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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

19
Ago14

Fica a vontade de voltar...

livrosparaadiarofimdomundo
Dia um – 04-08-2014

A impaciência é já muita. Oficialmente de férias desde as 13:30, a decisão de partirimpõe-se. Refrear a ansiedade foi fácil graças a um almoço, bastante agradável,com colegas de trabalho. Ainda um último café. Por fim, a chegada a casa, ondetudo anunciava a partida iminente: mochilas junto à porta, caixas comequipamento de campismo, algumas persianas já fechadas. Decidimos, por isso, irainda naquele dia, a ninguém parecia possível dormir em casa.
Afinal osúltimos preparativos arrastaram-se mais do que queríamos. Houve ainda doiscortes de cabelo. O carro voltou a parecer muito mais pequeno do que a bagagema transportar. Somos quatro, duas mulheres, vamos acampar e fazemo-lo com maisconforto do que despojamento. Há quem não abdique de dormir bem, há queminsista no secador de cabelo, há quem acredite que vai ser possível ler trêslivros em dez dias, há quem não dispense suporte tecnológico. Mas fomos bemsucedidos e a bagagem está arrumada. Tetris para adultos. A casa fechada, os cãestratados e entregues a um cuidador. O motor arranca, por fim cruzámos o portãopara mais uns dias de aventura a quatro.
A primeiraparte da viagem decorreu sem história. Desfilam perante os meus olhos aspaisagens já familiares do caminho para Santarém, via A15. O meu país ébastante bonito e este ano, de verão tímido, como se vai ouvindo dizer, temmantido a paisagem bastante verde e, em alguns pontos, quase exuberante. Não hávestígios nem cicatrizes de incêndios florestais. O vale de Santarém é fértil.Abundam olivais, terrenos de cultivo estendem-se até ao limite do horizonte emmosaicos que diferentes tonalidades cromáticas ajudam a demarcar. Renques deárvores traçam retas que se intersetam. É bonito e não me canso de olhar. É umdos prazeres que colho na vida: ir ao lado de um condutor, sem assumir sequer opapel de co-piloto, GPS gratias, e irolhando a paisagem que desfila pelos vidros do carro. Há sempre algum pormenorque é novo, mais não seja pela altura do ano em que se viaja. Qualquer viagemcorresponde a uma primeira vez, se a encararmos nesta perspetiva.
O dia começa acair, o céu vai tomando as cores de um fim de tarde de verão, aquela tonalidadeque fica entre um azul esbatido e um rosa também claro, quase um lilás suave, edigo em voz alta que já se nota que os dias vão ficando mais pequenos, osolstício de verão já foi há mais de quarenta dias, número bíblico, noto. Já“apanhamos” a A23, que sobe em direção a Vilar Formoso. Na zona de Abrantes,quando as placas indicam as saídas para Mouriscas, a estrada corre ao lado doTejo. Numa curva, o leito do rio surge com um traçado bem definido, numa corazul que parece artificial, um azul profundo e ao mesmo tempo quase elétrico. Ébem um postal a guardar. Passo mais uma vez pelas indicações de Belver e, pelaenésima vez, digo para mim mesma que tenho de lá ir e ainda não fui… Hei derepetir o mesmo quando for a indicação de Portas do Ródão. 2014 já dobrou doisterços e tantas promessas por cumprir e tantos sítios para conhecer para tãocurta a vida.
Discutimos oque fazer quanto ao jantar daquele dia. Fica decidido que paramos em CasteloBranco, fazemos uma pausa antes de entrar em Espanha e decidirmos o tamanho daspróximas etapas. Assim é, saída para Castelo Branco. A cidade recebe-nos com umparque urbano vasto, mas pouco arborizado. No cimo da colina revejo o perfil doHotel Colina do Castelo, onde, há muitos anos, cometemos a loucura de ficarnuma suite presidencial. Percebemos nessa altura o que quer dizer king size aplicado a uma cama de dormir.A suite é um pequeno apartamento. Tirámos medidas a olho e chegámos à conclusãode que seria maior do que o apartamento onde vivíamos na altura. Outros tempos,antes da crise e do medo do futuro. Voltemos à cidade e ao seu parque. CasteloBranco deve ser uma cidade segura, porque àquela hora – por volta das nove danoite – há bastante gente a fazer caminhadas, há crianças a brincar, há avós aacompanhar netos, e outros quadros de um fim de dia de verão. As