítio - loja virtual, blá, blá, encher carrinho, isto nem é difícil, ah e tal compras, compras, compras, pagar e sair. Em verdadeiro terror, descobri que, das dezenas de euros que eu estava disposta a gastar, só havia mantimentos para dezoito euros. Eu ia ser chacinada! E, sinceramente, uma pessoa aceitou esta ceninha do isolamento para fazer tudo à distância, se assim não for, vou cancelar a inscrição.

Foi então que me lembrei que o Intermarché - eu nem sei se posso dizer estes nomes, mas ninguém me paga nada, devo poder - também fazia atendimento online e mais, a entrega era em Drive, sm, como o MacDonald´s - outro nome, bolas - e tinham tudo o que eu precisava. Quase chorei e fiz as compras e vou levantá-las amanhã... se tudo correr bem. Hoje o jantar foi uma receita italiana Pasta all aglio - é basicamente esparguete com azeite e alho, mas o nome italiano dá-lhe outro charme e os esfomeados cá de casa gostam muito. Começa a haver diálogos que passam pela acusação de quem comeu mais, há alguma tendência para informadores e tudo.

Faltava outro setor importante: frutas e legumes. Armada de grande espírito de sacrifício, quando regressava do trabalho - que só foi à distância, porque o meu local de trabalho fica a dezoito quilómetros de casa - dizia eu, eis que paro à frente da frutaria, eram 18:20. Adivinhem? por causa do COV-raios-o-partam o horário foi alterado, encerrava às dezoito! E agora? Nem a velhinha sopa ia conseguir fazer. Ainda por cima o aviso dizia que só eram permitidas duas pessoas no estabelecimento. Amanhã a fila deve ser pior do que a que haveria para comprar bilhetes para o espetáculo dos Coldplay, como acontecia dantes, antes deste fim do mundo.

Mas - e é por isto que este é um diário positivo - lembrei-me de alguém ter dito que uma senhora do mercado aceitava encomendas e fazia entregas ao domicílio. Há pessoas assim, que conseguem avistar os nichos de mercado. Recorrendo aos meus contactos, uma chamada telefónica, uma mensagem de texto e amanhã o produto será entregue por volta das 15:00 à porta. Deus existe e também é omnipotente!

De maneiras que não sei como é que está a dívida pública, desconheço as projeções das eleições em França, não sei que filmes estrearam, não sei onde fica nenhuma livraria, nem espetáculo de rua... bolas, esqueci-me que estas coisas não existem!! Mas estou tranquila. Desta vez tenho a certeza que comprei comida para duas semanas.

Bolas, esqueci-me de encomendar papel higiénico!

 

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