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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

05
Out21

Feliz Dia do professor

livrosparaadiarofimdomundo
A minha professora primária foi a D. Teresa. começou a dar-nos aulas muito jovem e recém casada, o marido levava-a para a escola de bicicleta. Aos meus olhos, era lindíssima. Aprendi imenso com ela durante três anos, aprendi a gostar da escola de maneira absoluta, de tal forma que não gostava das férias porque interrompiam a escola, que era o sítio onde eu mais gostava de estar, só concedendo um bocadinho à leitura, depois que a descobri. Foi com ela que descobri que queria ser professora.

 

Quando terminei a 4ª classe, a D. Teresa deu-me um presente, um livro de autógrafos, com capa verde, que ainda conservo. O primeiro autógrafo que pedi foi o dela.

 

A D. Teresa foi a primeira pessoa a acreditar em mim, acreditava tanto em mim que conseguiu convencer os meus pais a deixarem-me prosseguir estudos, porque era mesmo uma pena..., escapando assim ao destino da maior parte das meninas da minha idade: trabalhar nas fábricas, onde a oferta de emprego era muito maior que a procura.

 

Mantive com ela uma relação que se tornou amizade: eu seria para ela sempre a Nelinha e ela nunca deixou de olhar para mim como quem acredita. No dia da benção das fitas, no final do percurso académico, ofereci-lhe uma fotografia, reconhecendo que tudo tinha começado com ela. Foi ao meu casamento e ao batizado do meu primeiro filho e foi ela quem ofereceu a conha com que sobre ele se derramou a água da unção.

 

A D. Teresa veio a falecer de cancro, pouco tempo depois, uma doença que também acompanhei de perto, visitando-o no hospital. No seu funeral, chorei como quem chora alguém de família, ainda hoje sinto falta dela na minha paisagem emocional.

 

Partilho convosco esta história, porque para cada um de nós, há de haver um aluno que contará a alguém a forma como fomos importantes na sua vida. Não somos importantes para todos, não somos importantes para todos da mesma forma, mas tocamos muitos, fazemos aquela diferença que as estatísticas não contabilizem, porque não é do domínio do contável, mas é a diferença que conta.

 

Partilho também para que nos recordemos que temos a profissão mais bonita do mundo, mesmo que, na espuma dos dias, isso não seja relevado, a verdade é que é mesmo assim. Todos nós fomos alunos, todos nós temos as nossas referências, as minhas são muito mais do que a D. Teresa, mas, acima de tudo, todos nós já constituímos uma referência especial para alguém. É isso que nos escora.

 

Feliz dia do Professor,
21
Set21

#Às vezes também vejo séries 3 - Stateless, da arbitrariedade

livrosparaadiarofimdomundo

Tem sido assim nestes últimos tempos, muito trabalho e pouco, muito pouco do que me permite sentir que vivo. A leitura tem estado em banho maria. Entretanto, consegui ver séries na modalidade de que mais gosto: minisséries.

Assim, cheguei a Stateless, cujo título significa de "sem estado", estado político, tutela. Vi na Netflix, tudo de rajada que foi para isso que se fizeram os domingos e para que as segundas-feiras custem um bocadinho mais, já que me deitei a horas inconfessáveis, mas vi, tive de ver até ao fim, a suster a respiração e a falar um bocadinho sozinha.

Os aspetos técnicos da série são muito bons, em especial a linha narrativa que faz confluir as histórias dispersas que se vêm a cruzar no lugar onde não se tem estado,  um campo para refugiados na Austrália. Entre esses, por engano, encontra-se uma australiana que foge de si mesma e que aí permanece (esta parte é baseada em factos verídicos).

Há três eixos narrativos que sustentam a ação e que representam outras tantas perspetivas sobre o que ali se passa: os refugiados - sublinho a forma como as palavras, a designação escolhida destitui aquelas pessoas, que são os não-cidadãos ilegais -; os guardas do campo, as instituições que gerem o campo. Todos são objeto de forças que os esmagam, todos se digladiam perante a humanidade/desumanidade com que têm de lidar. O diretor do campo e a agente do governo, cuja maior preocupação é não ser notícia dos jornais, sobretudo se essas disserem respeito às condições em que se encontram os "habitantes do campo". Os guardas do campo, uns aproveitando o poder que têm sobre aquelas pessoas "sem estado" para darem largas a um certo impulso para a violência que sempre parece surgir perante aqueles que estão verdadeiramente indefesos; outros vivendo em conflito com a sua consciência perante a crueza do que observam e que os vai transformando. Os refugiados, histórias repetidas de violência, de perda, de pobreza, de oportunismo, de esperança, de humilhação, de rostos maltratados de quem a tudo se submete para obter um visto e não ser obrigado a voltar.

