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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

16
Mai22

#5/2020 -O silvo do Arqueiro, Irene Vallejo: da intemporalidade do mito

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Silvo do Arqueiro

Bertrand Editora

208 páginas

Vou lendo, vou lendo, mais ou menos à razão de um livro por semana... um bocadinho menos.

Irene Vallejo é autora do mui famoso O infinito num junco, que é um livro que eu quero muito ler, mas do qual, como acontece frequentemente, me vou arredando, vá-se lá saber porquê. Mas ele vai acontecer um dia, sei que vai. 

Estando familiarizada com o nome da autora, chamou-me a atenção este livro que surgiu - para mim - há pouco tempo nos escaparates e lá veio ele cá para casa e eu contaminada com uma resistência: se o romance histórico já foi um dos géneros preferidos, ultimamente tenho quase fugido deste tipo de narrativas. Este, ainda por cima, tocava temas quase sagrados: a figura mítica de Eneias e os seus amores pela rainha de Cartago, Dido no mito que conheci através das traduções de Latim do 10ºano (ai que saudades de estudar Latim!) e que nesta obra é Elisa. Esta é mesmo a grande interrogação/perplexidade que não consegui resolver: porquê Elisa? Mas a autora é especialista em mitologia, pode ser que saiba coisas que eu não sei, hipótese muito, muito provável.

Começada a leitura, confesso que o livro não me agarrou logo, faltava-lhe uma certa grandeza, talvez o tom grandíloco e corrente dos épicos, talvez uma certa birra, talvez falta de tempo para uma leitura mais atenta. Depois aconteceu uma tarde de praia, com pouca gente e o livro tomou conta de mim e ganhou uma dimensaão inesperada, é um livro com uma profundidade que acabou por me surpreeender.

O silvo do Arqueiro  é, como anuncia desde o início, uma revisitação de um clássico, mais até do que isso, é a revisitação de um mito, colhendo aí aquilo que está fora do espaço e do tempo, tornando-se por isso mesmo universal. Podemos começar pelo desenho literário de Cartago, a jovem cidade que Elisa vai fortificando, criando um reino seu, ela própria exilada e sujeita a todos os perigos, imagem da fragilidade não só humana, como claramente feminina num mundo de homens, para homens, dominado por homens que querem dominar outros homens e onde as mulheres se restringem ao gineceu, às escravas e, só em raros casos, a rainhas constantemente acossadas. Não há uma preocupação excessiva em fazer da cidade de Cartago um fresco histórico: portos e ruas, açoteias e palácios, casebres e baldios existiram em Cartago e existem em qualquer metrópole. É Cartago, mas podia ser uma qualquer cidade.

As personagens cingidas às suas demandas, às suas ambições, ao sonho e à errância: Elisa mais Penélope do que Dido; Eneias, o errante, aquele que calcorreia costas inóspitas à procura de um lugar de ser, onde possa enterrar e esquecer o passado marcado pela guerra, pela morte, pelo perigo, pela traição e pelos seus próprios demónios; Ana e Iulo, duas crianças perdidas no mundo dos adultos, demasiado frágeis para poderem fazer valer as suas razões, entristecidos num mundo em que vigora a lei do mais forte; a insuficiência do amor para sanar conflitos e corrigir hesitações e equívocos - tudo o que acontece tanto nessa Cartago mítica como num estado atual, onde a liberdade individual se verga a valores que a estiolam  e a esmagam, seja num tempo fora do tempo, seja na Roma imperial de Augusto, seja no presente do nosso quotidiano. Um mundo de sempre onde até os deuses se enganam e são ultrapassados.

Vallejo toma a universalidade da epopeia de Vergílio antes de ser obra literária, dá-nos o tema antes da obra e apresenta-nos Virgílio assomado pelas dores de qualquer escritor: a procrastinação, a fidelidade a si mesmo,  a dúvida, o sofrimento atroz que é escrever. Essa enigamática figura que, séculos depois de Eneias e de Elisa, perscruta o passado para explicar, justificar e celebrar o presente, seja como dever, seja como epifania. É neste passo que o romance se aprofunda, se afirma e se desdobra em múltiplos significados, mais do que um livro sobre Eneias, é um livro sobre a humanidade, mais do que texto é metatexto, é reflexão sobre o papel da escrita e da literatura. Não pude deixar de relacionar os últimos capítulos deste romance com algumas das reflexões do poeta em Os Lusíadas: sem poetas que as celebrem, não há grandes obras e estas funcionam por si mesmas como incentivo aos grandes feitos, quantas vezes a obra supera o assunto, sobrevivendo ao tempo, ao autor, à intenção, permanecendo como que levitando por cima dos seus fundamentos materiais, sublimando-se e vivendo por si mesma, pelo seu valor, pelo seu conteúdo, a arte maior que a vida, verdadeira promessa de eternidade: "Virgílio, moribundo, não chegou a sabê-lo, mas escreveu uma obra mais duradoura do que o próprio Império Romano. Não chegou a saber que, ao longo dos séculos, meninos e jovens vão aprender a conhecer a silhueta das palavras e a amar o fulgor da linguagem com os versos da sua Eneida". 

