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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

26
Dez19

Os livros e a (minha) vida

livrosparaadiarofimdomundo

Gosto de tarefas que me libertem o pensamento: conduzir, engomar, cozinhar, esperar num sítio com pessoas, o duche. Foi assim que nos últimos dias me foi surgindo a ideia para este post. Há memórias da minha vida que ficaram para sempre ligadas aos livros que eu estava a ler nesse momento.

1. A escola primária. Foi quando descobri os livros, ou melhor o livro: A fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner. Havia um armário com portas envidraçadas ao fundo da sala de aulas. A professora guardava aí a máuina de stencil, os químicos, as cartolinas, algum material diverso e livros, poucos como é de ver. Entre eles, a fada mais mágica de toda a minha vida. Lembro-me tão bem da descrição da casa do lenhador, da melancolia do poeta, do carinho que Oriana tinha pela velha. Oriana é um narciso regatado.

2. Um presente de aniversário que mudou  a minha relação com o mundo. Uma tia da minha mãe, que morava em Lisboa, ofereceu-me o primeiro livro que seria mesmo meu: O  mistério da Gata desaparecida, de Enid Blyton. A partir daí a ida à missa de sábado passou a ser o dia em que eu comrava um livro, se fosse obediente... Li tudo o que a senhora escreveu e as palavras, chá, pudim, leite creme, scones, leite fresco e manteiga para mim têm sempre associadas reminiscências dessas leituras em que a hora do lanche era profusamente descrita. Até o pão, que eu não apreciava em criança parecia muito apetitoso.

3. As primas que me emprestaram alguns grandes livros, que elas iam comprando e lendo. Eram cinco irmãs que descobriram a leitura à revelia de um pai à antiga que não as deixou ir à escola, porque filhos, filhas em especial, eram para trabalhar e para entregar o salário ao pai. À conta das descobertas delas li 1984, de George Orwell, e Quo Vadis, de Henryk Sienkiewicz. Mais tarde, vi o filme e descobri que havia filmes baseados em livros.

4. A biblioteca da escola. Requisitei Rebeca, de Daphne du Maurier. Aprendi o que era o suspense e os mistérios que se adensam. Depois houve uma telenovela brasileira. Não me recordo do nome, mas a história era a mesma, ou muito idêntica. Descobri a coleção Dois Mundos, dos Livros do Brasil. Achava - erradamente - que os portugueses não sabiam escrever livros. Era comum achar que os portugueses não faziam nada d ejeito naquela altura.

5. As leituras do 11º Ano. Não gostei das Viagens, de Garrett, mas delirei com Eurico, o presbítero. Percebi a meio da leitura que o Carlos e a Maria Eduarda, em Os Maias, eram irmãos. Na altura, não percebi a grandeza de Eça, nem a força deste romance, mas a vida corrigiu essa lacuna.

6. As férias na Nazaré e a livraria do "centro comercial" na cave. Havia uma banca comprida ao fundo que acompanhava todo o comprimento da loja. Expostos e ao alcance da mão, os volumes todos da coleção Dois Mundos, comecei a selecionar a leitura pela lista dos livros publicados que era a contracapa de todos os livros. Descobri Pearl S. Buck e o oriente pelos olhos dela. Nunca mais me esqueci da descrição que ela faz das mulheres orientais: as japonesas são feias, as chinesas são bonitas, as coreanas são lindas. Li de rajada tudo o que ela tinha escrito. Recordo com mais precisão Mandala (ìndia), A Serpente Vermelha, Flor oculta (foi o primeiro) e tantos outros.

7. A feira do livro organizada pela escola. Foram os alunos que desempacotaram os livros, que os marcaram e que os venderam. Fiquei com a banca das Edições 70, pelas quais passei a guardar um carinho especial e quis muito ter O mistério das catedrais. Nunca o tive. Mas comprei dois volumes de Mafalda, do Quino. Anos mais tarde, compraria A Mafalda Toda, que releio sempre que posso. A partir da í, as feiras lo livro na escola parecem-me sempre insípidas e demasiado "pronto a vestir".

8. As leituras do 12º Ano: Ilíada, Odisseia,  de Homero, falhei Vergílio. Porque quis, ninguém me mandou, ninguém me obrigou. Apeteceu-me e o fascínio pelos romances históricos nunca mais me abandonou. Vampririzo as pesquisas dos outros para aprender. Depois faço outras pesquisas por minha conta para completar espaços em branco, mas o livro é sempre o ponto de partida. Depois descobri, 10 anos antes do Nobel, José Saramago, quando li a propósito do estudo de Fernando Pessoa, O Ano da Morte de Ricardo Reisatravés do qual descobri outro fascínio: o da citação e o da intertextualidade, aquela piscadela de olho que o escritor nos faz, interpelando-nos: será que sabes? CONTINUA NO PRÓXIMO POST...  que já vai longa a lista.

