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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

20
Jan21

As migalhas são de graça

livrosparaadiarofimdomundo

Estávamos nós ali atrás a ansiar pela passagem de ano, acreditando mesmo, mesmo que doze badaladas seriam com uma rajada de metralhdora sobre tudo aquilo que nos custou no ano mais longo de que muitos de nós têm memória. Afinal quem vivia mal, passou a viver pior, qum vivia bem, passou a viver pior - é reconfortante acreditar que foi assim - quem vivia muito bem, pelo menos não pôde sair de casa. 

E vem 2021 e entrou a pés juntos, esse bruto: morreram Carlos do Carmo e João Cutileiro, tivemos uma vaga de frio que nos ia congelando a alma, os americanos estão mesmo doidos e os mais doidos invadiram o Capitólio e agora os americanos têm de se proteger dos americanos God doesn´t save America, o estupor do vírus não nos largou e ficou ainda mais virulento, morreram em Portugal nos primeiros vinte dias do ano mais de dois milhares de pessoas só por causa desta pandemia que está cada vez mais pandémica, voltamos todos a confinar, está tudo fechado outra vez - estou a exagerar, eu sei - fala-se de novo no encerramento das escolas e a minha alma fica mais gelada do que ficou por causa da vaga do frio, temos medo, muito medo - estou a exagerar, eu sei, há gente que não tem medo nem vergonha, nem noção, nem senso de noção, mas não posso ir por aí, senão ninguém me segura e eu sou uma senhora - temos pouco orgulho do nosso país, fianlmente percebemos a importãncia do SNS e porque é que alguns setores da sociedade não podem ser privatizados. É difícil, até para uma otimista patológica como eu sou, manter-nos positivos. Ups, agora é mau estar positivo. Rephrasing: é difícil mantermo-nos, chega assim.

Ficam as migalhas: os almoços na sala de professores, com toda a gente a comer de caixinhas, mas com um clima muito simpático, a conversar animadamente, a rir, meu Deus, a rir; a manutenção, a prazo, das aulas presenciais, até gostamos mais dos alunos na quase-hora da despedida; o fim de semana com sol, que deu para ler no alpendre, para cuidar das plantas de exterior e que despertou o desjo de ir ao horto comprar amores-perfeitos e toda a qualidade de plantas que floresçam na primavera - mas não fui, que eu sou cumpridora e faço tudo para manter as escolas a funcionar, faço a minha parte e nem sei se chega; as visitas muito esgarçadas à mãe e ao pai; as refeições em família, a quatro, animadas; a sala de aula com os meus meninos que me recebem sempre com ânimo, doces como alguns conseguem ser; a senhora da banca da fruta, tão humilde (no bom sentido), tão amável, tão atenciosa, que corre a abrir outro saco de cebolas, que pede desculpa por não ter mais coisas de encher o olho; os que dizem que gostam de nós, os que dão a palavra amável, os que são solidários; as anedotas para antologia, como aquele aluno que, tendo faltado por uns dias, quando questionado sobre o motivo da ausência, mentiu, dizendo que tinha sido operado ao apêndice e, ao ver que a professora lhe pedia para ver a costura, disse, na sua ingenuidade (ou não) que se tinha esquecido dela em casa.

São migalhas de um quotidino de chumbo, mas podemos fazer como nos diz o aforismo da pedra, não um castelo, mas podemos amassá-las e fazer um pão e comê-lo com a gana de que nos fala Álvaro de Campos: comê-lo sem tempo de manteiga nos dentes. São migalhas, mas pelo menos são de graça.

19
Jan21

#3/2021 - Adeus, até amanhã, de William Maxwell: pequenas obras, grandes prazeres

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Adeus, até amanhã

Sextante Editora,

140 páginas

Espero que ninguém consiga ler as letras pequeninas, mas, apesar de ter prometido que, em janeiro, só leria livros que tivesse começado e posto de lado, este comprei-o. Tenho uma desculpa, tinha um desconto de 5 euros na Wook e o livro custava 6 e qualquer coisa, mas depois achei que pagar só 1 euro era indecoroso e comprei outro e gastei 14 euros, mas fiquei feliz, os livros tinham desconto. Já sabemos que 2021 não é mais meigo que 2020, o que se vê nestes pequenos dissabores.

Não me consigo lembrar onde é que li sobre este livro, mas eu não sou difícil de convencer e, sempre que um livro é anunciado com epítetos como "um pequeno romance perfeito", uma leitora compulsiva sente-se como uma solteirona a quem dizem que vai ter um date com o George Clooney, porque a Amal vai trabalhar até tarde. Ninguém resiste.

