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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

25
Fev24

Às vezes também vou ao cinema: A Zona de Interesse

livrosparaadiarofimdomundo

 

Em minha opinião, estamos a ter uma excelente época de cinema. Efetivamente, tenho visto filmes de excelência, nomeadamente o extraordinário Os Excluídos, mas não é sobre esse que venho escrever hoje.

Um dos filmes pelos quais tinha mais curiosidade era precisamente A Zona de Interesse, adaptação do romance homónimo de Martin Amis, e essa atração vinha precisamente da fotografia, a partir dos curtos trailers que iam surgindo nas redes sociais. Assim, pus-me a caminho e lá fui ver o filme e em boa hora o fiz, já que, para mim, foi uma experiência marcante, muito marcante.

O filme acompanha a vida familiar de Rudolph Hoss e da sua esposa Hedwig, assim como dos filhos, cinco, entre rapazes e raparigas, numa casa onde impera a ordem, a harmonia, a arrumação e um bem-estar por demais óbvio. A residência da família está circundada por um jardim muito bem cuidado, com imensa variedade de flores, recantos idílicos, de um bom gosto extremo, equilibrado, com piscina, relva de um verde luxuriante. A vida familiar decorre numa tranquilidade que deve ser o sonho de qualquer um: marido e esposa respeitam-se, não há discussões, as crianças são obedientes, frequentam a escola, as serviçais da casa mantêm tudo em ordem. Em tudo aquela família e aquele espaço são perfeitos.

Acontece que Rudolph Hoss é o comandante que gere o campo de extermínio de Auschwitz, acontece que a casa de família vive paredes meias com os muros do campo, aliás, o dedicado comandante sai todos os dias de manhã para o seu emprego, bastando-lhe atravessar uma pequena cancela antes de penetrar no campo. Acontece que os muros que circundam o jardim são os muros do campo, ainda não totalmente cobertos pelas plantas e arbustos cultivados por Hedwig, a fim de ocultar a falta de beleza dos mesmos. Acontece ainda que o quotidiano da família é pontuado pelos ruídos que chegam do campo, tiros, vozes, ordens gritadas, comboios que chegam e que partem.

O filme é avassalador, é esmagador. Não há uma única imagem sobre as atrocidades e o horror de Auschwitz, mas esse horror é omnipresente, ainda que conscientemente ignorado por todos os elementos da família. Mas o horror maior é mesmo a banalidade do mal, tal como definido por Hanna Arendt, a indiferença total, o cinismo das palavras, o oportunismo com que os nazis (con)viveram com o sofrimento de milhares de pessoas, focados nos seus interesses. Hoss não é mais do que um funcionário que se preocupa com as suas metas e objetivos, em progredir na carreira, naquela carreira, preocupado em resolver os desafios que novas "encomendas" lhe trazem, como outro qualquer diretor de empresa. Hoss é muito competente no que faz, é uma referência, e o filme revela-nos o quanto, já no seu final, sempre dessa forma, quase como o teatro de Brecht, apenas nos mostra, o resto é connosco. Aqui e ali, se estivermos muito atentos, vamos percebendo, vamos lendo os sinais da distopia, mas são subtilezas apenas.

Em termos cinematográficos, do pouco que entendo, a fotografia, a banda sonora, os planos de filmagem, o desempenho dos atores, conjugam-se no mesmo objetivo, é como se o realizador mostrasse pelas suas personagens a mesma indiferença que perpassa por todas as cenas, com pouquíssimos, grandes planos, que, às tantas, quase nos fazem falta, queremos disitnguir os rostos, queremos contemplá-los para, nessa proximidade, os podermos odiar, mas tal não é possível. Tudo isso contribui para a forte impressão que o filme causa, em especial, como se mantivesse o espectador também à distância. 

É um filme para se ver no grande ecrã, na sala escura, a sós com as cenas. É, dentre os muitos bons filmes que vi este ano, o melhor de todos eles. Para mim, leiga nestas coisas, uma verdadeira obra-prima e tão forte, que me custou a levantar da cadeira quando terminou. Ficou-me esta reflexão, nestes tempos pouco encorajadores, a arte vai-se revelando uma forma de intervenção, de despertar para a proximidade do mal, para a emergência da empatia, e isso é uma coisa boa.

Vale a pena ver.

Fica a vontade de ler também o livro.

13
Fev24

#13/2024 - pequenas coisas como estas, Claire Keegan: manifesto contra a indiferença

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Pequenas Coisas como Estas

Relógio d'Água

81 páginas

Apetece-me só deixar a imagem da capa, a indicação das páginas, que não desencorajam ninguém, e dizer para se aventurarem na leitura deste pequeno/enorme livro, para se verem surpreendidos como eu.

Mas a verdade é que não consigo ficar calada, tenho sempre que dizer alguma coisa: por exemplo, leiam este livro, mesmo que seja o único que vão ler na vida. Vale cada palavra, cada linha, cada pequeno capítulo.

A história apresenta-nos (como ponta do iceberg) o dia a dia de Bill Furlong, comerciante de carvão, assoberbado com trabalho nos dias que antecedem o Natal, agudizados pelo clima frio da Irlanda. Bill é pai de família, tem cinco filhas e vive para as educar e para lhes garantir um futuro mais ou menos tranquilo numa Irlanda sempre marcada pelo estigma da pobreza. Nesses dias, Bill dá por si a questionar a sua vida, a ansiar por qualquer coisa imprecisa, a recordar a sua infância, a forma como a mãe teve a sorte de se ver protegida pela patroa, quando se soube grávida em solteira. A Bill nada faltou, apenas um puzzle que ele tinha desejado num dos Natais da infância. Como muitas outras crianças nessa época, fruto de circunstâncias idênticas, Bill nunca conheceu o pai. Este dado da biografia de Bill é fundamental para perceber a mensagem da história.

Sobranceiro à vila, situa-se o convento, paredes meias com o colégio onde estudam as filhas de Bill, igualmente administrado pelas freiras. Bill é o fornecedor de carvão do convento.

Mais não digo, porque não posso, nem quero, estragar-vos o prazer da leitura e de estabelecerem os nexos da história. O que é verdadeiramente impressionante neste livro é a forma como a autora sem falar da atrocidade de que se propõe tratar, consegue, com breves pinceladas, dar-nos conta da desumanidade, da hipocrisia, da crueldade, da indiferença que entornam o assunto que está ali a ser tratado. O que é aqui equacionado é como é possível, paredes meias com o horror, permanecer indiferente, fazer-se de conta que não se sabe, ceder à imposição do silêncio, enquanto seguimos a nossa vida tranquilamente, sem levantarmos ondas. Não há nesta observação o mínimo juízo de valor. É mais uma interrogação, é mais o desejo de não nos vermos assim testados e interpelados. É esse o motivo do livro.

Por outro lado, cada página traz-nos a imagem da irlanda, dos seus hábitos e tradições. É como se fôssemos transportados até lá, sorvessemos o mesmo chá a propósito de tudo e de nada, entre outros apontamentos. É, por fim, a clareza da linguagem, sem equívocos, sem hermetismos, na sua desconcertante simplicidade, de quem se limita a mostar, a apontar, deixando-nos a responsabilidade de trilharmos o caminho.

Deixo como última recomendação, a mais importante de todas, a leitura da nota final e garantir-vos que não há arrependimento possível por virmos a este livro, mais um que me inspirou a vontade de ser melhor do que aquilo que sou, que me desafiou a superar-me, a centrar-me na bondade, na coragem, na indignação.

Leiam, vão ver que vale a pena.

 

05
Fev24

#8/2024 - Certas Raízes, Hélia Correia: contos intrigantes.

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Certas Raízes

Relógio D'Água

97 páginas

Este volume de Hélia Correia reúne 7 contos, narrativas breves carregadas de sentido, profundas, complexas e motivadoras de perpelxidade, quando não perturbação.

A autora escreve muito bem, revela um exímio domínio da palavra e da narrativa, doseando inteligentemente a informação que revela, deixando vastos espaços para a intepretação do leitor. É, por isso, uma leitura que nos deixa quase inquietos, mas também muito rendidas à sua forma de contar. Efetivamente, há aqui uma maturidade que a longa experiência de Hélia, em especial, nos contos, justifica e explica.

Destaco o último conto do volume, precisamente o que comunga do mesmo título do livro e qur remete para a persisitência de certas raízes na naturez humana, que nos mantêm próximos da ferocidade animal, em especial quando nos agregamos em bandos (alcateias), quando protegidos pelo grupo a que pertencemos somos capazes de atrocidades, talvez porque destituídos de individualidade, talvez, porque não é concreto o nosso papel, talvez porque nso limitemos a participar e a nossa presença legitime o crime comum. 

Outros contos remtem ainda para a procura da beleza eterna, para a construção de um copro perfeito, que se vai/nos vai fragilizando, que se torna obsessão e nos afasta da realidade. Denuncia-se através dessa perseguição certas pulsões que nso acometem no presente, que nos esvaziam pouco a pouco da nossa humanidade, já que, compulsivamente cedemos à artificialização do que somos, da idade, do rosto, do corpo, da alma, por fim.

Se fosse possível encontrar um ponto comum entre todos os contos, diria que a desumanização seria uma dessas ideias que são transversais ao livro, o que lhe confere o seu pendor satírico. É uma denúnica, é uma escrita reveladora dos nossos equívocos.

Por fim, destaco a perfeição da escrita de Hélia Correia, sóbria, inteligente, erudita, fluida e inquietante.

Recomendo, pois.

01
Fev24

Um toque no coração

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No sábado, assistiu a uma palestra, onde fui moderadora de uma conversa à volta de um livro, mas não é disso que me traz aqui.

À saída da palestra, entre cumprimentos, aproximou-se de mim e perguntou-me se eu era quem eu sou. Respondi-lhe que sim, atenciosamente. 

Respeitosamente, pediu se podia marcar uma reunião comigo, durante a semana, porque queria muito fazer uma proposta à pessoa que eu sou no cargo que desempenho. Voltei a dizer-lhe que sim. Pedi-lhe que telefonasse, na segunda-feira para verificar a agenda. 

Telefonou. Sempre no mesmo registo respeitoso, atencioso, cavalheiresco quase. É um senhor de idade, tímido, inseguro, humilde, revelando uma alma que me comoveu profundamente.

Hoje reunimos então na escola. Assegurou-me que não me tomaria muito tempo, mas que tinha uma ideia para me apresentar. Pu-lo à vontade e preparei-me para o escutar. Disse-me que gostava muito de história, que valorizava muito a preservação dos monumentos e outras marcas da nossa história comum. Que tinha visto dois programas da rubrica "Visita Guiada", que lhe tinham parecido especialmente interessantes: um dizia respeito a Sintra e outro à Citânia de Briteiros, em Guimarães. Trazia consigo um quadrado de papel, menos que A6, onde tinha registado o nome dos sítios de interesse histórico, a cidade onde se situava cada um deles e um contacto telefónico. A sua proposta era que a escola levasse lá os alunos em visita de estudo, porque achou que seria importante para eles conhecerem aquele património. Pediu licença ainda para me apresentar outra proposta. Que é membro de uma associação e que o preocupa o facto de as crianças passarem tanto tempo ao telefone, por isso sugeria também que as crianças pudessem frequentar a sua associação, que participassem numa ssembleia para perceberem como funciona. Dei-lhe autorização para entrar em contacto com a professora da escoal amis perto e de propor essa articulação.

Hoje, no final de um dia muito intenso, chegada a casa, foi esta reunião que me veio insistentemente à lembrança, daí ter de escrever sobre ela. Primeiro, porque me dói de tanto me comover, que generosidade, que proatividade, que bondade neste gesto, que forma exemplar de valorizar a escola e, ao memso tempo, a nossa identidade, que forma de cidadania ativa e participativa. Que coragem também... Que gentileza. Ficou em mim o insólito deste encontro, que me deixou perplexamente feliz, mas, sobretudo tão, mas tão sensibilizada. Se fosse possível, voltaria à sala onde reunimos e abraçaria o senhor, na sua fragilidade, timidez e imensa delicadeza e bondade.

Sinto-me tão grata por este toque no coração, que me dói, sem que eu saiba muito bem porquê. 

 

06
Jan24

Livros 2023 - final da lista que ninguém tinha pedido

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Aqui deixo a continuidade da lista das minhas leituras de 2023, certificadas com processo científicos de que ninguém se atreverá a duvidar.

julho 2023 - dias grandes, finais de tarde na praia, dias na praia, o que é sempre bom para a leitura

Terra Alta, Javier Cercas - entretenimento, ali já a navgar num registo policial, que é terreno por onde me aventuro pouco. cumpre, bem, é leitura absorvente, lê-se com gosto, interesse e expectativa. Não desaconselho.

Terra Americana, Jeanine Cummins - um livro que já tinha estado nas minhas intenções de leitura, mas do qual desisti por ter lido algumas críticas. Passada essa quarentena e graças à hora H da Feira do Livro, comprei para poder dar a minha opinião, por ter lido e por não ter ouvido dizer. Resultou num complexo de que ainda não decidi o desfecho. Ler, lê-se, é inesquecível, hummm, entretém, sim, mas falta-lhe deixar marca, deixa a sensação de ficar sempre aquém. Reli as críticas ao livro, revi-me na maior parte delas. Olhem, façam como eu, se têm curiosidade, leiam e depois formem a vossa opinião, nos tempos que correm, é sinal de maturidade e espírito crítico.

A forma das Ruínas, Juan Gabriel Vásquez - Vasquez é um dos escritores que tenho acompanhado com muito gosto, dele só me custou ler Olhar para Trás. É uma leitura deveras interessante, em especial por se assumir um registo multiforme de géneros (crónica, relato autobiográfico, romance, análise histórica), faz-se uma análise profunda sobre alguns dos acontecimentos-chave da história recente da Colômbia e, como sempre nesse tipo de relatos, aprendo sempre muito e há sempre um impuso para a pesquisa e o aprofundar de conhecimentos, na tentativa de compreender o livro lido. Não será um livro para beginners, mas para leitores de estrada larga é de não se perder.

A cripta dos Capuchinhos, Joseph Roth - Roth é um dos autores de que nunca me arrependo de ler nada do que tinha escolhido. É um escritor com gravitas, cuidadoso, contido, magistral. Já tenho mais um na mina lista de desejos. Adoro, não há maneira mais simples de dizer isto, os seus livros e, mais uma vez, é literatura que me leva a aprender, sempre, e que me deixa também um certo travo de nostalgia no espírito, que se prende com uma emergência do desaparecimento de um mundo que já foi ordenado, justo e ético e se vai transformando noutra coisa, bem mais deprimente.

Agosto 

Berta Isla, Javier Marías - estou lentamente a reiniciar-me em Javier Marías, de que não gostei de Os enamoramentos. Este livro absorveu-me, gostei do registo e perdura na minha memória. Seguir-se-á Tomás Nevinson, sem dúvida. O escritor terá outras oportunidades, está prometido.

