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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

16
Jan23

#todos/2022 - para fazerem o que quiserem I

livrosparaadiarofimdomundo

Em 2022, o meu blog esteve ligado às máquinas, com poucos períodos de consciência. A primeira vítima deste coma induzido foi a habitual publicação da apreciação dos livros que leio. Se o mundo passou bem sem isso? pois claro que sim. Que me lembre não houve nenhum apelo nacional a que eu as publicasse. Ainda assim, porque se fazem balanços quando se quer, resolvi deixar aqui a lista dos livros que li em 2022, com indicações para aqueles que recomendo vivamente, do género: se ainda não leu este livro, faz mal, porque é mesmo, mesmo bom, um acontecimento". E os nomeados são:

Os melhores livros, juntamente com os melhores autores: O colibri, A purga; Itália, práticas de viagem, Crónicas italianas;

Os interessantes: Sinopse de amor e guerra; Vamos ler;  A vida invisível de Eurídice Gusmão;  e todos os que não constam na categoria abaixo;

As desilusões: Madalena e Hotel melancólico

Os que acho imperdíveis: O colibri , A Purga e Crónicas italianas;

Os que vou vender no OLX: nenhum, estava só a brincar.

1. Sinopse de amor e guerra, Afonso Cruz, 175 p., 07-01-2022;

2. Vamos ler, Eugénio Lisboa, 132 p., 11-01-2022;

3. Itália, práticas de viagem, António Mega Ferreira, p.274, 22-02-2022;

4. Crónicas italianas, António Mega Ferreira, 03-03-2022;

5. Hotel Locarno, António Mega Ferreira, 142 p. 09-03-2022;

6. A vida invisível de Eurídice Gusmão, 124 p., 09-03-2022;

7. O século primeiro depois de Beatriz, Amin Maalouf, 212 p., 11-03-2022;

8. As sombras de uma azinheira, Álvaro Laborinho Lúcio, 260 p., 13-03-2022;

9. Nada a temer, Julian Barnes, 284 p, 26-03-2022;

10. O Leopardo; Giuseppe Tomasi di Lampedusa, 294 p., 06-04-2022;

11. As maravilhas, Elena Medel, p. 203, 10-04-2022;

12. Madalena, Isabel Rio Novo, 200 p., 18-04-2022;

13. O busto do imperador, Joseph Roth, 30-04-2022;

14. O colibri, Sandro Veronesi, 324 p., 08-05-2022;

15. O silvo do arqueiro, Irene Vallejo, 206 p., 14-05-2022;

16. Um cavalo entra num bar, Davi Grossman, 229 - por terminar;

17. Consentimento, Vanessa Springola, 177 p. 23-05-2022;

18. O silêncio das mulheres, Pat Barker, 380 p., 27-05-2022;

19. Onde as peras caem, Nana Ekvkimishvili, 158, 04-06-2022;

20. Hotel melancólico,  Maria Gaínza, 11-06-2022;

21. Sonenchka, 

22. A purga, Sofi Oksanen, 350 p., 13-06-2022.

Entretanto, publico a lista do segundo semestre de 2022. vivi o ano de 2022 com a sensação incómoda de que tinha lido pouco. São tramadas  as sensações.

 

 

03
Jan23

#1/2023 - A Família Netanyahu, Joshua Cohen: o encantamento

livrosparaadiarofimdomundo

A Família Netanyahu

D. Quixote

263 páginas

 

Balanço do ano: 2023 está a correr muito bem! Não, não me enganei, é mesmo de 2023 que estou a falar e isto porque acabei de ler um livro que é mesmo muito satisfatório, que me deixou muito divertida, surpreendida e também comovida, pois encontrei nele referências que estruturaram a minha cultura e o meu pensamento.

A primeira vez que ouvi falar neste livro foi no Programa cujo nome estamos proibidos de dizer e já não me lembro quem dos "ministros" o recomendou, mas ficou-me a referência. Depois cruzei-me com ele na lista de livros publicado pelo Expresso (leio-a sempre com muita atenão, pois já de lá tirei muito boas sugestões de leitura) e, por fim, a minha filha, sábia como ela só, incluiu-o nas minhas prendas de natal (parei aqui a refletir na utilização de prendas em lugar de presente, mas prenda tem mais a ver com a minha infância, portanto fica prenda).

Foi a minha primeira leitura do ano, e que leitura. Eu que já tenho medo de publicidade a livros, de grandes entusiasmos e que já começo a ter medo de ter opinião, que é muito arriscado não ir na corrente e por-me em desacordo com hordas de gente que é toda da mesma opinião que alguém manifestou aos gritos. Pois bem, toda a publicidade é merecida, justificada e fica muito aquém desta experiência de leitura.

O brilhante autor deste livro foca-se num episódio mais ou menos marginal da família Netanyahu, da qual sairia o famoso Benjamin Netanyahu, que entra no livro ainda como criança, e parte dele para traçar uma narrativa surpreendente, a beirar o caricatural, com diálogos hilariantes, em que os intervenientes parecem estar cada um a ter a sua própria conversa. Dito assim, o romance pode até parecer superficial, leviano, anedótico, mas essa é só a primeira camada. O autor demonstra um domínio narrativo impressionante, pois inclui factos relevantes para a história dos judeus, erudição literária e política, espírito crítico, sarcasmo transversal, conhecimento do ambiente de corte do mundo académico, uma visão satírica das famílias americanas e, dentre estas, das famílias judias na América. E isto tudo, que parece uma manta de retalhos, está muito bem tecido e faz um sentido enorme e todas as peças parecem importantes para o conjunto. Se ficaram interessados e vierem a ler o livro, depois venham contar-me o efeito que vos causou a última frase do romance.

Saliento ainda uma peça do livro que, para mim, formada em humanidades, foi tão importante como o romance propriamente dito, o capítulo "Créditos, incluindo um especial", no qual o autor contextualiza e aprofunda alguns factos que romanceou no seu texto. Desse texto faz parte um testemunho da relação que o autor manteve com Harold Bloom, que foi quem lhe contou o episódio central do romance, que é enternecedor, talvez, porque também eu li sempre Bloom com muito interesse. Por fim, guardem-se para o último documento de todo o livro - não há spoiler aqui, já que o efeito surpresa é fundamental - e preparem-se para soltarem umas boas gargalhadas, não sem evitarem alguma surpresa e até perplexidade.

A sério, deixem-se convencer e vão ler este livro.

A continuar assim, 2023 será um grande ano. Li uma daquelas frases de facebook, que desejava maios ou menso isto: que todos os dias deste novo ano nos levassem a dizer que estava a ser o melhor ano das nossas vidas. Em termos literários já pude dizer isso.

 

 

03
Out22

#7/2022 - Crónicas italianas, António Mega Ferreira: melhor livro de viagem

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Crónicas Italianas

Sextante Editora

252 páginas

Vem este post a propósito do facto de este livro de António Mega Ferreira ser o vencedor do Grande Prémio de Literatura de Viagem Ondina Braga 2022.

Mega Ferreira é um exímio prosador, diria que tal, como no verso de Camões, ele é o amador que se transforma na coisa amada: o livro inscreve-se numa tradição secular, a da viagem como formação, a da viagem a Itália como uma espécie de pós-graduação nesse circuito, já que grandes nomes da literatura, da pintura,  do cinema e da música viveram o mesmo fascínio por essa terra de superlativos atributos que é a Itália. O livro resulta de um amor maduro pela Itália, que é transversal a todos os textos, e nos faz amar esse país e nos leva a querer ir até lá e seguir essas linhas do que é uma autêntica educação visual.

Tecido de uma erudição que nele se verte de maneira bastante elegante, nada ostensiva, leva-nos a perspetivar algumas das cidades mais conhecidas de Itália fora dos circuitos do  turismo de massas, atento aos "leões" dos folhetos, levando-nos a procurar lugares arredados dessses centros para procurar tesouros supreendentes, artistas menos badalados,  pérolas fora do bulício das ruas mais movimentadas, permitindo-nos o luxo da contemplação em sossego, quase exclusiva.

Li este livro enlevada e, por causa dele, o meu destino de férias este verão foi Itália. Na bagagem, este e o Práticas de viagem. E dei-me a esse luxo, andar por cidades fora dos circuitos mais badalados, sem multidões (à exceção de Florença), em agosto, mas deambulando como se fosse sempre domingo, demorando o olhar, sentando-me em dezenas de lugares, maravilhando-me perante um património que parece inesgotável e relendo vagarosamente em algumas das "estações" as páginas destes livros. Foi o que se chama uma experiência de leitura imersiva. Devia haver mais livros assim, conhecedores e amadores, devolvendo-nos essa forma de olhar que nos permite também a viagem como formação.

Partilho aqui uma pequena história desses dias e por causa deste livro. A crónica "Uma parede em Prato", que começa assim "Eu tinha querido ir a Prato", foi determinante para que eu também quisesse ir, contemplar essa parede, na senda de Fra Filippo Lippi. Mas os últimos dias em Itália foram de tempestades e de trovoadas e eu não gosto de trovoadas, daí que fosse adiando Prato, por causa da previsão de trovoadas... até que, no último dia, a caminho de Bolonha, tinha ficado combinado que iríamos à Duomo de Prato ver a tal parede, seja o altar mor. Chegados a Prato, foi um percurso direto até à catedral, e ia tão cega que quase não via os quatro sujeitos à entrada, vestidos a rigor com traje a lembrar uma qualquer confraria e... barraram-me a entrada e, perante o meu espanto e um esforço para nos entendermos, lá percebi que não poderia entrar, que não veria a parede nem os frescos, que a minha ida a Prato teria de esperar talvez por outra viagem: tinha morrido o bispo de Prato, naquele dia 31 de agosto de 2022, àquela hora precisa estava a decorrer com pompa e circunstância a missa do seu funeral. E Prato ficou adiada, apesar de, talvez ter sido a principal razão de me ter decidido por Itália. Salvou esta manhã um café primoroso numa rua lateral da catedral, pouco italiano, de um bom gosto extremo, onde pontificava um amável gigante e onde se serviam umas tardes de comer e chorar por mais, misturando-se nessas lágrimas o desgosto acabado de viver e o prazer provocado por uma perfeitíssima tarde de maçã.

Volarei a este livro, porque o queria saber de cor, e sonho voltar a Itália, começando, claro está, por Prato. Isto tudo para dizer que o galardão atribuído ao livro é justíssimo.

29
Set22

#6/2020 - O Regresso dos Andorinhões, Fernando Aramburu: como do muito se fez muito

livrosparaadiarofimdomundo

O Regresso dos Andorinhões

D. Quixote

802 páginas

Vir aqui hoje, ou (re)vir, provocou-me algumas reflexões:

1. Será que ainda está na moda escrever em blogs? A esta primeira inquirição respondi com um encolher de ombros. Quero lá saber! E concluo que escrevo tanto para mim como para quem me queira ler. Conforme o texto flui ouço na minha cabeça as palavras que me dito (medito?) ao mesmo tempo que imagino os meus putativos leitores. O sarcasmo corre-me nas veias e tenho de dizer que me é difícil imaginar leitores, de maneiras que escrevo para mim, num blog, paradoxalmente à espera de ser lida, se assim não fosse escreveria à margem de uma qualquer folha.

2. Talvez seja melhor fazer já um desmentido, vá, este ano não li só seis livros, li mais do que isso, mas não vou agorar por-me aqui a vangloriar-me disso. Comecei este blog para falar de livros e li mais por causa de escrever sobre o que lia e, quando lia, sentia-me no dever de escrever, nascendo daí uma rotina de que gostava. Depois, recorrendo a uma expressão de que gosto, fui ultrapassada pela direita e o ferido que resultou do embate foi a minha disponibilidade para escrever. Hoje, aqui, presente no que escrevo, penso: gosto tanto de escrever como de ler. Deus, se puderes, dá-me tempo...

3. A terceira reflexão escrevo-a hoje, mas ocorreu-me em junho. Como é que sei que foi em junho e ainda por cima no dia 11 de junho? Porque estava em Braga na livraria Centésima Página, onde vi pela primeira vez este livro de Fernando Aramburu e pensei: será que este senhor escreve a metro? Porque estas oitocentas páginas andam próximas da dimensão do Pátria, de que gostei muito. Nesse dia, não comprei este livro, mas como ele estava inscrito no meu destino, comprei-o não sei quando... e li-o de um sorvo. Não é para me gabar, mas comprei-o a uma sexta e acabei de o ler na terça-feira seguinte.

Apresentadas as reflexões prévias, vamos ao livro O Regresso dos Andorinhões. A personagem do livro é Toni, um professor de filosofia, que resolve suicidar-se, definindo um prazo para o fazer e preparando tudo para que os seus afetos, livros, a cadela, os amigos e família não se perturbem demasiado com a sua ausência, que ele crê não vir a ser muito sentida, a não ser pela cadela. "Credo, Manuela, que raio de leitura! Tens a certeza que estás bem?" Estou, sim senhor. é que Fernando Aramburu constrói uma narrativa poética, encantatória, fluida  e viciante, que se lê como quem planeou suicidar-se a prazo. 

Gostei mesmo muito deste livro, há nele tanto da nossa repetida e vivida fragilidade humana. É uma dissecação daquilo de que todos somos feitos, nas pequenas graças e desgraças. é um foco de luz que incide sobre aquilo que distingue a forma como olhamos o mundo, desencantada, otimista, esperançosa ou dissimulada, para que ninguém saiba das nossas fragilidades. 

É um livro bonito... como a vida quando regressam os andorinhões.

16
Mai22

#5/2020 -O silvo do Arqueiro, Irene Vallejo: da intemporalidade do mito

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Silvo do Arqueiro

Bertrand Editora

208 páginas

Vou lendo, vou lendo, mais ou menos à razão de um livro por semana... um bocadinho menos.

Irene Vallejo é autora do mui famoso O infinito num junco, que é um livro que eu quero muito ler, mas do qual, como acontece frequentemente, me vou arredando, vá-se lá saber porquê. Mas ele vai acontecer um dia, sei que vai. 

Estando familiarizada com o nome da autora, chamou-me a atenção este livro que surgiu - para mim - há pouco tempo nos escaparates e lá veio ele cá para casa e eu contaminada com uma resistência: se o romance histórico já foi um dos géneros preferidos, ultimamente tenho quase fugido deste tipo de narrativas. Este, ainda por cima, tocava temas quase sagrados: a figura mítica de Eneias e os seus amores pela rainha de Cartago, Dido no mito que conheci através das traduções de Latim do 10ºano (ai que saudades de estudar Latim!) e que nesta obra é Elisa. Esta é mesmo a grande interrogação/perplexidade que não consegui resolver: porquê Elisa? Mas a autora é especialista em mitologia, pode ser que saiba coisas que eu não sei, hipótese muito, muito provável.

Começada a leitura, confesso que o livro não me agarrou logo, faltava-lhe uma certa grandeza, talvez o tom grandíloco e corrente dos épicos, talvez uma certa birra, talvez falta de tempo para uma leitura mais atenta. Depois aconteceu uma tarde de praia, com pouca gente e o livro tomou conta de mim e ganhou uma dimensaão inesperada, é um livro com uma profundidade que acabou por me surpreeender.

O silvo do Arqueiro  é, como anuncia desde o início, uma revisitação de um clássico, mais até do que isso, é a revisitação de um mito, colhendo aí aquilo que está fora do espaço e do tempo, tornando-se por isso mesmo universal. Podemos começar pelo desenho literário de Cartago, a jovem cidade que Elisa vai fortificando, criando um reino seu, ela própria exilada e sujeita a todos os perigos, imagem da fragilidade não só humana, como claramente feminina num mundo de homens, para homens, dominado por homens que querem dominar outros homens e onde as mulheres se restringem ao gineceu, às escravas e, só em raros casos, a rainhas constantemente acossadas. Não há uma preocupação excessiva em fazer da cidade de Cartago um fresco histórico: portos e ruas, açoteias e palácios, casebres e baldios existiram em Cartago e existem em qualquer metrópole. É Cartago, mas podia ser uma qualquer cidade.

As personagens cingidas às suas demandas, às suas ambições, ao sonho e à errância: Elisa mais Penélope do que Dido; Eneias, o errante, aquele que calcorreia costas inóspitas à procura de um lugar de ser, onde possa enterrar e esquecer o passado marcado pela guerra, pela morte, pelo perigo, pela traição e pelos seus próprios demónios; Ana e Iulo, duas crianças perdidas no mundo dos adultos, demasiado frágeis para poderem fazer valer as suas razões, entristecidos num mundo em que vigora a lei do mais forte; a insuficiência do amor para sanar conflitos e corrigir hesitações e equívocos - tudo o que acontece tanto nessa Cartago mítica como num estado atual, onde a liberdade individual se verga a valores que a estiolam  e a esmagam, seja num tempo fora do tempo, seja na Roma imperial de Augusto, seja no presente do nosso quotidiano. Um mundo de sempre onde até os deuses se enganam e são ultrapassados.

Vallejo toma a universalidade da epopeia de Vergílio antes de ser obra literária, dá-nos o tema antes da obra e apresenta-nos Virgílio assomado pelas dores de qualquer escritor: a procrastinação, a fidelidade a si mesmo,  a dúvida, o sofrimento atroz que é escrever. Essa enigamática figura que, séculos depois de Eneias e de Elisa, perscruta o passado para explicar, justificar e celebrar o presente, seja como dever, seja como epifania. É neste passo que o romance se aprofunda, se afirma e se desdobra em múltiplos significados, mais do que um livro sobre Eneias, é um livro sobre a humanidade, mais do que texto é metatexto, é reflexão sobre o papel da escrita e da literatura. Não pude deixar de relacionar os últimos capítulos deste romance com algumas das reflexões do poeta em Os Lusíadas: sem poetas que as celebrem, não há grandes obras e estas funcionam por si mesmas como incentivo aos grandes feitos, quantas vezes a obra supera o assunto, sobrevivendo ao tempo, ao autor, à intenção, permanecendo como que levitando por cima dos seus fundamentos materiais, sublimando-se e vivendo por si mesma, pelo seu valor, pelo seu conteúdo, a arte maior que a vida, verdadeira promessa de eternidade: "Virgílio, moribundo, não chegou a sabê-lo, mas escreveu uma obra mais duradoura do que o próprio Império Romano. Não chegou a saber que, ao longo dos séculos, meninos e jovens vão aprender a conhecer a silhueta das palavras e a amar o fulgor da linguagem com os versos da sua Eneida". 

 

09
Mai22

#4/2020 - O colibri, Sandro Veronesi, uma excelente leitura

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Colibri

Quetzal

328 páginas

Estive em Faro e entrei numa livraria, isso é que é uma novidade! Apesar de ter sido praticamente empurrada para fora da loja, por já estar para fechar, em desespero de causa, perguntei se podia ainda comprar um livro e este estava na prateleira das novidades, de maneiras que veio comigo, não fosse dar-se o caso de eu não comprar mais um livro.