ruas por ondecirculámos são largas e os prédios modernos, sem serem horríveis. A cidadeparece agradável. Virámos numa avenida à direita, um lugar livre, ficamos jáaqui. Um Pingo Doce à nossa frente,será que há refeições no Sítio do costume?Entrei sem hesitações, a viver o meu pesadelo das viagens, uma bexiga quereclama constantemente atenção e vou percebendo que devo ser mãe de dois filhoscom características dos camelos: nunca pedem para ir à casa de banho, sousempre eu a dar o sinal de aflição. Quando saí, estavam os três à porta à minhaespera, iam fechar, já estavam a descer a grade. Decidimos descer a pé aavenida, à espera de encontrar um sítio para jantar. Do lado direito um toldoda Delta Cafés. Serviam refeições.Era um espaço pequeno, sem grandes ambições, o dono era o único funcionário efazia tudo: atendia à mesa e preparava os pratos. Não primava pela simpatia.Uma sopa, um bitoque e duas alheiras depois púnhamo-nos a caminho, tomei cafépara aguentara viagem durante a noite, que já tinha caído completamente.Fazemo-nos de novo à estrada.
Até VilarFormoso o que fica na memória são quilómetros de autoestrada sem história,desceu uma espécie de silêncio e quase não há trânsito. Chegados à fronteira,paragem para mais um café. A partir daqui foi preciso negociar para a escolhada música, visto que deixámos de ter a rádio portuguesa. Os telemóveis fizeramautomaticamente a mudança da hora, é uma da manhã. Ligámos o GPS, introduzimoso nosso destino. Arenas de Cabrales, nos limites dos Picos da Europa, Astúrias.O GPS indica que o melhor caminho a seguir é um direção a Santander, indicandoa hora de chegada para as seis da manhã. Já só faltam cinco e é sempre autovia,sem portagens. A estrada rola, sem trânsito. A Francisca adormeceu lá atrás,nós os três mantemo-nos acordados. Vamos estando atentos às áreas de serviçoabertas vinte e quatro horas, parece que o gasóleo não vai dar para a viagemtoda. Começo a ficar preocupada com o sono dos outros e consigo convencê-los apararmos para dormirmos um bocado no carro até ao amanhecer. Claro que a únicaque não consegue pregar os olhos sou eu, aflita outra vez para ir à casa debanho. O funcionário da área de serviço informa simpaticamente que servicios só às seis. Não posso mais.Peço para ir a conduzir e reinicio a viagem.
Pouco depoiscomeço a aperceber-me de subtis mudanças na cor do céu, há um tom de cinza maisclaro e apercebo-me que nos vamos aproximando de uma zona montanhosa, porque seavistam alguns picos contra o céu que ainda mal clareia. Atravessamos acordilheira cantábrica ora dentro de um nevoeiro espesso e negro que nosdevolve à noite, ora acima desse nevoeiro, avistando acima dele só os cumes dospicos mais altos. É uma imagem que me maravilha, parece uma paisagemfantasmagórica, mágica, irreal, àquela luz da madrugada. Quando saímos donevoeiro, apercebemo-nos que o dia avança depressa e a luz é cada vez maior.Deparo-me com uma placa que informa da proximidade de Altamira e recordo ointeresse que tenho em conhecer, acrescentei mentalmente à minha lista. Talvezdê para visitar. Viajar sem planos muito definidos tem essa vantagem, mudar derumo se nos apetecer.
A paisagem jáse distingue nitidamente. Rumamos em direção a Oeste, à nossa esquerdaerguem-se colinas e montes bem verdes. Ainda estamos na Cantábria, avistamos osprimeiros gados nos campos, já entrevimos o mar à nossa direita. Não há sono,nem cansaço, há curiosidade e pressa de chegar. Temos fome e paramos para tomaro pequeno-almoço. Lá atrás os miúdos respondem-nos, mais adormecidos queacordados, que não querem nada. Saímos e eles ficam a dormir no carro, tapadoscom o saco-cama. Duas tostadas e umaum café com leche. Confirma-se: ocafé é horrível, tomei nota para não voltar a tomar café com leite. Já as duastorradas davam e sobravam para um pequeno almoço a quatro, a empregadaperguntou-nos com que queríamos o pão, só soubemos dizer mantequilla, ignorávamos quais as outras opções, se não fossetímida, tinha perguntado. Só por curiosidade, cada tostada, foi servida com três pacotes de manteiga.
