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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

28
Abr21

O vício do sábado à tarde - episódio 1

livrosparaadiarofimdomundo

Quando era criança, não havia livros em minha casa. Nem um! Havia uma revista que, agora que a lembro, devia ter sido publicada logo após o 25 de abril, porque tinha umas caricaturas muito pouco abonatórias com figuras da igreja e da política e havia nessas caricaturas qualquer coisa que me deixavam perplexa, porque havia roupa mal composta e o vislumbre de uns rabos anafados. Perdi-lhe o rasto, não sei onde mora, não sei o que foi feito dela, suponho que tenha perecido num dos dias em que a minha mãe teve uns ataques de limpezite aguda que, hoje, são finos e se chamam destralhar. Antes disso, já a minha mãe destralhava e nunca se sabia bem avaliar os prejuízos desses dias. Às vezes, só nos apercebíamos tarde demais e os nosso tesouros desapareciam.

Anos mais tarde, houve um livro em formato A3, com capa dura, cor de terra argilosa, que foi oferta ao meu pai. Dele recordo uma biografia breve de Bevenuto Cellini, cujo busto observei extasiada na ponte em Florença, ainda presa do mesmo fascínio que essas páginas imprimiram em mim. Havia também, nas últimas páginas, a transcrição do conto de Eça de Queirós, O suave milagre, que continua a ser das minhas páginas favoritas deste autor, creio que devido a essa leitura precoce e solitária, feita de uma descoberta casual.

Depois, li na escola, acidentalmente, A fada Oriana, de Sophia. Depois, ainda, uma tia minha de Lisboa, ofereceu-me um livro de Enid Blyton, O mistério da gata desaparecida. A partir daí, comecei a pedir livros aos meus pais. A minha mãe era uma mãe exigente e achava sempre - no seu imenso amor - que eu ainda não tinha atingido a perfeição que ela tinha imaginado para mim e, para me incentivar a atingir os padrões de excelência que tinha, prometeu-me que me comprava um livro se eu me portasse bem. A minha biblioteca pessoal nasceu assim, dessa promessa e de todo o dinheiro que eu conseguia angariar. 

Quando olho para trás, para essa infância, vejo que, de alguma forma ela foi imensamente abençoada. Desde o chocolate com a mercearia do sábado - éramos quatro e havia um para cada um. Podia ser um chocolate com creme de fruta, não me lembro do nome, mas lembro que o meu preferido era o de laranja, podia ser o da Regina, que ainda se vende, mas que já não tem o sabor que a nostalgia e a memória lhe deram, podia ser o guarda-chuva com papel colorida, cujas "pratinhas" colecionávamos e guardávamos em encantamento. Eram também os bolos da praça, entre um bolo redondo, amarelado, macio, e a ferradura. Eram empre quatro e nós escolhíamos. Os meus pais sempre nos mimaram assim. Graças ao meu gosto pelos livros, passei a ter um mimo extra - o livro ao fim de semana.

O sábado à tarde era o dia da missa connosco. Muitas vezes, à boleia de tios - os meus pais tiveram automóvel muito tarde. Em frente à Igreja, havia uma papelaria-livraria. Juro que, às vezes, a visito de novo em sonhos. Ainda consigo descrever pormenorizadamente o balcão, com uma vitrine inferior em vidroa,onde estava exposto o materila escolar. À direita de quem entrava, havia uma prateleira, diminuta, onde estavam os livros, e que dividia a loja em dois, porque, por trás da estante havia a parte das loiças, que também aí eram vendidas. Mas nunca transpus essa fronteira, tinha muito medo de deitar alguma coisa ao chão. Ainda hoje, sinto o mesmo terror em lojas de loiças. Era aí que, depois da missa, enquanto os outros se iam arrumando no carro e se tinham as últimas conversas, que eu comprava o livro da semana. Corria pelo adro abaixo, levava o dinheiro na mão e comprava o livro. Fazia coleções, portanto, não havia verdadeiramente escolha, era um dos números que me faltava na coleção que estava a ler. Levei pouco tempo a esgotar toda a Enid Blyton, a minha primeira autora de eleição.

Chegada a casa, se não fosse sábado de Festival da Canção, ou melhor ainda, de Festival Eurovisão da Canção, lia o livro de um fôlego. Havia dias em que não conseguia antes de dormir e, se havia coisa que aminha mãe não permitia - de todo, com direito a castigos físicos - era a leitura antes de dormir. Totalmente proibida. Assim fiz a minha primeira transgressão. Depois de todos se deitarem, levantava-me e ia esconder-me atrás do móvel da televisão, porque a minha mãe deixava uma luz acesa durante a noite - tínhamos um medo atávico do escuro - para não termos medo. Atrás do móvel, no círculo de luz desenhado pelo globo branco de vidro martelado do candeeiro, lia até à última página. Simplesmente não conseguia esperar. Algumas noites, o meu levantava-se para ir à casa de banho, via-me a ler e não dizia nada, mas, quando regressava, ouvia-o falar em voz baixa com a minha mãe e, daí a instantes, o furacão Celeste surgia apocalíptico junto de mim, o livro voava pelos ares, eu era enfiada à força na cama e obrigada a dormir. Umas vezes, adormecia, outras, esperava sorrateiramente, levantava-me de novo e voltava exatamente ao mesmo sítio para terminar a leitura. A minha mãe às vezes tinha requintes de malvadez e levava o livro com ela. Eu lia no limite, mas ir buscar o livro ao quarto dela, seria suicídio. Os miúdos de hoje não sabem o que é correr riscos para terem um gosto.

Nos dias restantes da semana, relia o livro, aquele e outros que ia colecionando. Esta é a melhor recordação da minha infância, os meus livros, comprados ao sábado à tarde. Atingi o pico da felicidade, quando a minha mãe mandou fazer uma prateleira branca para colocar por cima da minha cama, para eu arrumar os meus livros. Desde essse dia, luto sempre com falta de espaço para arrumar livros.

Wook.pt - Os Cinco na Ilha do Tesouro O Mistério da Gata Desaparecida  Wook.pt - As Gémeas no Colégio de Santa Clara

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