Adeus, até amanhã tem tudo o que eu gosto num livro, uma escrita maravilhosa, maravilhosa, repito, porque só uma vez pode parecer pouco convincente. Faz lembrar a poesia de Fernando Pessoa, cuja simplicidade de vocabulário é desarmante, mas que atinge uma complexidade quase impenetrável (que o digam os alunos do Secundário). Num estilo límpido, pouco ornamentado, fluido, mas com uma linguagem cuidadosa, o autor acompanha os fragmentos do passado que o marcaram de forma indelével. A memória é a estratégia narrativa dotada e, já se sabe, a memória é a memória da memória, é uma reconstrução, é uma tentativa de reorganizar, de criar um mundo a partir do caos. 

O narrador volta-se para um episódio da infância que o marcou para a vida, gravando no seu espírito a culpa, a perda e o arrependimento para sempre. Voltar-se para o passado é interrogá-lo, é uma tentativa de o superar, de o compreender, de o corrigir, não quer é dizer que a tentativa seja bem conseguida. Dito assim, pode parecer pouco, mas este romance, apesar de o seu tamanho é monumental. Está ao nível de um Tolstói das novelas, é depurado, seco, duro, mas de uma sensibilidade incomparável, tudo é tão delicado, tão frágil, tão assustador, tão incompreensível e também tão cruel.

Desprendem-se destas páginas fiapos de uma certa América, rural, fechada, machista, pobre, inculta, onde as crianças trabalham nas quintas arrendadas pelos pais desde cedo, em que a escola rouba tempo às colheitas e aos animais, em que os homens parecem vazios de sonhos e, quando conhecem a paixão, ela só pode ser trágica, porque é desmedida e incontrolável. Em que as mulheres se esqueceram da sua feminilidade, até que ela surge nos espelho dos olhos de alguém e se descobrem merecedoras de viver a paixão que nem sabiam que podia ser sentida. Em que a mentalidade é muito pouco cosmopolita, em que Deus e a Igreja ocupam um espaço que castra e condicona. Em que o estigma da homossexualidade espreita e devora quem é um pouco mais sensível. Em que a morte, o abandono e a degradação estão omnipresentes, em que a queda se anuncia e se precipita como uma avalanche, sem apleo, sem remédio, sem redenção.

A pergunta que vos incomoda neste momento é, decerto, como é que um livro de pouco mais de cem páginas pode ter isto tudo e um pouco mais que não consigo exprimir em palavras? Porque é perfeita, porque é um exemplo de que menos, embora raramente, é mais, muito mais. é um livro lind´ssimo, delicioso, precioso. Gostei tanto.

PS: também foi uma sorte ser tão pequeno. A minha concentração anda em níveis assustadores de tão baixos, estou praticamente em coma, ou pelo menos, vivo como se tivesse sido programada para desempenhar as funções que me ficaria muito mal não desempenhar. Mas ler este livrinho ressuscitou-me um bocadinho, oxigenou-me este cérebro intoxicado de negativismo, de desesperança nesta humanidade que naõ conseguimos sublimar. Que os livros nos salvem um bocadinho.

07
Jan21

E depois de tudo... a barbárie.

livrosparaadiarofimdomundo

Comecei este texto várias vezes. Apaguei o que tinha escrito e recomecei.

Como é que se escreve sobre a invasão do Capitólio na América? 

A invasão do Capitólio é como um sudoku: de todos os lados, ângulos e colunas o resultado é sempre barbárie.

Um presidente democraticamente eleito que se recusa a respeitar o regime que lhe permitiu exercer o seu mandato como quis, que incentiva o seu próprio povo a desrespeitar as instituições, que apela à violência dos seus apoiantes para fazer valer o seu apego ao poder: isso é barbárie.

Uma multidão que força barreiras, que invade, que trepa paredes, que grita, que urra, que destrói, que ameaça, enquanto calcorreia os corredores da casa da democracia, reiterando que o espaço lhe pertence ao mesmo tempo que o conspurca: isso é barbárie.

Uma multidão que vandaliza, que ocupa alarvemente , que se bestializa e, ao mesmo tempo, vai tirando selfies, vai gravando, vai filmando para depois, eventualmente, partilhar orgulhasamente as imagens de que são capazes: isso é barbárie.

