Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

11
Fev21

Ensino a Distância - Lado A/Lado B/Lado C...

livrosparaadiarofimdomundo

Assim, à laia de disclaimer, tenho a dizer que não gosto muito de escrever sobre os assuntos que são cavalgados no momento. Foi assim com o a manutenção das escolas abertas, com o fecho das escolas, com a transição para o ensino a distância. Mas houve uma coisa, uma pequenina coisa que hoje me obrigou a escrever este texto, bem, na verdade foram pequenas coisas. Acredito que nos instantâneos dos dias é que define uma época. Estou também consciente que a educação  (escolas, professores, pais, alunos) é como um terreno minado, mesmo que levemos o burro às costas, acabaremos sempre por ser consumidos numa explosão. É um risco... no que eu me vou meter.

Lado A - 

Alunos pontuais - alguns às 08:27 já estão na sala de espera;  empenhados - com material, a trabalhar, a participar; câmara ligada; sorrisos ainda um pouco hesitantes; dóceis, no sentido em que acatam as minhas sugestões de trabalho com uma serenidade que me encoraja. Reconfortada por saber que tanto está a ser feito para dar a estes alunos, pelo segundo ano consecutivo, uma referência, a manutenção da ligação à escola, a persecução de objetivos pedagógicos. Palavras novas que inauguraram este tempo novo: ZOOM, teletrabalho, Classroom, webcam, salas simultâneas, bate-papo. Vários testemunhos de que as coisas vão bem, de que não há desleixo, há bom senso. Observo uma determinação muito maior, a de quem já sabe ao que vai e se armou do necessário. Professores muito preocupados com os "seus alunos". Antecipação de todas as estratégias para que a escola continue a cumprir, a proteger, a incluir. Empréstimo de material aos alunos mais carenciados, tentativa de remendar o que ficou a descoberto, o fornecimento de refeições, a atenção aos alunos que, não estando protegidos pelo ASE por tudo e mais alguma coisa, são sinalizados e, em conjunto com as autarquias, são-lhes asseguradas as refeições... e cito " Muito obrigada pelo seu investimento neste âmbito. A solidariedade é das coisas mais belas que uma escola pode ensinar."

E sinto, como sempre, que tenho a profissão mais bonita do mundo, que faço parte, que estou a mover o meu grão de areia que reconfigura a duna.

Lado B -

A discussão à volta da disponibilização dos meios e dos equipamentos dos professores - em última análise, sei que me devem ser dados os meios para trabalhar, que é um direito, mas poderá o meu país agora contar armas? Não viveremos efetivamente uma situação de catástrofe para cuja resolução todos devemos contribuir? Este tipo de reivindicação - agora - não é demasiado demagógico? Os alunos que se afastam, que não querem, que desrespeitam, que boicotam. A desvalorização da escola e do seu investimento para o futuro. Alunos que tiram o sono aos seus professores. A dimensão esmagadora do número de alunos que não conseguem aceder ao ensino a distância e a consciência ainda mais esmagadora de que não vai ser possível encontrar resposta para todos, a procura de alternativas para que se mantenham ligados às escolas. Aqueles que o sistema não integrou, porque faltou um papel e não têm escalão, mas as dificuldades não se compadecem. O diagnóstico a sangue frio de um país ainda tão assimétrico: os dois pais estão desempregados, são três filhos, só têm um PC e um telemóvel; não tem internet, vai assistir às aulas a casa de um vizinho, quando a outra criança não tem aulas; não tem aparecido, crê-se que está a trabalhar nas obras; só tem um telemóvel, que está partido, mal consegue ler as mensagens; mãe pede escola de acolhimento, porque é mãe solteira e não pode perder trinta por cento do rendimento... não vale a pena continuar esta enumeração, seria demasiado longa e ainda ssim demasiado afastada da realidade. O défice de civismo e de literacia, as pessoas do país dos direitos: quero um computador para o meu filho, o vazar de ódio nas redes sociais, a incompreensão da falta de meios com que as escolas se debatem, a desvalorização da escola e da educação dos filhos a menos que ela seja integralmente garantida pelo Estado, e cito "tenho um smartphone, mas não é para os meus filhos assistirem às aulas"; "se não me arranjam uma câmara não sei para que quero o computador, assim mais vale vir trazê-lo".

E sinto que tenho a profissão mais bonita do mundo, porque só formando havemos de amadurecer a nossa cidadania.

Lado C

Uma aluna de ensino secundário, imigrante, responsável por dois irmãos mais novos, o pai é motorista, a mãe ficou retida no país de origem por causa dos COVIDS, sem escalão, porque os papéis ainda não estão regularizados, apoiada com as refeições e a debater-se para aprender, para ser, para se manter a flutuar neste mundo voraz que a submerge e cito a mensagem enviada à diretora de turma: "Bom dia stora , eu queria avisar que não vou comparecer às aulas de hoje e amanhã , pois o meu irmão ficou esses três dias sem E@D por não ter aparelho, então disponibilizei o meu para ele esses dois últimos dias da semana para ele não ficar tão atrasado , não se preocupe eu não ficarei atrasada nas matérias, irei pedir aos meus colegas para me passarem o que for  passado nas aulas . Espero que compreendas ^^ beijinhos tenha um bom dia !"

E sinto que tenho a profissão mais bonita do mundo, mas que isso não me impede de sentir esta mensagem como um murro fortísismo no estômago, nem me ajuda a conter as lágrimas cada vez que a releio, à qual voltei repetidas vezes ao longo deste dia e me fez pequena de impotência.

 

28
Jan21

A morte saiu à rua? Não, anda por lá a passear-se

livrosparaadiarofimdomundo

Não sei se aconteceu o mesmo a muita gente, mas a minha perceção disto tudo mudou drasticamente em pouco tempo. Como eu - porque há imensa gente assim - haverá por aí pessoas que cumpriram religiosamente tudo o que foi determinado. Apesar de trabalhar em educação, a minha função obrigou-me a sair de casa todos dias para trabalhar. Cumpro e esforço-me para que sejam cumpridas as regras de segurança. O espaço escolar tem menos um centímetro de altura tantas são as vezes em que o chão é limpo, as superfícies são desinfetadas. Depois do trabalho - durante todo o verão - não tomei um café, não me sentei numa esplanada, não fui a um restaurante - digo-o não como quem se lamenta, mas como quem o fez com a naturalidade que os tempos exigiam. Não fui a um centro comercial, as compras que fiz foram online, abusei talvez nas idas aos viveiros de plantas. De resto as minhas saídas foram perfeitamente justificadas pela necessidade.

Inciei o novo ano letivo cheia de esperança. As aulas no 1º período decorreram com muita tranquilidade, apesar de uns miúdos mais resistentes que teimavam em proteger-se da papeira em lugar da COVID-19. Os casos de contágio que surgiam eram absolutamente esporádicos, aqui e ali, às vezes, lá ia uma turma para isolamento. Nunca houve um surto. Continuamos a fazer uma vida sobretudo muito doméstica, mas, sinceramente, muito agradável, sem qualquer custo. Chegou dezembro e abriu-se a caixa de pandora.

Hoje, mesmo aqueles que chamaram a isto uma gripe, os que falaram de todas as teorias da conspiração, os que não quiseram saber, os que sairam, os que ainda hoje arranjam qualquer pretexto para furar o esquema, mesmo esses não podem deixar de estar esmagados com estes números. Faço contas de cabeça e imagino este número: numa semana, morrem - morrem - cerca de 1500 pessoas. E multiplico estes números por aqueles que amam estes mortos, que se deparam com estas perdas: 1500 esposas, 1500 maridos, 1500 filhos, 1500 pais, 1500 avós, 1500 amigos, milhares de vidas humanas perdidas, amputadas, separadas. Hoje oprime-me esta sensação de que a morte anda à solta na rua e que se vai aproximando, que nos vai cercando e que, quem sabe, se aproxima já dos nossos, insidiosa, indiferente, cega como a justiça. A morte anda aí.

Foi o pai que deu entrada no hospital e de quem as filhas não se puderam despedir, nem era COVID-19, era até outra coisa, mas os serviços estão pressionados e falta tudo e, não, eu não estou aqui a falar mal do SNS. Se a alguém falta motivos para pedir alguma coisa, peçam o SNS a funcionar, de forma deficiente? Digam-me que serviço de saúde aguentaria estes números? Foi o fotógrafo jornalista que toda uma pequena comunidade conhecia, a sua figura que andava pelas ruas da sua terra, identificando-se com ela e reproduzindo-a pela sua objetiva. Ouvimos falar destas mortes, como tiros de uma batalha que soam cada vez mais perto e o que sentimos começa a ser medo e a prece antiga que nos faz pedir pelos nossos. Foi a mãe internada a quem não foi possível dar um último beijo, foi a avó que foi sepultada sem que lhe fosse permitido usar a roupa que ela tinha escolhido e dito que queria usar na sua última viagem. 