Setembro

O Sino da Islândia, Halldór Laxness - eu gosto sempre de livros cuja ação decorre na Inslândia, essa terra de extremos onde sonho ir um dia. Laxness é um mestre da Literatura. É muito imaginativo na tessitura das suas histórias, revelando um sentido de humor inesperado e um estudo da natureza humana que é inspirador. A bondade está presente nos seus livros como as flores que nascem na adversidade, mas também a resistência, o orgulho, a convicção. Lá está, não será um escritor para o qual todos estejamos prontos, mas é maravilhoso. Aventurem-se...

Reflexos num olho dourado, Carson McCullers - uma obra breve com a intensidade das tragédias clássicas, um enredo que cresce como massa fermentada, numa tensão crescente, que só pode acaber em... tragédia. O livro deu origem a um filme, que ainda não vi, mas pus na lista.

Outubro

A arte de driblar destinos, Celso Costa - vencedor do prémio Leya, lê-se num fôlego. É leitura muito agradável, um relato sobre as memórias do autor, criado num certo Brasil rural e que acabou por se tornar professor, inspirado e inspirador. Gostei muito.

Mais que mil imagens, António Mega Ferreira - alguém fica surpreendido? Foi um dos títulos do autor que persegui com mais vontade, até o conseguir a preços que não implicasse ter de doar um rim. A ideia do livro parte da leitura de imagens que interpelaram o autor: pintura, cinema, escultura, fotografia. Sabendo nós o homem de cultura e erudição que Mega Ferreira foi, obviamente que a leitura não me desiludiu. Recomendadíssimo. É maravilhoso.

Daqui deste lugar, Inês Silva - relato de viagem de mota, pela N2, escrito por uma amiga. É um opúsculo muito bem escrito, que se lê com gosto, em especial para quem já percorreu a mítica estrada.

Novembro

O coração é um caçador solitário, Carson McCullers - é um livro sobre a morte da esperança. É um clássico que todo o leitor por convicção deve ter no seu currículo... se assim o entender, que os livros não são os evangelhos. Recomendo muito, mas não para refrigério, assim mais para nos mantermso alerta e conscientes.

Um cavalo entra num bar, David Grossman - Grossman é um escritor que estou a começar a conhecer. Este é um livro duro, triste, nostálgico e infinitamente belo.

Vidas escritas, Javier Marias - o livro traz-nos pequenos relatos de episódios biográficos de escritores conhecidos. É interessantíssimo. Inclui uma parte apenas sobre mulheres e outra com a reprodução de fotografias e postais da coleção do autor que retratavam alguns desses escritores. É muito interessante e nele cruzei-me com algumas das referências que constam do livro do António Mega Ferreira.

Os peixes também sabem Cantar, Halldór Laxnesse - é ler o que se disse atrás. Ainda mais bonito que o anterior.

Dezembro

Limpa, Alia Trabuco Zeran - ali com ecos da Canção Doce, de Leila Slimani, mas diferente e também muito bom. É um livro triste, poderoso, intenso e dramático. Recomendo bastante.

Tudo é Rio, Carla Madeira - bastante badalado, como sabemos. É de ler sem interromper. Tem um final supreendente, é bonito e esperançoso. Só ali no início é que achei que poderia ser um bocadinho menos, acho que quem já leu, me poderá perceber.

Lincoln Highway, Amor Towels - terminado já no nascer de 2024, mantive com este livro uma relação esquizofrénica, primeiro mergulhei nele vorazmente, depois cansei-me da extensão, no fianl reconciliei-me com ele e acabei por gostar mesmo  muito, Estive para me zangar com o autor e com o Obama, mas estamos bem, agora. Towels é grande escritor. Apostem neste livro.

Em suma, aquele graal dos 52 livros, não foi alcançado. A resolução para 2023 foi ler 15 páginas diárias (em média), consegui 25 páginas por dia (é verdade, somei e dividi, há patologias mais graves e perigosas). 

Para 2024, a meta é de uma média de 40 páginas por dia, que se não for para superar o que já fiz, nem vale a pena chamarem-me.

Um Feliz Dia de Reis e um 2024 cheio de livros.

 

 

02
Jan24

Livros 2023 - Lista que ninguém pediu, mas que eu ofereço (parte I)

livrosparaadiarofimdomundo

Feliz 2024,

Como houve tolerância de ponto para hoje, creio que se pode entender o dia 2 como uma extensão do dia 1 e ninguém leva a mal que eu apresente hoje o meu balanço de leituras do ano 2023. Afinal isto é ou não um blog sobre livros? 

Deixo uma listagem com classificação, numa escala cientificamente válida, que vivemos num século em que há estudos para tudo.

janeiro/2023 (foi o mês em que li mais, quase acreditei que, em 2023, seriam os 52 livros, pois, mas não foram...)

