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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

19
Mar20

História de uma serva, Margaret Atwood - das distopias, senhor

livrosparaadiarofimdomundo

A História de Uma Serva

Editora: Bertrand Editora

Páginas: 240

 

O nosso quotidiano tornou-se uma distopia. Isolados em nossas casas, nem sequer precisamos de outra força para nos controlar que não seja o medo, um medo insidioso, o de tocarmos as pessoas que amamos. Temo-los connosco e, para os proteger, ficamos longe, hiperventilamos se nos tocamos e, ainda há pouco mais de uma semana, vivíamos tão longe desta forma de vida, como se pode estar de um planeta distante. De repente, a nossa fragilidade materializou-se e, face a essa evidência, respiramos em haustos contidos, superficiais.

Tivemos vislumbres desta distopia em obras que a elas se dedicaram, visionárias, colocando hipóteses, criando virtualmente cenários que, hoje, nos parecem o teatro onde representamos um papel para o qal não tivemos tempo de ensaiar.

A História de Uma Serva, de Margaret Atwood é uma dessas obras. A Terra é varrida por catástrofes ambientais que colocam a sobrevivência da espécie humana em risco, sobretudo porque é a fertilidade que é afetada. Face à necessidade de salvar a humanidade, há sempre uma força que se torna dominante e a maioria que é dominada. Para preservar a humanidade, opta-se por uma regressão de índole religiosa, de inspiração bíblica, mas do Velho Testamento, e a sociedade torna-se de novo (de novo?) patriarcal. A mulher, em especial se pertencer à categoria das servas, vive confinada e em função da procriação, o valor da sua vida é avaliado em função da sua capacidade de procriar. 

Claro que esta sociedade totalitária é um verdadero abismo. A heróina vive no esforço de disfarçar os seus pensamentos de rebeldia, ao mesmo tempo que procura capitalizar a menor possibilidade de melhorar os seus dias, nem que seja combatendo a desidratação da pele - obviamente para  uma fêmea criadeira os tratamentos estéticos não estão na ordem das prioridades - com parte da manteiga das suas refeições. Um bocadinho de spoiler, vá... Por outro lado, a sabedoria antiga há muito que nos ensinou que por trás da virtude pública não pode deixar de grassar o vício privado. Apesar da vida se orientar pelas Sagradas Escrituras, isso não impede que o desejo sexual, de luxo, de poder, de toda a espécie de prazeres não persista que a classe dominante não o satisfaça.

É mais uma obra literária que nos lembra a nossa fragilidade, mas acima de tudo a fragilidade da civilização que construímos e que, enganadoramente, a nós cidadãos da Europa, nos aprece tão sólida. Séculos de civilização e de cultura não chegaram para nos afastar dos instintos mais primitivos. Somos crianças que ignoram avisos. Vale a pena pensar nisto.

Sei que existe a adapatação para uma série televisiva. gostei tanto do livro que fui a correr ver a serie. Senti uma indignação tremenda. Nada a ver! Nada a ver! nem consegui ver o primeiro episódio até ao fim e nem vou voltar a tentar.

Fica a sugestão, não é a mais animadora, mas talvez seja a que precisamos, como aviso.

Fique em casa. Leia o livro.

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