 

09
Mai22

#4/2020 - O colibri, Sandro Veronesi, uma excelente leitura

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Colibri

Quetzal

328 páginas

Estive em Faro e entrei numa livraria, isso é que é uma novidade! Apesar de ter sido praticamente empurrada para fora da loja, por já estar para fechar, em desespero de causa, perguntei se podia ainda comprar um livro e este estava na prateleira das novidades, de maneiras que veio comigo, não fosse dar-se o caso de eu não comprar mais um livro.

Claro que comecei logo a lê-lo e este livro fez-me aquilo que eu espero de um livro: agarrou-me imediatamente. Dormia a pensar nele e a procurar qualquer pretexto para lhe pegar. Acho que não o li, sorvi-o, como dizia o Álvaro de Campos, "sem tempo de manteiga nos dentes".

O Colibri - o título remete para a alcunha que o protagonista tinha em jovem - narra-nos a história de Marco Carrera, oftalmologista que vive em Florença, apresentando-no o seu percurso como é o percurso de qualquer vida: amor, amizade, família, carinho, cuidado, sonho, felicidade... e o reverso disto tudo, mágoa, infelicidade mais ou menos oculta, ódios, fraturas, morte, abismos inultrapassáveis. O livro é efetivamente uma saga familiar, marcada por uma sucessão de perdas e de impossibilidades que marcam profundamente o protagonista que, apesar de tudo, se reergue, se reorganiza, cumprindo o seu papel na terra por conta do mais puro e verdadeiro amor (terão de ler para saber do que se trata). O amor está também retratado nas suas múltiplas formas e imperfeições, em especial, como algo que muito se quer, que está ao alcance  e ao mesmo tempo irremediavelmente inalcançável. A família como núcleo que ora se faz e desfaz, marcados todo os elementos pela perda irreparável da morte de Irene, a irmão de Marco, mas também pela doença, que obriga à dedicação, à entrega. Mas o livro faz-se também do inaudito, do acaso, da revelação, de epifanias, de compreensão, ainda que tardias. Faz-se também de um ritmo que é sereno, como se a voz do narrador escolhesse propositadamente um tom menor para nos dar a conhecer esta humanidade dos seres de papel que desenha perante o leitor, é um narrador que se entrega ao seu papel de contador da história sem ceder ao histrionista, é contido, sensível, atento, gentil, mas contido.

Há depois a estrutura, a arquitetura do romance que encerra muito do seu encanto e da sua originalidade. O romance é polifónico, já que o narrador cede pontualmente a vez às suas personagens, em especial através da correspondência entre Marco e Luísa, que permite ao leitor reconstruir aquele amor malogrado a que ambos se entregaram durante anos. O livro assume diferentes perspetivas e todas se complementam, ficará de fora a perspetiva de Giacomo, o irmão que se exila nos EUA, que se recusa a responder às cartas de Marco, que o narrador silencia, mergulhando-o numa aura de mistério e de impenetrabilidade, que atormenta Marco e simultaneamente o leitor. O livro não está organizado linearmente, oscila no tempo, certos passos da obra iluminar-se-ão  mais tarde, ora pelas analepses proporcionadas pelos jogos da memória, ora pelas prolepses que antecipam momentos decisivos para as personagens. 

Por fim, há a inteligência e a cultura do autor, o recurso a todas as técnicas dialógicas que desafiam a enciclopédia do leitor: versos citados, frases de romances inseridas no discurso, reenvios frequentes para todas as formas de arte, títulos de livros, personagens retomadas de obras que marcaram o autor, músicas e letras de canções, obras de arte e de design, mistura de ficção e realidade, passagens completas de outros romances, que são tributos a autores e obras que marcaram o autor/narrador. Tudo disto culmina no capítulo final no qual o autor desnuda, revela cada passo que cerziu no seu próprio discurso, fazendo deste romance uma obra muito maior que ela mesma, maravilhando o leitor.

Por fim, há a beleza da linguagem, ancorada num equilíbrio grego, sem notas dissonantes, elegantíssima, exata, sedutora.

Este é um excelente romance, como há muito não me acontecia. Gostei tanto deste livro... e é daqueles que impõe a releitura, é preciso mais do que uma passagem para nos apropriarmos dele. Recomendo veementemente!