A família Netanyahu, Joshua Cohen - recomendo como interessante

Os anos, Annie Ernaux - para os nascidos em Portugal na década de 70 perceberem que em França nem tudo são rosas e que há mais pontos em comum com Portugal do que o facto de sermos um pais de emigrantes faria supor. Creio que é um livro que não devem deixar para trás;

O perfume das flores à noite, Leila Slimani - eu gostei, porque eu acho que a Leila escreve bem e tudo o que quer. No entanto, sei que é um livro que agradará mais a um público mais vocacionado para o estudo da Literatura, ou aqueles que se interessam pelo ofício do escritor. Há outros títulos desta escritora que considero mais "universais";

O acontecimento, Annie Ernaux - incontornável, para que saibamos o horror que foi para muitas mulheres entregarem-se a curiosas que faziam abortos clandestinos, para travarmos um pouco antes de julgarmos quem quer que seja. Mais uma vez, França e Portugal empatam;

Roteiro Afetivo das Palavras Perdidas, António Mega Ferreira - Mega Ferreira é um dos meus escritores favoritos. Adorei este livro. Traz-nos o sabor nostálgico de coisas muito próprias da nossa identidade, além de suscitar esse fascínio que as palavras exercem sobre nós, em constante evolução, nascendo, vivendo e também morrendo, como tanta coisa que nos passa pela vida;

Flecha, Matilde Campilho - se tiverem outras coisas para lerem também não é preciso irem a correr. É curioso, é criativo, é original, mas nada de perder a cabeça. Esperem um pouco mais, que há melhor lá mais à frente.

A Mais Preciosa Mercadoria, Jean-Claude Grumberg - Uma pequena pérola, que se lê numa horinha, é importante, é preciso, mesmo que não queiramos, voltar ao horror do passado, mas, a fazê-lo que seja em modo sério e não a brincar aos campos de concentração, onde parece que havida de tudo, menos o que realmente havia, que era o desespero mais desesperançado. Eu sei, tenho alguns preconceitos, mas não sou perfeita.

O jovem, Annie Ernaux - Esta autora, de quem li 4 livros, foi-se impondo como uma mulher de coragem, por abordar sem pudores, nem sensacionalismos, temas que fazem de nós aquilo que somos: humanos.

Uma paixão simples, Annie Ernaux - ler a apreciação anterior.

Fevereiro 2023 - ainda com fôlego

Medeia e os seus filhos, Ludmila Ulitskaya - se quiserem passar de nível na leitura, este é um bom livro para se desafiarem. Eu gostei imenso, fez-me uma vontade enorme de viajar para a Crimeia, fez-e perceber porque lamentamos tanto o que acontece nesse ponto do globo. A Crimeia surge quase como personagem neste livro, um lugar quase paradisíaco. Foi o segundo livro que li desta autora. entretanto saiu outro em Portugal, que já está na minha lista para 2024.

Vejam como dançamos, Leila Slimani - É agora: leiam tudo o que Leila Slimani publicou em Portugal. Este livro dá continuidade a Vejam como dançamos e é realmente muito bom. É uma escritora a manter debaixo de olho, porque se mostra versátil, ainda nunca desiludiu.

Shuggie Bain, Douglas Stuart - É mais ou menos isto: a Irlanda a empatar com Portugal, no que a uma certa indigência diz respeito. Uma história de amor de um filho pela mãe em modo autodestruição, que nos absorve como um buraco negro. Mesmo muito bom.

O segredo do Meu Marido, Liane Moriarty - Entretenimento. Trama que prende, persiste na memória até o terminarmos. Muito cinematográfico.

Março 2023 - agora é sempre a descer (às vezes, a vida passa-nos uma rasteira e quem se lixa é a leitura)

Um gentleman em Moscovo, Amor Towels - Imperdível! Leram bem, este livro devia ser leitura obrigatória. Tem a enorme e surpreendente qualidade de nos fazer querer ser melhores pessoas. É uma espécie de manual para voltarmos a ser empáticos, resiliente, educados, já agora, argutos e - a maior lição do livro - para não darmos "o gostinho" aos nossos inimigos, ou vá, a quem nos quer chatear.

Abril 2023 - Ou me esqueci de tomar nota, ou parece que não li nada. É triste!

Maio 2023 - em esforço para retomar

O Palácio de Papel, Miranda Cowly - Detestei. Mas tinha gasto o dinheiro, portanto li. Também estava a passar um fim de semana e não tinha mais nada para ler. Desiludiu-me o livro e desiludiu-me a Reese Waterspoon, que o recomendou no seu clube de leitura. Portanto, numa palavra, detestei... é que me irritou.

As regras da cortesia, Amor Towels - regressa aos autores que te fizeram felizes, mas nem sempre é a mesma coisa. Mas cumpriu. Li sem tédio, mas o anterior era tão melhor, a fasquia tinha ficado tão alta.

Junho 2023 - foi só um

Rua Katalin, Magda Szabó - de vez em quando, mesmo contra todas as expectativas, é preciso apostar. Façam isso por este livro, é de uma delicadez, de uma doçura, a narrar coisas tristes da nossa hstória... quase como os Atos Humanos. Podem incluir como desafio de leitura, valerá bem a pena.

Acredito que poucos terão chegado aqui, que o texto é demasiado longo. Ainda bem que não li os tais 52 livros. Continuarei amanhã, esperando não desiludir quem acha que precisa disto para alguma coisa.

