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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

05
Out21

Feliz Dia do professor

livrosparaadiarofimdomundo
A minha professora primária foi a D. Teresa. começou a dar-nos aulas muito jovem e recém casada, o marido levava-a para a escola de bicicleta. Aos meus olhos, era lindíssima. Aprendi imenso com ela durante três anos, aprendi a gostar da escola de maneira absoluta, de tal forma que não gostava das férias porque interrompiam a escola, que era o sítio onde eu mais gostava de estar, só concedendo um bocadinho à leitura, depois que a descobri. Foi com ela que descobri que queria ser professora.

 

Quando terminei a 4ª classe, a D. Teresa deu-me um presente, um livro de autógrafos, com capa verde, que ainda conservo. O primeiro autógrafo que pedi foi o dela.

 

A D. Teresa foi a primeira pessoa a acreditar em mim, acreditava tanto em mim que conseguiu convencer os meus pais a deixarem-me prosseguir estudos, porque era mesmo uma pena..., escapando assim ao destino da maior parte das meninas da minha idade: trabalhar nas fábricas, onde a oferta de emprego era muito maior que a procura.

 

Mantive com ela uma relação que se tornou amizade: eu seria para ela sempre a Nelinha e ela nunca deixou de olhar para mim como quem acredita. No dia da benção das fitas, no final do percurso académico, ofereci-lhe uma fotografia, reconhecendo que tudo tinha começado com ela. Foi ao meu casamento e ao batizado do meu primeiro filho e foi ela quem ofereceu a conha com que sobre ele se derramou a água da unção.

 

A D. Teresa veio a falecer de cancro, pouco tempo depois, uma doença que também acompanhei de perto, visitando-o no hospital. No seu funeral, chorei como quem chora alguém de família, ainda hoje sinto falta dela na minha paisagem emocional.

 

Partilho convosco esta história, porque para cada um de nós, há de haver um aluno que contará a alguém a forma como fomos importantes na sua vida. Não somos importantes para todos, não somos importantes para todos da mesma forma, mas tocamos muitos, fazemos aquela diferença que as estatísticas não contabilizem, porque não é do domínio do contável, mas é a diferença que conta.

 

Partilho também para que nos recordemos que temos a profissão mais bonita do mundo, mesmo que, na espuma dos dias, isso não seja relevado, a verdade é que é mesmo assim. Todos nós fomos alunos, todos nós temos as nossas referências, as minhas são muito mais do que a D. Teresa, mas, acima de tudo, todos nós já constituímos uma referência especial para alguém. É isso que nos escora.

 

Feliz dia do Professor,
21
Set21

#Às vezes também vejo séries 3 - Stateless, da arbitrariedade

livrosparaadiarofimdomundo

Tem sido assim nestes últimos tempos, muito trabalho e pouco, muito pouco do que me permite sentir que vivo. A leitura tem estado em banho maria. Entretanto, consegui ver séries na modalidade de que mais gosto: minisséries.

Assim, cheguei a Stateless, cujo título significa de "sem estado", estado político, tutela. Vi na Netflix, tudo de rajada que foi para isso que se fizeram os domingos e para que as segundas-feiras custem um bocadinho mais, já que me deitei a horas inconfessáveis, mas vi, tive de ver até ao fim, a suster a respiração e a falar um bocadinho sozinha.

Os aspetos técnicos da série são muito bons, em especial a linha narrativa que faz confluir as histórias dispersas que se vêm a cruzar no lugar onde não se tem estado,  um campo para refugiados na Austrália. Entre esses, por engano, encontra-se uma australiana que foge de si mesma e que aí permanece (esta parte é baseada em factos verídicos).

Há três eixos narrativos que sustentam a ação e que representam outras tantas perspetivas sobre o que ali se passa: os refugiados - sublinho a forma como as palavras, a designação escolhida destitui aquelas pessoas, que são os não-cidadãos ilegais -; os guardas do campo, as instituições que gerem o campo. Todos são objeto de forças que os esmagam, todos se digladiam perante a humanidade/desumanidade com que têm de lidar. O diretor do campo e a agente do governo, cuja maior preocupação é não ser notícia dos jornais, sobretudo se essas disserem respeito às condições em que se encontram os "habitantes do campo". Os guardas do campo, uns aproveitando o poder que têm sobre aquelas pessoas "sem estado" para darem largas a um certo impulso para a violência que sempre parece surgir perante aqueles que estão verdadeiramente indefesos; outros vivendo em conflito com a sua consciência perante a crueza do que observam e que os vai transformando. Os refugiados, histórias repetidas de violência, de perda, de pobreza, de oportunismo, de esperança, de humilhação, de rostos maltratados de quem a tudo se submete para obter um visto e não ser obrigado a voltar.

Tudo na série concorre para esse ambiente opressivo que esmaga o espetador, que nos envergonha, que nos obriga a tomar consciência da nossa impotência. A localização do campo, no meio do deserto australiano, a cor vermelha da terra, o calor opressivo, a sujidade, o pó. As roupas transpiradas dos guardas,  a sua falta de preparação para o serviço que prestam, a sua brutalidade, as armas, a troça e o riso, a incompreensão. Mas, em especial, os refugiados, cuja única opção é esperar: esperar pelo agente da imigração, esperar pela entrevista, esperar não errar com as  palavras, esperar não cometer nenhum erro que impeça a atribuição do visto, esperar pelo visto, esperar em vão durante anos, esperar não ser repatriado, esperar para se reunirem à família, esperar apenas. A agente do governo assoberbada, os processos que se acumulam, a impotência, a gestão da pressão, a gestão de um campo que sintomaticamente é comparado a uma panela de pressão prestes a rebentar.

Não me posso alongar. É, apesar de tudo isto, uma série muito bonita, que vale muito a pena ver. Consegue evitar o facilitismo da narrativa. É dramática com autenticidade. É crua sem condescendência. É didática. É reveladora da enorme confusão que é para o mundo esta questão das pessoas deslocadas, estes não cidadãos, como a jovem curda que não se atemoriza com as condições do campo, porque tinha passado por atrocidades bem maiores. Gostei muito, mesmo muito.

22
Ago21

#21/2021: Antes que o café arrefeça - podia ser mais.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Antes que o Café Arrefeça

Editorial Presença

184 páginas

Um dos prazeres da vida é, antes das férias, ir à livraria comprar livros. Lembram-se da birra do outro dia? Não devem lembrar-se que têm mais do que fazer do que prestar atenção ao que eu escrevo. Mas, enfim, a verdade é que em véspera de viajar ainda fui à livraria e comprei umas coisinhas, nada daquilo que me parecia querer. Como este ano, arrisquei outra vez a vida a viajar de avião, pensei que precisava de um policial para conseguir suportar a viagem, ou livros fáceis, ou qualquer coisa que eu pegasse e não conseguisse largar. Depois, tomei uns comprimidos e vim amodorrada e não li nada. Mas na bagagem de toda a gente da família vieram livros (cinco para ser mais precisa)já que tenho horror a que eles me faltem. 

Um que veio comigo foi este e, assim que o li, tornou-se em mais uma preciosa lição de vida: Manuela Lourenço não se comprar livros que diz que são fenómenos e que tda a gente leu! Não vás atrás dessas euforias. Mas eu fui... e arrependi-me um bocadinho.

O livro é light, mas tem, para mim, o mesmo defeito que sempre encontrei na série A Guerra dos Tronos e que é eu sentir-me manipulada, ou que o autor nã se esforçou muito, ou que é tudo tão previsível, ou que é fácil, porque se pega em temas que o são: um casal separado pela doença, uma mãe e uma filha separadas pela morte, duas irmãs e também a morte... Antes disto, já o Nicholas Sparks tinha esgotado este filão. Logo, fiquei assim a modos que "dinheiro tão aml empregue".

Vamos lá ver uma coisa: há momentos no livro que são bem conseguidos, há ideias bonitas, há referências interessantes. Há, sobretudo o aroma do café. É isso, nesse aspeto o livro é muito sensorial e a figuração do espaço é também enigmática. Quase a mesma sugestãoq ue havia nos livros da Enyd Blyton quando descrevia os lanches dos cinco. Mas é pouco paraum livro. É muito pouco.

Agora não me batam muito, já sabem aquilo que eu defendo sempre, livros não são evangelhos e nem todos professamos a mesma religião. Se alguém tiver lido e quiser vir discordar comigo, eu agradeço, pode sempre ter-me escapada alguma coisa e hoje decerto não foi a veia caústica, porque estou de férias.

Amanhã, venho aqui falar-vos de outro, que podia ser um bocadinho menos...

11
Ago21

Motivos pelos quais eu podia fazer birra

livrosparaadiarofimdomundo

Os livros são, desde sempre, objetos de desejo, uma adição, uma dependência.

Hoje, estive numa livraria. Depois de um dia de trabalho intenso, rumei a uma catedral da não-vida, o maravilhoso shopping, arrastada por uma filha que tem muito mais energia do que eu para essas coisas. Não entrei nas muitas inditex das nossas vidas, entrei contariada numa parafarmácia, a pontos de não o fazer, mas aí tinha mesmo de ser, e comprei uma mochila de que também precisava mesmo. Foram esses os motivos porque me deixei arrastar para ali.

Depois demorei-me numa Fnac,  apaixonei-me por vários coisas ao mesmo tempo:

Wook.pt - Jalan, Jalan    A Forma das Ruínas - IPS   Wook.pt - O País dos Outros

  Se o Disseres na Montanha

 

Mas os livros são caros e, num instante me arruinaria, além disso, não me faltam livros para ler em casa, mas faltam-me estes, estes estão mesmo a fazer-em muita falta...

Vierm duas pessoas silenciosas no carro, porque lhes faltava um objeto de desejo, as jardineiras inditex eram mais baratas que os livros...

Faltam estes livros para poder ser feliz estas férias e tenho a certeza que há tratamento, mas esta não é uma doença perigosa. Faltam-me estes livros e estou a pontos de fazer uma birra.

 

09
Ago21

#20/2021 - Gaspar, Belchior e Baltasar, Michel Tournier: voltar ao lugar onde se foi feliz.

livrosparaadiarofimdomundo

 

Wook.pt - Gaspar, Belchior & Baltasar

D. Quixote

255 páginas

Releitura

Tudo o que está relacionado com este livro me faz feliz. Li-o há muitos anos, ainda estudante em Lisboa, e ele lembra-me esse tempo de deslumbramento em que descobri Michel Tournier, um dos escritores de que li tudo o que está publicado em português. Lembra-me também o Natal, mas um Natal secreto e misterioso, com raízes na história anónima do Rei Taor, que é a mais humana e a mais comovente. Lembra-me ainda a ternura, a surpresa e o fascínio que este livro exerceu em mim quando o li. Lembra-me, por fim, a vida secreta dos livros, porque, sendo um livro de que gosto muito, recomendei-o a toda a gente que conheço e mais além, até que ele se perdeu de mim e, um dia, quando o procurei nas minhas prateleiras, ele não estava. Espero que esteja a fazer alguém feliz. Mas uma amiga muito querida ofereceu-mo no último Natal, ou seja, ofereceu-me o próprio Natal no Natal. E há dias terminei a sua leitura e, ficou decidido, os livros também se fizeram para serem relidos, para serem revisitados e, felizmente, para se tornarem confirmações e, como neste caso, amplificações dessa primeira leitura.

Também conservo na memória que uma das razões pelas quais este livro exerce um enorme fascínio em mim tinha a ver com o seu ponto de partida: sobre os Reis Magos, como os conhecemos, ou os Reis do Oriente, a Bílbia apenas refere cerca de dezasseis versículos, no Evangelho Segundo S. Mateus, nenhum outro evangelista lhes faz referência; o número três infere-se do facto de serem três os presentes oferecidos: ouro, incenso e mirra, tudo o resto são textos apócrifos, lendas e um maravilhoso romance de um autor francês que nos dá uma obra cheia de beleza, mistério, exotismo e humanismo. Michel Tournier inventa uma biografia completa para cada uma das personagens que dão título ao romance, coloca a génese da sua viagem como uma necessidade de encontrar refrigério, respostas, pacificação, cada um dos reis tem uma motivação diferente e todos se cruzam na corte do Rei Herodes, ele mesmo personagem e voz do romance, explicado por si mesmo, explicado também o massacre dos inocentes. A estas figuras que nos são mais familiares se junta Taor, o Rei que vem de mais longe, o mais ingénuo, o mais preso às coisas da terra, mas igualmente o que mais as sublima e o que mais se espiritualiza. E é deveras intrigante, espantosa mesmo a forma como a mestria do romancista costura estas histórias, cerzindo-as com tal meticulosidade que tudo nos parece verosímil e, tal como afirmava Umberto Eco, quase esperamos ver estas referências nos textos sagrados do Novo Testamento.

Mas é de um testamento também que Tournier trata: é o testamento do amor desinteressado, da necessidade da beleza para nos elevarmos da nossa condição de animais, da efemeridade do poder e da glória, da inocência como idade primordial, como uma espécie de grau zero a partir do qual se pode moldar a verdadeira grandeza humana. É também testemunho contra a intolerância, a traição, a vileza e a violência e outra vez a inocência...

É acima de tudo a beleza da linguagem, a perfeição das frases, a delicadez das imagens criadas, o realismo e o maravilhos, céu e terra, fogo e água, sal e açucar, dor e redenção, queda e ascensão, martírio e exaltação. Tudo servido ao leitor com toques de sublime, de génio, de individualidade. É tão bonito, mas tão bonito este livro. 

25
Jul21

#19/2021 - O vício dos livros, Afonso Cruz: um autor viciante.

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Vício dos Livros

Companhia das letras

118 páginas

Maravilhoso!

Já devo ter dito/escrito várias vezes que Afonso Cruz é um dos escritores da atualidade que mais me entusiasma. É absolutamente versátil, reiventa-se em cada livro que dá a lume e é também inspirador.

O vício dos livros é composto de histórias curtas, umas de dois ou três parágrafos, outras de duas ou três páginas. Têm em comum, como o título anuncia, os livros, a leitura, a escrita, a relação extraordinária que mantemos com os livros, a forma como nos lemos neles e a forma como cada leitura é igualmente uma reescrita. 

O que faz deste livro uma obra apaixonante será talvez a imensa cultura literária de Afonso Cruz, leitor compulsivo, escritor apaixonado. Para além de ficar evidente que o autor acredita nos livros e na leitura como uma forma muio específica de afirmarmos a nossa condição humana, de nos sublimarmos, de ascendermos acima da barbárie que muitas vezes nos rodeia e de que é também feita a humanidade, é clara também uma certa forma de humanismo que é muito própria deste autor. É transversal aos seus textos uma certo otimismo, uma crença na bondade humana, nos valores da tolerância, da aceitação, da gentiliza, da compaixão que muito me dizem. Pedindo desculpa pelo exagero, é como se a escrita de Afonso Cruz me desafiasse sempre a ser melhor pessoa.

Este livrinho mantém esse desígnio, cada uma das histórias é uma inspiração, mais ainda do que para lermos ou para fazermos do livro um objeto privilegiado nas nossas vidas, há em cada uma das histórias um apelo diferente. Os livros estão na base de casamentos, de amizades, de guerras, de inimizades, de acidentes. Os livros permitem adiar a morte, dão-nos a cultura necessária para distinguir o essencial do acessório, são alimento, são liberdade, permitem respirar, descansam-nos, são exigentes, não são para todos e todos são para os livros, oferecem-nos a possiblidade de sermos felizes, são testemunhos de um tempo e aviso para a navegação, fazem-nos rir e chorar, ligam o passado e o presente, permitem-nos manter o diálogo com as pessoas que amamos e que perdemos, são um perigo, imortalizam os grandes homens (já dizia Camões), descomplicam, tornam a realidade suportável, levam-nos mais longe, são vozes que nos circundam e a que devemos estar atentos.

Está tudo neste compêndio, neste tratado sobre os livros. Vão lá ler se não acreditam no que estou a dizer. É um excelente livro para livro de cabeceira, para folhearmos ao acaso e deixarmos que o oráculo destes epigramas, destes adágios fale connosco e nos ilumine por instantes. Dá-me vontade de ler mais.

24
Jul21

18/2021 - Seda, Alessandro Baricco: nunca sabemos os porquês

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Seda

115 páginas

Releitura

Há dias, ao olhar os título da estante, deparei-me com este Seda, de Alessandro Baricco. Trata-se verdadeiramente de um opúsculo de 115 páginas, com capítulos curtos, a lembrar a exatidão dos Haiku. E apeteceu-me relê-lo, o que rendeu um curto serão de leitura muito bem passado.

Tinha-o lido em agosto de 1999. Lembro-me que, nessa época, quando terminavam as aulas, ia a uma livraria e comprava sacos de livros. Deste lembrava-me nitidamente de uma intensa paixão, de uma francês fascinado por uma concubina japonesa, misteriosa e inacessível. Pois lembrava-me de pouco e mal.

Do que não me lembrava era da delicadeza deste livro, do cuidado colocado na linguagem, da forma como tudo o que acessório tinha sisdo varrido. O romance copia a subtileza e a leveza da própria seda, matéria preciosa e rara na Europa do século XIX, criando uma atmosfera insólita, exótica, etérea, feita de gestos contidos, meticulosos, pensados. Numa das passagens, diz-se que a mulher do protagonista quando tomava nas mãos uma túnica de seda era como se agarrasse o vazio, o nada e quase acontece isso neste romance, tão poético é na forma como conta a história.

Há também a diferença cultural entre a Europa do século XIX, mercantilista, civilizada, crendo-se evoluída, e o Japão, do outro lado do mundo, quase feudal ainda, profundamente cerimonioso, regendo-se por leis, regras e costumes que é preciso respeitar sob pena de se perder a própria vida, bárbaro e ritualizado, mágico e perigoso para o "estrangeiro".

O mais espantoso é como é que um livro tão breve consegue desenhar personagens tão complexas, tão fascinantes, tão exatas e tão pouco nítidas, tão misteriosas e tão, mas tão belas. Poderíamos ser tentados a julgar que a bela japonesa por quem Hervé Joncour se perde e se arrisca seria a mais bela personagem do romance e, afinal, a bela Hélene, sempre fiel, sempre presente, sempre garantida, é a que se impõe no relato, não pela beleza da sua voz, mas por ser a verdadeira ave do paraíso que Hervé, tendo-a junto dele, não se paercebe da sua grandeza.

Dentre muitas passagens absolutamente primorosas, há uma que quase explica a índole enigmática do livro. A dada altura a voz do narrador, nitidamente a voz que escolhe o que é dito, afirma que "nunca nos lembramos dos porquês" e, na verdade, neste livro, nunca ficamos a saber os porquês, ou os como...

Mas, de um livro destes, não há muito a dizer, é preciso aproximarmo-nos dele como Hervé do lago da sua propriedade, fitando nele a fragilidade da própria vida, das certezas, como quem fita a água levemente agitada pelo vento, leve e inexplicável espetáculo. Calemo-nos pois.