18
Abr22

#3/2022 - Madalena, Isabel Rio Novo: desilusão e ira, dois sentimentos pouco pascais

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Madalena

D. Quixote

199 páginas

Parte I - Desilusão

Desconfiar dos prémios... parece ser um bom barómetro para os livros. Nem sempre regressamos ao lugar onde fomos felizes. Às vezes, vamos lá e é com cada desilusão!

Eu li fascinada um livro de Isabel Rio Novo, o maravilhoso Rua de Paris em dia de Chuva, e pensei, temos escritora, sim senhor, quem escreve assim é muito promissor.

De vez em quando, nas minhas idas às livrarias online,  cruzo-me com os outros dois romances da autora e quase que compro, ouvi dizer bem de ambos e, a julgar pelo que tinha lido, não haveria de ficar desiludida. Vai daí que um domingo, numa qualquer livraria física da minha vida, desconsolada, porque nenhum livro se me colou, se me agarrou de maneira que eu não o pudesse deixar, até que pus os olhos em cima deste Madalena e pensei, olha é mesmo este! Isabel Rio Novo, um valor seguro. Pois não foi! Foi uma desilusão. Falta ao livro qualquer coisa que o torne convincente, é de uma banalidade excruciante. Quando cerzimos histórias num livro, o leitor naõ deve dar pelas costuras, a narrativa tem de fluir. No caso desta Madalena, parece que tudo foi alinhavado a pontos largos, fica-se com a sensação que a costura não vai aguentar se puxarmos por ela. Falta coesão, falta fluidez, falta a prima para a obra ser, embora a ideia até seja muito interessante. Certo é que no final não se percebe qual a relevância nem de uma linha narrativa nem de outra. Mais ou menos como a montanha que pariu um rato. Não houve uma frase que eu sublinhasse, que eu destacasse, que me tocasse. Ocorre-me a corruptela de um ditado, ao que parece alemão: a vida é demasiado curta para maus livros (era com vinho, mas eu não bebo), e eu li este até ao fim! É poucochinho. Não vale a pena insultarem-me, que eu na literatura sou anarquista e também não professo nenhuma fé.

Parte II - a ira

Tudo o que vou escrever a seguir não determinou a opinião que formei sobre o livro. Poderia ser apenas um pormenor desagradável, como o pé dormente de Alberto Caeiro, quando se punha a pensar. Mas é mais do que isso. Eu explico.

Acontece que a personagem do romance é professora de profissão. Embora a profissão não seja o mais importante para o desenho da personagem, a verdade é que a autora a definiu como professora, que regressa fragilizada à escola depois de um período de quimioterapia. E como é que esse regresso é descrito? Com uma indiferença atroz por parte de todos: colegas e alunos, e, cereja em cima do bolo, o presidente do conselho executivo, que se cruza com a personagem por acaso, a única palavra que tem para com ela é acerca do relatório de avaliação que estava em atraso. As aulas da personagem são descritas da forma como passo a citar: "Entretanto, voltara às aulas por poucas semanas, o suficiente para reaprender as rotinas da profissão. Gritar a matéria, repreender verbalmente, expulsar da sala; continuar a gritar a matéria, repreender por escrito, expulsar da sala, continuar a gritar a matéria, abandonar a sala, apresentar queixa no gabinete do conselho executivo, instaurar um processo disciplinar". E a coisa continua com mais umas descrições. 

O que é que me enfurece? O estereótipo! Custava alguma coisa ter tentado perceber? Informar-se minimamente sobre o funcionamento de uma escola? Perceber a dimensão da profissão, se era para falar sobre ela. Depois a escolha das palavras, esta professora não explica, não expõe, grita a matéria e expulsa alunos da sala, essas são as rotinas que reaprendeu. Nem é por eu ser professora, nem é por esta visão das coisas não coincidir com a forma como encaro a profissão, nem estar sequer próximo do que é a escola hoje em dia e do trabalho meritório e diferenciador que muitos professores fazem. Nem é pelo chorrilho de imprecisões e inocrreções. Não é por isso. É porque, conhecendo o meio, me desagradam os lugares comuns, os chavões, a negligência, o facto de estes dados não acrescentarem rigorosamente nada à história, porque não têm qualquer relevância, estão lá para encher, mas vamos lá arrojar uma série de coisas que se ouvem por aí e representar dessa forma uma profissão.

Mais ainda, Portugal está a atravessar uma verdadeira crise com falta de professores, a profissão não parece cativar ninguém e uma autora já com público, que é lida e respeitada, trata desta forma este papel social, pregando mais uns pregos neste caixão de maneira absolutamente gratuita, alinhando num coro que se faz ouvir há mais de uma década e que tão mal tem feito. isto quando é notório que a autora fez alguma pesquisa sobre o cancro, tratamentos e procedimentos...

E para aqueles que me vierem falar da liberdade estética, pois claro que a liberdade estética existe, mas também existe a outra: a de nos manifestarmos desagradados e de podermos afirmar que não é livro que recomendemos. Tenho pena. Continuo a gostar muito do Rua de paris em dia de chuva e talvez leia os outros. Esta Madalena é que não.

