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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

02
Jan21

#1/2021 - Torto Arado, Itamar Vieira Júnior: mirar o passado para não perceber o presente

livrosparaadiarofimdomundo

Wook.pt - Torto Arado

Editora Leya

279 páginas

Comprado

Esta primeira leitura de 2021 é devedora de 2020, porque a verdade é comecei ainda em 2020, mas terminei, numa tarde bem passada do dia 1, já a estrear o novo ano literário. Quem leu as minhas resoluções para 2021 perceberá que já cumpri uma nano parte: terminei um livro que estava começado em casa (sou tão ardilosa nestes esquemas mentais). Sabe-me sempre a um regresso a casa ler literatura brasileira, a pátria da minha especialização em Estudos Românicos, mas é sempre um regresso sofrido, porque o povo brsileiro parece votado a um desígnio de sofrimento e privações que nada parece poder por fim, nem a política nacional, nem a internacional, nem a cultura, nem os homens de boa vontade.

A biografia deste livro é já ilustre, começou por ser o vencedor do prémio Leya, foi depois galardoado com o prémio Jabuti e com o prémio Oceanos. Assim sendo, é uma aposta segura, não pode andar tanta gente enganada.

Torto Arado é marcado pela ambivalência: é uma leitura aparentemente fluida - não leve, mas fluida - mas que pesa na alma, se a alma for sensível e humanista, não podendo ficar alheia ao sofrimento do outro; é uma obra que remonta ao passado do Brasil, num período em que a escravatura já tinha sido abolida, mas que persistiu sob outras formas de subjugação, que está na génese dos movimentos dos Sem Terra, que nos é devidamente explicado nas suas raízes históricas, sociais e culturais, porém aponta para o presente e para as muitas fraturas e assimetrias que estão longe de ser sanadas - daí o título do post; a ação decorre no Estado da Bahia, numa fazenda que beneficia dos terrenos férteis irrigados pelas águas fartas de dois grandes rios, mas é centrada nas pequenas roças e aglomerados que foram nascendo do trabalho árduo das mulheres enquanto os homens trabalhavam para o senhor da fazenda; é uma obra protagonizada pelas mulheres, cuja submissão e subjugação é igualmente ambivalente, mas não deixa de equacionar a dureza, a miséria e a insegurança que atormentam igualmente os homens; é no Brasil, mas já foi ou continua a ser em qualquer ponto do globo, já que "sobre a terra há de viver sempre o mais forte" - é preciso descobrir quem o é efetivamente, daí a sua universalidade.

A narrativa conjuga os pontos de vista de duas irmãs sobre a sua história comum: Bibiana e Belonísia, flhas de Zeca Chapéu Grande, o curador do terreiro que dá corpo aos encantados que estruturam a vida espiritual da comunidade da fazenda, negros que se dizem índios para não serem expulsos das terras. As irmãs ficarão unidas por um laço ditado por um acidente de infância, mas também se desunem e voltam a unir por causa de pequenos episódios, mágicos, oníricos, encantados, quotidianos, simples, que ditam as suas/nossas escolhas e caminhos. Todas as personagens partilham uma cosmovisão mágica, generosa, idílica, submissa, mas inocentes dessa submissão, acreditando que o facto de o senhor permitir que tenham a sua roça é motivo de gratidão e desígnio para a sua froma de vida, nem sequer percebendo a sua própria indigência nem a verdade das suas prorrogativas.

Torto Arado ilustra bem o cadinho cultural que é o Brasil, uma herança que não pode ser negada, esquecida, obliterada, justamente porque nos ajuda a perceber algumas das fragilidades do presente deste país, mas também do mundo. O brasileiro tem, desde a origem e mercê das suas raízes índias e africanas, um pensamento mágico, crê nele e orienta-se pelos seus ditames e isso não foi ainda expurgado dos tempos que se vivem no Brasil. Além disso, desafortunadamente, as condições de vida de muitos dos seus habitantes não mudaram tanto assim, as vagas de imigrantes que chegam a Portugal à procura de um lugar de ser são a herança de um povo em êxodo à procura de uma terra prometida, chame-se ela Àgua Negra, Lisboa, ou outra coisa qualquer.

Como os livros dialogam, recomendo, a propósito deste, a leitura de dois outros que se contam entre os livros da minha vida: 

Wook.pt - A Guerra do Fim do Mundo      Wook.pt - Grande Sertão: Veredas

Este tríptico ajuda-nos a compreender e a conhecer o Brasil.

E no fim de tudo... os bons livros!

 

 

 

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