 

 

 

 

 

 

14
Nov23

Despedidas: Ulisses e Penélope

livrosparaadiarofimdomundo

Em 2023, tive de me despedir de dois dos meus cães, o Ulisses e a Penélope.

Eram da mesma ninhada, rafeiros alentejanos, dos cães mais meigos que eu conheci.

A Penélope foi a primeira a vir. Era uma cachorrinha super esperta, com um olhar cheio de vida. Morava cá a Guta, que espantada com a novidade, a fazia rebolar pelo pátio, sem a magoar, mas também não eram carinhos o que lhe dava. A Penélope rilhava-lhe os dentes, escondia-se debaixo de tudo o que protegesse e não dava parte de fraca. Entretanto, pouco depois da chegada da Penélope, a Guta morreu inesperadamente, vítima de parvovirose. Foi um choro cá em casa. Lembro-me de uma viagem a Lisboa, em que quase não vi a estrada, porque a fiz a chorar ininterruptamente. Quando demos com a Guta morta, a Penélope estava sentada ao lado dela, como quem a vela.

Para superar o desgosto da morte da Guta, o meu pai ofereceu ao meu filho aquele que viria a ser o Ulisses. A ninhada de onde nasceram tinha sido afetado por uma doença de difícil diganóstico e mais difícil tratamento. Ulisses tinha sobrevivido, mas, quando cá chegou, era um cão ainda muito doente. Quando cresceu, as sequelas dessa doença fizeram-se sempre notar, em especial nas patas traseiras.

Tanto o Ulisses como a Penélope nos trouxeram as maiores alegrias que os cães nos podem trazer. Eram ambos muito inteligentes, muito meigos e, com eles, aprendi que os cães têm personalidades muito distintas, tal como nós. A Penélope era como uma rainha, generosa no seu carinho, mas mantendo-nos à distância. Não era uma cadela fácil, não tinha a sua deferência qem queria, mas quem ela achava que merecia. Era capaz de uma indiferença por todos nós, que nos divertia imenso. Era ela que mandava no Ulisses e, sempre que ele fazia qualquer coisa que lhe desagradava, ela rosnava-lhe muito a sério e ele, com um jeito que não esqueço, baixava a sua cabeça enorme e afastava-se cabisbaixo. O Ulisses teve espírito de cachorro até ao fim, assim que nos aproximávamos dele, ele deitava-se de barriga para baixo para receber as nossas festas, era doido por comida, era doido por todos nós, quando não podia estar connosco, gania baixinho, chorava para nos comover. De manhã, sabia sempre quando nos levantávamos e ficava hirto à porta, curvando a cabeça à medida que acompanhava os nossos passos antes de abrirmos as portas. Podia andar a quilómetros de casa, mas sabia sempre quando é que a porta tinha ficado encostada. Então, com a pata abria-a, entrava em casa e ia até à cozinha à procura de um petisco que pudesse surripar. Lembro-me de um dia ter sido um prato enorme de batatas doces assadas, que ele comeu sem partir o prato.

Em 2023, o Ulisses e a Penélope fizeram 13 anos, sendo de uma raça de grande porte, isso notou-se muito. O Ulisses perdeu a mobilidade e começou a cair e só se podia levantar com a a nossa ajuda. Ainda o medicámos, mas foi ficando cada vez mais apático, as suas patas traseiras trairam-no e, quando deixou de comer, foi preciso tomar a decisão de sermos generosos com ele. Em fevereiro perdemos o Ulisses. Em novembro, a Penélope, que tinha mesmo um ar de velhota, que passava muito tempo a dormir, que nem sempre se levantava para nos cumprimentar, deixou repentinamente de comer, entretanto, perdeu também a mobilidade, deixou de beber e limitava-se a fitar-nos com um olhar inquiridor, mas ainda reativa às nossas festas. Foi, mais uma vez, preciso tomar uma decisão. É muito difícil.

O sofrimento - porque houve sofrimento - nos animais deixa-me muito impressionada, é absolutamente silencioso, resignado, paciente. O nosso amor é importante para eles. A decisão de lhes encurtar a vida para que sofram menos é generosa (sei que prolongar a vida da Penélope era mais crueldade que amor), mas é mesmo muito difícil, porque é desistir da nossa esperança. Hoje, para mim, foi como o fim de uma era e, como disse a minha filha, foi também a perda de uma parte significativa da infância dos meus filhos que cresceram com estes dois cães.

Um verão em que saímos de férias, O Ulisses e a Penélope divertiram-se bastante. Em outubro, nasceram seis cachorros, quatro deles morreram poucas horas depois, ficaram dois. Sempre que chegávamos a casa, eu e a minha filha corríamos a ver se eles ainda ali estavam. Foi impossível dá-los, ficámos com eles. São o Hércules e a Meg. São o legado da Penélope e do Ulisses, reconforta, mas não substitui. De repente, o pátio parece muito vazio e, quando olho pela janela, vejo o Ulisses e a Penélope a velarem por nós.