29
Mar22

Inspiração do dia - obrigada pela lição

livrosparaadiarofimdomundo

Quem me conhece, mesmo daqui do blog, sabe que vivo na convicção que tenho a profissão mais bonita do mundo:sou professora, mesmo a desempenhar funções de gestão, é isso que sou na essência professora.

Hoje, a propósito de uma formação, foi-me pedido que referisse a coisa mais bonita que me tinha acontecido e que me tinha feito feliz e lembrei-me automaticamente do César (o nome é fictício) e da lição que tinha aprendido com ele. 

O César é um menino vítima de maus tratos, de tal forma que a escola teve de intervir para que fosse tratado a propósito de uma tareia que o pai lhe deu, foram acionadas as medidas de proteção de menores. A escola é um lugar seguro para o César, é lá que toma a medicação, graças ao zelo e ao humanismo de assistentes operacionais como não há. 

Ontem, a propósito de circunstâncias alheias a esta situação, fui apresentada ao César que me olhou maravilhado (juro que não estou a inventar) e exclamou: "A Diretora? É tão jovem!". E eu ri-me, deliciada, peguei-lhe nas mãos e disse que ele tinha feito o meu dia. E ele acrescentou: "E é tão bonita!" E eu rendi-me com aquela gentileza. E disse-lhe que, por ele ser tão gentil, o iria acompanhar pessoalmente até à sala de aula. E lá fomos. Pelo caminho ele perguntou-me: "A professora sabe o que me aconteceu?". Eu respondi-lhe que sabia e que era por isso que me preocupava com ele. Depois falamos do que é que ele gostava mais na escola, como é que ele estava e, desta forma serena, fomos até à sala. Quando chegamos, ele quis que eu entrasse. Depois despedi-me e este momento ficou-me gravado e o tempo passa e os efeitos deste breve encontro espalham-se no meu espírito como uma mancha de água sobre papel.

O César conhece um ambiente de violência. Não me atrevo a especular mais, porque pouco mais sabemos. Ainda assim, perante o outro, foi de uma gentileza e de uma generosidade verdadeiramente tocantes. Que lição, que inspiração, querido César!

Não gosto de cavalgar os momento mediáticos, porque preciso de distanciamento, mas, sem querer penso no episódio dos Óscares e comparo esse momento mediático com este momento subterrâneo e mais fascinada me sinto com o César.

As horas passam e há uma comoção que me vai dominando, que tive de exprimir, que tive de agradecer. Obrigada César.

Precisamos tanto de cultivar esta gentileza com o outro, de assumirmos o discurso do Bem, de afirmarmos o humanismo e o afeto como forma de nos conduzirmos na vida, de sermos como o César.

  

12
Mar22

#2/2022 - A vida invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha: história da invisibilidade

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

Porto Editora

214 páginas

Nota prévia; finalmente, caí por causa da COVID-19. Já não sou como a aldeia do Astérix! Onde me infetei? Não faço a mínima ideia. Tive a versão light do bicho? Não. Tive direito ao catálogo completo de sintomas e maleitas. Mas, mesmo na maior adversidade, os bravos veem oportunidades e, sempre que a febre baixava, li todas as horas de alívio que pude usar.

Li a Eurídice num dia. É leitura de um fôlego. É difícil parar. Gostei muito de conhecer a Eurídice e a irmã, a Guida. Ficámos amigas...

Vamos lá por ordem no post...

O romance de Martha Batalha abre com uma breve nota introdutória da própria autora, na qual esclarece que algumas figuras e episódios foram bebidos em pedaços de histórias verídicas e que as duas protagonistas, Eurídice e Guida, foram inspiradas nas suas e "nossas" avós. Depois de lido o romance, ficou claro que não foram só inspiradas nessas avós da autora, elas, como as restantes figuras femininas do romance, foram baseadas em toda uma geração, ou gerações, de mulheres vergadas e submissas por ditames de convenções socias que as deixaram à margem de qualquer protagonismo, nem sequer das suas próprias vidas. Vislumbrei nestas mulheres tantas feições das muitas mulheres da minha família, cuja condição, para mim, fica sempre entre a tragédia e a epopeia, de tal maneira me surpreende a sua resignação e o seu heroísmo, a sua aparente falta de relevância e a sua grandeza.