14
Jun21

Às vezes também saio de casa: instantâneos da Serra da Estrela III

livrosparaadiarofimdomundo

Tanta coisa para contar uma escapadinha só pode significar uma de duas coisas: ou que viajo pouco, ou que a viagem foi muito interessante. Enfim, também pode ser falta de experiência, afinal isto é um blog sobre livros e eu ando por aqui a meter a foice em seara alheia. Pois bem, o blog é meu...

Então, no dia seguinte, logo pela manhã, passagem por uma mercearia para adquirir bens essenciais, que foram pão e cerejas. É verdade, queijo da serra não se encontra em qualquer lado! Viagem até Manteigas, com uma manhã gloriosa, mas fresquinha já se sabe. Em Manteigas, logo à entrada, há uma loja que vende queijo da serra e foi logo ali - eu sei, devia dizer o nome, mas já não me lembro. Escolhemos um queijo curado, o amanteigado pareceu-nos arriscado e um paio do cachaço. O senhor disse-nos que o queijo era artesanal e que até a casca se comia: e amáquina diz que é verdade! Entretanto, comecei a ficar preocupada com a forma como iríamos partir o queijo e o paio em plena serra e, num repente do meu maior descaramento, perguntei se o senhor nos emprestaria uma faca - inteligentemente perguntei antes de pagar - que lha devolveríamos seguramente ao fim do dia, dando-lhe a minha palavra. Pois disse que sim e com um ar muito grave, acrescentou que, se não o fizéssemos, seria um problema da nossa consciência (Eu disse que havia facas). Devidamente abastecidos, fomos procurar um táxi que nos levasse ao Covão da Ametade.

Eu ainda não disse, mas eu sou um co-piloto horroroso, que acha sempre que quem vai a conduzir está a fazer uma condução suicida, de maneiras que fiquei muito feliz por o motorista que nos calhou ser um respeitável senhor de cerca de setenta anos que, sem dúvida, conduziria tranquilamente, permitindo-me apreciar a paisagem com toda a calma. Mas o demo andava à solta. O plácido senhor era um piloto de rális travestido de motorista de táxi e percebi isso assim que arrancou, com uma guinada e uma travagem muito brusca dois metros mais à frente. E estava marcado o ritmo, acelerar serra acima, comigo a encolher-me no banco de trás, convencida que o carro iria raspar pelas paredes de rocha, que a minha vida terminaria depois da próxima curva, que aquela ultrapassagem com um peão de frente não podia estar a acontecer, que, com uma camioeta à frente ele só podia acalmar, mas não ultrapassou-a também. O meu mais que tudo, apesar de ir com as minhas unhas cravadas na palma da mão, levou a curta viagem toda com um sorriso sardónico. Enfim, quando me vi a sair do táxi, pensei para mim que a caminhada podia ser de cinquenta quilómetros que eu iria a pé até Manteigas, chamar um táxi acabava de estar fora de questão. Quando ficamos a só, ouvi a pergunta: que dizes agora à minha condução, tive de dizer suave e segura.

Mas, assim que me vi no prado do Covão da Ametade, esqueci aquela corrida mais louca do mundo e deixei que aquela beleza me inundasse e ficámos ali um bocadinho a sentir o sol, a ver o verde, a ouvir os pássaros, doidos naquela manhã... e comi cerejas. Foi tão bom que ainda duvidei se tinha sobrevivido ao táxi. Depois, depois foi a caminhada. O trilho segue cerca de quinhentos metros ainda na estrada, invertendo de repente para dentro do vale do Zézere. É um descida abrupta, por entre vegetação muito alta, muitas árvores, saltando de pedra em pedra, um pouco escorregadio, mas que me foi deixando cada vez mais convencida que era melhor fazê.lo a descer do que a subir. A Primavera estava ali em força, havia flores por todo o lado, borboletas de todas as cores (predominavam os vermelhos e os acastanhados), o caminho era cortado com frequência com ribeiros que se precipitavam serra abaixo para se juntarem ao rio que ia engrossando a voz bem abaixo de nós. Nesta vereda estreita ainda nos cruzamos com outros caminheiros que subiam. Um tempo depois, a vereda tranforma-se num estradão largo, aberto, mas sem nunca se aproximar do rio que, ainda assim, corre bem abaixo de nós. O prado espraia-se um pouco e avistam-se os primeiros abrigos para os rebanhos e, mais uma vez, fica marcado o tom: será assim toda a descida para Manteigas. Apenas quando o caminho nos leva a cruzar o rio  para a margem esquerda, olhamos de frente o rio, que ali se tranquiliza antes se se lançar por pequenas cascatas por entre os enormes blocos de granito. Ali, naquela candidata a praia fluvial, nos sentamos e provamos do nosso almoço. Tudo maravilhoso. E ainda arranjei coragem para estar de pés mergulhados na água, sem que a circulação fosse cortada pelo frio. A descida para Manteigas manteve-se suave e a caminhada faz-se quase sem se sentir. Os painéis informativos ajudam a reconhecer as espécies florais, os insetos e os animais.

