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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

02
Mar20

Eva Expulsa do Paraíso #2 - Leonilde

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A partir de hoje sou viúva. Oficialmente. O meu homem morreu. Não choro, como seria de esperar, não choro. Não há aqui motivo para choro. Não me casei por amor e nunca encontrei o amor depois de casada. Encontrei de tudo um pouco, mas nunca o amor. Respeitei este casamento, respeitei-me a mim mesma, respeitei os filhos deste casamento, respeitei tudo aquilo que se esperava de uma mulher casada. Fui virtuosa. Ninguém poderá sequer soprar a mais pequena suspeita sobre a minha conduta. A única coisa, nestes anos de suplício, que não consegui respeitar foi o meu homem, este meu marido que velo respeitosamente, como seria de esperar.

Morreste às tuas próprias mãos! Nunca fizeste muito na vida, mas dinheiro nunca faltou. Sou como uma senhora graças a ti. Pude adornar-me sempre do melhor, pude escolher o que queria. A minha imagem foi-se aperfeiçoando. Da rapariga rude que fui já não resta nada. Só as mãos não recuperaram a delicadeza, porque não houve tempo para serem delicadas. Foste buscar-me a casa dos meus pais, foi isso que aconteceu. Os seis meses que durou o nosso namoro, nunca foram gastos a namorar. Só se namoravas o meu pai, ou talvez fosse ele que te namorasse a ti. Pelo meio havia esse acordo, mais ou menos apalavrado, de que eu seria a tua mulher. O meu pai assim queria, a ti tanto se dava como se deu. Um homem tem de ter uma mulher, eu era uma mulher, portanto, podia ser eu. E o trabalho que o meu pai te poupava? Nem precisavas de ir procurar outra, nem sequer de lhe fazer a corte, não saberias como fazê-lo. O meu pai resolveu-te de uma assentada três ou quatro problemas que tu precisavas de ver resolvidos para cumprires o que se espera de um homem. Nunca olhaste para mim como um homem olha para uma mulher. Nunca vi desejo nos teus olhos, quanto ao amor, já estamos conversados, nunca soubemos o que era isso. Tentámos aprender com muita dificuldade e grandes tormentos a conviver um com o outro e, até morreres, nunca o soubemos fazer bem. O que aprendemos, logo na primeira noite, ainda se ouviam os risos e as conversas da festa de casamento, foi como nos insultarmos. A pior palavra que se pode dar a uma mulher, tu deste-me logo nessa noite, quando te atiraste para cima de mim, a cheirar a vinho, a balbuciar um discurso entrecortado de que eu não percebia metade das palavras. Quando tentei afastar-me, achando que o cheiro me havia de fazer vomitar, tu prendeste-me com as pernas e puxaste os meus braços para cima, com força, e disseste, quieta, puta. Depois foram as mãos, as pernas, a boca, tudo em ti me forçou e tudo eu suportei numa fúria que ainda agora me acelera o sangue. Não chorei, como seria de esperar, que eu não choro. Respondi-te com o que sabia, como qualquer carroceiro. Sempre fui boa observadora e aprendia depressa. Por isso não ficaste sem resposta, mas não sei se chegaste a ouvir os insultos que te dirigi, nunca te interessaste muito por mim, nem quando estava bonita, nem quando estava feliz, nem quando fui mãe, nem quando te insultava. Nessa altura, ainda não sabia dessa tua capacidade de indiferença, por isso usei tudo o que sabia, mas tratei de aprender mais, porque ocasiões de aplicar esses conhecimentos nunca me faltaram.

Mas o meu pai ficou feliz, tu eras o filho que ele não teve. Sete filhas! Havia lá desdita maior que pudesse atingir um pai de família. Oh, mas o nosso pai amava-nos, à sua maneira descabida, à sua maneira desajeitada, à sua maneira tirânica, amava-nos, ninguém duvidaria disso. Mesmo com sete filhas, a minha mãe pôde sempre dispor de mulheres a quem ele pagava para a ajudarem nas tarefas. Mas as filhas dele trabalhavam, era preciso preparar as mulheres para o governo da casa. Depois, quando começámos a ficar espigadas, a preocupação de nos casar e de evitar que ficássemos de barriga de um qualquer valdevinos tornou-se uma obsessão, uma preocupação, que ele começou a resolver de uma forma atabalhoada, como resolvia sempre os assuntos que o pressionavam. Assim que via um homem que a ele lhe parecia dar um bom genro, só faltava oferecer-nos diretamente, como as mercadorias que ele vendia de feira em feira. Eu era a mais velha, pela lógica teria de ser a primeira a ser despachada, a minha mãe deu-lhe sete filhas com pouco mais de um ano de intervalo e o meu pai não podia perder tempo ou correr o risco que algumas delas ficasse para tia, como ainda hoje se diz. Não sei se por seres o primeiro, se por seres o mais fácil de convencer, se por seres menos meu marido do que o compincha dele, tu foste o seu preferido até ao dia em que morreu. 

Estou viúva e hei de ser livre. Não hei de voltar a casar. Mas isso não quer dizer que não vá haver homens na minha vida. Agora posso tê-los à minha maneira. Bem vejo como eles me olham. Mesmo depois de vinte e quatro anos de casada, ainda olham para mim. Uma viúva relativamente jovem não pode deixar de despertar nestes homens caprichosos toda uma série de fantasias, e as viúvas têm medo de estar sozinhas e são mais dóceis e às viúvas não se tem que prometer muito, só o calor do corpo na cama que elas coitadinhas bem precisam de quem lhes aqueça os pés. Enganam-se, como seria de esperar, que os homens, tão convencidos que estão da sua força e superioridade e poder de decisão, nem se dão conta da facilidade com que as mulheres os governam. Eles são fáceis de governar, porque põem sempre a mesma coisa em primeiro lugar e nós sabemos muito bem o que é. Hão de vir, hão de vir e eu estarei à espera deles. Saberei esperar por aquele que mais me convier, saberei esperar por aquele que estiver disposto a fazer como quero e a dar-me o que quero.

Distraí-me um bocado e estas bruxas que me olham, a vigiar a minha conduta, ciosas da minha virtude e do cumprimento dos passos de uma viúva para que ela não faça nada que não fique bem, ainda hão de conseguir adivinhar o que penso. É melhor baixar a cabeça, não olhar para ninguém. Talvez dar uma olhadela de lado àquele homem de camisola azul que está de pé junto à porta. É cliente do restaurante há pouco tempo e seria uma boa aposta e vai-me comendo com os olhos. Talvez.

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