Guida e Eurídice fazem lembrar as figuras de Jane Austen: Guida é a sensibilidade, Eurídice é o bom senso... mas a certo passo do romance, poderíamos dizer que trocam de papel. Guida ousa romper com as convenções e foge para se casar por amor, embora essa fuga não a subtraia ao papel social a que estaria destinada: dona de casa. Eurídice, ao ver o desgosto dos pais, entrega-se ao papel de filha dileta que assume para si o cumprimento de todos os sonhos que os pais da altura acalentavam: comportamento exemplar, namoro tranquilo e respeitoso, casamento em conformidade, filhos, mulher espera-marido, mãe diligente, fada do lar, como leitura para cultivo dessas prendas todas O jornal das Moças. Superada a prova de manter a honra incorrompida até ao casamento, a vida destas mulheres chegava ao fim. A partir do casamento e dos filhos era deixar o tempo e a vida discorrerem sem ondas, sem desejos, sem ambições, deixando-se sutentar pelos maridos, sendo que um bom marido seria aquele que não lhes batesse, que as sustentasse, que não lhes fosse infiel, ainda que as proibisse de qualquer arremedo de liberdade.

De uma forma muito inteligente, o romance vai-nos desvelando o quanto Eurídice não se enquadra no molde fabricado para ela e é aí que a leitura se torna interessante e a nossa Eurídice revela a sua grandeza. Não posso avançar mais, porque é preciso ler este livro como prova cega, como quem prova um doce de olhos vendados. Eurídice merece que todos os leitores a conheçam sem ser por interposta pessoa. Além dessas fugas, o facto de a narrativa se refazer constantemente, agregando pequenas biografias de muitas das figuras que se cruzam no romence, confere à leitura uma vivacidade que a torna muito cativante. São tantas as narrativas encaixadas que o romance se aproxima de um livro de contos. O estilo de Martha Batalha também é muito agradável, irrequito, quase constestário, oscilando entre a ironia e o sarcasmo, o trocadilho e a anedota, faz deste livro um pequeno prazer de que vamos precisando nos dias que correm.

Por fim, li o livro ainda na espuma do Dia da Mulher, dia sobre o qual nada disse, porque a febre não deixou, mas sobre o qual há muito a dizer e a pensar. Vida invisível de Eurídice Gusmão ensina-nos muito sobre a importância de continuarmos a falar deste dia e de continuarmos a pensar sobre a condição das mulheres, de demasiadas mulheres ainda. Não sendo das que festeja o dia da mulher num restaurante, embora um jantar de amigas seja uma das coisas que mais gosto na vida, ler este livro pareceu-me cerimónia à altura.

 

19
Fev22

#1/2022 - Itália, Práticas de Viagem, António Mega Ferreira: das práticas à viagem

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Itália - Práticas de viagem

Sextante Editora

280 páginas

Tanto para dizer...

1. Lembro-me muito bem do António Mega Ferreira desde a sua crónica no Expresso, que li sempre interessadamente. É, para mim, o senhor Expo 98. Há tempos, cruzei-me com um romance escrito por ele e Mega Ferreira é ainda o autor do prefácio da edição da Leya de A Guerra do fim do Mundo, deVargas Llosa, mais um leitura que não é possível contornar. A última referência a este autor foi não sei quando nem sei onde, mas ficou uma reminiscência sobre um livro relacionado com a Itália e o apreço como foi referido. Essa reminiscência ficou a fermentar e, numa das últimas idas a uma livraria, cruzei-me com o livro sobre o qual incide este post em promoção, uns passinhos mais à frente, o outro, tinha de ser o outro da tal referência, que é Crónicas Italianas. Como sempre numa livraria e quando estou sozinha, acabei com um verdadeiro braçado de livros, que pousei e fui buscar de novo, e não quero saber, a vida é tão breve, mas tens tantos livros para ler, e daí... Acabou por prevalecer o bom senso e trouxe apenas estes dois de Mega Ferreira... não trouxe um terceiro sobre Roma, porque não estava lá. 

2. Nada arrependida da decisão tomada. Este livro tem a minha cara, é o meu nome do meio, decidiu o destino das  minhas férias de verão, e o livro em si é um lugar maravilhoso. As práticas de viagem do autor incidem sobre diferentes lugares de Itália e esse país petaloso emerge com as suas cores ocre, a sua sprezzatura, a sua comida, os seus monumentos, testemunhas de séculos de história da Arte e da Literatura, da música e do cinema italiano. É ler um livro pela primeira vez e regressar a lugares que, embora conhecendo, nos escaparam. É um circuito arredado das grandes massas de turistas, feito de capelas e igrejas retiradas, de quadro e frescos quase secretos, de poesia declamada na frescura de um claustro, de biografias criativas, de textos fundadores.

3. Bolonha, Florença, Siena, San Giminagno, Roma, Ferrara, Trieste, Ravena, Veneza... Dante, Petrarca, Rafael, Giotto, Botticelli, Miguel Ângelo, Caravaggio, Giordio Morandi, Montaigne, os Médici, os papas, Bernini... marcas portuguesas em Itália, os cafés, as bibliotecas, a história, as curiosidades... daí que persista a sensação de que até são lugares onde estive, em sentido lato, mas não estive, porque me faltavam as chaves para olhar que este livro nos entrega. 

