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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

20
Mar20

Apontamentos para um diário de COVida

livrosparaadiarofimdomundo

Vou fazer um diário positivo!

Pela primeira vez na vida, tomei um antibiótico até ao fim. Estou muito orgulhosa. É certo que acabei por não tomar sempre à mesma hora, mas acho que mereço pontos pelo empenho... e pela participação... e por ter ido até ao fim, sem desistir.

A nossa estranha forma de COVida tem sido uma oportunidade de aprendizagem. Ontem, quase entrei em pânico. Toda a gente sabe que a nossa preocupação hoje em dia são duas: não apanhar o maldito do vírus que parece Deus, é omnipresente e, se não ficarmos em casa, é omnipotente, e abastecer a despensa. Começo a acreditar que a segunda preocupação supera a primeira. Uma pessoa quase é levada a pensar que, se os sintomas forem leves, vale a pena um contágiozinho se conseguirmos comprar comida. 

Na semana passada, senti-me mesmo inteligente. Fui ao sítio (sítio, porque eu sou portuguesa) do Continente e descobri que, na zona, existia essa coisa maravilhosa chamada Click e Go. Enchi o meu carrinho sentadinha no sofá, sem máscara, sem luvas, sem distância social e, voilá, compras para duas semanas. Depois foi só enviar o homem da casa numa missão quase suicida à loja física. Eu e as crias ficámos em casa a rezar "para que volte cedo e bem". E ele voltou... e eu pensei que o problema estaria resolvido até dia 27, pelo menos. Era o dia 15 de março do ano da Graça do Senhor de 2020. Pensei eu, pensei, mas pensei mal. Há evidências científicas que o vírus, ou os filhos a tempo inteiro em casa, desintegram os mantimentos da despensa. Acreditem ou não, no dia 18 - leram bem - no dia 18 o frigorífico estava vazio e havia um sentimento de revolta cuja palavra de ordem era "Não há nada em casa para comer".  Cheia de medo de ser sequestrada se não arranjasse comida, voltei ao mesmo sítio - loja virtual, blá, blá, encher carrinho, isto nem é difícil, ah e tal compras, compras, compras, pagar e sair. Em verdadeiro terror, descobri que, das dezenas de euros que eu estava disposta a gastar, só havia mantimentos para dezoito euros. Eu ia ser chacinada! E, sinceramente, uma pessoa aceitou esta ceninha do isolamento para fazer tudo à distância, se assim não for, vou cancelar a inscrição.

Foi então que me lembrei que o Intermarché - eu nem sei se posso dizer estes nomes, mas ninguém me paga nada, devo poder - também fazia atendimento online e mais, a entrega era em Drive, sm, como o MacDonald´s - outro nome, bolas - e tinham tudo o que eu precisava. Quase chorei e fiz as compras e vou levantá-las amanhã... se tudo correr bem. Hoje o jantar foi uma receita italiana Pasta all aglio - é basicamente esparguete com azeite e alho, mas o nome italiano dá-lhe outro charme e os esfomeados cá de casa gostam muito. Começa a haver diálogos que passam pela acusação de quem comeu mais, há alguma tendência para informadores e tudo.

Faltava outro setor importante: frutas e legumes. Armada de grande espírito de sacrifício, quando regressava do trabalho - que só foi à distância, porque o meu local de trabalho fica a dezoito quilómetros de casa - dizia eu, eis que paro à frente da frutaria, eram 18:20. Adivinhem? por causa do COV-raios-o-partam o horário foi alterado, encerrava às dezoito! E agora? Nem a velhinha sopa ia conseguir fazer. Ainda por cima o aviso dizia que só eram permitidas duas pessoas no estabelecimento. Amanhã a fila deve ser pior do que a que haveria para comprar bilhetes para o espetáculo dos Coldplay, como acontecia dantes, antes deste fim do mundo.

Mas - e é por isto que este é um diário positivo - lembrei-me de alguém ter dito que uma senhora do mercado aceitava encomendas e fazia entregas ao domicílio. Há pessoas assim, que conseguem avistar os nichos de mercado. Recorrendo aos meus contactos, uma chamada telefónica, uma mensagem de texto e amanhã o produto será entregue por volta das 15:00 à porta. Deus existe e também é omnipotente!

De maneiras que não sei como é que está a dívida pública, desconheço as projeções das eleições em França, não sei que filmes estrearam, não sei onde fica nenhuma livraria, nem espetáculo de rua... bolas, esqueci-me que estas coisas não existem!! Mas estou tranquila. Desta vez tenho a certeza que comprei comida para duas semanas.

Bolas, esqueci-me de encomendar papel higiénico!

 

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