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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

14
Jun21

Às vezes também saio de casa: instantâneos da Serra da Estrela III

livrosparaadiarofimdomundo

Tanta coisa para contar uma escapadinha só pode significar uma de duas coisas: ou que viajo pouco, ou que a viagem foi muito interessante. Enfim, também pode ser falta de experiência, afinal isto é um blog sobre livros e eu ando por aqui a meter a foice em seara alheia. Pois bem, o blog é meu...

Então, no dia seguinte, logo pela manhã, passagem por uma mercearia para adquirir bens essenciais, que foram pão e cerejas. É verdade, queijo da serra não se encontra em qualquer lado! Viagem até Manteigas, com uma manhã gloriosa, mas fresquinha já se sabe. Em Manteigas, logo à entrada, há uma loja que vende queijo da serra e foi logo ali - eu sei, devia dizer o nome, mas já não me lembro. Escolhemos um queijo curado, o amanteigado pareceu-nos arriscado e um paio do cachaço. O senhor disse-nos que o queijo era artesanal e que até a casca se comia: e amáquina diz que é verdade! Entretanto, comecei a ficar preocupada com a forma como iríamos partir o queijo e o paio em plena serra e, num repente do meu maior descaramento, perguntei se o senhor nos emprestaria uma faca - inteligentemente perguntei antes de pagar - que lha devolveríamos seguramente ao fim do dia, dando-lhe a minha palavra. Pois disse que sim e com um ar muito grave, acrescentou que, se não o fizéssemos, seria um problema da nossa consciência (Eu disse que havia facas). Devidamente abastecidos, fomos procurar um táxi que nos levasse ao Covão da Ametade.

Eu ainda não disse, mas eu sou um co-piloto horroroso, que acha sempre que quem vai a conduzir está a fazer uma condução suicida, de maneiras que fiquei muito feliz por o motorista que nos calhou ser um respeitável senhor de cerca de setenta anos que, sem dúvida, conduziria tranquilamente, permitindo-me apreciar a paisagem com toda a calma. Mas o demo andava à solta. O plácido senhor era um piloto de rális travestido de motorista de táxi e percebi isso assim que arrancou, com uma guinada e uma travagem muito brusca dois metros mais à frente. E estava marcado o ritmo, acelerar serra acima, comigo a encolher-me no banco de trás, convencida que o carro iria raspar pelas paredes de rocha, que a minha vida terminaria depois da próxima curva, que aquela ultrapassagem com um peão de frente não podia estar a acontecer, que, com uma camioeta à frente ele só podia acalmar, mas não ultrapassou-a também. O meu mais que tudo, apesar de ir com as minhas unhas cravadas na palma da mão, levou a curta viagem toda com um sorriso sardónico. Enfim, quando me vi a sair do táxi, pensei para mim que a caminhada podia ser de cinquenta quilómetros que eu iria a pé até Manteigas, chamar um táxi acabava de estar fora de questão. Quando ficamos a só, ouvi a pergunta: que dizes agora à minha condução, tive de dizer suave e segura.

Mas, assim que me vi no prado do Covão da Ametade, esqueci aquela corrida mais louca do mundo e deixei que aquela beleza me inundasse e ficámos ali um bocadinho a sentir o sol, a ver o verde, a ouvir os pássaros, doidos naquela manhã... e comi cerejas. Foi tão bom que ainda duvidei se tinha sobrevivido ao táxi. Depois, depois foi a caminhada. O trilho segue cerca de quinhentos metros ainda na estrada, invertendo de repente para dentro do vale do Zézere. É um descida abrupta, por entre vegetação muito alta, muitas árvores, saltando de pedra em pedra, um pouco escorregadio, mas que me foi deixando cada vez mais convencida que era melhor fazê.lo a descer do que a subir. A Primavera estava ali em força, havia flores por todo o lado, borboletas de todas as cores (predominavam os vermelhos e os acastanhados), o caminho era cortado com frequência com ribeiros que se precipitavam serra abaixo para se juntarem ao rio que ia engrossando a voz bem abaixo de nós. Nesta vereda estreita ainda nos cruzamos com outros caminheiros que subiam. Um tempo depois, a vereda tranforma-se num estradão largo, aberto, mas sem nunca se aproximar do rio que, ainda assim, corre bem abaixo de nós. O prado espraia-se um pouco e avistam-se os primeiros abrigos para os rebanhos e, mais uma vez, fica marcado o tom: será assim toda a descida para Manteigas. Apenas quando o caminho nos leva a cruzar o rio  para a margem esquerda, olhamos de frente o rio, que ali se tranquiliza antes se se lançar por pequenas cascatas por entre os enormes blocos de granito. Ali, naquela candidata a praia fluvial, nos sentamos e provamos do nosso almoço. Tudo maravilhoso. E ainda arranjei coragem para estar de pés mergulhados na água, sem que a circulação fosse cortada pelo frio. A descida para Manteigas manteve-se suave e a caminhada faz-se quase sem se sentir. Os painéis informativos ajudam a reconhecer as espécies florais, os insetos e os animais.