4. Diz que é um livro de viagens, mas é muito mais do que isso, é Educação Visual, é um tratado de erudição e de cultura, é inteligência, é atenção e sensibilidade. É um livro de uma riqueza enorme, que desafia, que transborda das suas páginas, que esmaga pela sabedoria que dele extravasa, que é humanista no seu apreço pela arte como forma de superação e de aperfeiçaomento individual.

5. Por isso, tenho de regressar a Itália, mais viajante e menos turista (que nunca fui verdadeiramente...), mais para estudar do que para olhar, mais para ver do que para apenas passar e deixar, gravadas na retina, não apenas as imagens, mas, transformando-as em meórias, aprorpriar-me da lição da história e do humanismo, tornando-me mais sensível, mais atenta, mais empática. É todo um processo de aperfeiçoamento pessoal para o qual este livro me desafia, renovando os votos que, muito cedo, fiz para com a pintura, a arquitetura,  a literatura e a escultura, procurando nas obras primas sublimar o anódino quotidino em que se esvai a nossa existência.

6. Fiquem atentos ao último texto, é tão bonito.

6. Segue-se, de imediato, Crónicas Italianas, só para confirmar. 

03
Fev22

Escrita em atraso: ensaio para um regresso

livrosparaadiarofimdomundo

Há tempos que não vinha aqui.

Parte de mim foi atingida por uma segunda vaga de compromissos profissionais que assumi e que fizeram das coisas de que eu gosto(ler e escrever) reféns dessa outra forma de vida.

Apesar desse coma de escrita/leitura - ler como quem respira, escrever como quem expira -, o universo manda-me sinais de que devo/possocontinuar.

Há dias, fui contactada pela orientadora das duas teses que fiz a lembrar-me que continua a acreditar em mim e a querer que eu continue a trabalhar da forma como garante que eu sei, a querer que eu volte a produzir, dizendo-me que ainda sou jovem e que ainda tenho tanto para dar. E eu fico perplexa.

Hoje regressei a este lugar, tem sido quase impossível vir aqui, a minha energia tem-se gasto noutras latitudes. Não é que me deem menos gosto, não é que não sejam importantes, não é que não tenham um papel social que me é muito grato, mas não é um papel criativo... ou é, às vezes até é, de outra maneira, mas é. E tive uma surpresa enorme. Parece que um dos meus posts de 2021 mereceu destaque da equipa do sapo blogs. Que orgulho senti, que baque no estômago. Não escrevo há tanto tempo e isso deixa-me tão triste. Obrigada Sapo pelo "sucesso editorial".

Desde sempre quis fazer da escrita uma forma de vida. Imagino-me romanticamente ensimesmada no labirinto da escrita, a viver disso a respirar essa forma de viver. Mas a vida é como um oceano, fui apanhada por outras correntes, queria aportar em Ítaca e fui ter à Madeira. O meu sonho tinha uma espécie de misticismo e saiu-me a trivialidade. Um dia, a meio de uma conversa, desabafei afirmando que não me imaginaria a gerir uma empresa e é quase isso que faço agora: sou diretora de um mega agrupamento de escolas. A educação, ser professora, é outro dos meus sonhos, dos lugares onde sempre quis estar, mas esta forma de estar é muito burocrática, embora o tédio não me assista e haja momento de grande compensação. 

Mas eu queria mesmo era escrever. Por isso ensio este regresso, por isso prometo a mim mesma voltar aqui e permitir-me este simulacro de ateliê e, como sempre, torcer para que aqueles que um dia me leram continuem a querer fazê-lo. O meu blog diz-me que tenho 74 resistentes que seguem esta página, é um critério de sucesso, tenho a certeza. 

 

10
Nov21

#22/2021 - Ciclo Tatiana Salem Levy: A chave de casa

livrosparaadiarofimdomundo

A chave de casa

Palavras-chave: viagem, memória, amor, mãe, abuso, polifonia, fragmentação, passado, reconstrução, diáspora, exílio, círculo.

O primeiro romance de Tatiana Salem Levy é surpreeendente pela segurança com que a autora conduz a narrativa, pelo domínio da linguagem, pela utilização dos recursos narrativos oferecidos pela memória, a polifonia e a fragmentação.