05
Nov23

#29/2023 - O coração é um caçador solitário, Carson McCullers: um livro onde morrem todos os sonhos.

livrosparaadiarofimdomundo

O Coração é um Caçador Solitário

355 páginas

Editorial Presença

 

Andava há muitotempo para ler este livro, undicado como um dos 100 melhores livros do século XX, segundo a Time Magazine. Foi a minha leitura nas duas últimas semanas, emprestado por uma amiga, com quem partilho o gosto pela leitura.

O livro narra-nos as histórias de cinco personagens, na Geórgia da década de 20. As personagens são um surdo-mudo, uma jovem adolescente, um médico negro, o dono de um café e um socialista. Habitantes de uma pequena cidade do sul da América, partilham as mesmas circunstâncias de pobreza, marginalização, violência e desesperança. O surdo-mudo, senhor Singer, é como um centro em torno do qual gravitam as restantes personagens, que fazem dele confidente, dando-lhe a conhecer os seus sonhos, angústias e anseios, num tempo que parece fermentar de expectativas que nunca chegam a concretizar-se.

É uma narrativa serena, muito melancólica. Nada parece suceder e parece que tudo é possível. A história vai crescendo em tensão, prendendo o leitor que percorre as páginas também à espera de saber o que virá a contecer no futuro destas personagens tão complexas. Será que Mick virá a tornar-se numa grande compositora? Será que o dr. Copeland conseguirá que os direitos dos negros venham a ser respeitados? Será que Bill Brannon encontrará o amor, esclarecendo a ambivalência dos sentimentos que manifesta? Será que os homens conseguirão entender a verdade que Jake Blount quer que todos conheçam?

A chave do livro, em minha opinião, está na incomunicabilidade que se estabelece entre estas personagens. Quando acontece encontrarem-se todos no mesmo espaço - o quarto do senhor Singer para o qual convergiam todos os dias - nenhum deles consegue falar com os outros, a tensão é tão palpável que entre eles nutrem uma verdadeira aversão e acabam por dispersar porque, na verdade não se toleram. Embora todos queiram o mesmo, a realização dos sonhos numa terra estéril que, por si só, parece secar e fazer mirrar o sonho mais consistente, não conseguem comunicar uns com os outros e essa incapacidade parece ditar o fim dos sonhos, tragados pelas circunstâncias adversas que nenhum deles consegue vencer. Quanto a mim, o paradigma dessa incomunicabilidade está simbolicamente representado no facto de todos partirem do pressuposto de que o senhor singer os compreendia e que prestava atenção aos seus desabafos, quando este convivia com eles, fechado no seu mutumismo e surdez congénitos, com verdadeira indiferença, consumido pelas suas próprias preocupações.

É um livro sobre desencontros inexoráveis, que sintetizam os desencontros de uma sociedade fraturada, racista, violenta, cujas tensões a pressionam até explodirem em confrontos, em intolerância, em violência quase generalizada. É um livro atual, que nos alerta para o perigo de não nos abrirmos ao outro e de não conseguirmos estabelecer pontes. Gostei muito e gostei que o livro me prendesse à leitura com a firmeza e a consitência com que está escrito, já que, a título curiosidade, foi o primeiro livro da autora a ser publicado, com a idade de 23 anos. Sinto inveja... 

 

01
Nov23

Às vezes também vou ao cinema: Assassinos da Lua das Flores

livrosparaadiarofimdomundo

 

Assassinos da Lua das Flores,

 

Não há nada como ir ao cinema, abstrairmo-nos de tudo e ficar no escuro da sala, apenas focados no filme.

Pois se forem ver este Assassinos da Lua das Flores, mesmo que não queiram, a intensidade do filme vai manter-vos quase sem respirar desde o primerio instante até ao último segundo desta longa metragem de 206 minutos.

Em poucas palavras, o filme é inspirado no livro homónimo do jornalista David Grann (não conheço o livro) e debruça-se sobre a tragédia que se abateu sobre a nação dos Osages, quando se descobriu petróleo nas suas terras, no Oklahoma. É fácil, a partir desta sinopse, perceber sobre o que é o filme: atrocidades cometidas em nome do dinheiro por homens pertencentes à maioria branca que não consegue ver os outros a deterem poder nem dinheiro. 

Começo por aquilo que primeiro me chamou a atenção: a banda sonora. Marcando o ritmo narrativo do filme, é muito boa, em alguns momentos, principalmente logo no início, condiciona a nossa respiração, enquanto os sentimentos de revolta e repugnância começam a crecer dentro de nós.

Segue-se a fotografia, dando conta da beleza natural e um sítio "abençoado" por Deus, já que ai se descobriu petróleo. Da transição da paisagem selvagem, de vastos horizontes, para campos extensos de torres de petróleo, feridos pela ganância dos homens, pouco há a dizer, os valores mais altos são sempre os mesmos.