À chegada a Manteigas, devolvida a faca, o objetivo era ainda fazer um outro trilho - seriam mais cinco quilómetros, o das faias, mas era preciso fazer com os dez quilómetros deste fossem esquecidos, por isso sugeri que subissemos ao vale do Rossim, para descansarmos à beira da barragem e, como a cortada para o trilho das faias ficava a caminho, seria mais fácil sugeri-lo com um ar perfeitamente desprevenido, qualquer coisa como vamos ver o que é isto, olha um trilho, ainda podíamos fazer, dava tempo... Tudo muito verto, mas não contei com o vale do Rossim, esse sedutor. 

A praia fluval do val e do Rossim fica na zona das Penhas Douradas, é absolutamente tranquila, o azul da água espelhava o azul do céu, a água é limpída e, acima de tudo, tem um bar, com uma esplanada fantástica, umas espreguiçadeiras para estes exaustos caminheiros e não houve nada que nos arrancasse dali. Além disso, estava sempre a passar música excelente e os pequenos que estavam à frente do espaço sabem geri-lo, sabem, sabem. Que tarde! Li até me cansar e depois deixei-me só ficar, numa conversa vadia e preguiçosa, até o sol começar a cair e começar a fazer-se sentir um friozinho que já nos empurrava dali para fora. 

Descemos a serra ao mesmo tempo que a noite caía e, quando chegamos a Manteigas, começámos a pensar que chegaríamos tarde para jantar na Covilhã, pelo que consultámos o "ti" Google para encontrar recomendações e pareceu-nos que a Queijaria de Manteigas seria boa escolha. E foi. Para não vos maçar, é um sítio muito descontraído - mas encheu - que serve petiscos e tem um atendimento jovem, muito, mesmo mesmo muito amável e atencioso, do género, podem ir pedindo, não peçam tudo de uma vez... Saiu uma tábua de queijos enchidos - não sei se da caminhada, mas tudo me pareceu sublime - uns pastéis que eram a especialidade do dia, uma compota de medronho, um tinto macio, diz que era um vinho de altitude, uma tarte de frutos vermelhos bem alternativa e o bolo de chocolate, ai o bolo de chocolate. 

Pois, como disse, foi um final feliz... quer dizer, depois do jantar foi preciso regressar à Covilhã, novamente pela estrada que serpenteia pelo vale glaciar, numa escuridão que nada quebrava, um breu mesmo. Fiz o caminho caladinha, muito assustada, mas sem dar parte de fraca, que estas ideias são minhas. Depois das Penhas da Saúde o mar de luzes da Covilhã e do Fundão faziam a noite mais acolhedora. 

Não vejo a hora de regressar à Serra da Estrela e ver se daria para me mudar para lá, vive em mim, alojada na minha alma, uma montanhesa.

07
Jun21

Às vezes também saio de casa: instantâneos da Serra da Estrela I

livrosparaadiarofimdomundo

No passado fim de semana, também eu saí para fora cá dentro.Escolhemos um destino que conhecemos pouco, no qual nunca tínhamos estado no verão - se é que o tempo que temo tido em Portugal se pode chamar verão: a Serra da Estrela.