 

16
Dez19

Grande Sertão Veredas, João Guimarães Rosa, a obra maior de um gigante da literatura

livrosparaadiarofimdomundo

Grande Sertão: Veredas

 

(Re)surgiu nos escaparates das livrarias o romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa e não resisti a fazer um post sobre esta magnífica obra da língua portuguesa, que merece ser revisitada por quem a conhece e ser conhecida por quem nunca a visitou. É o livro maior de João Guimarães Rosa, esse gigante da literatura brasileira, que é um bocadinho o Tolkien da lusofonia, não tanto por enveredar pelo fantástico, mas mais pela originalidade da escrita e pela criatividade inesgotável. O romance é denso, é rico, é enigmático, é extenso, é desafiante... por esse motivo vou dividir este post em fragmentos para não me perder e não vos levar a aborrecerem-se com um texto demasiado longo. Afinal, na era das redes sociais, há que cultivar o imediato se queremos merecer a atenção.

1. É verdade, não vos vou mentir, não é um livro para qualquer um! Se a sua resolução de Ano Novo for começar a ler, guarde este conteúdo para 2021. Tem de ir aos treinos primeiro, precisa mesmo, diria eu de fazer uma recruta, um programa, de contratar um personal trainer da leitura, nos tempos modernos, aposto que existe, se não existir, ofereço os meus préstimos. Grande Sertão: Veredas é extenso e as primeiras cem páginas estão lá como casting, como prova de seleção, se as superar vai ler o livro, se lhe parecer difícil, não desista e persista. Eu tentei três vezes, só à terceira é que a leitura arrancou, mas que leitura! 

2. Não tenho um livro da minha vida, nem vários, tenho uma estante. Grande Sertão: Veredas ocupa o centro da prateleira do meio. É uma leitura que consigo rememorar quase sensivelmente, leia-se pelos sentidos. Ainda me ardem a garganta e os olhos por causa da seca do sertão. Ainda não chorei totalmente por causa da história de amor que o atravessa. Ainda não superei a memória de Fausto que pontua as páginas. Ainda não encontrei nem na literatura nem na vida personagem tão enigmática e profunda e sedutora como Diadorim, que o protagonista venera, com um incómodo como o de Alberto Caeiro, como quem tem um pé dormente. Ainda não fiz o luto por aquelas personagens errantes do cangaço. A obra tem merecido bibliotecas de estudos que a procuram decifrar, interpretar, explicar. É a mãe de todas as obras, é o anel dos críticos literários, é o Graal de todos os leitores, para o possuir é preciso sofrer provações, mas o final é redentor.

3. Grande sertão: Veredas  conduz-nos como numa demanda, o leitor veste a armadura do cavaleiro e erra pelo sertão brasileiro, mergulhando nas suas questões sociais, políticas, económicas, de mentalidade. Percebemos a razão de ser dos chefes capangas, dos bandos, do banditismo, tudo se explica pelo cadinho que é o Brasil e em especial o sertão. Mas estão lá, plasmadas na secura da vastdão do sertão, grandes questões da condição humana: a vida e a morte, a culpa e o pecado, o amor e o ódio, a paz e a guerra, a beleza e o sublime. Os cangaceiros de Guimarães Rosa são grandes como qualquer cavaleiro andante, são trágicos como Quixote, são homens como nós, estão divididos, encontram-se só para se voltarem a perder, questionam a razão de ser do destino como qualquer filósofo grego, são platónicos e aristotélicos a um só tempo, são, acima de tudo, um produto cultural que é a soma da realidade brasileira com a cultura inesgotável deste autor. Vale a pena ler este livro. É uma experiência que nos recria e que recria a nossa relação com a cultura. Se ao chegarmos a este livro tivermos a alma pequena, depois de o lermos, será impossível que ela volta à dimensão original.

4. No fim de tudo é o amor, a tragédia do amor que esteve sempre próximos e estavamos cegos e não o vimos e era tão óbvio.

5. Último conselho: à exceção deste post, que mais não é do que um incentivo, uma provocação - quem serei eu para dizer que este livro não é para si, caro leitor? - não leia mais nada sobre Grande Sertão: Veredas, comece a leitura como se fosse cego e aprendesse a ver, acompanhe a narrativa de Riobaldo com a suas hesitações e derivas, comece a perceber pouca a pouco sobre o que é o livro, decifre o enigma, e, no final surprenda-se, porque estava enganado. Fico à espera que venha aqui, ou descompor-me, porque um livro destes não se recomenda, ou agradecer-me, porque se eu não falasse nele, podia nunca o descobrir. Vista a armadura e percorra o sertão, veredas não lhe hão de faltar!

 

 

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