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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

07
Out14

Fica a vontade de voltar (IV)

livrosparaadiarofimdomundo
Depois de uma interupção, longa, volto à crónica de viagem. Não gosto de deixar coisas por terminar. Ainda estou na Ruta del Cares...


A parte finaldo percurso pela montanha revelou-nos gratas surpresas. Atravessámos o riosobre pontes de ferro diversas vezes. Eram cada vez mais frequentes aspassagens pelo interior da rocha, muito húmida, com poças de água pelo chão. Agarganta por onde corre o rio foi estreitando cada vez mais. Tínhamos a ilusãode que, se estendêssemos as mãos, tocaríamos na parede rochosa do outro lado. Atéque por fim, chegámos ao ponto em que a força do rio é travada por uma barragemalta, enquanto parte do seu curso é desviado pelo túnel que já referi. O ruídodas águas é ensurdecer e nós percorremos os metros do túnel na rocha que setornou a imagem de postal mais conhecida destas paragens. Ao cimo de unsdegraus metálicos que sobem ao lado de outros por onde a água do rio se escapaem cascata, somos de novo surpreendidos por mais uma vista do vale por onde o riocorre mais livremente. O leito é mais largo, as pedras são maiores, as águascontinuam a ser indómitas. O caminho segue à beira do rio, por um estradão.Renasce em nós uma espécie de esperança. Cruzámo-nos com dois rapazes queseguiam em sentido inverso a comer um gelado!! Afinal a civilização pareceestar perto e eu já só consigo pensar no Calipode limão que hei de comer. Os rapazes tinham o gelado quase intacto, logo aarca não pode estar longe.

Antes do paraíso,paramos a ler uma placa informativa que diz mais ou menos o seguinte: “Rotaperigosa. Desprendimento e queda de pedras em todo o percurso. Caminho traçadosobre a rocha sem proteção. Tome especial cuidado. Proibido andar de bicicleta.”O aviso vinha perfeitamente a tempo, tínhamos acabado de fazer a tal rotaperigosa. A verdade é que nunca senti o perigo, não sou aventureira, sou mais éinconsciente. Não penso muito antes de fazer as coisas. Sei, depois da durezada rota, que valeu a pena, que a faria outra vez, que gostaria imenso devoltar. Foi, sem dúvida, das experiências que mais gostei.
Mais placas ainformar que a senda não terminava ali. Se a memória não me engana, creio queainda era possível seguir pela mesma rota durante cerca de vinte quilómetros. Estáprovado, aqui caminha-se a sério e, sem surpresa, vi muita gente a continuar. Espantadaainda, vi muita gente que me tinha ultrapassado de manhã a inverter caminho e apreparar-se para fazer todo o percurso de volta. Do nosso grupo, sou sem dúvidaa que está mais quebrada. Não consigo sequer encarar a hipótese de ter quevoltar e sobe-me pelo corpo o arrependimento de não ter comprado os bilhetespara o regresso em Poncebos…
Uma coisa decada vez. Aprendi com os anos a não demonstrar aos outros as minhas apreensões.Agora vejo imensa gente sentada à beira do rio, também há gente deitada adormir, há outros que se descalçaram e se encavalitaram nas pedras do riodeixando que a água lhes vá lavando dos pés o ardor e o cansaço da caminhada. Parajá, é só nisso que penso. Descalço-me, vacilo sobre as pedras que me magoam,persisto e não desisto. Lá me arrumo de maneira pouco confortável, mas nãohaverá nada que me possa demover de sentir a frescura da água. É uma sensaçãoindescritível, mas metade do prazer esvai-se perante a temperatura cortante da água:rio de montanha, água gelada, mas tão boa.
O passoseguinte é o gelado. Por entre as árvores avista-se o perfil de uma construçãode madeira. Estamos perto. Não é que a dita construção é uma loja de recuerdos que vende gelados e são quatrocalipos de limão. Pergunto ao rapazque nos atende se ainda estamos longe de Caín e ele responde-me que faltamcerca de cinco minutos. Pergunto pelos autocarros – pequeno susto – diz-me queo último sai às quatro (são 15:45!). Alerta-me para a possibilidade de já nãohaver bilhetes – grande susto. De repente a possibilidade de, àquela hora enaquele estado, ter de fazer o caminho de volta parece bastante plausível. Pensona minha filha de 11 anos e, mentalmente dou-me uma grande repreensão.
Voltamos aocaminho. Nem cinco minutos decorreram antes de entrarmos nas ruas estreitas eparcas da aldeia de Caín. Desculpem, não me lembro de mais nada, senão de verdois autocarros estacionados num pequeno largo, uma esplanada a que nãoconsegui achar graça e a grandes letreiros a anunciar o número através do qualpoderíamos chamar um táxi.
Um bocadinho àtoa, alinhei na fila junto aos autocarros, fui percebendo que havia mais gentena mesma situação. Os motoristas perguntaram quem tinha já bilhetes. Erammuitos, porque seria? Separaram os grupos, de um lado os eleitos, do outro oscondenados, teriam que separar o trigo do joio vendendo mais bilhetes. Oautocarro enchia-se rapidamente, quando me parecia que já não faltariam mais doque seis lugares, consegui os nossos bilhetes. Estávamos salvos! A salvação nemsempre é simples nem barata. O motorista explicou-me (é preciso que se note quenestas coisas sou sempre eu que falo enquanto o resto do corpo da expediçãoassobia para o lado ou se faz descaradamente de morto) que o autocarro noslevaria até Cangas de Onis, que aí teríamos que mudar de autocarro paraseguirmos até Poncebos, mas nem tudo era mau, o autocarro faria uma paragem noparque de estacionamento antes de Poncebos. Este percurso custou a módicaquantia de 50 euros. Parece-me que a empresa Alsa  não deve ter problemasde solvência…
Claro que estas reflexões faço-as agora, algumas semanas depois. Naaltura, só senti um doce alívio quando atirei o meu corpo cansado para oslugares que me destinaram. 








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