O plano era assentar arraias num sítio e depois, daí, partir à descoberta dos sítios todos que, depois da consulta na Internet, nos pareceu essencial conhecer. Escolhemos a Covilhã e escolhemos mal e porquê? Não por culpa da Covilhã que me pareceu uma cidade dinâmica, embelezada e muito atraente. Pareceu-nos, porque nos limitamos a ir dormir à Covilhã e tomar o pequeno-almoço, incluído na dormida. Portanto, se queres passar uns dias nos montes hermínios, vai para a Manteigas, é mais central e em princípio não tens de andar a palmilhar estradas de montanha, num breu aterrador, com medo dos abismos à tua direita, por volta da meia noite, quando regressas para dormir. 

Por ser impossível resumir dois dias cheios num post sem ambições, vamos recorrer ao esquema tópicos e a vossa imaginação fará o resto.

1. Chegada à Covilhã, por volta das 23:30, telefonema para o local de dormida, cuja hora limite de check in indicava 23:00. Depois de um telefonema, o funcionário, amabilíssmo, garantiu-nos que não havia problema, tocaríamos à campainha e ele levantar-se-ia e viria abrir a porta. Mesmo com GPS, parecia impossível encontrar o local, depois de algumas voltas infrutíferas, como era, nitidamente, uma noite académica, perguntamos a um grupo de seis rapazes se nos podiam ajudar. Oh, se puderam, sacaram dos seus telemóveis, procuraram e guiaram-nos à residencial. Muito tocaditos, muito simpáticos, pelos meio ainda nos perguntaram "pagas umas jolas?" - a mim, que sou uma senhora!. Quando lhes agradeci, ainda me disseram: "Tudo bem, tamos (sic) juntos!". Há esperança para o futuro. Dormida extenuada.

2. No dia seguinte, subida à Torre, pois claro! Saída do carro, junto ao Covão do boi. Choque térmico. Com um vestido de verão, sem collants, completamente desprevenida, fui apanhada de supresa pelos gélidos 9 graus que se faziam sentir. Fogo! Corrida para o carro, que a paisagem também se aprecia muito bem de dentro dele, com o ar condicionado ligado. A subida da serra, nesta altura, com a primavera a explodir por todo o lado, as giestas a pintarem a paisagem de amarelo a perder de vista, as nuvens e o nevoeiro abaixo de nós, sentimo-nos numa "misty" paisagem. Recomendo. Depois da Torre, descida a manteigas, pelo fantástico vale glaciar. Paragem para café. Continuava frio e, de repente aborreci-me por andar de carro. Num repente, decidimos ir até Seia, porque lemos que havia um percurso pedestre fantástico, bem como duas praias fluviais a valer a pena, a de Loriga e da Lapa dos dinheiros. A vertente oeste (?) da Serra estava mergulhada num nevoeiro quase assustador, enjoei na viagem, tivemos de parar para eu vomitar. O dia estava mesmo a valer a pena! Chegamos a Seia e pareceu-me boa ideia visitar o Museu do Pão e almoçarmos, devi ser giro. Devia, devia, mas os preços pareceram-me um insulto. Sim, eu sei, este é blog de viagens brega, mas eu sou da classe média de Portugal, apesar de pagarmos impostos como se fossemos pré-ricos, a verdade é que não somos. Fugimos dali com medo de se pagar só de olhar. Fomos até ao Fim do Mundo e comemos uns chocos estufados maravilhosos, embora a decoração desencorajasse, mas a comida... quando elogiei o senhor que nos atendia, ele respondeu que as cozinheiras eram do campo e cozinhavam como sabiam... sabiam muito e sabiam bem. Só no fim, é que se descaiu a dizer que o borrego também era muito bom e que tinha uns míscaros muito saborosos... Se os chocos não fossem tão deliciosos, podia nem lhe perdoar. 