Tudo na série concorre para esse ambiente opressivo que esmaga o espetador, que nos envergonha, que nos obriga a tomar consciência da nossa impotência. A localização do campo, no meio do deserto australiano, a cor vermelha da terra, o calor opressivo, a sujidade, o pó. As roupas transpiradas dos guardas,  a sua falta de preparação para o serviço que prestam, a sua brutalidade, as armas, a troça e o riso, a incompreensão. Mas, em especial, os refugiados, cuja única opção é esperar: esperar pelo agente da imigração, esperar pela entrevista, esperar não errar com as  palavras, esperar não cometer nenhum erro que impeça a atribuição do visto, esperar pelo visto, esperar em vão durante anos, esperar não ser repatriado, esperar para se reunirem à família, esperar apenas. A agente do governo assoberbada, os processos que se acumulam, a impotência, a gestão da pressão, a gestão de um campo que sintomaticamente é comparado a uma panela de pressão prestes a rebentar.

Não me posso alongar. É, apesar de tudo isto, uma série muito bonita, que vale muito a pena ver. Consegue evitar o facilitismo da narrativa. É dramática com autenticidade. É crua sem condescendência. É didática. É reveladora da enorme confusão que é para o mundo esta questão das pessoas deslocadas, estes não cidadãos, como a jovem curda que não se atemoriza com as condições do campo, porque tinha passado por atrocidades bem maiores. Gostei muito, mesmo muito.

06
Mai21

Da saúde mental

livrosparaadiarofimdomundo

O papel da escola preocupa-me. Não por causa daquilo que não faz - porque faz muito -, mas por causa daquilo que precisa de ser feito e que não pode ser resolvido pela escola e na escola. 

Apesar de os alunos passarem muito tempo na escola (é mesmo muito) e de toda a gente parecer querer que os alunos lá passem mais ainda, vai germinando em mim uma certa ideia de impotência que me sufoca. E, como um náufrago, vou esbracejando para me salvar a mim e à minha obra, como o "épico de outrora", tentando que esse tempo seja significativo para estes jovens, procurando que eles se recentrem na escola e que a vejam como um lugar privilegiado de desenvolvimento, de conhecimento, de experiências e da troca delas, enfim, um lugar onde crescem.

Esta reflexão vem a propósito de uma atividade que desenvolvi com os meus alunos. A propósito do estudo da lírica de Camões, pedi aos meus alunos que saíssem da sala de aula, munidos do seu caderno de português, que procurassem, no exterior (porque estava um dia de sol maravilhoso), um lugar sossegado e que escrevessem uma reflexão sobre a sua vida, à imagem do soneto "Erros meus, má fortuna, amor ardente". Dei-lhes tempo suficiente, aceitei que não quisessem ler o texto perante os colegas (sou uma fácil com os alunos, talvez já esteja numa fase em que já não me sinto mãe e me sinto mais avó) e, no final, eles entregar-me-iam os textos para eu ler/corrigir.

Daqui resultou o verdadeiros agridoce.

Quando regressaram às aulas, os alunos vinham eufóricos, felizes, alguns deles disseram que se tinham comovido com o que escreveram, outros chamaram-me a atenção para o facto de o conteúdo do texto ser confidencial, um ou outro pediu para ainda terminar, outro chorou, porque o texto despertou memórias dolorosas. Enfim, do ponto de vista pedagógico, estou convencida que a atividade foi um sucesso.

A amargura veio quando li os textos. Na sua esmagadora maioria, são textos de gente que está triste, que encara a vida - a vida de quem tem dezasseis anos, de quem é jovem, bonito, de quem ainda só começou a caminhada, de quem tem um leque enorme de possibilidades à sua frente - como um arrastar de horas rotineiras, entediantes, vazias. Em alguns casos, é notório o desânimo - na sua vertente etimológica, sem anima.  Noutros ainda, há uma angústia existencial que está para lá da angústia existencial que marca os jovens. É um tudo nada mais preocupante, porque é tristeza, assim sem mais nada, tristeza. E eu fiquei triste com eles. Outra coisa que senti de forma pungente foi a necessidade de serem ouvidos, de lhes darem atenção, de os deixarem verbalizar os seus receios e o seu tédio. Outra ainda foi a transformação da escola - ensino secundário, neste caso - como um mero trampolim, depois de conseguida a tão almejada média, para o ensino superior. Só isto. E a escolaridade fica refém de um número. E os meus alunos não leem, não veem filmes, não passeiam, não convivem, ou como alguém me disse, nem têm furos que lhes deem uma folga de tanta escola e de tanta preocupação, só se preocupam com a média e o teste (reconhecidamente mais do que os seus professores). E eu fiquei preocupada, muito preocupada com os meus meninos.

Intimamente prometi-lhes aulas interessantes, abertas, divergentes, uma escola mais apelativa, mais bonita, que os deixe mais felizes... Vamos lá ver se sou capaz. 

07
Mar21

#9/2021 - A única História, de Julian Barnes: voltar ao lugar onde já fui feliz

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - A Única História

Editora: Quetzal

Páginas: 253

Ponto prévio: tenho a dizer que as minhas resoluções para o ano de 2021 - que já paecem ter sido no ano passado - continuam a correr lindamente: ainda só comprei 4 livros este ano! Bem sei que as resoluções diziam que, para aí durante seis meses, eu não compraria livro nenhum, mas aqueles que prometeram perder peso que atirem a primeira pedra (prece-me que também era uma resolução minha). Mas isto é um post sobre livros ou uma sessão de autocrítica? Que mania de desviar conversa!

Pois bem, a propósito do clube de leitura que vai acontecendo, acontece que eu já tinha lido o livro votado, que foi O sentido do fim, de Julian Barnes (também havia outro, A Biblioteca, de Zoran Živković, que requisitei na biblioteca, mas é pequenino...). Como se estava ali a falar de Julian Barnes, achei que o melhor era ler mais livros dele, portanto comprei logo mais dois e depois comprei O sentido do fim no OLX... sou capaz de ser uma pessoa doente.

Ler Julian Barnes é como regressar a um lugar onde já fomos felizes. Nunca desilude. A única história é um livro maravilhoso, cheio de "truques" que fazem dele um acontecimento literário. Está escrito ao estilo de O papagaio de Flaubert, fragmentário, peças de um objeto estilhaçado que o autor vai colando, consciente de que o lugar por onde se voltaram a unir ficará sempre à vista, nunca nos será devolvido na sua integridade. Ora é isso mesmo que o livro demonstra: ao recuperar os acontecimentos do passado através da memória,  a linearidade e a diacronia ficam excluídas, porque a memória é indisciplinada, centrífuga, anda à deriva. Quando lerem, ou se já leram, verificarão que os acontecimentos narrados em cada um dos blocos são contemporâneos, mas são narrados assumindo perspetivas diferentes. Dessa forma, o relato reformula-se, mas também se aprofunda, é uma narrativa autofágica, na medida em que se nutre de si mesma, re-narrando, repetindo, mas em espiral, porque não é um regresso ao ponto de partida, há um desfasamento. Outro "truque" está relacionado com a utilização das pessoas gramaticais, também elas intencionalmente distintas em cada um dos blocos: eu/nós; ela; ele. Há um movimento de desagregação, de distanciamento, que não é só temporal e que estará explicado na última frase do primeiro bloco - vão lá ver se não acreditam em mim.

Há um pormenor maravilhoso, que é o facto de Susan, a protagonista, tratar jocosamente o narrador por Casey Paul: ora Casey, como se explica na própria história, resulta do facto de Susan considerar que as características de Paul fazem dele um caso de estudo. Na verdade,  e na minha perspetiva, a narrativa, tão deliberadamente analítica, tão vincadamente reconstruída, é-nos dada como se se tratasse efetivamente de um estudo de caso: aquele em que se ama mais e, consequentemente, se sofre mais, em que se é mais estragado para a vida, ou se cristaliza a parte da vida que vale a pena preservar. Não  é despiciendo este Casey pelo livro todo.

E no fim de tudo isto, temos a escrita de Barnes, imagética, metafórica, cheia de "níveis" da escrita, o que a torna tão sensorial, tão magnética, tão fluida. Que mestria nesse domínio. Ainda assim, não recuem por causa destes preciosismos quase académicos, A única história é um romance multifacetado, riquíssimo: é uma história de amor - e o amor é a única história - é um romance de formação, é uma análise sociológico sobre o poder que os outros não deviam ter sobre nós, é um romance de queda, são memórias, é um metatexto... é múltiplo, insperado, intenso como a própria vida... e profundamente humano, terno, digno.