Um mandato presidencial que termina com o Capitólio vandalizado como qualquer prédio devoluto: placas arrancadas, estátuas pintadas, pés em cima de secretárias, vidros partidos, sujo, com fumo a sair pelas janelas: isso é barbárie.

Li em vários fóruns "this is not América", mas a verdade é que é, aconteceu na América. quem há de ser chamado para garantir que a democracia é restaurada? A América terá de salvar a América. A América é, hoje, um país a ferro e fogo; é, como alguém terá dito, um país de Terceiro Mundo com cinto Louis Vuitton.

Não sou americana, sei perfeitamente que a barbárie grassa pelo mundo inteiro, mas não costuma ser ali. A América é a terra de todos os sonhos, de todas as oportunidades e as suas instituições têm tentado garantir isso. O que se viu ontem é o colapso de um mito, a invasão dos bárbaros outra vez, a queda de um império, os pés de barro do ídolo, Nero a incendiar Roma, a repetição dos piores momentos da história: o regresso à barbárie.

Não é connosco, mas é com todos nós, é o crescimento descontrolado dos discursos simplistas, demagógicos, populistas, que fundem meias verdades com vulgares mentiras, que se alimentam da ignorância, da preguiça mental dos usuários das redes sociais, da ausência de espírito crítico: é a barbárie.

Resta-me, hoje, recomendar-vos a leitura como panaceia, tal como refere Maria do Rosário Pedreira no seu blog, de que vos deixo aqui o link:

https://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/qi-e-leitura-629110

Ou então, fazer como Arturo Pérez-Reverte, refugiar-me na minha biblioteca, embebedar-me de humanismo, como o autor sugere neste video:

https://rr.sapo.pt/video/113933/o-refugio-dos-livros-do-antigo-reporter-de-guerra-arturo-perez-reverte

Enfim, arranjar maneira de lavar os olhos.

03
Jan21

#2/2021 - A Guitarra Azul, John Banville: da memória como tema literário

livrosparaadiarofimdomundo

Porto Editora

239 páginas

Leitura terminada

Este romance andou por aqui sem estar terminado cerca de dois meses. Ia tão bem e, de repente, pu-lo de parte. A razão por que ponho um livro de parte pode ser tão ridícula como querer ler e não me apatecer subir as escadas para ir buscar  o livro que estou a ler e começo a ler outro, coisas assim. Faltava muito pouco para o terminar, não encontro explicação.

John Banville foi dos poucos escritores de quem li mais de um livro em 2020 (2021...?). Gostei tanto de O Mar, que comprei este A Guitarra Azul. Narrado na primeira pessoa, acompanha o fluxo da memória de Oliver Orne, desde o momento em que foge de casa, devido ao facto de ver descoberta a relação extraconjugal que mantém com a mulher do seu melhor amigo. Desiludam-se, o livro é muito mais do que a descrição deste triângulo amoroso, é sobretudo uma viagem ao centro de si mesmo, crua, despudorada, sem filtros, como já contecia no romance anterior. O narrador/protagonista abre o romance refeindo-se à sua cleptomia, o desejo de possuir coisas dos outros, apropriando-se delas de maneira subtil e dissimuladamente. Polly, a sua amante, surge como mais uma posse que se lhe impõe a partir de um jantar em que Oliver fica quase obcecado por ela.

Partindo deste motivo, Olly revisita a sua infância, a relação quer com o pai quer com mãe, mas também com a irmã, com a sua arte - é pintor - e com o bloqueio que o domina no presente, o seu casamento com Glória, o impacto que a morte da sua filha teve sobre ambos, entre outros episódios que, longe de o caracterizarem, mais esborratam as tintas e mais diluídas parecem as linhas.

Outro aspecto interessante,  e que eu valorizo sempre muito nas minhas leituras, é o constante reenvio para objetos estéticos exteriores ao próprio livro: obras de pintores famosos, poemas, livros, que continuamente espelham o momento ou o episodio abordado no livro. A memória nas suas diferentes aceções é tambem um tópico literário que me desperta muito interesse e, neste romance, cruzam-se várias memórias. Também a força da linguagem, a mestria no domínio das palavras, medidas e pesadas para ocuparem o seu lugar na frase - aspeto reconhecido em muitas das críticas sobre este livro - é notória. Aplica-se a estas páginas a metáfora da filigrana: delicados fios que são soldados uns aos outros para formar um objeto muito maior, um padrão, é isso que acontece neste livro.

A guitarra azul  foi mais uma experiência de verdadeira literatura, um objeto estético exigente. 