Os crimes cometidos contra os índios Osages com o fito de tomar posse do petróleo e do dinheiro são o tópico transversal do filme. Entre doenças misteriosas, mortes violentas que ninguém investiga,  assassinatos pela calada na noite, assaltos aos índios, até depois de mortos, casamentos por interesse com as mulheres Osage, depois assassinadas para se herdarem os seus direitos, assassínio de crianças com o mesmo objetivo, tudo serve para que os brancos tomem posse daquilo que é dos Osages. Um outro aspeto que causa verdadeiro choque é percebermos que os índios para movimentarem o seu dinheiro precisavam de tutores brancos que autorizavam esses movimentos, sendo ainda necessário justificar a despesa.

O desempenho dos atores é brilhante, em especial de Robert de Niro, cuja perfídia da personagem a que dá corpo e alma, quase se cheira na sala de cinema, tão insinuante se torna. Verdadeiramente odioso. Leonard Di Caprio, igual a si mesmo, ator camaleónico, capaz de qualquer papel, sempre convincente, sempre autêntico, neste caso um perfeito patife ali a roçar o idiota, mas fruto do tempo e dos modos. Lily Gladstone, verdadeira heroína clássica, sábia, inteligente, serena e de uma grandeza que constrasta em absoluto com as personagens de Di Caprio de De Niro. Extraordinária.

Martin Scorsese a evidenciar que a experiência é um trunfo que só de omina com o tempo. O filme é maravilhoso, até pelo toque moderno e irónico de algumas cenas. Continua a abordar temas que lhe são caros, nomeadamente a violência, sempre relacionada com o dinheiro. A ganância que não se detém perante qualquer obstáculo.

Pelos tempos que vivemos, o filme é também muito atual, opressão, violência, tentativa de levar a cabo um genocídio, o facto de a justiça não ser um direito inalienável para todos. Isto resumido numa das frases que, em minha opinião, sintetiza bem o filme, proferida por De Niro, qualquer coisa como: perante o conhecimento do mal, durante algum tempo, as pessoas manifestam-se, protestam, mas, com o tempo, vão à sua vida e acabam por se esquecer. Vivemos muito essa forma de estar, a guerra da Ucrânia normalizou-se, Gaza também se virá a normalizar...

Ver este filme é quase um exercício de cidadania.

 

 

30
Jul23

Fui ver o filme Barbie, gostei e pensei em Fernando Pessoa

livrosparaadiarofimdomundo

Na sexta feira, dia 20 de julho, do ano da graça de 2023, fui ver o filme Barbie... e apeteceu-me escrever sobre a experiência.

Não fui de cor de rosa, apesar de ser uma cor que fica bem com tudo.

Fui na companhia da minha filha, enquanto mentalmente dava berros de alegria por, aos 20 anos, ela ainda querer fazer coisas comigo. quanto a vida te dá logo a limonada, bebe-a de um trago.

Fui super cansada depois de uma semana muito dura e trabalho, daquelas que testam a nossa capacidade de resistência, pelo que a minha capacidade de interpretação e leitura estava um pouco embaixo, na fraqueza, portanto.

Vai daí, não é que gostei! 

Podemos começar pelo fim, quando as luzes se acenderam tinha um filha lavada em lágrimas, bastante tocada pelo filme, porque, de facto, aborda-se ali a relação estreita entre as mães e as filhas, é verdade. Assim, é um filme que nos toca e não, não é por cusa da barbie fever, é mesmo porque é um filme inteligente, tecnicamente desafiante até supreendente.

O filme tem tudo. Recordou-me a passagem em que o Shreck explica ao burro o que é um Ogre, dizendo que tem camadas, este filme tem várias camadas. Tem crítica social? Tem. É focado nas questões de género? É, mas mostrando que a desigualdade é sempre desigualdade, seja sobre as barbies, seja sobre os kens. Coloca questões existenciasi? Coloca. Tem comédia? Tem e de qualidade. Há drama? Há, sim senhor. É comovente? É. Tem música, números cantados e dançados? Tem, vários. Há intertexto e remissões para outras obras? Sim, basta estarmos atentos e termos vivido nos anos 80. Enfim, é mesmo muito interessante.

Entre metáforas mais ou menos óbvias ou subtis, a leitura que mais me ficou foi uma relação improvável com a poesia de Fernando Pessoa e a nostalgia da infância, a passagem necessariamente dolorosa da inconsciência para a consciência, a interferência da consciência na forma como encaramos o mundo. Nascemos duas vezes na vida, quando nascemos efetivamente e quando começamos a ter cosnciência de nós e passamos o portal para esse mundo que se nos vem a revelar imperfeito, feito de dor e alegria. É nesse passo que o filme  se mostra mais tocante, mais do que ser uma barbie estereotipada, nada se compara à maravilhosa complexidade e imperfeição que é vivermos e sentirmos.

Olhem, lá que gostei, gostei e, quando voltar a dar aulas, hei de servir-me de algumas cenas para que os meus alunos percebam algumas temáticas na poesia de Fernando Pessoa.

Nota final: Margot Robbie é soberba e Ryan Gosling não se lhe fica atrás.

Outra reflexão, minha e só minha, é que a Greta Gerwig é assim uma espécie de Tarantino nestas coisas mais feministas, é uma cineasta muito autoral.

Podem ir ver, de rosa ou não, mas para formarem a vossa opinião, que é sempre um bom princípio, mas vão sem preconceitos.

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