Contado na 1ª pessoa, mas são várias as pessoas, há uma vocação clara para a polifonia o que, enquanto estratégia narrativa, implica automaticamente o leitor, a quem cabe montar a história, ligar os fragmentos, estabelecer as relações, preencher as lacunas e imaginar o que fica percetível na gestão dos silêncios da própria história. Daqui resulta um livro que se estilhaça, tornando-se vários livros, várias histórias que são, na verdade, a mesma história: o passado de uma das personagens. Descendente de judeus, o povo da diáspora, o povo perseguido, em constante movimento. O avô da personagem que viaja para Esmirna tinha partido de Esmirna, a personagem que desembarca em Lisboa, apesar de brasileira, tinha nascido em Lisboa, cidade onde os pais se tinham exilado por causa da ditadura, outra forma de diáspora, mas a mesma fuga à perseguição e aos desmandos da violência do homem contra o homem.

O amor sob as suas múltiplas formas. O amor proibido, que leva à morte pelo desespero; o amor e a devoção pela figura da mãe que persiste na memória, mesmo após a morte, o amor que não é amor, mas que prende, oprime e se torna palco da maior violência e do maior abuso; o amor catártico que é uma forma de resistir e de sobreviver, o amor possível, o amor esperança.

A literatura e a escrita como forma de viver e de reviver, mas acima de tudo como forma de ser: "Se não sangra, a minha escrita não existe. Se não rasga o corpo, tampouco existe. Insisto na dor, pois é ela que me faz escrever". Esta passagem parece-me emblemática. Encerra em si a negação de uma certa forma de literatura, aquela que dizemos leve, de mera fruição. Não, a escrita e o objeto que daí resulta não é para ser um lugar de conforto, não é para nos acolher, é para nos fustigar, para nos abalar, para nos levar tão longe quanto possa ser dito. Esta é uma característica da obra de Tatiana Levy, a linguagem quase brutal, crua, sem dourados, sem concessões. O indizível, como a própria autora afirmou, é para ser dito, porque é tangível e não pode ser oacultado. Tudo deve ser exposto de maneira a interpelar-nos a arrastar-nos perante um quadro que não quereríamos ver, mas perante o qual somos colocados sem qualquer piedade. É uma escrita que é didática. Em contraste, também lá está uma certa poeticidade, um quase fantástico e etéreo, em especial na relação que a filha estabelece com a mãe, mantendo-a viva pela persistência da memória, amando-a devotamente.

É um livro poderoso, irresistível, só tem um defeito: está esgotado e isso, por si só, é uma injustiça, porque este livro merece ser lido, relido e discutido.

 

09
Nov21

#22/2021 - Ciclo Tatiana Salem Levy I

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A chave de casa

Cotovia

126 páginas

Emprestado (a ferros, que o livro está esgotadíssimo).

A figura do círculo é geometricamente e existencialmente interessante. 

Para vos explicar esta metáfora, ou esta asserção, vou precisar de algum tempo, alguns livros, alguns posts.

Aqui há uns meses, talvez até mais do que um ano, numa daquelas publicações acerca dos melhores livros, ou da década, ou do ano, ou de sempre, ou porque sim, deparei-me com a referência a este livro e fiquei curiosa, mais a mais sendo a minha área de investigação a literatura brasileira. Pesquisei, mas não o encontrei e deixei-o esquecido, outros livros surgiram.

No início deste ano letivo, às escolas chegou a divulgação de uma iniciativa da Casa da Presidência da República, subordinada ao tema Mulheres de Coragem no Palácio de Belém. Num total de nove sessões, era possível ordená-las por ordem de preferência e inscrever duas turmas do ensino secundário. Uma dessas sessões era com Tatiana Salem Levy e aquela memória adormecida acerca de A Chave de Casa despertou e foi nessa sessão que inscrevi duas turmas do secundário. a possibilidade de participar nessa sessão levou-me a procurar outros livros da autora para conhecer o mais possível a obra e perceber a razão de ser de Tatiana Salem Levy testemunhar na qualidade de mulher de coragem.

Felizmente, a nossa escola foi selecionada. Hoje, dia 9 de novembro, pudemos então passar cerca de hora e meia a ouvir e a conhecer esta escritora.

A sessão decorreu no antigo Museu dos Coches, um espaço lindíssimo e um sítio maravilhos para ouvir uma pessoa interessante e para ouvir falar de livros e da importância da escrita e da literatura como operador catártico.

A um palanque modesto, em cima do qual estava uma cadeira e uma pequena mesa com água, chegou uma figura pequena, frágil, magra, de cabelo encaracolado. Já conhecedora dos seus livros, interroguei-me como é que desta aparência tão frágil saem palavras tão concretas, tão brutais, tão cruas, tão importantes.

A escritora parecia pouco à vontade, trazia umas páginas escritas que sustentariam o seu discurso, confirmou a sua timidez que se percebia nos gestos, na atitude corporal, nas mãos inquietas. Quando a sua voz se ouviu, senti uma espécie de magnetismo que me prendeu àquele discurso durante o tempo todo, confortavelmente instalada no conhecimento entretanto adquirido da sua escrita.