À chegada a Manteigas, devolvida a faca, o objetivo era ainda fazer um outro trilho - seriam mais cinco quilómetros, o das faias, mas era preciso fazer com os dez quilómetros deste fossem esquecidos, por isso sugeri que subissemos ao vale do Rossim, para descansarmos à beira da barragem e, como a cortada para o trilho das faias ficava a caminho, seria mais fácil sugeri-lo com um ar perfeitamente desprevenido, qualquer coisa como vamos ver o que é isto, olha um trilho, ainda podíamos fazer, dava tempo... Tudo muito verto, mas não contei com o vale do Rossim, esse sedutor. 

A praia fluval do val e do Rossim fica na zona das Penhas Douradas, é absolutamente tranquila, o azul da água espelhava o azul do céu, a água é limpída e, acima de tudo, tem um bar, com uma esplanada fantástica, umas espreguiçadeiras para estes exaustos caminheiros e não houve nada que nos arrancasse dali. Além disso, estava sempre a passar música excelente e os pequenos que estavam à frente do espaço sabem geri-lo, sabem, sabem. Que tarde! Li até me cansar e depois deixei-me só ficar, numa conversa vadia e preguiçosa, até o sol começar a cair e começar a fazer-se sentir um friozinho que já nos empurrava dali para fora. 

Descemos a serra ao mesmo tempo que a noite caía e, quando chegamos a Manteigas, começámos a pensar que chegaríamos tarde para jantar na Covilhã, pelo que consultámos o "ti" Google para encontrar recomendações e pareceu-nos que a Queijaria de Manteigas seria boa escolha. E foi. Para não vos maçar, é um sítio muito descontraído - mas encheu - que serve petiscos e tem um atendimento jovem, muito, mesmo mesmo muito amável e atencioso, do género, podem ir pedindo, não peçam tudo de uma vez... Saiu uma tábua de queijos enchidos - não sei se da caminhada, mas tudo me pareceu sublime - uns pastéis que eram a especialidade do dia, uma compota de medronho, um tinto macio, diz que era um vinho de altitude, uma tarte de frutos vermelhos bem alternativa e o bolo de chocolate, ai o bolo de chocolate. 

Pois, como disse, foi um final feliz... quer dizer, depois do jantar foi preciso regressar à Covilhã, novamente pela estrada que serpenteia pelo vale glaciar, numa escuridão que nada quebrava, um breu mesmo. Fiz o caminho caladinha, muito assustada, mas sem dar parte de fraca, que estas ideias são minhas. Depois das Penhas da Saúde o mar de luzes da Covilhã e do Fundão faziam a noite mais acolhedora. 

Não vejo a hora de regressar à Serra da Estrela e ver se daria para me mudar para lá, vive em mim, alojada na minha alma, uma montanhesa.

10
Jun21

Às vezes também saio de casa: instantâneos da Serra da Estrela II

livrosparaadiarofimdomundo

Depois de Loriga, regressámos a Lapa dos Dinheiros e toca a fazer o percurso pedestre (PR 10 Seia). No início, a coisa foi muito idílica, cerca de 15 minutos a descer por entre um bosque húmido, sombrio, perfumado e uma pessoa vai pensando que não há nada como uma boa caminhada na natureza. Daí a pouco, inverteu-se a coisa e toca a subir, a subir, a subir, a subir, ai que já não entra oxigénio, raios partam estas ideias de caminhar na natureza, já não tenho idade para isto. A praia da Lapa dos dinheiros estava um bocadinho "nheca" nesta altura e decidi logo que a de Loriga tinha mais encanto. Depois de restabelecer a respiração, como é que era o próximo troço? Pois, a subir e eu maldisse a minha vida muitas vezes, mas em modo fluxo de consciência que o meu mais que tudo não estava a achar mesmo graça nenhuma e eu não podia dar parte e fraca, alguém tinha de manter a moral em cima. Horas depois... o caminho esticou-se à beira de uma levada, onde uma água limpída corria veloz, caminhamos um bom bocado na horizontal e a serra está tão bonita nesta altura do ano que comecei a colher flores silvestres. Já levava comigo um vistoso bouquê de cravos do monte, de dentes de leão, de orquídeas, de botões azuis. Nisto, olhei para cima e estranhei ver a sinalização do percurso bem acima, pintada numa parede de rocha e, antes mesmo de perguntar porquê, vimos o sinal de virar à esquerda, mas à esquerda era praticamente uma parede de rocha, na vertical, com uns tufos de feno agarrados, mas era mesmo assim. Depois de convencer o mais que tudo que agora não íamos voltar para trás, toca a subir, de gatas, agarrados aos tufos e, como precisava mesmo das duas mãos, tive de deixar o meu bouquê, que foi o que mais me custou. Parece que havia por ali uma formação rochosa que se chama "Cornos do Diabo" e, efetivamente, aquilo parecia obra do demo. Depois da escalada, havia uma espécie de planalto e dali pudemos ver o ribeiro a escoar-se por entre rochas de enorme granito, a vista tornou-se bonita assim que conseguimos respirar. A partir daí o caminho espraiou-se, ou pelo menos foi assim que fiquei a lembrar-me dele, descendo por entre bosquezinhos, pinhais e ervas altíssimas, tudo outra vez muito bucólico, muito agradável e já se ouvia o sino de Lapa dos Dinheiros. Mais próximo da aldeia, mais um exercício de cabra montesa, descer ao lado de umas quedas de água lindíssimas, tudo muito húmido, muito medo de cair e, quando desembocámos na aldeia, demos com um hotelzinho com umas cercanias de fazer inveja, com umas espreguiçadeiras que só de olhar eram de apetite e nós a esfarrapar-nos pela serra. Começo a duvidar das minhas boas ideias.

