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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

28
Jan21

A morte saiu à rua? Não, anda por lá a passear-se

livrosparaadiarofimdomundo

Não sei se aconteceu o mesmo a muita gente, mas a minha perceção disto tudo mudou drasticamente em pouco tempo. Como eu - porque há imensa gente assim - haverá por aí pessoas que cumpriram religiosamente tudo o que foi determinado. Apesar de trabalhar em educação, a minha função obrigou-me a sair de casa todos dias para trabalhar. Cumpro e esforço-me para que sejam cumpridas as regras de segurança. O espaço escolar tem menos um centímetro de altura tantas são as vezes em que o chão é limpo, as superfícies são desinfetadas. Depois do trabalho - durante todo o verão - não tomei um café, não me sentei numa esplanada, não fui a um restaurante - digo-o não como quem se lamenta, mas como quem o fez com a naturalidade que os tempos exigiam. Não fui a um centro comercial, as compras que fiz foram online, abusei talvez nas idas aos viveiros de plantas. De resto as minhas saídas foram perfeitamente justificadas pela necessidade.

Inciei o novo ano letivo cheia de esperança. As aulas no 1º período decorreram com muita tranquilidade, apesar de uns miúdos mais resistentes que teimavam em proteger-se da papeira em lugar da COVID-19. Os casos de contágio que surgiam eram absolutamente esporádicos, aqui e ali, às vezes, lá ia uma turma para isolamento. Nunca houve um surto. Continuamos a fazer uma vida sobretudo muito doméstica, mas, sinceramente, muito agradável, sem qualquer custo. Chegou dezembro e abriu-se a caixa de pandora.

Hoje, mesmo aqueles que chamaram a isto uma gripe, os que falaram de todas as teorias da conspiração, os que não quiseram saber, os que sairam, os que ainda hoje arranjam qualquer pretexto para furar o esquema, mesmo esses não podem deixar de estar esmagados com estes números. Faço contas de cabeça e imagino este número: numa semana, morrem - morrem - cerca de 1500 pessoas. E multiplico estes números por aqueles que amam estes mortos, que se deparam com estas perdas: 1500 esposas, 1500 maridos, 1500 filhos, 1500 pais, 1500 avós, 1500 amigos, milhares de vidas humanas perdidas, amputadas, separadas. Hoje oprime-me esta sensação de que a morte anda à solta na rua e que se vai aproximando, que nos vai cercando e que, quem sabe, se aproxima já dos nossos, insidiosa, indiferente, cega como a justiça. A morte anda aí.

Foi o pai que deu entrada no hospital e de quem as filhas não se puderam despedir, nem era COVID-19, era até outra coisa, mas os serviços estão pressionados e falta tudo e, não, eu não estou aqui a falar mal do SNS. Se a alguém falta motivos para pedir alguma coisa, peçam o SNS a funcionar, de forma deficiente? Digam-me que serviço de saúde aguentaria estes números? Foi o fotógrafo jornalista que toda uma pequena comunidade conhecia, a sua figura que andava pelas ruas da sua terra, identificando-se com ela e reproduzindo-a pela sua objetiva. Ouvimos falar destas mortes, como tiros de uma batalha que soam cada vez mais perto e o que sentimos começa a ser medo e a prece antiga que nos faz pedir pelos nossos. Foi a mãe internada a quem não foi possível dar um último beijo, foi a avó que foi sepultada sem que lhe fosse permitido usar a roupa que ela tinha escolhido e dito que queria usar na sua última viagem. 

A nossa existência é cinzenta agora, estamos cansados, estamos todos um bocadinho doentes, estamos todos muito mais tristes, estamos todos muito mais sós e, muitos de nós, nunca mais se hão sentir próximos daqueles que lhes alegravam os dias. Não sei se é pior que uma guerra, porque, felizmente, não conheço esses teatros, sei que é suficientemente mau e volto aos números 11608 mortos, fora os danos colaterais, incalculáveis, creio eu. Todos os dias os casos ativos crescem e fazem crescer não a avaga, mas o maremoto que engole as nossas esperanças. 

20
Jan21

As migalhas são de graça

livrosparaadiarofimdomundo

Estávamos nós ali atrás a ansiar pela passagem de ano, acreditando mesmo, mesmo que doze badaladas seriam com uma rajada de metralhdora sobre tudo aquilo que nos custou no ano mais longo de que muitos de nós têm memória. Afinal quem vivia mal, passou a viver pior, qum vivia bem, passou a viver pior - é reconfortante acreditar que foi assim - quem vivia muito bem, pelo menos não pôde sair de casa. 

E vem 2021 e entrou a pés juntos, esse bruto: morreram Carlos do Carmo e João Cutileiro, tivemos uma vaga de frio que nos ia congelando a alma, os americanos estão mesmo doidos e os mais doidos invadiram o Capitólio e agora os americanos têm de se proteger dos americanos God doesn´t save America, o estupor do vírus não nos largou e ficou ainda mais virulento, morreram em Portugal nos primeiros vinte dias do ano mais de dois milhares de pessoas só por causa desta pandemia que está cada vez mais pandémica, voltamos todos a confinar, está tudo fechado outra vez - estou a exagerar, eu sei - fala-se de novo no encerramento das escolas e a minha alma fica mais gelada do que ficou por causa da vaga do frio, temos medo, muito medo - estou a exagerar, eu sei, há gente que não tem medo nem vergonha, nem noção, nem senso de noção, mas não posso ir por aí, senão ninguém me segura e eu sou uma senhora - temos pouco orgulho do nosso país, fianlmente percebemos a importãncia do SNS e porque é que alguns setores da sociedade não podem ser privatizados. É difícil, até para uma otimista patológica como eu sou, manter-nos positivos. Ups, agora é mau estar positivo. Rephrasing: é difícil mantermo-nos, chega assim.

Ficam as migalhas: os almoços na sala de professores, com toda a gente a comer de caixinhas, mas com um clima muito simpático, a conversar animadamente, a rir, meu Deus, a rir; a manutenção, a prazo, das aulas presenciais, até gostamos mais dos alunos na quase-hora da despedida; o fim de semana com sol, que deu para ler no alpendre, para cuidar das plantas de exterior e que despertou o desjo de ir ao horto comprar amores-perfeitos e toda a qualidade de plantas que floresçam na primavera - mas não fui, que eu sou cumpridora e faço tudo para manter as escolas a funcionar, faço a minha parte e nem sei se chega; as visitas muito esgarçadas à mãe e ao pai; as refeições em família, a quatro, animadas; a sala de aula com os meus meninos que me recebem sempre com ânimo, doces como alguns conseguem ser; a senhora da banca da fruta, tão humilde (no bom sentido), tão amável, tão atenciosa, que corre a abrir outro saco de cebolas, que pede desculpa por não ter mais coisas de encher o olho; os que dizem que gostam de nós, os que dão a palavra amável, os que são solidários; as anedotas para antologia, como aquele aluno que, tendo faltado por uns dias, quando questionado sobre o motivo da ausência, mentiu, dizendo que tinha sido operado ao apêndice e, ao ver que a professora lhe pedia para ver a costura, disse, na sua ingenuidade (ou não) que se tinha esquecido dela em casa.

São migalhas de um quotidino de chumbo, mas podemos fazer como nos diz o aforismo da pedra, não um castelo, mas podemos amassá-las e fazer um pão e comê-lo com a gana de que nos fala Álvaro de Campos: comê-lo sem tempo de manteiga nos dentes. São migalhas, mas pelo menos são de graça.

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