Claro que comecei logo a lê-lo e este livro fez-me aquilo que eu espero de um livro: agarrou-me imediatamente. Dormia a pensar nele e a procurar qualquer pretexto para lhe pegar. Acho que não o li, sorvi-o, como dizia o Álvaro de Campos, "sem tempo de manteiga nos dentes".

O Colibri - o título remete para a alcunha que o protagonista tinha em jovem - narra-nos a história de Marco Carrera, oftalmologista que vive em Florença, apresentando-no o seu percurso como é o percurso de qualquer vida: amor, amizade, família, carinho, cuidado, sonho, felicidade... e o reverso disto tudo, mágoa, infelicidade mais ou menos oculta, ódios, fraturas, morte, abismos inultrapassáveis. O livro é efetivamente uma saga familiar, marcada por uma sucessão de perdas e de impossibilidades que marcam profundamente o protagonista que, apesar de tudo, se reergue, se reorganiza, cumprindo o seu papel na terra por conta do mais puro e verdadeiro amor (terão de ler para saber do que se trata). O amor está também retratado nas suas múltiplas formas e imperfeições, em especial, como algo que muito se quer, que está ao alcance  e ao mesmo tempo irremediavelmente inalcançável. A família como núcleo que ora se faz e desfaz, marcados todo os elementos pela perda irreparável da morte de Irene, a irmão de Marco, mas também pela doença, que obriga à dedicação, à entrega. Mas o livro faz-se também do inaudito, do acaso, da revelação, de epifanias, de compreensão, ainda que tardias. Faz-se também de um ritmo que é sereno, como se a voz do narrador escolhesse propositadamente um tom menor para nos dar a conhecer esta humanidade dos seres de papel que desenha perante o leitor, é um narrador que se entrega ao seu papel de contador da história sem ceder ao histrionista, é contido, sensível, atento, gentil, mas contido.

Há depois a estrutura, a arquitetura do romance que encerra muito do seu encanto e da sua originalidade. O romance é polifónico, já que o narrador cede pontualmente a vez às suas personagens, em especial através da correspondência entre Marco e Luísa, que permite ao leitor reconstruir aquele amor malogrado a que ambos se entregaram durante anos. O livro assume diferentes perspetivas e todas se complementam, ficará de fora a perspetiva de Giacomo, o irmão que se exila nos EUA, que se recusa a responder às cartas de Marco, que o narrador silencia, mergulhando-o numa aura de mistério e de impenetrabilidade, que atormenta Marco e simultaneamente o leitor. O livro não está organizado linearmente, oscila no tempo, certos passos da obra iluminar-se-ão  mais tarde, ora pelas analepses proporcionadas pelos jogos da memória, ora pelas prolepses que antecipam momentos decisivos para as personagens. 

Por fim, há a inteligência e a cultura do autor, o recurso a todas as técnicas dialógicas que desafiam a enciclopédia do leitor: versos citados, frases de romances inseridas no discurso, reenvios frequentes para todas as formas de arte, títulos de livros, personagens retomadas de obras que marcaram o autor, músicas e letras de canções, obras de arte e de design, mistura de ficção e realidade, passagens completas de outros romances, que são tributos a autores e obras que marcaram o autor/narrador. Tudo disto culmina no capítulo final no qual o autor desnuda, revela cada passo que cerziu no seu próprio discurso, fazendo deste romance uma obra muito maior que ela mesma, maravilhando o leitor.

Por fim, há a beleza da linguagem, ancorada num equilíbrio grego, sem notas dissonantes, elegantíssima, exata, sedutora.

Este é um excelente romance, como há muito não me acontecia. Gostei tanto deste livro... e é daqueles que impõe a releitura, é preciso mais do que uma passagem para nos apropriarmos dele. Recomendo veementemente!

18
Abr22

#3/2022 - Madalena, Isabel Rio Novo: desilusão e ira, dois sentimentos pouco pascais

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Madalena

D. Quixote

199 páginas

Parte I - Desilusão

Desconfiar dos prémios... parece ser um bom barómetro para os livros. Nem sempre regressamos ao lugar onde fomos felizes. Às vezes, vamos lá e é com cada desilusão!

Eu li fascinada um livro de Isabel Rio Novo, o maravilhoso Rua de Paris em dia de Chuva, e pensei, temos escritora, sim senhor, quem escreve assim é muito promissor.