A nossa existência é cinzenta agora, estamos cansados, estamos todos um bocadinho doentes, estamos todos muito mais tristes, estamos todos muito mais sós e, muitos de nós, nunca mais se hão sentir próximos daqueles que lhes alegravam os dias. Não sei se é pior que uma guerra, porque, felizmente, não conheço esses teatros, sei que é suficientemente mau e volto aos números 11608 mortos, fora os danos colaterais, incalculáveis, creio eu. Todos os dias os casos ativos crescem e fazem crescer não a avaga, mas o maremoto que engole as nossas esperanças. 

20
Jan21

As migalhas são de graça

livrosparaadiarofimdomundo

Estávamos nós ali atrás a ansiar pela passagem de ano, acreditando mesmo, mesmo que doze badaladas seriam com uma rajada de metralhdora sobre tudo aquilo que nos custou no ano mais longo de que muitos de nós têm memória. Afinal quem vivia mal, passou a viver pior, qum vivia bem, passou a viver pior - é reconfortante acreditar que foi assim - quem vivia muito bem, pelo menos não pôde sair de casa. 

E vem 2021 e entrou a pés juntos, esse bruto: morreram Carlos do Carmo e João Cutileiro, tivemos uma vaga de frio que nos ia congelando a alma, os americanos estão mesmo doidos e os mais doidos invadiram o Capitólio e agora os americanos têm de se proteger dos americanos God doesn´t save America, o estupor do vírus não nos largou e ficou ainda mais virulento, morreram em Portugal nos primeiros vinte dias do ano mais de dois milhares de pessoas só por causa desta pandemia que está cada vez mais pandémica, voltamos todos a confinar, está tudo fechado outra vez - estou a exagerar, eu sei - fala-se de novo no encerramento das escolas e a minha alma fica mais gelada do que ficou por causa da vaga do frio, temos medo, muito medo - estou a exagerar, eu sei, há gente que não tem medo nem vergonha, nem noção, nem senso de noção, mas não posso ir por aí, senão ninguém me segura e eu sou uma senhora - temos pouco orgulho do nosso país, fianlmente percebemos a importãncia do SNS e porque é que alguns setores da sociedade não podem ser privatizados. É difícil, até para uma otimista patológica como eu sou, manter-nos positivos. Ups, agora é mau estar positivo. Rephrasing: é difícil mantermo-nos, chega assim.

Ficam as migalhas: os almoços na sala de professores, com toda a gente a comer de caixinhas, mas com um clima muito simpático, a conversar animadamente, a rir, meu Deus, a rir; a manutenção, a prazo, das aulas presenciais, até gostamos mais dos alunos na quase-hora da despedida; o fim de semana com sol, que deu para ler no alpendre, para cuidar das plantas de exterior e que despertou o desjo de ir ao horto comprar amores-perfeitos e toda a qualidade de plantas que floresçam na primavera - mas não fui, que eu sou cumpridora e faço tudo para manter as escolas a funcionar, faço a minha parte e nem sei se chega; as visitas muito esgarçadas à mãe e ao pai; as refeições em família, a quatro, animadas; a sala de aula com os meus meninos que me recebem sempre com ânimo, doces como alguns conseguem ser; a senhora da banca da fruta, tão humilde (no bom sentido), tão amável, tão atenciosa, que corre a abrir outro saco de cebolas, que pede desculpa por não ter mais coisas de encher o olho; os que dizem que gostam de nós, os que dão a palavra amável, os que são solidários; as anedotas para antologia, como aquele aluno que, tendo faltado por uns dias, quando questionado sobre o motivo da ausência, mentiu, dizendo que tinha sido operado ao apêndice e, ao ver que a professora lhe pedia para ver a costura, disse, na sua ingenuidade (ou não) que se tinha esquecido dela em casa.