PS. Há também no livro uma ambiência tipicamente irlandesa: do chá, do frio, da chuva, das relações sociais, de que também gosto muito, talvez por causa das minhas memórias das leituras de Enid Blyton.

02
Jan21

#1/2021 - Torto Arado, Itamar Vieira Júnior: mirar o passado para não perceber o presente

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Torto Arado

Editora Leya

279 páginas

Comprado

Esta primeira leitura de 2021 é devedora de 2020, porque a verdade é comecei ainda em 2020, mas terminei, numa tarde bem passada do dia 1, já a estrear o novo ano literário. Quem leu as minhas resoluções para 2021 perceberá que já cumpri uma nano parte: terminei um livro que estava começado em casa (sou tão ardilosa nestes esquemas mentais). Sabe-me sempre a um regresso a casa ler literatura brasileira, a pátria da minha especialização em Estudos Românicos, mas é sempre um regresso sofrido, porque o povo brsileiro parece votado a um desígnio de sofrimento e privações que nada parece poder por fim, nem a política nacional, nem a internacional, nem a cultura, nem os homens de boa vontade.

A biografia deste livro é já ilustre, começou por ser o vencedor do prémio Leya, foi depois galardoado com o prémio Jabuti e com o prémio Oceanos. Assim sendo, é uma aposta segura, não pode andar tanta gente enganada.

Torto Arado é marcado pela ambivalência: é uma leitura aparentemente fluida - não leve, mas fluida - mas que pesa na alma, se a alma for sensível e humanista, não podendo ficar alheia ao sofrimento do outro; é uma obra que remonta ao passado do Brasil, num período em que a escravatura já tinha sido abolida, mas que persistiu sob outras formas de subjugação, que está na génese dos movimentos dos Sem Terra, que nos é devidamente explicado nas suas raízes históricas, sociais e culturais, porém aponta para o presente e para as muitas fraturas e assimetrias que estão longe de ser sanadas - daí o título do post; a ação decorre no Estado da Bahia, numa fazenda que beneficia dos terrenos férteis irrigados pelas águas fartas de dois grandes rios, mas é centrada nas pequenas roças e aglomerados que foram nascendo do trabalho árduo das mulheres enquanto os homens trabalhavam para o senhor da fazenda; é uma obra protagonizada pelas mulheres, cuja submissão e subjugação é igualmente ambivalente, mas não deixa de equacionar a dureza, a miséria e a insegurança que atormentam igualmente os homens; é no Brasil, mas já foi ou continua a ser em qualquer ponto do globo, já que "sobre a terra há de viver sempre o mais forte" - é preciso descobrir quem o é efetivamente, daí a sua universalidade.

A narrativa conjuga os pontos de vista de duas irmãs sobre a sua história comum: Bibiana e Belonísia, flhas de Zeca Chapéu Grande, o curador do terreiro que dá corpo aos encantados que estruturam a vida espiritual da comunidade da fazenda, negros que se dizem índios para não serem expulsos das terras. As irmãs ficarão unidas por um laço ditado por um acidente de infância, mas também se desunem e voltam a unir por causa de pequenos episódios, mágicos, oníricos, encantados, quotidianos, simples, que ditam as suas/nossas escolhas e caminhos. Todas as personagens partilham uma cosmovisão mágica, generosa, idílica, submissa, mas inocentes dessa submissão, acreditando que o facto de o senhor permitir que tenham a sua roça é motivo de gratidão e desígnio para a sua froma de vida, nem sequer percebendo a sua própria indigência nem a verdade das suas prorrogativas.

Torto Arado ilustra bem o cadinho cultural que é o Brasil, uma herança que não pode ser negada, esquecida, obliterada, justamente porque nos ajuda a perceber algumas das fragilidades do presente deste país, mas também do mundo. O brasileiro tem, desde a origem e mercê das suas raízes índias e africanas, um pensamento mágico, crê nele e orienta-se pelos seus ditames e isso não foi ainda expurgado dos tempos que se vivem no Brasil. Além disso, desafortunadamente, as condições de vida de muitos dos seus habitantes não mudaram tanto assim, as vagas de imigrantes que chegam a Portugal à procura de um lugar de ser são a herança de um povo em êxodo à procura de uma terra prometida, chame-se ela Àgua Negra, Lisboa, ou outra coisa qualquer.

Como os livros dialogam, recomendo, a propósito deste, a leitura de dois outros que se contam entre os livros da minha vida: 

Wook.pt - A Guerra do Fim do Mundo      Wook.pt - Grande Sertão: Veredas

Este tríptico ajuda-nos a compreender e a conhecer o Brasil.