De vez em quando, nas minhas idas às livrarias online,  cruzo-me com os outros dois romances da autora e quase que compro, ouvi dizer bem de ambos e, a julgar pelo que tinha lido, não haveria de ficar desiludida. Vai daí que um domingo, numa qualquer livraria física da minha vida, desconsolada, porque nenhum livro se me colou, se me agarrou de maneira que eu não o pudesse deixar, até que pus os olhos em cima deste Madalena e pensei, olha é mesmo este! Isabel Rio Novo, um valor seguro. Pois não foi! Foi uma desilusão. Falta ao livro qualquer coisa que o torne convincente, é de uma banalidade excruciante. Quando cerzimos histórias num livro, o leitor naõ deve dar pelas costuras, a narrativa tem de fluir. No caso desta Madalena, parece que tudo foi alinhavado a pontos largos, fica-se com a sensação que a costura não vai aguentar se puxarmos por ela. Falta coesão, falta fluidez, falta a prima para a obra ser, embora a ideia até seja muito interessante. Certo é que no final não se percebe qual a relevância nem de uma linha narrativa nem de outra. Mais ou menos como a montanha que pariu um rato. Não houve uma frase que eu sublinhasse, que eu destacasse, que me tocasse. Ocorre-me a corruptela de um ditado, ao que parece alemão: a vida é demasiado curta para maus livros (era com vinho, mas eu não bebo), e eu li este até ao fim! É poucochinho. Não vale a pena insultarem-me, que eu na literatura sou anarquista e também não professo nenhuma fé.

Parte II - a ira

Tudo o que vou escrever a seguir não determinou a opinião que formei sobre o livro. Poderia ser apenas um pormenor desagradável, como o pé dormente de Alberto Caeiro, quando se punha a pensar. Mas é mais do que isso. Eu explico.

Acontece que a personagem do romance é professora de profissão. Embora a profissão não seja o mais importante para o desenho da personagem, a verdade é que a autora a definiu como professora, que regressa fragilizada à escola depois de um período de quimioterapia. E como é que esse regresso é descrito? Com uma indiferença atroz por parte de todos: colegas e alunos, e, cereja em cima do bolo, o presidente do conselho executivo, que se cruza com a personagem por acaso, a única palavra que tem para com ela é acerca do relatório de avaliação que estava em atraso. As aulas da personagem são descritas da forma como passo a citar: "Entretanto, voltara às aulas por poucas semanas, o suficiente para reaprender as rotinas da profissão. Gritar a matéria, repreender verbalmente, expulsar da sala; continuar a gritar a matéria, repreender por escrito, expulsar da sala, continuar a gritar a matéria, abandonar a sala, apresentar queixa no gabinete do conselho executivo, instaurar um processo disciplinar". E a coisa continua com mais umas descrições. 

O que é que me enfurece? O estereótipo! Custava alguma coisa ter tentado perceber? Informar-se minimamente sobre o funcionamento de uma escola? Perceber a dimensão da profissão, se era para falar sobre ela. Depois a escolha das palavras, esta professora não explica, não expõe, grita a matéria e expulsa alunos da sala, essas são as rotinas que reaprendeu. Nem é por eu ser professora, nem é por esta visão das coisas não coincidir com a forma como encaro a profissão, nem estar sequer próximo do que é a escola hoje em dia e do trabalho meritório e diferenciador que muitos professores fazem. Nem é pelo chorrilho de imprecisões e inocrreções. Não é por isso. É porque, conhecendo o meio, me desagradam os lugares comuns, os chavões, a negligência, o facto de estes dados não acrescentarem rigorosamente nada à história, porque não têm qualquer relevância, estão lá para encher, mas vamos lá arrojar uma série de coisas que se ouvem por aí e representar dessa forma uma profissão.

Mais ainda, Portugal está a atravessar uma verdadeira crise com falta de professores, a profissão não parece cativar ninguém e uma autora já com público, que é lida e respeitada, trata desta forma este papel social, pregando mais uns pregos neste caixão de maneira absolutamente gratuita, alinhando num coro que se faz ouvir há mais de uma década e que tão mal tem feito. isto quando é notório que a autora fez alguma pesquisa sobre o cancro, tratamentos e procedimentos...

E para aqueles que me vierem falar da liberdade estética, pois claro que a liberdade estética existe, mas também existe a outra: a de nos manifestarmos desagradados e de podermos afirmar que não é livro que recomendemos. Tenho pena. Continuo a gostar muito do Rua de paris em dia de chuva e talvez leia os outros. Esta Madalena é que não.

12
Mar22

#2/2022 - A vida invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha: história da invisibilidade

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Wook.pt - A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

Porto Editora

214 páginas

Nota prévia; finalmente, caí por causa da COVID-19. Já não sou como a aldeia do Astérix! Onde me infetei? Não faço a mínima ideia. Tive a versão light do bicho? Não. Tive direito ao catálogo completo de sintomas e maleitas. Mas, mesmo na maior adversidade, os bravos veem oportunidades e, sempre que a febre baixava, li todas as horas de alívio que pude usar.

Li a Eurídice num dia. É leitura de um fôlego. É difícil parar. Gostei muito de conhecer a Eurídice e a irmã, a Guida. Ficámos amigas...

Vamos lá por ordem no post...