Subimos para a serra pelo Sabugueiro. O sol brilhava agora num céu azul ferrete, como diria o Eça. Parámos no Sabugueiro, numa daquelas lojas que vendem tudo, desde barros do Alentejo a fontes budistas, passando por tapetes da china e queijos da serra e enchidos e ainda têm uma esplanada e um café e servem sandes e tábuas de queijo. Pedimos, cá fora, ao sol, uma tábua de queijos e tive o meu desgosto a sério, a senhora disse-nos que não tinha pão de centeio, tinha vendido o último e só sobravam duas carcças, que fossem as carcaças e a acompanhá-las uma tábua de queijos e enchidos. Entretanto, o demo abriu as portas e pôs-se um frio de novembro, entramos na loja e o senhor disse que havia uma mesa ao fundo, onde nos podíamos sentar, no meio dos casacos, dos barros, das loiças, dos tapetes (eu já tinha dito que isto era um blog de viagens brega), mas com uma vista soberba (estes clichés) para a encosta de serra. Veio a tábua, a garrafa de vinho para nos servirmos, e tivemos um momento tão tranquilo que não dá para descrever. Adoro o meu país, nestas suas idiossincrasias, nesta mistura de queijo amanteigado de excelência com tapetes importados da china. 

Regalados, continuamos a subir em direção à Torre para depois descermos para a Covilhã (já tinha dito que escolhemos mal o sítio onde ficar?). De repente, abaixo de nós formou-se um mar de nuvens e de névoa, que pareceu cristalizar, como um enorme merengue ou como se estivéssemos a andar de avião, por cima, mantinha-se o azul ferrete e o brilho doido do sol. Acho que foi das paisagens mais "misty" e serenantes que já contemplei. Chegados à Torre, decidimos ficar ali a contemplar o por do sol, e não éramos os únicos. É indescritível a magia daqueles instantes, o tapete/mar de nuvens, com aspeto quase sólido, consistente e aquele sol todo e o azul. Foi ficar ali contemplativamente e desceu sobre mim uma calma de que há muito precisava e que ainda conservo algures dentro de mim, mas, como os balões, vai perdendo volume.

Na descida para a Covilhã, com o céu já de todas as variantes cromáticas, do lilás, ao rosa, com tons de azul muito ténue, fui, com uma voz que eu sei modular muito bem, falando, na minha ideia para o dia seguinte: levantar cedo, ir até ao Covão da Ametade, fazer a pé todo o vale glaciar de Manteigas. Silêncio como resposta - é um percurso linear. Acrescentei que podíamos ensaiar um dia de pastores, levando na mochila queijo, pão, um enchido, fruta e almoçar à beira do Zêzere. Continuei sem resposta. Terminei dando a ideia de, depois da caminhada, regressarmos de táxi ao Covão da Ametade. Como contraproposta, recebi a ideia de fazermos ao contrário: deixarmos o carro em Manteigas, subir ao Covão de táxi e depois fazer o percurso. Já estava! No dia seguinte, haveria outra caminhada.

Continua no próximo episódio, com cenas de ação que metem facas, condução perigosa e um final feliz.

07
Jun21

Às vezes também saio de casa: instantâneos da Serra da Estrela I

livrosparaadiarofimdomundo

No passado fim de semana, também eu saí para fora cá dentro.Escolhemos um destino que conhecemos pouco, no qual nunca tínhamos estado no verão - se é que o tempo que temo tido em Portugal se pode chamar verão: a Serra da Estrela.

O plano era assentar arraias num sítio e depois, daí, partir à descoberta dos sítios todos que, depois da consulta na Internet, nos pareceu essencial conhecer. Escolhemos a Covilhã e escolhemos mal e porquê? Não por culpa da Covilhã que me pareceu uma cidade dinâmica, embelezada e muito atraente. Pareceu-nos, porque nos limitamos a ir dormir à Covilhã e tomar o pequeno-almoço, incluído na dormida. Portanto, se queres passar uns dias nos montes hermínios, vai para a Manteigas, é mais central e em princípio não tens de andar a palmilhar estradas de montanha, num breu aterrador, com medo dos abismos à tua direita, por volta da meia noite, quando regressas para dormir. 

Por ser impossível resumir dois dias cheios num post sem ambições, vamos recorrer ao esquema tópicos e a vossa imaginação fará o resto.

1. Chegada à Covilhã, por volta das 23:30, telefonema para o local de dormida, cuja hora limite de check in indicava 23:00. Depois de um telefonema, o funcionário, amabilíssmo, garantiu-nos que não havia problema, tocaríamos à campainha e ele levantar-se-ia e viria abrir a porta. Mesmo com GPS, parecia impossível encontrar o local, depois de algumas voltas infrutíferas, como era, nitidamente, uma noite académica, perguntamos a um grupo de seis rapazes se nos podiam ajudar. Oh, se puderam, sacaram dos seus telemóveis, procuraram e guiaram-nos à residencial. Muito tocaditos, muito simpáticos, pelos meio ainda nos perguntaram "pagas umas jolas?" - a mim, que sou uma senhora!. Quando lhes agradeci, ainda me disseram: "Tudo bem, tamos (sic) juntos!". Há esperança para o futuro. Dormida extenuada.

2. No dia seguinte, subida à Torre, pois claro! Saída do carro, junto ao Covão do boi. Choque térmico. Com um vestido de verão, sem collants, completamente desprevenida, fui apanhada de supresa pelos gélidos 9 graus que se faziam sentir. Fogo! Corrida para o carro, que a paisagem também se aprecia muito bem de dentro dele, com o ar condicionado ligado. A subida da serra, nesta altura, com a primavera a explodir por todo o lado, as giestas a pintarem a paisagem de amarelo a perder de vista, as nuvens e o nevoeiro abaixo de nós, sentimo-nos numa "misty" paisagem. Recomendo. Depois da Torre, descida a manteigas, pelo fantástico vale glaciar. Paragem para café. Continuava frio e, de repente aborreci-me por andar de carro. Num repente, decidimos ir até Seia, porque lemos que havia um percurso pedestre fantástico, bem como duas praias fluviais a valer a pena, a de Loriga e da Lapa dos dinheiros. A vertente oeste (?) da Serra estava mergulhada num nevoeiro quase assustador, enjoei na viagem, tivemos de parar para eu vomitar. O dia estava mesmo a valer a pena! Chegamos a Seia e pareceu-me boa ideia visitar o Museu do Pão e almoçarmos, devi ser giro. Devia, devia, mas os preços pareceram-me um insulto. Sim, eu sei, este é blog de viagens brega, mas eu sou da classe média de Portugal, apesar de pagarmos impostos como se fossemos pré-ricos, a verdade é que não somos. Fugimos dali com medo de se pagar só de olhar. Fomos até ao Fim do Mundo e comemos uns chocos estufados maravilhosos, embora a decoração desencorajasse, mas a comida... quando elogiei o senhor que nos atendia, ele respondeu que as cozinheiras eram do campo e cozinhavam como sabiam... sabiam muito e sabiam bem. Só no fim, é que se descaiu a dizer que o borrego também era muito bom e que tinha uns míscaros muito saborosos... Se os chocos não fossem tão deliciosos, podia nem lhe perdoar. 

3. Estava na hora de viver a tarde. Saímos de Seia em direção a Loriga, ignorando a placa que indicava Lapa dos dinheiros. A praia de Loriga fica bem à beira da estrada e é... linda, linda. Tem várias pisicinas, umas mais naturais que outras, mas de uma água transparente. À volta, socalcos e prados verdes, sem multidões. À beirinha da água, uma inglesa mudou de roupa para fato de banho e com uma coragem monárquica, enfiou-se lentamente na água, enquanto ia dizendo que era "mad", eu respondi-lhe que ela era "a brave woman". Quando a hipotermia lhe permitiu ficar submersa na água, gritou "I'm in, I'm in" . Percebi que sou uma pessoa que não sabe o que é a inveja, porque não senti nenhuma. Tenho muito medo de cair e, mais ainda, do ridículo, pelo que não arrisquei saltar sobre a água para desfrutar das mesas do parquezinho de merendas. O meu mais que tudo roubou-me o livro para me convencer. Fiquei só a olhar para as pessoas, sem ler, não me importei, gosto da contemplação. Desceu sobre mim uma paz enorme e deixei-me ficar. Depois, seguimos para a Lapa dos dinheiros.

 

Já é tarde, amanhã conto o resto, está bem?

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