E no fim de tudo... os bons livros!

 

 

 

01
Jan21

Resoluções 2021 - só para cá voltar no fim do ano a ver...

livrosparaadiarofimdomundo

Efetivamente, depois de a Terra ter completado as suas 365 voltas em torno dos eu próprio eixo, somos tomados por esta sensação de recomeço, de que podemos emendar, de que podemos mais e melhor. Eu, a otimista, creio que, se houver um dia no ano em que nos propomos a mais e melhor, esse dia é sempre um ganho.

Em dia de resoluções, as que trago a um blog que está sobretudo voltado para os livros e as experiências ligadas à leitura, estão mioritariamente ligadas a esses asuntos, a outras são de mim para mim, na expectativa de haver um ano em que o balanço me dignifique. Ainda assim, mau grado todas as resoluções naõ cumpridas, renovo este ritual de compromisso para comigo.

Mas vamos às resoluções literárias:

1. Ler todos os livros que tenho começados em casa e que abandonei sabe Deus porquê. Esta á resolução para janeiro (há aqui uma batotazinha, assim vai parecer que leio muito mais...);

2. Ler apenas livros que tenho em casa, comprados e nunca lidos, sabe Deus porquê (volta a haver batotazinha, não me parece que nos próximos tempos vá ter muita disponibilidade económica para comprar livros), esta é a resolução do mês de fevereiro;

3. Ler apenas livros emprestados (aqui é contar com a boa vontade dos meus amigos leitores, que não me tem faltado e que me tem proporcionado excelentes experiências de leitura), esta é a resolução para o mês de março;

4. Ler apenas livros requisitados em bibliotecas (como sou procrastinadora, tenho esperança que até abril me tenha decidido a inscrever-me na biblioteca municipal e a frequentá-la), esta é a resolução para abril.

5. Ler apenas livros comprados em segunda mão, em especial em livrarias solidárias (há aqui seriamente uma preocupação com a sustentabilidade), esta é a resolução para maio.

6. Voltar às resoluções 1 e 2, porque ainda não as devo ter esgotado, além de que vou estar muito infeliz, porque todas resoluções me afastam do prazer enorme de ir a uma livraria e deixar que um livro ou muitos me pisquem oolho e me digam "leva-me contigo", esta é a resolução para o mês de junho;

7. Esperar que os meus amigos, que me vão emprestar livros, tenham bom gosto para comprar livros, esta é a resolução para o mês de julho;

8. Tentar perceber porque é me meti nestas resoluções mensais, quando se nota que já estou aqui a inventar para conseguir chegar até ao fim, de qualquer maneira, em agosto, acho que já mereço ir a uma livraria e ficar lá horas e vir para casa com uma braçada de livros, ou então, pronto, comprar livros para ler no mês de agosto, esta é a minha resolução para o mês de agosto;

9. Ler apenas livros sugeridos nos blogs do sapo, esta é a resolução para o mês de setembro.

10. Ler livros de autores que nunca li, incluindo uma quota para autores portugueses, resolução de outubro.

11. Ler só o que me apetecer, que já me contive o ano inteiro: comprados, emprestados, achados, roubados, o que vier à rede e me parecer consumível, resolução para novembro.

12. Pedir livros como presente de Natal a toda a gente, fazendo oportunamente posts sobre os que quero e partilhando-os com toda a gente que me conhece.

EXTRA: tentar cumprir estas resoluções, que me parecem tão sensatas, só a de roubar livros é que não, pelo meio emagrecer e cuidar melhor de mim. Vai dar certo, afinal o que pode correr mal nestas resoluções. Até dezembro!

 

 

 

3. 

 

 

29
Dez20

#46/2020 - O velho que lia romances de amor, Luís Sepúlveda: o post mais sustentável do ano

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O velho que lia romances de amor

Editora Asa

110 páginas

Porque é que este post é o mais sustentável do ano? Porque foi um livro emprestado por uma querida amiga, que o comprou em segunda mão - o livro até traz uma dedicatória: "À minha querida vovó, com votos de muitas felicidades. Beijinhos. Paulinha. 24-7-99", não é maravilhoso? - e, por último, é uma releitura. Entretanto, o exemplar que eu tinha perdeu-se nas malhas que os empréstimos tecem, o que me faz acreditar que também se trata de um reaproveitamento. Se isto não é reutilização e consequente sustentabilidade, não sei o que seja. Espero que a Greta Thunberg esteja a ler este post e redima toda uma geração. Mas, não deixa de ser interessante traçar estas biografias dos livros. Não sei se um ficheiro PDF ou um e-book conseguiria a mesma proeza, estou só aqui a questionar-me.

