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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

27
Jan14

O chá (Fim)

livrosparaadiarofimdomundo
Abriu os olhos e viu, agradado que nascia o dia, jáuma luz branca, uma claridade sucedia à luz amarela da rua. Passou-lhe peloespírito a vaga lembrança de que sempre tinha gostado daquele momento secretoem que o dia sucede à noite. Como o seu sono a partir daí se tornava maiscalmo, como a luz apaziguava todas as angústias e ele se entregava inconscientenos braços de Morfeu. Poderia fazê-lo hoje, entregar-se a esse sono que tudoapaga, esse irmão da morte. Pudesse alguém deixar assim a vida, virando-se parao lado e apagando a consciência, sem dor, transitando sem o saber, transpondo oportal secreto que não permitia saídas. Voltou outra vez a si, um sorrisobrincou-lhe nos lábios, perdia-se tão depressa nos seus pensamentos,afundava-se de repente e de novo despertava, surpreendido com a facilidade comque ia e vinha na sua consciência, como se dormisse depressa, como pequenostranses inofensivos. Havia em si um interruptor que ligava e desligava sem elequerer. Voltou-se de novo para a janela, a tímida luz que há pouco só seadivinhava crescia, ganhava força, empurrava a noite, que se afastava. Aquelecinza claro desaparecia e a luz ganhava um esplendor que nenhuma cortina podiareter. Naquele instante, apagaram-se as luzes amarelas da rua, as árvores dapraça roçagaram agitadas pela brisa matutina e ele inspirou com força.
Ergueu-se e ficou sentando na cama, apoiouas mãos no colchão, ela deve ter-se incomodado, porque se mexeu e uma réstia doperfume dela chegou-lhe ao nariz. Absorveu-o e ficou um bocado à procura delepara que se tornasse mais preciso. Olhou-a, adormecida, a quase beleza plenaque ela tinha prendeu-lhe a atenção. Sabia que ela só era mesmo bonita sobalguma luz, sob algum ângulo, fazendo com que fosse preciso olhá-la comatenção, se não a beleza não se via. Nisto, levantou-se. Alguma coisa crescianele, começava a borbulhar, ainda não fazia barulho, como aquelas bolhas que sevão soltando do fundo da panela, antes que a água ferva, antes que se atinja oponto de ebulição.
Contornou a cama, pegou na chávena eemborcou-a de uma vez, ouvia o barulho da sua garganta a degluti-lo, sentia olíquido frio a descer por ele, parecia-lhe que uma pequena contração lheapertava o estômago, imaginou uma aspereza areada no fundo da chávena. Depois,já sem saber que o fazia, pousou a chávena, e voltou a deitar-se. Daí a poucocomeçaria o que tinha imaginado e o dia tinha nascido em pleno e ouviu ainda opipilar ténue dos primeiros pássaros. De repente disse em voz alta, mas sem queouvisse:

- Puta!

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