Em termos de recomendação, diria qualquer coisa como: larguem tudo o que estão a fazer e vão ler este livro.

Eu devorei-o e ele ficou em mim por vários dias, num estado como ficam as beatas depois de comungarem... é isso comunguei dele.

05
Mar21

A literatura nos tempos de cólera - no que eu me vou meter.

livrosparaadiarofimdomundo

Li ontem, num post da Maria Rosário Pedreira, no seu blog Horas Extraordinárias - en passant, um blog também ele extraordinário - que a tradução da obra da poeta negra que declamou um poema na tomada de posse de Joe Biden - sou péssima para nomes - entregue a uma escritora, vencedora do Man booker prize - sou péssima para nomes - foi contestada e acabou abortada por decisão da escritora por (alerta perplexidade) a dita não ser negra (nem sei se este é o termo politicamente correto agora, mas eu não consigo dizer preto, sinto-me ofensiva), logo não estaria habilitada a compreender a obra que teria de traduzir. Fiquei toda arrepiada e, daí, que os nomes nem tenham grande importância, o destaque vai todo para esta ideia absolutamente trágica: a literatura passou a ter cor! E se a moda pega, não sei onde iremos parar. Começo a estar cansada do radicalmente politcamente correto.

Proponho um exercício. Para mim, a sanha do comunismo contra a religião, o ópio do povo, contra a confissão, a figura de Cristo, e outros adereços, é por demais irónica, quando no lugar de Cristo se pôs o Grande Lider, ou o Querido Líder, no lugar da confissão, se pôs a crítica e a autocrítica, ainda mais penosa, porque havia uma dimensão de humilhação pública, em lugar da missa se puseram as paradas militares, em lugar do evangelho se pôs a doutrina. Enfim, mudaram-se os nomes, mas a lógica era a mesma - disclaimer, gosto de colher das coisas aquilo que elas têm de bom e que pode fazer de mim uma pessoa melhor, e há coisas no comunismo que, nos princípios, me agradam, como a ideia de olharmos uns pelos outros; mas também há coisas no liberalismo de Adam Smith que acho muito acertadas. Voltemos à necessidade de uma obra literária de um autor negro ser traduzida por um negro: se começamos a achar que há coisas de negros e coisas de brancos, não estamos a ser muito originais, já houve quem pensasse assim e até fizesse disso uma forma de organização social, chamava-se apartheid, parece-me que era isso. O que me assusta é uma espécie de auto segregação em nome não sei de quê.

Agora levemos o exercío ao limite: se não sou judia e não estive num campo de concentração, não posso compreender o horror do nazismo e do extermínio concertado. Só os judeus que estiveram em campos de concentração é que podem, já há é poucos, que já passaram alguns anos, mas convém que alguém lá volte. Porquê? Para não nos esquecermos! Não posso ler literatura japonesa, porque não sou japonesa e, de facto, há uma enorme distância cultural que não é sobreponível. Não posso ler literatura africana, em especial a dos países de língua portuguesa, por causa do colonialismo e eu, sendo portuguesa, estou do lado do opressor - mesmo que não fosse nascida, mesmo que queira perceber, mesmo que queira conhecer, mesmo que entenda a literatura como uma forma de me aproximar do outro e de moldar a empatia.

Isto é tudo um disparate enorme, mas um disparate que começa a ser preocupante. Por um lado, andam os cheganos dos nossos dia a clamar a divisão à força da nossa sociedade, estratificando-a - também não é original, em tempos remotos chamou-se feudalismo; por outro, andam as minorias - ou outras coisas, ajudem-me que me faltam as palavras - a defender um orgulhosamente só, que me faz lembrar as feministas mais encarniçadas, que acham que devemos matar o homem, em tempos quisemos matar o pai, uma redoma onde se vão encerrar, não já humilhados e ofendidos, mas orgulhosos e sobranceiros.

Digo eu, humildemente, que a arte não tem cor, nem género, nem cheiro, nem sabor, nem religião. Está, na sua forma mais perfeita, ao serviço do Belo, do Bem, do Ético. Quanto mais mestiça - é de propósito - melhor, quanto mais plural, melhor, quanto mais impura melhor, quanto mais olhares se cruzarem, melhor. Está, parece-me, na hora dos sensatos começarem também a falar, porque, se só os idiotas continuarem a agitar-se na ágora, ainda acham que estão certos. Basta! Pim Pam Pum! Os idiotas são idiotas, abaixo os idiotas!!!

Ou então, leiam os versos de Pessoa: "O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente/E os que leem o que escreve/na dor lida sentem bem/não as duas que ele teve/mas só as que eles não têm". Está tudo dito.

04
Mar21

#8/2021 - Lincoln no Bardo, George Saunders: um híbrido literário

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Lincoln no Bardo

Editora. Relógio d'Água

Páginas: 359

Da série livros que tinha em casa, que comecei e não terminei.

Cheguei a este livro através de uma lista com os livros mais importantes da década passada e fiquei muito, muito curiosa. Claro que o comprei na primeira oportunidade, mas não lhe peguei logo, ficou a estagiar. Depois, ainda em 2020, comecei a lê-lo e até tinha avançado bastante. Mas, pelos mistérios da leitura tão inexplicáveis, pu-lo de parte, porque outras leituras se intrometeram pelo meio e deixei-o até a semana passada. Não o deixei de parte por não ter gostado, ou porque a leitura não me agradou, deixei porque é um livro exigente. Tenho consciência que não é um livro que possamos ler cansados, ou para desligar o cérebro. Nada disso. O livro convoca-nos inteiros, exige atenção e dedicação. E, de repente, como à espada do conde D. Henrique em Mensagem,  achei-o em minhas mãos e a leitura fez-se. E que leitura!

Tudo nesto livro é surpreendente, inusitado, original, convincente e, apesar disso tudo, o relato mais humano, mais digno que me lembro de ter lido - até estar a ler um outro livro de Julian Barnes, mas isso fica para amanhã.

Começo pela arquitetura, pela estratégia narrativa e pela linguagem. A hibridez do livro resulta de uma amálgama de géneros: recursos do texto dramático, porque a narrativa é toda colocada no discurso direto das personagens, mas é romance, porque essas personagens, na verdade, levam a cabo uma narrativa que oscila entre a primeira e a terceira pessoas, ora narrando, ora sendo objeto da narrativa. A ação - nem sei se esta é uma categoria que se deque - oscila também entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, os segundos mais complexos que os primeiros, com angústias existenciais a que são dadas mais profundidade. A linguagem assume o pastiche como molde, oscilando entre a notícia jornalística, a carta, as memórias, o diário, o diálogo... e a concertação de tudo isto nunca fica aquém da mestria de quem sabem fazer malabarismos com mutos pins.

Quanto à história, ela resulta também da colagem de muitas histórias, individuais, que explicam a razão de os "enfermos" se recusarem a tomar consciência do seu destino, da lugar onde se encontram, do receio de abandonar este limbo onde podem permanecer e acalentar a esperança vã de um dia poderem regressar ao outro lado, ao lado de lá, para além do gradeamento. O seu tempo, como numa tradição de séculos cujos cânones consolidaram, é  a noite, o tempo do nosso sono, os vivos. Evolam-se das suas formas de enfermo e caminham-deslizam por aqueles lugares de ninguém, uma paródia da aldeia global que, em muitos casos, lhe permite perpetuar o mesmo ostracismo e exclusão, as mesmas hierarquias, os mesmos vícios. Lembrou-me - daí que Gil Vicente seja, de facto, um autor visionário - as personagens dos autos de Gil Vicente, já nas barcas,  já com o destino definido, mas ainda não consumado.

Há, depois, a história do filho do presidente Lincoln, Willie, tragicamente falecido aos 10 anos, o enfermo mais comovente, mas o mais clarividente e o mais corajoso, até no momento de se deixar ir e aceitar a separaçao do seu amado pai. Apesar destes elementos, não receiem esta leitura. É tudo tão elegante, tão fantástico, mas tão sóbrio ao mesmo tempo, tão pungente, tão humano, que a leitura nos aspira para dentro deste livro maravilhoso, devolvendo-nos esperança, fé na humanidade, apego às coisas simples da vida, aqueles prazeres que nos fazem vivos, porque os podemos experimentar. É, mais uma leitura catártica, que nos concilia connosco e com os outros, que nos devolve a nossa justa perspetiva e o nosso justo tamanho, que nos deixa enternecidos, fortalecidos, porque, se o estamos a ler, ainda não estamos na nossa caixa de enfermo, ainda não somos enfermos, ainda podemos e poder é estar vivo.

Leiam, vão ver que não dói mesmo.

 

20
Fev21

#6/2021 - O Chefe de Estação Fallmerayer, Joseph Roth, pequenos prazeres

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - O Chefe de Estação Fallmerayer

Editora Assírio e Alvim

Páginas 73

Este livrinho tinha ficado na minha mira desde o dia mundial do livro no ano passado, quando, como já referi noutros textos, o Sapo publicou uma lista de livros que eram "grandes", sendo pequenos. Este, parece-me, deve ser o mais pequeno da lista. O volume tem 71 páginas, mas a história propriamente dita tem cerca de 50.

Não posso fazer um texto muito grande, senão arrisco-me a fazer uma recomendação maior do que o próprio livro. Se tem uma horinha livre e não sabe o que ha-de fazer, pegue neste livro, o tempo vai ser muito bem empregue. É mesmo daquelas obras em que menos é mais. A hostória é simples e podia resumi-la em duas linhas, mas não o vou fazer, é preciso chegar a este livro como quem chega a uma estação de comboio desconhecida, apeando-se num lugar ermo, deixando-se impregnar pelo ambiente, pelo perfume, pelo mistério.

É a história de um homem comum a quem o destino dá a oportunidade de ter uma vida incomum. A escrita, através da qual a narrativa nos é servida, é minimalista. Quase sem enredo. É como um apontamento, linhas orientadoras para escrever um romance. Está lá tudo: um acontecimento inesperado que lança os protagonistas no enredo, a força avassaladora do amor, a vontade férrea de o viver, a guerra, o perigo, a salvação, a realização e o desfecho. Há uma frase que permite perceber o estilo que tento descrever: "Foi incorporado. Foi para guerra. Lutou. Foi um soldado valente." Podia ser o resumo de Guerra e Paz, de Tolstói, mas é um período deste livro que "descreve" alguns anos da vida da personagem. A obra é assim, em estilo de sumário. Daí que se leia muito bem, apesar do seu tamanho diminuto, é um enorme prazer, mas, sabendo apouco, surpreende-nos que não precisemos de mais.

Vou emular (sempre quis usar este verbo) o autor: Compre/peça emprestado/requisite na biblioteca. Leia. Surpreenda-se. Guarde para sempre. Recomende.

10
Fev21

#5/2021 - Rabos de lagartixa, Juan Marsé - como o leito seco de um rio.

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Wook.pt - Rabos de Lagartixa

Editora: Dom Quixote

304 páginas

Continuo bem comportada: este é um dos livros que tinha em casa sem o ter lido ainda. Já não me lembro quando o comprei, mas foi em 2020, sempre mais olho que barriga no que toca a livros.

Rabos de Lagartixa teve o azar, a pouca sorte, vá, de ser o livro que se seguiu a O barulho das coisas ao cair, o que me dificultou concentrar-me nele. No entanto, assim que me consegui embrenhar na sua história e na escrita - nem sempre fácil, ou melhor, para não desencorajar ninguém, a que é preciso estar muito atenta - ocorreu-me quase como um leitmotiv aquilo que Garrett escreveu acerca da simplicidade da sua obra-prima, Frei Luís de Sousa: dizia ele que, com um enredo simples, sem um vilão e sem outros "excitante" e uma ação que decorre toda no seio de uma família que, afinal, se ama intensamente, conseguiria convencer o seu publico - sabemos que sim, nunca (re)leio esta peça de teatro sem que me comova. Rabos de lagartixa consegue isso mesmo, as personagens são reduzidas: David, um adolescente sonhador, a mãe, a ruiva, ou Rosa, cujos traços distintivo são os seus cabelos, insistentemente referidos, o inspetor Gálvan, talvez apaixonado por esta mãe abandonada, Paulino, o melhor amigo de David, o irmão de David, que é o narrador, mas que ainda não nasceu no tempo dos acontecimentos, há ainda o cão Faísca e, em minha opinião, o barranco, lugar emblemático para onde se escoam todos os afetos e todos os sonhos de David.

A ação não é digna deste epíteto, pois, tal como as personagens, parece estagnada, cercada, oprimida, entre margens de um barranco que cerca Barcelona do tempo de Franco. Nada parece acontecer, mas, tal como David pressente no leito seco do ribeiro o tumulto das águas passadas de enxurradas que cavaram as margens, da mesma forma, há um tumulto invisível que agita a vida interior destas personagens, desenraizadas, melancólicas, sofridas, resistentes e resilientes. Rosa é uma figura magnética em torno da qual todos gravitam: David, o inspetor, o filho que traz no ventre. Mas as personagens comportam-se como retas paralelas, condenadas a nunca se cruzarem, próximas, mas irremediavelmente separadas, inconciliáveis. Todas são, à sua maneira, enternecedoras, comovedoras, merecedoras do nosso respeito, ao mesmo tempo que nos horrizamos com a forma como a tragédia vai borbulhando à sua volta, alimentada pelo fogo lento da sua impossibilidade de saída: é isso, não há saída para elas, porque vivem ali e naquele tempo.

Estas figuras individuais, tão humanas como nós, condenadas a permanecer enredadas neste labirinto, assumem a boca de cena de uma tragédia maior, que se pressente como pano de fundo: os tempos duros de uma ditadura. Há referência à polícia, às torturas, às mortes mal explicadas, ao medo, à sanha contra os homossexuais, à hipocrisia de uma sociedade que funciona apenas para os simpatizantes para com o regime - Rosa era professora primária, mas foi impedida de exercer, como tantos outros, assim colocada à margem - à pobreza, a uma Barcelona cuja periferia é retrato de um abandono, de uma degradação que está a anos luz da Barcelona cosmpolita de que hoje ouvimos falar, tão distante que parece não poder ser a mesma. É um retrato cru, duro, descarnado que tem sobre o leitor um efeito profundamente catártico.

É um livro que fica em nós, dolente, terno, amargo, profundamente sensorial. Levo comigo para sempre David e a forma como o sonho o liberta do medo e do desgosto, a sua fantasia arriscada, a forma de exprimir a sua revolta, a tortura dos seus ouvidos doentes que nunca deixam que o silêncio se instale, a afeição desmedida que consegue votar aos desafetados da norma, o seu cão Faísca, velho, doente, quase cego, e o seu amigo Paulino, vítima da maior violência, física e psicológica, mas que cita poesia como forma de expressar o seu carinho pelos outros. Deixou-me com uma certa amargura a inexorabilidade do inspetor Gálvan, polícia dado à oferta de uma rosa branca. Tudo se passa de forma pouco explícita, mais insinuado do que contado, subterrâneo, mas impetuoso. Magistral este livro, magistral.

28
Jan21

A morte saiu à rua? Não, anda por lá a passear-se

livrosparaadiarofimdomundo

Não sei se aconteceu o mesmo a muita gente, mas a minha perceção disto tudo mudou drasticamente em pouco tempo. Como eu - porque há imensa gente assim - haverá por aí pessoas que cumpriram religiosamente tudo o que foi determinado. Apesar de trabalhar em educação, a minha função obrigou-me a sair de casa todos dias para trabalhar. Cumpro e esforço-me para que sejam cumpridas as regras de segurança. O espaço escolar tem menos um centímetro de altura tantas são as vezes em que o chão é limpo, as superfícies são desinfetadas. Depois do trabalho - durante todo o verão - não tomei um café, não me sentei numa esplanada, não fui a um restaurante - digo-o não como quem se lamenta, mas como quem o fez com a naturalidade que os tempos exigiam. Não fui a um centro comercial, as compras que fiz foram online, abusei talvez nas idas aos viveiros de plantas. De resto as minhas saídas foram perfeitamente justificadas pela necessidade.

Inciei o novo ano letivo cheia de esperança. As aulas no 1º período decorreram com muita tranquilidade, apesar de uns miúdos mais resistentes que teimavam em proteger-se da papeira em lugar da COVID-19. Os casos de contágio que surgiam eram absolutamente esporádicos, aqui e ali, às vezes, lá ia uma turma para isolamento. Nunca houve um surto. Continuamos a fazer uma vida sobretudo muito doméstica, mas, sinceramente, muito agradável, sem qualquer custo. Chegou dezembro e abriu-se a caixa de pandora.

Hoje, mesmo aqueles que chamaram a isto uma gripe, os que falaram de todas as teorias da conspiração, os que não quiseram saber, os que sairam, os que ainda hoje arranjam qualquer pretexto para furar o esquema, mesmo esses não podem deixar de estar esmagados com estes números. Faço contas de cabeça e imagino este número: numa semana, morrem - morrem - cerca de 1500 pessoas. E multiplico estes números por aqueles que amam estes mortos, que se deparam com estas perdas: 1500 esposas, 1500 maridos, 1500 filhos, 1500 pais, 1500 avós, 1500 amigos, milhares de vidas humanas perdidas, amputadas, separadas. Hoje oprime-me esta sensação de que a morte anda à solta na rua e que se vai aproximando, que nos vai cercando e que, quem sabe, se aproxima já dos nossos, insidiosa, indiferente, cega como a justiça. A morte anda aí.

Foi o pai que deu entrada no hospital e de quem as filhas não se puderam despedir, nem era COVID-19, era até outra coisa, mas os serviços estão pressionados e falta tudo e, não, eu não estou aqui a falar mal do SNS. Se a alguém falta motivos para pedir alguma coisa, peçam o SNS a funcionar, de forma deficiente? Digam-me que serviço de saúde aguentaria estes números? Foi o fotógrafo jornalista que toda uma pequena comunidade conhecia, a sua figura que andava pelas ruas da sua terra, identificando-se com ela e reproduzindo-a pela sua objetiva. Ouvimos falar destas mortes, como tiros de uma batalha que soam cada vez mais perto e o que sentimos começa a ser medo e a prece antiga que nos faz pedir pelos nossos. Foi a mãe internada a quem não foi possível dar um último beijo, foi a avó que foi sepultada sem que lhe fosse permitido usar a roupa que ela tinha escolhido e dito que queria usar na sua última viagem. 

A nossa existência é cinzenta agora, estamos cansados, estamos todos um bocadinho doentes, estamos todos muito mais tristes, estamos todos muito mais sós e, muitos de nós, nunca mais se hão sentir próximos daqueles que lhes alegravam os dias. Não sei se é pior que uma guerra, porque, felizmente, não conheço esses teatros, sei que é suficientemente mau e volto aos números 11608 mortos, fora os danos colaterais, incalculáveis, creio eu. Todos os dias os casos ativos crescem e fazem crescer não a avaga, mas o maremoto que engole as nossas esperanças. 

07
Jan21

E depois de tudo... a barbárie.

livrosparaadiarofimdomundo

Comecei este texto várias vezes. Apaguei o que tinha escrito e recomecei.

Como é que se escreve sobre a invasão do Capitólio na América? 

A invasão do Capitólio é como um sudoku: de todos os lados, ângulos e colunas o resultado é sempre barbárie.

Um presidente democraticamente eleito que se recusa a respeitar o regime que lhe permitiu exercer o seu mandato como quis, que incentiva o seu próprio povo a desrespeitar as instituições, que apela à violência dos seus apoiantes para fazer valer o seu apego ao poder: isso é barbárie.

Uma multidão que força barreiras, que invade, que trepa paredes, que grita, que urra, que destrói, que ameaça, enquanto calcorreia os corredores da casa da democracia, reiterando que o espaço lhe pertence ao mesmo tempo que o conspurca: isso é barbárie.

Uma multidão que vandaliza, que ocupa alarvemente , que se bestializa e, ao mesmo tempo, vai tirando selfies, vai gravando, vai filmando para depois, eventualmente, partilhar orgulhasamente as imagens de que são capazes: isso é barbárie.

Um mandato presidencial que termina com o Capitólio vandalizado como qualquer prédio devoluto: placas arrancadas, estátuas pintadas, pés em cima de secretárias, vidros partidos, sujo, com fumo a sair pelas janelas: isso é barbárie.

Li em vários fóruns "this is not América", mas a verdade é que é, aconteceu na América. quem há de ser chamado para garantir que a democracia é restaurada? A América terá de salvar a América. A América é, hoje, um país a ferro e fogo; é, como alguém terá dito, um país de Terceiro Mundo com cinto Louis Vuitton.

Não sou americana, sei perfeitamente que a barbárie grassa pelo mundo inteiro, mas não costuma ser ali. A América é a terra de todos os sonhos, de todas as oportunidades e as suas instituições têm tentado garantir isso. O que se viu ontem é o colapso de um mito, a invasão dos bárbaros outra vez, a queda de um império, os pés de barro do ídolo, Nero a incendiar Roma, a repetição dos piores momentos da história: o regresso à barbárie.

Não é connosco, mas é com todos nós, é o crescimento descontrolado dos discursos simplistas, demagógicos, populistas, que fundem meias verdades com vulgares mentiras, que se alimentam da ignorância, da preguiça mental dos usuários das redes sociais, da ausência de espírito crítico: é a barbárie.

Resta-me, hoje, recomendar-vos a leitura como panaceia, tal como refere Maria do Rosário Pedreira no seu blog, de que vos deixo aqui o link:

https://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/qi-e-leitura-629110

Ou então, fazer como Arturo Pérez-Reverte, refugiar-me na minha biblioteca, embebedar-me de humanismo, como o autor sugere neste video:

https://rr.sapo.pt/video/113933/o-refugio-dos-livros-do-antigo-reporter-de-guerra-arturo-perez-reverte

Enfim, arranjar maneira de lavar os olhos.

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