3. Estava na hora de viver a tarde. Saímos de Seia em direção a Loriga, ignorando a placa que indicava Lapa dos dinheiros. A praia de Loriga fica bem à beira da estrada e é... linda, linda. Tem várias pisicinas, umas mais naturais que outras, mas de uma água transparente. À volta, socalcos e prados verdes, sem multidões. À beirinha da água, uma inglesa mudou de roupa para fato de banho e com uma coragem monárquica, enfiou-se lentamente na água, enquanto ia dizendo que era "mad", eu respondi-lhe que ela era "a brave woman". Quando a hipotermia lhe permitiu ficar submersa na água, gritou "I'm in, I'm in" . Percebi que sou uma pessoa que não sabe o que é a inveja, porque não senti nenhuma. Tenho muito medo de cair e, mais ainda, do ridículo, pelo que não arrisquei saltar sobre a água para desfrutar das mesas do parquezinho de merendas. O meu mais que tudo roubou-me o livro para me convencer. Fiquei só a olhar para as pessoas, sem ler, não me importei, gosto da contemplação. Desceu sobre mim uma paz enorme e deixei-me ficar. Depois, seguimos para a Lapa dos dinheiros.

 

Já é tarde, amanhã conto o resto, está bem?

13
Abr21

Dia Internacional do Beijo - foi com um beijo que a minha vida começou

livrosparaadiarofimdomundo

A profissão que tenho e que me define. Quando penso no que gostaria de ser quando fosse grande, continua a trazer-me até aqui.

A superação de todos os demónios de uma adolescência infeliz, com baixa autoestima - nesse tempo ainda não havia, mas primeiro veio a coisa e só depois o nome. A aceitação do que sou e até a descoberta de que há em mim coisas que podem ser amadas.

O amor, efetivamente. Como diz Julian Barnes, essa coisa é que é linda, a única história.

Os filhos. Essa forma de nos darmos os últimos retoques já fora de nós, essa perplexidade de nos ser revelado que estamos ali e ali persistiremos até que a descendência o permita.

A realização. A serenidade. A felicidade. O lar dentro da casa. O casamento dentro do contrato. A família como resultado da multiplicação de um número.

A aventura. O companheirismo. A amizade. A parte de mim que, estando longe, está perto.

Tudo o que prezo na vida, tudo o que sou, tudo o que valho, tudo o que significo, começou com um beijo. As palavras vieram depois.

 

04
Fev21

As palavras que sempre (te) direi

livrosparaadiarofimdomundo

Eu gosto de palavras.

Gosto de ouvir falar bem. É confrangedor ver e ouvir as pessoas que não desenvolveram essa competência. Basta pensar no nosso Primeiro Ministro. Se a falar como ele fala já ganha as eleições, imaginem se ele tivesse um discurso fluido, líquido, diria eu.

Todos nós conhecemos uma - era bom era - uma pessoa pelo menos que só conhece o verbo "fazer", ignorando conceber, planear, discorrer, elaborar, proceder, apresentar, requisitar, requerer, reproduzir, ou o substantivo "coisa", nunca utlizando objeto, pintura, quadro, documento, partitura, medida, ou o adjetivo "triste", desconhecendo que se pode estar melancólico, desalentado, desanimado, nostálgico, angustiado, inquieto, assombrado, ensimesmado, introspetivo, asténico, ou o adjetivo alegre, quando se pode muito bem estar eufórico, entusiasmado, sonhador, feliz, radiante, álacre, animoso.

Havia um manual, mais um caderno de exercícios, aqui há uns anos que tinha um exercício de que eu gostava muito - os alunos não, mas são pormenores - consistia em classificar as palavras em função da sensação que ela despertavam: se picavam, se eram doces, se faziam sonhar, qualquer coisa deste género. A minha relação com as palavras é assim. Eu coleciono palavras, combino-as, listo-as, investigo-as, tenho verdadeiro fascínio pela etimologia.Gosto delas independentemente do seu campo lexical.

Adoro a palavra meretriz, é a mesma coisa que a outra de quatro letras, mas tem outra classe.

Gentileza, não está mesmo a dizer o que é? É das palavras mais bonitas que há, porque inspira mesmo o sentimento.

Bonito, é tão fresca esta palavra.

Lhaneza não há melhor forma de dizer da simplicidade.

Bergamota é a mais perfumada.

Onírico é a mais sonhadora.