O romance de Martha Batalha abre com uma breve nota introdutória da própria autora, na qual esclarece que algumas figuras e episódios foram bebidos em pedaços de histórias verídicas e que as duas protagonistas, Eurídice e Guida, foram inspiradas nas suas e "nossas" avós. Depois de lido o romance, ficou claro que não foram só inspiradas nessas avós da autora, elas, como as restantes figuras femininas do romance, foram baseadas em toda uma geração, ou gerações, de mulheres vergadas e submissas por ditames de convenções socias que as deixaram à margem de qualquer protagonismo, nem sequer das suas próprias vidas. Vislumbrei nestas mulheres tantas feições das muitas mulheres da minha família, cuja condição, para mim, fica sempre entre a tragédia e a epopeia, de tal maneira me surpreende a sua resignação e o seu heroísmo, a sua aparente falta de relevância e a sua grandeza.

Guida e Eurídice fazem lembrar as figuras de Jane Austen: Guida é a sensibilidade, Eurídice é o bom senso... mas a certo passo do romance, poderíamos dizer que trocam de papel. Guida ousa romper com as convenções e foge para se casar por amor, embora essa fuga não a subtraia ao papel social a que estaria destinada: dona de casa. Eurídice, ao ver o desgosto dos pais, entrega-se ao papel de filha dileta que assume para si o cumprimento de todos os sonhos que os pais da altura acalentavam: comportamento exemplar, namoro tranquilo e respeitoso, casamento em conformidade, filhos, mulher espera-marido, mãe diligente, fada do lar, como leitura para cultivo dessas prendas todas O jornal das Moças. Superada a prova de manter a honra incorrompida até ao casamento, a vida destas mulheres chegava ao fim. A partir do casamento e dos filhos era deixar o tempo e a vida discorrerem sem ondas, sem desejos, sem ambições, deixando-se sutentar pelos maridos, sendo que um bom marido seria aquele que não lhes batesse, que as sustentasse, que não lhes fosse infiel, ainda que as proibisse de qualquer arremedo de liberdade.

De uma forma muito inteligente, o romance vai-nos desvelando o quanto Eurídice não se enquadra no molde fabricado para ela e é aí que a leitura se torna interessante e a nossa Eurídice revela a sua grandeza. Não posso avançar mais, porque é preciso ler este livro como prova cega, como quem prova um doce de olhos vendados. Eurídice merece que todos os leitores a conheçam sem ser por interposta pessoa. Além dessas fugas, o facto de a narrativa se refazer constantemente, agregando pequenas biografias de muitas das figuras que se cruzam no romence, confere à leitura uma vivacidade que a torna muito cativante. São tantas as narrativas encaixadas que o romance se aproxima de um livro de contos. O estilo de Martha Batalha também é muito agradável, irrequito, quase constestário, oscilando entre a ironia e o sarcasmo, o trocadilho e a anedota, faz deste livro um pequeno prazer de que vamos precisando nos dias que correm.

Por fim, li o livro ainda na espuma do Dia da Mulher, dia sobre o qual nada disse, porque a febre não deixou, mas sobre o qual há muito a dizer e a pensar. Vida invisível de Eurídice Gusmão ensina-nos muito sobre a importância de continuarmos a falar deste dia e de continuarmos a pensar sobre a condição das mulheres, de demasiadas mulheres ainda. Não sendo das que festeja o dia da mulher num restaurante, embora um jantar de amigas seja uma das coisas que mais gosto na vida, ler este livro pareceu-me cerimónia à altura.

 

19
Fev22

#1/2022 - Itália, Práticas de Viagem, António Mega Ferreira: das práticas à viagem

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Itália - Práticas de viagem

Sextante Editora

280 páginas

Tanto para dizer...

1. Lembro-me muito bem do António Mega Ferreira desde a sua crónica no Expresso, que li sempre interessadamente. É, para mim, o senhor Expo 98. Há tempos, cruzei-me com um romance escrito por ele e Mega Ferreira é ainda o autor do prefácio da edição da Leya de A Guerra do fim do Mundo, deVargas Llosa, mais um leitura que não é possível contornar. A última referência a este autor foi não sei quando nem sei onde, mas ficou uma reminiscência sobre um livro relacionado com a Itália e o apreço como foi referido. Essa reminiscência ficou a fermentar e, numa das últimas idas a uma livraria, cruzei-me com o livro sobre o qual incide este post em promoção, uns passinhos mais à frente, o outro, tinha de ser o outro da tal referência, que é Crónicas Italianas. Como sempre numa livraria e quando estou sozinha, acabei com um verdadeiro braçado de livros, que pousei e fui buscar de novo, e não quero saber, a vida é tão breve, mas tens tantos livros para ler, e daí... Acabou por prevalecer o bom senso e trouxe apenas estes dois de Mega Ferreira... não trouxe um terceiro sobre Roma, porque não estava lá. 