Este deve ser o livro mais conhecido de Luís Sepúveda, esse saudoso escritor que o traiçoeiro 2020 e o sua melhor amiga, a COVID-19,  nos levaram. Já não consigo precisar quando o li, mas foi há muitos, muitos anos. Lembrava-me muito bem que havia uma onça, não me lembrava tão bem como é que Sepúlveda, antes da Greta, já nos alertava para a exploração desenfreada da natureza e do nosso planeta. Depois, no Brasil, esse país que suponho maravilhoso, exuberante, nada parece mudar e o assalto aos recursos continua a fazer-se desenfreadamente, bem como o encurralamento das poucas tribos índias que vão sobrevivendo a estes desmandos.

Efetivamente, a ação desencadeia-se quando um idiota mata os filhotes da onça e fere o seu macho. Há toda uma alegoria à volta disso. No confronto entre o velho e a astuta onça temos duas faces de um mundo autêntico e equilibrado que agoniza. Homens e animais deixaram de coexistir em harmonia, num mundo em que a exploração dos recursos obedecia ao conhecimento desse necessário equilíbrio e não em função de uma ganância descontrolada. Ficaram-me desta vez perfeitamente marcados os últimos momentos do livro, aqueles em que o velho e a onça representam o último ato. O final do livro é tão bonito, tanto a onça como o velho são de uma dignidade a que muitos de nós aspiram e, além disso, os romances de amor, os livros, as palavras bonitas surgem como forma de sublimação da barbárie que cerca a Amazónia.

Creio, desde há muito, que os livros são partes de uma conversa universal que se mantém através dos séculos, daí que uns nos façam pensar noutros, sobretudo quando se debruçam sobre a própria universalidade, a humanidade, aquilo que procuramos - provavelmente desde o momento em que nos tornámos sapiens. Este O velho que lia romances de amor não pôde deixar de me remeter para O velho e o mar, de Hemingway. O homem e a natureza, o engenho contra a força primordial que habita o nosso planeta e que é encessário preservar, estimar, admirar e, já agora respeitar. 

E pronto, não podia haver mesmo um post mais eco-sustentável do que este. Recomendo também o documentário de David Attenborough, já que cavalgámos esta onda. Mas primeiro leiam este livrinho, que se conta entre os pequenos prazeres, mais um bombom de Natal.

28
Dez20

O melhor de 2020: os livros de que mais gostei e outras coisas

livrosparaadiarofimdomundo

2020 foi um ano de uma excelente colheita de livros. Destaco, entre muitas excelentes experiências, aquelas que foram mais marcantes, não querendo dizer que as que não menciono não tenham sido igualmente de qualidade (modéstia à parte - que a modéstia em excesso é outra forma de vaidade - considero-me uma leitora experiente, seletiva e exigente. A verdade é que raramente leio os livros dos destaques, ou muito comerciais, por outro lado, as minhas leituras são também ecléticas ou, como costumo defini-las, "vadias). Então recomendo para projeto de leitura, sem ordem, nem hierarquia, que isso já era demais:

      Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato  

 

    Augustus     Regina no Campo: A Educação de uma Fada

É uma escolha tão aleatória que nem devia valer, mas são títulos incontornáveis para mim.

Mas houve outras coisas interessantes:

Os meses em que li mais foram: janeiro, fevereiro, maio, agosto, novembro e dezembro.

Houve um mês em que não li um único livro: julho e sei bem porquê - o trabalho e se o trabalho me impediu de ler foi mesmo um mês mau.

Escritores de que li mais de um livro: John Williams; Han Kang, Fredrik Backman e Leo Tolstói.

Escritores de que me proponho ler mais livros: Han Kang, Mathias Énard, Lucia Berlim, Isabel Rio Novo, Maria Gaínza e John Williams - eu sei, este último é um desejo impossível, porque já li os três romances que escreveu, mas nunca se sabe...

A maior deceção: Mulheres que compram Flores 

Temas e assuntos que mais me interpelaram: abusos sexuais na infância 

Mais divertidos: Britt-Marie Esteve aqui, Fredrik Backman, por causa deste, li outro, mas não foi a mesma coisa

Onde buscar inspiração para ler: amigos leitores e o blog Horas Extraordinárias, mas os amigos leitores são absolutamente fantásticos, eles leram, eles emprestam, eles entusiasmam-se, não há nada melhor que essa experiência.

