Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

12
Mar20

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago, um ensaio sobre a humanidade

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Ensaio sobre a Cegueira

Editora: Porto Editora

Páginas: 346

 

Não podia deixar de ser, é tempo do COVID-19, por estes dias declarado pandemia, o que quer dizer que rapidamente pode (está a) infetar milhares de pessoas muito rapidamente. Acontece que, muitas vezes, a arte, os discursos, as pessoas são visionárias. Parece que os Simpsons previram a eleição do Trump e Bill Gates, há pouco mais de cinco anos, terá afirmado numa conferência que tinha deixado de temer o nuclear, parecendo-lhe que o maior perigo poderia vir de microorganismos com capacidade para contagiarem e infetarem as pessoas, guerra para a qual nos devíamos preparar. Não o fizemos, não sabemos ainda como o fazer e, perante tanto exemplo de irresponsabilidade, de falta de civismo, de egoísmo (creio não ser necessário exemplificar) lembrei-me deste livro de Saramago, uma das obras que mais me impressionou na vida.

Li este livro em 1997, muito rapidamente, daquelas leituras que se colam aos dedos e que não queremos largar por nada. Deixo uma nota de humor, encontrava-me de licença de maternidade e quase me aborrecia quando a minha criança reclamava amamentação, porque a leitura era quase uma urgência.

Como devem saber, afinal até há uma adptação ao cinema, protagonizada por Mark Ruffalo e Julianne Moore, o livro parte de uma premissa intrigante: de repente a humanidade é atingida por uma forma de cegueira, contagiosa e que se propaga a um ritmo alucinante obrigando as autoridades a tomarem medidas severas para a sua contenção. Este é o ponto de partida para uma descida vertiginosa à análise dos instintos mais bárbaros que afloram em nós perante situações que escapam ao nosso controlo, que ameaçam o nosso bem-estar, a zona de conforto que nada parecia poder por em causa. Há passagens do livro que permanecem gravadas na minha memória, sobretudo as que estão ligadas à forma como os humanos tendem a definir zonas de supremacia, opressão e violência assim que têm oportunidade. Aliás, o ditado que nos ensina que "em terra de cegos, quem tem olho é rei" é criativamente reformulado, em terra de cegos, um cego "profissional" ambiciona tornar-se rei dos cegos menos experientes e tudo é subjugado a esse oportunismo, desde a higiene à dignidade humana. É atual, não é? O espaço de quarentena onde as personagens são encerradas rapidamente se torna uma zona de guerra, do género dos jogos da fome, é lutar pela sobrevivência a todo o custo e a crueza e realismo dessas descrições nunca mais se apagou da minha memória, em especial um certa memória sensorial que agudizou um sentimento de piedade e repugnância.

Nestes dias, em que assistimos a pessoas irresponsáveis que confundem quarentena e necessidade de isolamento social com umas férias inesperadas para ir à praia, ao shopping, à esplanada, ou que, perante as universidades fechadas, aproveitam para viver a noite despreocupadamente, a leitura deste romance coloca-nos perante cenários apocalípticos que devemos a todo o custo evitar, pecisamente sendo responsáveis, civilizados e sobretudo pensando também que o nosso cuidado é sobretudo cuidado com os outros, em especial os grupos de maior risco. Face à corrida aos supermercados para abastecer a despensa com cem latas de atum (talvez acreditem que as possam atirar aos vírus quando o encontrarem), ou com 20 quilos de arroz, etc, etc, a leitura deste livro devolve-nos uma imagem muito crua do sítio para onde podermos resvalar muito rapidamente.

Estas páginas de Saramago são, compreendo-o agora, quase proféticas e consituem uma ótima lição que nos é prestada daquela forma que só a arte nos pode dar. Recomendo a leitura ou a releitura com essa intencionalidade pedagógica: não queiramos ser os cegos que não querem ver. 

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub