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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

01
Nov23

Às vezes também vou ao cinema: Assassinos da Lua das Flores

livrosparaadiarofimdomundo

 

Assassinos da Lua das Flores,

 

Não há nada como ir ao cinema, abstrairmo-nos de tudo e ficar no escuro da sala, apenas focados no filme.

Pois se forem ver este Assassinos da Lua das Flores, mesmo que não queiram, a intensidade do filme vai manter-vos quase sem respirar desde o primerio instante até ao último segundo desta longa metragem de 206 minutos.

Em poucas palavras, o filme é inspirado no livro homónimo do jornalista David Grann (não conheço o livro) e debruça-se sobre a tragédia que se abateu sobre a nação dos Osages, quando se descobriu petróleo nas suas terras, no Oklahoma. É fácil, a partir desta sinopse, perceber sobre o que é o filme: atrocidades cometidas em nome do dinheiro por homens pertencentes à maioria branca que não consegue ver os outros a deterem poder nem dinheiro. 

Começo por aquilo que primeiro me chamou a atenção: a banda sonora. Marcando o ritmo narrativo do filme, é muito boa, em alguns momentos, principalmente logo no início, condiciona a nossa respiração, enquanto os sentimentos de revolta e repugnância começam a crecer dentro de nós.

Segue-se a fotografia, dando conta da beleza natural e um sítio "abençoado" por Deus, já que ai se descobriu petróleo. Da transição da paisagem selvagem, de vastos horizontes, para campos extensos de torres de petróleo, feridos pela ganância dos homens, pouco há a dizer, os valores mais altos são sempre os mesmos.

Os crimes cometidos contra os índios Osages com o fito de tomar posse do petróleo e do dinheiro são o tópico transversal do filme. Entre doenças misteriosas, mortes violentas que ninguém investiga,  assassinatos pela calada na noite, assaltos aos índios, até depois de mortos, casamentos por interesse com as mulheres Osage, depois assassinadas para se herdarem os seus direitos, assassínio de crianças com o mesmo objetivo, tudo serve para que os brancos tomem posse daquilo que é dos Osages. Um outro aspeto que causa verdadeiro choque é percebermos que os índios para movimentarem o seu dinheiro precisavam de tutores brancos que autorizavam esses movimentos, sendo ainda necessário justificar a despesa.

O desempenho dos atores é brilhante, em especial de Robert de Niro, cuja perfídia da personagem a que dá corpo e alma, quase se cheira na sala de cinema, tão insinuante se torna. Verdadeiramente odioso. Leonard Di Caprio, igual a si mesmo, ator camaleónico, capaz de qualquer papel, sempre convincente, sempre autêntico, neste caso um perfeito patife ali a roçar o idiota, mas fruto do tempo e dos modos. Lily Gladstone, verdadeira heroína clássica, sábia, inteligente, serena e de uma grandeza que constrasta em absoluto com as personagens de Di Caprio de De Niro. Extraordinária.

Martin Scorsese a evidenciar que a experiência é um trunfo que só de omina com o tempo. O filme é maravilhoso, até pelo toque moderno e irónico de algumas cenas. Continua a abordar temas que lhe são caros, nomeadamente a violência, sempre relacionada com o dinheiro. A ganância que não se detém perante qualquer obstáculo.

Pelos tempos que vivemos, o filme é também muito atual, opressão, violência, tentativa de levar a cabo um genocídio, o facto de a justiça não ser um direito inalienável para todos. Isto resumido numa das frases que, em minha opinião, sintetiza bem o filme, proferida por De Niro, qualquer coisa como: perante o conhecimento do mal, durante algum tempo, as pessoas manifestam-se, protestam, mas, com o tempo, vão à sua vida e acabam por se esquecer. Vivemos muito essa forma de estar, a guerra da Ucrânia normalizou-se, Gaza também se virá a normalizar...

Ver este filme é quase um exercício de cidadania.

 

 

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