Recomendações: ler sempre, como digo aos meus alunos, nem que seja os rótulos dos detergentes. Ler é sempre o melhor remédio, bem ter dinheiro também, mas como não tenho dinheiro, fico-me pelos livros e as bibliotecas são gratuitas.

PS: não resisto, li excelentes livros, mas Fala-lhes de Batalhas, de reis e de elefantes  e o Augustus são capazes de serem os meus um bocadinho, só um bocadinho, preferidos. 

2021, vamos ver se és capaz de fazer melhor do que isto! It's a challeng.

27
Dez20

2020 em livros e leituras - um balancete.

livrosparaadiarofimdomundo

Fui ali atrás reler o que escrevi como desafios para 2020. Desafiei-me a 

#1 - comprar livros ao ritmo que os leio (consegui escrever isto sem me rir!)

Não posso dizer que tenha conseguido um sucesso por aí além, mas a pilha de livros comprados e (ainda) não lidos é bastante menor do que nos anos anteriores. Dela constam:

Wook.pt - Rabos de Lagartixa  Wook.pt - Uma Caneca de Tinta Irlandesa  Wook.pt - Lincoln no Bardo

A esta teremos de acrescentar aqueles que comprei, cuja leitura iniciei e, sem qualquer razão, ficaram a estagiar por aí, e os (ainda) abandonados são:

Wook.pt - A Guitarra Azul  Wook.pt - O Elefante Evapora-se 

E Aqueles cuja compra é tão recente que não se pode considerar um incumprimento

Wook.pt - O Barulho das Coisas ao Cair  Wook.pt - A Odisseia de Baldassare

Um que requisitei na Biblioteca, comecei, mas ainda não terminei

Wook.pt - Memórias de um Gato Viajante

Um emprestado, que aguarda a minha atenção

Wook.pt - Queria Ter Alguém à Minha Espera Num Sítio Qualquer

Quando comecei, parecia-me menos... mas há anos em que isto é muito pior. Assim sendo, parece-me que já tenho projeto de leitura para janeiro de 2021.

#2 - requisitar mais livros na biblioteca.

Consegui, sim senhor, daqui de onde estou, parece-me que foram pelo menos três. (Consegui dizer isto sem me rir.)

A Vegetariana  Atos Humanos  Wook.pt - Crónica de um Vendedor de Sangue

#3 - pedir livros emprestados.

Aqui é que se deu uma verdadeira revolução, li quinze livros emprestados. Estou uma leitora mais sustentável, menos compulsiva e a troca de sugestões de eleituras é sempre uma oportunidade de conhecer autores diferentes, livros que, possivelmente, nos passariam ao lado. Não me arrependo em nada desta decisão. Alguém tem um livrinho para me emprestar?

#4 - trocar livros (parece-me muito boa ideia, porque eu sou muito possessiva com os livros, mas há alguns que não faço questão de manter, uma pessoa não acerta sempre e há sempre uma opinião doferente da nossa - aproveito já para trocar O tempo entre costuras - alguém interessado?)

Não fiz, de todo.

#5 - ler 52 livros este ano, um por semana. Mas não vou parar se conseguir ler mais.

Não consegui, mas houve semanas em que li bem mais do que um livro, portanto devo ter pontos pela participação, além de ter acertado em metade do enunciado.

#6 - substituir a resolução 5 por um valor em páginas, se ler 52 livros com 100 páginas, terei lido menos se definir os objetivos por páginas. Vou pensar num valor... hummm, talvez 20 páginas por dia, o que daria cerca 7300 páginas. 

#7 - ler 8000 páginas em 2020.

Li, mais coisa menos coisa, 12 271 páginas, e ainda não contabilizei os livros que não terminei, nem aqueles sobre os quais ainda não escrevi no blog, nem o que estou a ler neste momento. Estou aqui a dar-me palmadinhas nos ombros.

#8 - ver mais filmes.

Nem sei o que fiz... não foram mais do que em 2019, de certeza.

#9 - viajar mais... se o puder fazer sem por em causa o sustento da família. Vou ali dizer aos meus filhos que afinal o ensino superior não é assim tão importante.

Rir para não chorar, rir para não chorar, rir para não chorar, rir para não chorar...