Caleidoscópica é a mais multifacetada

Alcaçuz é a mais doce

Gizar é a mais desenhada

Promontório é a que causa mais vertigens

Vórtice é a mais agitada

Disforia é a desconfortável

Catre é a mais pobre

Utopia é a mais esperançosa

Emulação é a mais imitadora

Vagido é a mais frágil

Breu é a mais escura

Tártaro é a mais profunda

Côvado é a mais medida

Podia ficar nisto um ror de tempo, mas corro o risco de me tornar desenxabida.

É isto, se para Bernardo Soares a língua era a pátria, para mim as palavras são os meus penates.

Podia ter-me dado para pior, mas a minha loucura é mansa.

 

 

 

05
Jan21

Às vezes também vejo séries#2: Alguém tem que morrer (minissérie Netflix)

livrosparaadiarofimdomundo

Alguém tem que morrer": com Ester Expósito, saiba tudo sobre a nova série  da Netflix - Purebreak

 

Gosto muito de minisséries. Não vejo séries com 250 temporadas, fora os anexos.

Algém tem que morrer é uma minissérie espanhola, em exibição na Netflix, com apenas três episódios, de cerca de 50 minutos cada. Dá para um serão bem passado. É de uma intensidade dramática capaz de nos pregar ao sofá, sem falarmos, às vezes sem respirarmos, mas indiferentes nunca.

Começo pelo título, muito bem achado, e que, quanto a mim está mais voltado para o espectador do que para a intriga. Alguém tem que morrer é aquilo que somos levados a pensar assim que o primeiro episódio se inicia: há muita tensão, há muita sisudez, há muita violência contida e explícita, há muito poder, há muita subjugação, há muita arma, para que no final todas as personagens sobrevivam aos acontecimentos cujo avanço mais não faz do que criar a sensação asfixiante de que aquilo só pode correr mal.

Ambientada na Espanha do pós-guerra, fechada, conservadora, homofóbica, retrógada de Franco, a ação coloca duas famílias do regime, movidas pelos interesses comuns - se o chefe de família da primeira gere prisioneiros, em especial aqueles acusados da degeneração ligada aos amores homossexuais; o segundo explora uma fábrica de calçado, impusionada pela mão de obra gratuita que recruta através do amigo. Se o primeiro é pai de um filho e o segundo pai de uma filha, nada melhor do que combinar-se o casamento e serem todos felizes para sempre. Se há um segredo de família - ou vários - porque no melhor pano cai a nódoa - é preciso fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para o sepultar para sempre e não permitir que a sua revelação coloque em causa o status quo: se for preciso mata-se, se for preciso exila-se, se for preciso tortura-se, se for preciso trai-se, se for preciso mente-se, se for preciso bate-se. Caso seja necessário satisfazer o desejo de poder, o desejo de brilhar, a incapacidade de se ser contrariado, recorre-se sempre aos mesmos processos.

E o que é que fica pelo meio? Os elos mais fracos; aquele que voltou as costas num momento de imprudência, aquele que testemunhou, aquele que ama, aquele que é a esposa submissa, aquele que é cônjuge de um preso político, aquele que não convém e, em especial, aquele que vinha só para ver as vistas e foi apanhado no tornado.

As personagens frequentam um clube de elite, cuja principal atividade -além daquela mais velha do mundo: ver e ser visto, manter-se na berlinda, afinar a aceitação - é o tiro aos pombos. E há neste desporto predatório toda uma mise en abîme da série. Se não estás do lado daqueles que seguram a arma, é porque estás no lado da presa, se não atiras, és alvo. Aliás a omnipresença das armas, do som dos tiros só agudiza esse ambiente opressivo em que as personagens dominadas vivem. Só há uma forma de escapar: matar ou morrer.

Poupo-vos os pormenores técnicos, quem é quem, garanto-vos que o desempenho artístico dos atores é bastante bom, os figurinos também, a frieza do ambiente outonal igualmente. Vejam a série, é muito interessante, pertinente, atual - afinal há por aí países em que foram aprovadas leis homofóbicas bastante recentemente - e põe-nos a pensar em que sociedade queremos viver, para não adormecermos no embalo das demagogias. Eu gostei!

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