2. Nada arrependida da decisão tomada. Este livro tem a minha cara, é o meu nome do meio, decidiu o destino das  minhas férias de verão, e o livro em si é um lugar maravilhoso. As práticas de viagem do autor incidem sobre diferentes lugares de Itália e esse país petaloso emerge com as suas cores ocre, a sua sprezzatura, a sua comida, os seus monumentos, testemunhas de séculos de história da Arte e da Literatura, da música e do cinema italiano. É ler um livro pela primeira vez e regressar a lugares que, embora conhecendo, nos escaparam. É um circuito arredado das grandes massas de turistas, feito de capelas e igrejas retiradas, de quadro e frescos quase secretos, de poesia declamada na frescura de um claustro, de biografias criativas, de textos fundadores.

3. Bolonha, Florença, Siena, San Giminagno, Roma, Ferrara, Trieste, Ravena, Veneza... Dante, Petrarca, Rafael, Giotto, Botticelli, Miguel Ângelo, Caravaggio, Giordio Morandi, Montaigne, os Médici, os papas, Bernini... marcas portuguesas em Itália, os cafés, as bibliotecas, a história, as curiosidades... daí que persista a sensação de que até são lugares onde estive, em sentido lato, mas não estive, porque me faltavam as chaves para olhar que este livro nos entrega. 

4. Diz que é um livro de viagens, mas é muito mais do que isso, é Educação Visual, é um tratado de erudição e de cultura, é inteligência, é atenção e sensibilidade. É um livro de uma riqueza enorme, que desafia, que transborda das suas páginas, que esmaga pela sabedoria que dele extravasa, que é humanista no seu apreço pela arte como forma de superação e de aperfeiçaomento individual.

5. Por isso, tenho de regressar a Itália, mais viajante e menos turista (que nunca fui verdadeiramente...), mais para estudar do que para olhar, mais para ver do que para apenas passar e deixar, gravadas na retina, não apenas as imagens, mas, transformando-as em meórias, aprorpriar-me da lição da história e do humanismo, tornando-me mais sensível, mais atenta, mais empática. É todo um processo de aperfeiçoamento pessoal para o qual este livro me desafia, renovando os votos que, muito cedo, fiz para com a pintura, a arquitetura,  a literatura e a escultura, procurando nas obras primas sublimar o anódino quotidino em que se esvai a nossa existência.

6. Fiquem atentos ao último texto, é tão bonito.

6. Segue-se, de imediato, Crónicas Italianas, só para confirmar. 

03
Fev22

Escrita em atraso: ensaio para um regresso

livrosparaadiarofimdomundo

Há tempos que não vinha aqui.

Parte de mim foi atingida por uma segunda vaga de compromissos profissionais que assumi e que fizeram das coisas de que eu gosto(ler e escrever) reféns dessa outra forma de vida.

Apesar desse coma de escrita/leitura - ler como quem respira, escrever como quem expira -, o universo manda-me sinais de que devo/possocontinuar.

Há dias, fui contactada pela orientadora das duas teses que fiz a lembrar-me que continua a acreditar em mim e a querer que eu continue a trabalhar da forma como garante que eu sei, a querer que eu volte a produzir, dizendo-me que ainda sou jovem e que ainda tenho tanto para dar. E eu fico perplexa.

Hoje regressei a este lugar, tem sido quase impossível vir aqui, a minha energia tem-se gasto noutras latitudes. Não é que me deem menos gosto, não é que não sejam importantes, não é que não tenham um papel social que me é muito grato, mas não é um papel criativo... ou é, às vezes até é, de outra maneira, mas é. E tive uma surpresa enorme. Parece que um dos meus posts de 2021 mereceu destaque da equipa do sapo blogs. Que orgulho senti, que baque no estômago. Não escrevo há tanto tempo e isso deixa-me tão triste. Obrigada Sapo pelo "sucesso editorial".

Desde sempre quis fazer da escrita uma forma de vida. Imagino-me romanticamente ensimesmada no labirinto da escrita, a viver disso a respirar essa forma de viver. Mas a vida é como um oceano, fui apanhada por outras correntes, queria aportar em Ítaca e fui ter à Madeira. O meu sonho tinha uma espécie de misticismo e saiu-me a trivialidade. Um dia, a meio de uma conversa, desabafei afirmando que não me imaginaria a gerir uma empresa e é quase isso que faço agora: sou diretora de um mega agrupamento de escolas. A educação, ser professora, é outro dos meus sonhos, dos lugares onde sempre quis estar, mas esta forma de estar é muito burocrática, embora o tédio não me assista e haja momento de grande compensação. 

Mas eu queria mesmo era escrever. Por isso ensio este regresso, por isso prometo a mim mesma voltar aqui e permitir-me este simulacro de ateliê e, como sempre, torcer para que aqueles que um dia me leram continuem a querer fazê-lo. O meu blog diz-me que tenho 74 resistentes que seguem esta página, é um critério de sucesso, tenho a certeza. 

 

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