#10 - procurar ser uma versão melhor de mim mesma - a única resolução que levo mesmo a sério - isso implica ser melhor com os outros, melhor comigo mesma, cuidar de mim, ler mais, aprender mais, ouvir mais, falar menos, ser mais tolerante, ser mais proativa, ser mais interventiva socialmente, preocupar-me mais, responsabilizar-me mais. Pronto, fazer mais exercício físico.  Emagrecer, emagrecer, emagrecer. Parece-me que o ano 2020 não vai ser fácil.

As coisas em que eu me meto. Sei lá se fui uma versão melhor de mim mesma! Tentei, juro que tentei. Fiz mais exercício, parece-me que devo ter feito aí umas dez caminhadas. Não emagreci, mas recuso-me contar se engordei. 

Pronto, 2020 não foi fácil!

Siga-me para mais balanços pouco sérios. Amanhã - oh terror de qualquer escritor - publicarei a lista dos melhores livros de 2020 - para mim, pois claro!, bem como outras estatístcas absolutamento inúteis, mas eu gosto de listas e de estatística. 

26
Dez20

#45/2020 - A educação de uma fada, Didier Van Cauweleart: arqueologia das estantes

livrosparaadiarofimdomundo

Editora Ambar

196 páginas

Encontrado numa escavação arqueológica nas minhas estantes.

É verdade, o grau de desconhecimento do conteúdo das minhas estantes é preocupante, se não for senilidade, é decerto prova de que compro mais livros do que aqueles que leio e isso não me deixa feliz. Não me lembro onde comprei este livro, não me lembro quando o comprei. A edição é de 2001. é mais recente do que julgava.

Um dia destes, procurando outra coisa completamente diferente, deparei-me com este livro. Este ano, uma das ideias que tive para presente de Natal para uma pessoa de quem gosto muito foi oferecer um dos livros da minha estante. A ideia era dar um presente com verdadeirovalor afetivo - dar um dos meus livros é dar um pouco de mim, sem anestesia - além de ser mais sustentável. A decisão não foi fácil, era preciso que eu já o tivesse lido, era preciso que eu tivesse gostado, uma das hipóteses teve de ser colcada de parte, por ser demasiado triste. E isto já parece um episódio dos Simpsons, não era disto que eu vinha falar. Enquanto selecionava o livro, encontrei este, parecia-me excelente para oeferecer, mas não podia ser, eu não me lembrava de o ter lido. Acabei por me decidir por outro e por tirar este da estante e decidir-me a lê-lo.

Chegei neste preciso momento dessa leitura. Estou a escrever a quente. Hoje é um dos meus dias preferidos. Depois da azáfama do Natal, das idas e das vindas, da cozinha e etc, o dia 26 de dezembro calhou a um sábado e um sábado frio. Com a lareira acesa, dediquei-me a horas tranquilas de leitura. Se isto não é a felicidade, não sei o que seja. Mas não foi bem uma leitura, foi uma voragem.

A estrutura do romance obedece ao fluxo de consciência dos seus dois protagonistas: Nicolas, um criador de jogos e brinquedos, e Cesar, uma emigrante iraquiana, curda, operadora de caixa num supermercado, que se conhecem e se leem pelos olhares trocados na caixa, tentando conhecer o outro nesse entremeio breve. São almas sensíveis, que carregam as suas mágoas e incertezas acerca do futuro. Pelo meio, há Raoul, uma criança de sete anos, que precisa desesperadamente de uma fada que lhe conceda três desejos. E o resto é uma escrita inteligente, sensível, bem-humorada, comovente e fluida que nos permite horas de excelente leitura. Há, neste livro, passagens belíssimas, verdadeiros bombons de Natal, que somos forçados a reler para intensificar o sabor. É tão bonito este livro! Pontuado de episódios enternecedores, edificantes e verdadeiros momentos de inspiração para nos conduzirmos na vida. Tornou-se, neste dia, um dos melhores livros que li em 2020. A arqueologia é uma ativiade que compensa.

Já quanto ao autor, que parece não estar praticamente traduzido em português - agora que eu me sentia capaz de aprofundar  a sua obra - é um importante escritor francês, bastante premiado, cujos livros inclusivamente se encontram adaptados aos cinema, como o filme Desconhecido/Sem Identidade, com Liam Neeson, de 2011. Quem diria?

Vou ali às minhas estantes, procurar mais uns livros..., mas não é já, porque hoje comprei mais um livro, O barulho das coisas ao cair, de Juan Gabriel Vásquez, a culpa não foi minha, tinha 10 euros de desconto na Bertrand. Já vos conto.

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