Tatiana Levy assentou o seu testemunho nas peripécias quase romanescas que fazem parte da sua biografia e da história da sua família. Há uma fusão tão completa entre a biografia da autora e as páginas dos seus livros que é quase desconcertante. Ao longo da viagem até Lisboa, fui lendo este A chave da Casa e, enquanto a ouvia, era como se ela nos estivesse a ler alguns excertos. Por outro lado, a sua coragem está presente na forma crua, concreta, específica com que ela aborda alguns temas, nomeadamente as questões ligadas a uma certa condição feminina. A autora refriu também a importância que dá à forma de dizer, de narrar, em detrimento da história propriamente dita e, para mim, a literatura é muito isso, a exploração do virtuosismo da linguagem. A coragem está também nos próprios temas da sua obra, cujas arestas nos sulcam a pele, nos deixam cicatrizes, nos incomodam, ao ponto de nos deixarem desconfortáveis.

Depois deste tempo bem passado, ganhei coragem e dirigi-me à escritora, atrevendo-me a dizer-lhe o quanto gostei dos seus livros e daquela sessão.

Amanhã, falo-vos deste livro, que li entre a viagem de ida e a viagem de volta, as últimas páginas, enquanto a noite caía, já com a lanterna do telemóvel. 

21
Set21

#Às vezes também vejo séries 3 - Stateless, da arbitrariedade

livrosparaadiarofimdomundo

Tem sido assim nestes últimos tempos, muito trabalho e pouco, muito pouco do que me permite sentir que vivo. A leitura tem estado em banho maria. Entretanto, consegui ver séries na modalidade de que mais gosto: minisséries.

Assim, cheguei a Stateless, cujo título significa de "sem estado", estado político, tutela. Vi na Netflix, tudo de rajada que foi para isso que se fizeram os domingos e para que as segundas-feiras custem um bocadinho mais, já que me deitei a horas inconfessáveis, mas vi, tive de ver até ao fim, a suster a respiração e a falar um bocadinho sozinha.

Os aspetos técnicos da série são muito bons, em especial a linha narrativa que faz confluir as histórias dispersas que se vêm a cruzar no lugar onde não se tem estado,  um campo para refugiados na Austrália. Entre esses, por engano, encontra-se uma australiana que foge de si mesma e que aí permanece (esta parte é baseada em factos verídicos).

Há três eixos narrativos que sustentam a ação e que representam outras tantas perspetivas sobre o que ali se passa: os refugiados - sublinho a forma como as palavras, a designação escolhida destitui aquelas pessoas, que são os não-cidadãos ilegais -; os guardas do campo, as instituições que gerem o campo. Todos são objeto de forças que os esmagam, todos se digladiam perante a humanidade/desumanidade com que têm de lidar. O diretor do campo e a agente do governo, cuja maior preocupação é não ser notícia dos jornais, sobretudo se essas disserem respeito às condições em que se encontram os "habitantes do campo". Os guardas do campo, uns aproveitando o poder que têm sobre aquelas pessoas "sem estado" para darem largas a um certo impulso para a violência que sempre parece surgir perante aqueles que estão verdadeiramente indefesos; outros vivendo em conflito com a sua consciência perante a crueza do que observam e que os vai transformando. Os refugiados, histórias repetidas de violência, de perda, de pobreza, de oportunismo, de esperança, de humilhação, de rostos maltratados de quem a tudo se submete para obter um visto e não ser obrigado a voltar.

Tudo na série concorre para esse ambiente opressivo que esmaga o espetador, que nos envergonha, que nos obriga a tomar consciência da nossa impotência. A localização do campo, no meio do deserto australiano, a cor vermelha da terra, o calor opressivo, a sujidade, o pó. As roupas transpiradas dos guardas,  a sua falta de preparação para o serviço que prestam, a sua brutalidade, as armas, a troça e o riso, a incompreensão. Mas, em especial, os refugiados, cuja única opção é esperar: esperar pelo agente da imigração, esperar pela entrevista, esperar não errar com as  palavras, esperar não cometer nenhum erro que impeça a atribuição do visto, esperar pelo visto, esperar em vão durante anos, esperar não ser repatriado, esperar para se reunirem à família, esperar apenas. A agente do governo assoberbada, os processos que se acumulam, a impotência, a gestão da pressão, a gestão de um campo que sintomaticamente é comparado a uma panela de pressão prestes a rebentar.

Não me posso alongar. É, apesar de tudo isto, uma série muito bonita, que vale muito a pena ver. Consegue evitar o facilitismo da narrativa. É dramática com autenticidade. É crua sem condescendência. É didática. É reveladora da enorme confusão que é para o mundo esta questão das pessoas deslocadas, estes não cidadãos, como a jovem curda que não se atemoriza com as condições do campo, porque tinha passado por atrocidades bem maiores. Gostei muito, mesmo muito.

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