Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

07
Jun20

Memorial do Convento, de José Saramago - a mais bela história de amor - viagens na minha estante #3

livrosparaadiarofimdomundo

Memorial do Convento

 

Hoje estive com Memorial do Convento, de José Saramago. Reli a esmo algumas páginas, mas vou sempre dar às mesmas, aquelas que me tocam pela sensibilidade deste narrador: A história de amor entre Baltasar e Blimunda. Já lá vou.

Este livro de Saramago é, verdadeiramente, uma obra.prima. Que génio foi quem a concebeu, quem a escreveu, quem a compôs e imaginou. Tudo encaixa, tudo faz sentido, em tudo há beleza. Claro que me divirto imenso com o primeiro capítulo,a ironia sarcástica de Saramago é a marca de água do seu estilo, mas também o seu humor, a sua visão crítica, a paródia de uma certa vacuidade nos gestos, nas palavras, no servilismo. Neste primeiro capítulo, o rei que faz legos em vez de se preocupar com o seu povo, é ingénuo e crente, ou crédulo, e acredita que a construção de um convento - da ordem franciscana, se fosse de outra a magia não pegava - haveria de desemperrar o útero da rainha infértil que teimava em não dar herdeiros à coroa. Se isto não é um episódio literário maravilhoso, desconheço a natureza do maravilhoso.

Depois todos os episódios reveladores de uma visão crítica da sociedade, cujas prolepses nos levam a perceber quão pouco evoluímos, quando não regredimos. A pretexto das procissões, dos autos de fé, das touradas, do lançamento da primeira pedra do convento, contactamos com o caráter sanguinário das gentes, que se comprazem nas flagelações próprias e alheias, que são debochados a pretexto de cerimónias relgiosas, de onde andam arredadas a caridade e a devoção que deviam ser o princípio. O gosto pelo sangue, a "alegria geral" do auto de fé, a indiferença perante o sofrimento do outro, o desumanismo na forma como os julgados são tratados, são reveladoras de um obscurantismo que nos continua a espreitar e se faz visível com demasiada frequência.

O sonho de voar do padre Bartolomeu Lourenço coloca-nos face àquilo que nos disitngue, que nos sublima, que nos explica: a capacidade de sonhar, o visionarismo, o ser diferente. Perante a construção do convento, pedra imóvel amassada com o sangue do povo, a construção de uma passarola é de uma matéria diferente, a matéria dos sonhos, pois claro. Trata-se de uma linha narrativa cheia de altos e baixos, mas que une as personagens diferentes do livro, aquelas que estão fora da caixa, em todos os sentidos.

Por fim, Baltasar e Blimunda, cuja história de amor ajoelham muitas outras que conhecemos. Calem-se de Romeu e Julieta os grandes padecimentos que tiveram. Baltasar e Blimunda pertencem ao povo comum, mas são o mais incomuns que possamos imaginar. A maneira como se entregam e se amam é destituída de normas e de credos e, no entanto, obedece a um ritual de autenticidade e que nos remete a qualquer coisa de primordial. São pouco mais que mendigos, subnutridos, esfarrapados, etc, carregando todas as marcas do opróbio que era ser-se do povo naquele tempo, mas sublimam todas as suas contigências quando se tocam, quando se amam, quando ela quer e ele também. São felizes, são humanos, são verdadeiros, como nunca o serão o Rei e a Rainha circundados de riqueza, mas isolados de sentimentos. É um amor sem dúvidas, sem hesitações, sem percalços, pouco novelesco, sem uma traição, sem uma dúvida, sem um olhar para o lado. É um amor que amadurece e envelhece como as personagens, mas que nunca perde o brilho. Termina como termina a vida, quando o imprevisto nos acomete e nos leva a sucumbir.

Memorial do Convento é um memorial literário, é um memorial da cultura portuguesa. É um monumento que nos identifica e nos distingue.

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub