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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

30
Dez19

Os livros e a (minha) vida II

livrosparaadiarofimdomundo

Dou hoje continuação a este post, de novo levada por esta ideia de que, a determinada memória, ficou para sempre ligado o livro que  me acompanhava na altura. Já "entrei" na faculdade e houve uma espécie de epifania, primeiro que as leituras podiam ser orientadas, obedecendo a critérios e a objetivos, mais não fosse para fazer cadeiras com sucesso; segundo a descoberta de que os leitores funcionavam também como comunidade, uma rede social, antes das redes sociais.

1. A cadeira de Introdução aos estudos literários foi uma surpresa. Uma vez que ia tirar uma licenciatura em Línguas e Humanidades - Variante Estudos Portugueses, imaginei quatro anos da minha vida a ler e a conhecer a literatura portuguesa. Assim, a primeira leitura que tive de fazer foi nada mais nada menos que O Nome da Rosa, de Umberto Eco, e logo depois o opúsculo Porquê o Nome da Rosa A Biblioteca, também de Eco. Mas foi também a fase de Jorge de Sena, o dos contos. O Físico Prodigioso é parente muito chegado de A Fada Oriana. Para sempre ficou o fascínio pela Idade Média, anos mais tarde revisitado por outro livro que ficou para sempre, Os Pilares da Terra, de Ken Follett. Mas também a crueza e a dureza dos contos de Os Grãos-capitães ou de Antigas e Novas andanças do Demónio. Li completamente fascinada e siderada "Super Flumina Babylonis", cujo título remete logo para a canção de Camões "Sobolos Rios de Babilónia" e que ficciona os últimos dias da vida de Camões, pobre, doente, amargurado, como sabemos que terminou os seus dias. Mas o conto é uma homenagem sentida, apaixonada ao nosso poeta maior. Quanto mais conhecermos a sua obra melhor leremos o conto. Mas também pode ser o inverso, a leitura do conto pode muito bm funcionar como pretexto para (re)conhecer a canção e outros poemas de Camões. Recomendo muito a leitura de Jorge de Sena. Apetece-me largar o que estou a fazer e ir ali matar saudades desta prosa virtuosa.

2. O segundo ano aprofundou o meu fascínio pela Idade Média e, desta vez, através dos textos medievais. O encanto com que estudei a lírica peninsular. A delicadeza das cantigas de amigo, muito, muito mais do que as cantigas de amor, A Dama Pé de Cabra, Melusina, só a musicalidade deste nome, do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro. Depois a descoberta de A Demanda do Santo Graal, numa edição da INCM, lida integralmente em Português medieval. Que aventura maravilhosa. Aqueles heróis que deram origem ao desejo de ler tudo o que houvesse para ler sobre as lendas do Rei Artur: Galaaz, Lancelot, Artur, Merlim, a rainha Genebra e não a hollyoodesca Guinevere, claro muito mais apagada pela moral cristão. Daqui fui para os quatro volumes de As Brumas de Avalon, de Colleen Mccullough. Rendi-me totalmente a estes quatro livros, já os li três vezes na minha vida e nunca me cansei. Ainda não me libertei do choque de que Artur e Morgaine fossem irmãos, eles amavam-se tanto. Depois a recriação dos mitos e rituais druídicos, a Deusa, o poder feminino, o apego à terra e à natureza, Avalon, a barca, o crescimento do cristianismo, Artur dividido entre dois mundo e duas religiões, os mistérios... (suspiro nostálgico).

3. O terceiro ano foi o ano da descoberta da literatura lusófona, em especial a africana. Fiquei de Cabo Verde, por causa de A Vida e Morte de João Cabafume, Chuva Braba, de Manuel Lopes, que me ajudou a perceber o conceito de êxodo e porque é que a emigração é tão elevada em Cabo Verde. Continuo a querer tanto ir lá. Mais tarde, foi ainda a descoberta de Germano de Almeida e do seu livro Dois Irmãosque equaciona exemplarmente o choque entre a modernidade e os valores tradiconais na sociedade, sendo que a pressão da tradição é por vezes de um peso desmedido e nos devolve à história bíblica e primordial de Caim e Abel. No início, fui muito mais de África do que do Brasil, as vozes africanas, entre elas o soberbo Terra Sonâmbula, do hoje muito aclamado Mia Couto, ainda num período de menos fama e demais autenticiade (Nota à margem, desde O Pranto da leoa - de que não gostei - não voltei a Mia Couto) cativaram-me muito mais. Daí que alguns anos mais tarde me tenha candidatado a um mestrado, pensando que seria em Africanas e que acabou por ser em Literatura Brasileira. Os anos de faculdade foram ainda da descoberta desse evento anual que passei a viver assiduamente: A Feira do Livro!

4. Não sei se foi no 4º ano, mas nesse tempo as leituras não eram só as impostos pela faculdade. Li tudo o que havia para ler de Gabriel García Marquez, tudo desde Cem anos de Solidão e percebi que havia algo de mágico naquela escrita antes de conhecer o termo realismo mágico. Crónica de uma morte anunciada, O Outono do Patriarca, Olhos de cão azul, A revoada, Amor nos tempos de cólera, O general no seu labirinto e, nos anos que se seguiram, todos os títulos que iam saindo. Eu amo García Márquez, eu venero-o, sobretudo depois de conhecer uma pequena história: parece que, no momento de enviar o manuscrito de Cem anos de Solidão para a editora, o escritor gastou tudo o que tinha, além de o ter de fazer por duas vezes. Quando finalmente conseguiram fazer o envio, a sua mulher ter-lhe-á perguntado "E agora, Gabo, se o livro não presta?". Prestava sim, ainda hoje presta, e levou-o pelo menos ao Prémio Nobel. Há investimentos que valem a pena!  Também desta altura é o extraordinário A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, tinha de ser, tinha de estar no currículo, também gosto tanto deste livro e o conhecimento de que a leveza pode ser insustentável foi uma das revelações mais importantes para a minha formação, visto que a ela regressei e regresso em tantas fases da minha vida.

5. Nestes anos, havia dois colegas da residência universitária onde vivia que dominavam muito bem a arte de "conseguir livros gratuitamente" na feira do livro e que me conseguiram alguns dessa forma, que eu guardo com carinho e nostalgia. Partilhávamos leituras e à conta deles descobri Dostóievski e Henry Miller.

 6. Quem me mandou a mim começar esta tarefa interminável? Mas agora não posso desistir. Tenho de concluir o mural... portanto, CONTINUA.

26
Dez19

Os livros e a (minha) vida

livrosparaadiarofimdomundo

Gosto de tarefas que me libertem o pensamento: conduzir, engomar, cozinhar, esperar num sítio com pessoas, o duche. Foi assim que nos últimos dias me foi surgindo a ideia para este post. Há memórias da minha vida que ficaram para sempre ligadas aos livros que eu estava a ler nesse momento.

1. A escola primária. Foi quando descobri os livros, ou melhor o livro: A fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner. Havia um armário com portas envidraçadas ao fundo da sala de aulas. A professora guardava aí a máuina de stencil, os químicos, as cartolinas, algum material diverso e livros, poucos como é de ver. Entre eles, a fada mais mágica de toda a minha vida. Lembro-me tão bem da descrição da casa do lenhador, da melancolia do poeta, do carinho que Oriana tinha pela velha. Oriana é um narciso regatado.

2. Um presente de aniversário que mudou  a minha relação com o mundo. Uma tia da minha mãe, que morava em Lisboa, ofereceu-me o primeiro livro que seria mesmo meu: O  mistério da Gata desaparecida, de Enid Blyton. A partir daí a ida à missa de sábado passou a ser o dia em que eu comrava um livro, se fosse obediente... Li tudo o que a senhora escreveu e as palavras, chá, pudim, leite creme, scones, leite fresco e manteiga para mim têm sempre associadas reminiscências dessas leituras em que a hora do lanche era profusamente descrita. Até o pão, que eu não apreciava em criança parecia muito apetitoso.

3. As primas que me emprestaram alguns grandes livros, que elas iam comprando e lendo. Eram cinco irmãs que descobriram a leitura à revelia de um pai à antiga que não as deixou ir à escola, porque filhos, filhas em especial, eram para trabalhar e para entregar o salário ao pai. À conta das descobertas delas li 1984, de George Orwell, e Quo Vadis, de Henryk Sienkiewicz. Mais tarde, vi o filme e descobri que havia filmes baseados em livros.

4. A biblioteca da escola. Requisitei Rebeca, de Daphne du Maurier. Aprendi o que era o suspense e os mistérios que se adensam. Depois houve uma telenovela brasileira. Não me recordo do nome, mas a história era a mesma, ou muito idêntica. Descobri a coleção Dois Mundos, dos Livros do Brasil. Achava - erradamente - que os portugueses não sabiam escrever livros. Era comum achar que os portugueses não faziam nada d ejeito naquela altura.

5. As leituras do 11º Ano. Não gostei das Viagens, de Garrett, mas delirei com Eurico, o presbítero. Percebi a meio da leitura que o Carlos e a Maria Eduarda, em Os Maias, eram irmãos. Na altura, não percebi a grandeza de Eça, nem a força deste romance, mas a vida corrigiu essa lacuna.

6. As férias na Nazaré e a livraria do "centro comercial" na cave. Havia uma banca comprida ao fundo que acompanhava todo o comprimento da loja. Expostos e ao alcance da mão, os volumes todos da coleção Dois Mundos, comecei a selecionar a leitura pela lista dos livros publicados que era a contracapa de todos os livros. Descobri Pearl S. Buck e o oriente pelos olhos dela. Nunca mais me esqueci da descrição que ela faz das mulheres orientais: as japonesas são feias, as chinesas são bonitas, as coreanas são lindas. Li de rajada tudo o que ela tinha escrito. Recordo com mais precisão Mandala (ìndia), A Serpente Vermelha, Flor oculta (foi o primeiro) e tantos outros.

7. A feira do livro organizada pela escola. Foram os alunos que desempacotaram os livros, que os marcaram e que os venderam. Fiquei com a banca das Edições 70, pelas quais passei a guardar um carinho especial e quis muito ter O mistério das catedrais. Nunca o tive. Mas comprei dois volumes de Mafalda, do Quino. Anos mais tarde, compraria A Mafalda Toda, que releio sempre que posso. A partir da í, as feiras lo livro na escola parecem-me sempre insípidas e demasiado "pronto a vestir".

8. As leituras do 12º Ano: Ilíada, Odisseia,  de Homero, falhei Vergílio. Porque quis, ninguém me mandou, ninguém me obrigou. Apeteceu-me e o fascínio pelos romances históricos nunca mais me abandonou. Vampririzo as pesquisas dos outros para aprender. Depois faço outras pesquisas por minha conta para completar espaços em branco, mas o livro é sempre o ponto de partida. Depois descobri, 10 anos antes do Nobel, José Saramago, quando li a propósito do estudo de Fernando Pessoa, O Ano da Morte de Ricardo Reisatravés do qual descobri outro fascínio: o da citação e o da intertextualidade, aquela piscadela de olho que o escritor nos faz, interpelando-nos: será que sabes? CONTINUA NO PRÓXIMO POST...  que já vai longa a lista.

 

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