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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

23
Jan14

O Chá (IV)

livrosparaadiarofimdomundo
Obrigou-se a pensar nela, àquela hora havia mãosquentes a tomarem-lhe os seios, a apertá-los, uma boca ávida sugava-lhe osmamilos. Ouvia-a a respirar pesadamente, cada vez mais depressa. Sabia muitobem os sons que ela emitia quando estava no cio. Ela tirava a camisola fina,por cima da cabeça, o cabelo descompunha-se, não havia tempo para o tirar dacara. Ela estava por cima, abelha-mestra, mexia-se, as mãos apoiados no peitodele. O primeiro gemido soltou-se-lhe da boca. O gemido despertou-o, porque foiele que gemeu. Pegou na colher e mexeu o líquido. Extenuado, caiu sobre a cama,como se a tivesse amado ali, como tinha amado e agora era inexorável. Os olhosficaram parados na janela e de novo gostou da luz que vinha de fora, dassombras que as árvores da praça projetavam na parede e seguiu esse movimento.Era preciso acabar, deixar tudo pronto para a sua hora, aquela hora em que sedecidira, em que se via muito mais decidido do que ela alguma vez tinhaimaginado, e riu-se e voltou a sobressaltar-se com o som do seu riso. Quer eraisto? Não podia fazer barulho, era preciso que tudo ficasse inominável.
            Reboloupara o seu lado da cama, ajeitou a almofada entre o ombro e o pescoço e estavabem. Sem querer enroscou-se e, tudo pronto, preparou-se para dormir. Derepente, abriu os olhos para o escuro, uma exclamação saiu-lhe da boca, faltavauma coisa: a chávena dele. Era preciso compor o cenário, para parecer que setinha cansado de esperar. Empurrou o cansaço, empurrou com força e ergueu-seainda uma vez. Com passos pouco seguros foi à cozinha e trouxe a outra chávenaque pousou sobre a sua mesinha. Deitou-se, respirando profundamente e ficou àespera no escuro. Sem saber como, o cansaço regressou e tomou-o na sua lassidãoe adormeceu.


            Estremunhado,acordou perdido, sobressaltado, sem saber bem o que o despertara. Procurou namesa ao lado o relógio. Os ponteiros fosforescentes indicavam cinco da manhã.Confuso, procurou lembrar-se do dia, seria dia de trabalho? Não, hoje não iatrabalhar. De repente assomou-lhe ao espírito a sua noite, recuperou tudo comrapidez. Ela ainda não tinha chegado. Então o que tinha feito com quedespertasse? Ao ouvir o ruído metálico da fechadura, percebeu. Ela estava achegar. Chegava assim também a hora decisiva. Chegaram juntas, ela e a hora.Cautela, era preciso desempenhar bem o seu papel – afinal era o papelprincipal, e a letra de uma canção insinuou-se no espírito. Virar-se para aparede, assim quando ela entrar não descortinará o seu rosto. Pediu mentalmenteque ela não fizesse nada para o acordar. Não poderia olhá-la sem evitar quealgo do que nele se agitava e borbulhava viesse a explodir-lhe no rosto. Fez umesgar, era uma careta, não sabia que era tão ardiloso. Repetiu mentalmente ascoisas que ela fazia, pendurava a carteira, agora estava a tirar os sapatos,primeiro um pé, depois o outro, enquanto andava ia desapertando a camisola e ascalças, empurrou a porta da casa de banho, olhou-se no espelho, virando o rostode um lado para o outro. O ruído indistinto de frascos que se entrechocavamconfirmou-lhe tudo o que compusera com o espírito atento. Daí a pouco entrariano quarto, sem acender a lâmpada de cima para não o acordar. Ligaria ocandeeiro da sua mesinha que espalharia uma luz branca em círculo. Havia de sedespir em frente ao espelho, nesse momento gostaria de olhar para ela enquantoaquele corpo amado ia surgindo das roupas, primeiro as pernas, a visão dascostas curvas, depois havia de se endireitar e tirar a blusa, o sutiã e peloespelho ficavam visíveis os seios macios. Rapidamente, ela voltar-se-ia para oarmário e escolheria uma peça leve e curta para dormir.
            Sobressaltou-se outra vez ao ouvir aporta do armário a fechar-se, ela já cumprira o seu ritual noturno. Sentiu acama a afundar do lado dela quando ela se sentou. Reteve a respiração. Seguiuos olhos dela para o tabuleiro, sabia que ela olhava a chávena com o chá. Seriaagora? Fez força para se conter, para não gritar para que ela parasse, que eraveneno, chorando já no seu regaço abraçando-a, querendo que ela lhe prometessetudo o que lhe tinha tirado nestes últimos anos. Claro que nada foi assim. Elaapagou a luz e deitou-se e ele abriu os olhos numa interrogação cega para oescuro. Será que bebeu o chá? Distraiu-se e tinha perdido o fio à meada e agoranão sabia do que tinha imaginado aquilo que realmente acontecera.

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