Pusemo-nos denovo a caminho e, em breve, cruzámos a placa que nos informava que nosencontrávamos no Principado das Astúrias. Era ainda cedo para irmos para oparque de campismo, ainda nem eram oito horas. Saímos da autovia e seguimos asindicações de praia. Seria bom ver o mar àquela hora do dia, com aquele arlavado e pronto a usar que os dias têm ao amanhecer. A estrada segue ao lado daRia de Tina Mayor, em Unquera. A Ria estabelece uma fronteira natural entre acomunidade autónoma da Cantábria e o Principado das Astúrias e é aí que desaguao rio Deva, um dos muitos rios que descem dos Picos da Europa. Seguimos por umaestrada que atravessa uma zona muito arborizada, por cima da Ria que uma marébaixa, baixíssima, deixou reduzida a algumas poças de água, há barcos de recreioancorados na areia. De ambos os lados erguem-se encostas abruptas de rocha evegetação, há verde por todo o lado, um verde muito escuro, uma vegetaçãoexuberante, sinal de que a zona é húmida e chuvosa. Avançámos ainda por umaestrada de sentido único que indicava a zona de praia e um parque deestacionamento. Estacionámos num parque minúsculo empedrado e saímos para umaespécie de miradouro com varandim de madeira no cimo de uma falésia que davapara a praia. Tentámos não fazer barulho, porque havia três carros estacionadoscom todo o aspecto de pertencerem a quem faz campismo selvagem. Num deles, comum aspecto tão usado que eu duvidaria de fazer qualquer viagem com ele, dormiaum jovem alemão, com os olhos tapados por uma máscara para que a luz do dia nãoo incomodasse. Os outros dois eram duas velhas pão-de-forma, cuja nacionalidadenão pudemos identificar.
Abeirámo-nosdo varandim e lá em baixo um mar de um verde quase escuro, desculpem o cliché,com águas da cor da esmeralda, calmíssimo, embatia suavemente na parederochosa. As águas eram muito transparentes e distinguiam-se perfeitamente asrochas do fundo e a areia. Ali as formações rochosas fazem uma espécie de baíae, do nosso lado direito, talvez por ser maré baixa, o mar deixa a descobertouma estreita faixa de areia que forma uma praia estranha, porque fica entreduas zonas distintas de ondulação. Àquela hora da manhã, tudo tinha um arparadisíaco e aquela imagem ficou gravada na memória, talvez por ser a primeiraimpressão.
Os miúdoscontinuam a dormir. Voltamos a entrar no carro para rumarmos em direção aArenas de Cabrales, procurando o parque que escolhemos: Naranjo de Bulnes, jános Picos da Europa, cujos cumes já se avistam daqui. São quase nove horas, areceção já deve estar aberta. Seguimos a estrade de sentido único que nos fezregressar à autovia, voltámos a sair na mesma saída, mas desta vez seguindo asindicações de Arenas de Cabrales. A estrada que tomámos segue ao lado do RioDeva, que vai descendo com um caudal e uma rapidez próprias de um rio demontanha. Depois de alguns quilómetros, começamos a penetrar no desfiladeirocavado pelo Rio Cares, que é um afluente do Deva. O rio fica à nossa esquerda,mas esqueço-me dele num instante. Só tenho olhos para cima: para as paredes derocha abrupta que envolvem a estrada. Escarpas quase a direito. Como uma imagemvale mais que mil palavras:


Esmagados pelapaisagem, chegámos num instante ao parque. O parque Naranjo de Bulnes – já agoraeste nome é o de um dos picos mais famosos pela dificuldade em ser escalado eque tem um pouco mais de 2500 metros de altitude, mas hei de voltar a falardele – fica mesmo à entrada de Arenas de Cabrales e divide-se pelos dois ladosda estrada. Do lado direito, a zona do parque estende-se à beira do rio Cares. Dirijimo-nosà receção e senhor disse-nos para darmos uma volta pelo parque a pé,escolhermos o sítio que mais nos convinha e que depois voltássemos paraindicarmos o número. Depois disso, poderíamos entrar com o carro einstalarmo-nos à nossa vontade.
Assim fizemos.O parque é muito, muito verde, fica mesmo no sopé de um dos picos. Estavacomposto em termos de ocupação, mas ainda havia muitos lugares disponíveis. Acabámospor escolher um quase à entrada, junto à zona de balneários e dos lava-louças. Talveztenha sido uma escolha arriscada. O resto da semana o dirá. Segue-se a montagemda tenda e posterior instalação. Os miúdos vão mesmo ter que acordar…






               

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