São migalhas de um quotidino de chumbo, mas podemos fazer como nos diz o aforismo da pedra, não um castelo, mas podemos amassá-las e fazer um pão e comê-lo com a gana de que nos fala Álvaro de Campos: comê-lo sem tempo de manteiga nos dentes. São migalhas, mas pelo menos são de graça.

05
Jan21

Às vezes também vejo séries#2: Alguém tem que morrer (minissérie Netflix)

livrosparaadiarofimdomundo

Alguém tem que morrer": com Ester Expósito, saiba tudo sobre a nova série  da Netflix - Purebreak

 

Gosto muito de minisséries. Não vejo séries com 250 temporadas, fora os anexos.

Algém tem que morrer é uma minissérie espanhola, em exibição na Netflix, com apenas três episódios, de cerca de 50 minutos cada. Dá para um serão bem passado. É de uma intensidade dramática capaz de nos pregar ao sofá, sem falarmos, às vezes sem respirarmos, mas indiferentes nunca.

Começo pelo título, muito bem achado, e que, quanto a mim está mais voltado para o espectador do que para a intriga. Alguém tem que morrer é aquilo que somos levados a pensar assim que o primeiro episódio se inicia: há muita tensão, há muita sisudez, há muita violência contida e explícita, há muito poder, há muita subjugação, há muita arma, para que no final todas as personagens sobrevivam aos acontecimentos cujo avanço mais não faz do que criar a sensação asfixiante de que aquilo só pode correr mal.

Ambientada na Espanha do pós-guerra, fechada, conservadora, homofóbica, retrógada de Franco, a ação coloca duas famílias do regime, movidas pelos interesses comuns - se o chefe de família da primeira gere prisioneiros, em especial aqueles acusados da degeneração ligada aos amores homossexuais; o segundo explora uma fábrica de calçado, impusionada pela mão de obra gratuita que recruta através do amigo. Se o primeiro é pai de um filho e o segundo pai de uma filha, nada melhor do que combinar-se o casamento e serem todos felizes para sempre. Se há um segredo de família - ou vários - porque no melhor pano cai a nódoa - é preciso fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para o sepultar para sempre e não permitir que a sua revelação coloque em causa o status quo: se for preciso mata-se, se for preciso exila-se, se for preciso tortura-se, se for preciso trai-se, se for preciso mente-se, se for preciso bate-se. Caso seja necessário satisfazer o desejo de poder, o desejo de brilhar, a incapacidade de se ser contrariado, recorre-se sempre aos mesmos processos.

E o que é que fica pelo meio? Os elos mais fracos; aquele que voltou as costas num momento de imprudência, aquele que testemunhou, aquele que ama, aquele que é a esposa submissa, aquele que é cônjuge de um preso político, aquele que não convém e, em especial, aquele que vinha só para ver as vistas e foi apanhado no tornado.

As personagens frequentam um clube de elite, cuja principal atividade -além daquela mais velha do mundo: ver e ser visto, manter-se na berlinda, afinar a aceitação - é o tiro aos pombos. E há neste desporto predatório toda uma mise en abîme da série. Se não estás do lado daqueles que seguram a arma, é porque estás no lado da presa, se não atiras, és alvo. Aliás a omnipresença das armas, do som dos tiros só agudiza esse ambiente opressivo em que as personagens dominadas vivem. Só há uma forma de escapar: matar ou morrer.

Poupo-vos os pormenores técnicos, quem é quem, garanto-vos que o desempenho artístico dos atores é bastante bom, os figurinos também, a frieza do ambiente outonal igualmente. Vejam a série, é muito interessante, pertinente, atual - afinal há por aí países em que foram aprovadas leis homofóbicas bastante recentemente - e põe-nos a pensar em que sociedade queremos viver, para não adormecermos no embalo das demagogias. Eu gostei!

23
Dez20

O melhor de 2020: as pessoas, definitivamente, as pessoas

livrosparaadiarofimdomundo

A melhor palavra para definir 2020 é: agridoce.

Li no facebook - e não posso dar os créditos, porque não vinha identificado - que 2020 não foi um ano, foi uma prova de resistência, e foi mesmo. 

Tivemos o confinamento, mas a família reagrupou-se e nunca tínhamos sido família de forma tão completa, reiventando maneiras de estarmos juntos.

O ensino passou a ser a distância, mas nunca me tinha sentido tão próxima dos meus alunos e a nossa despedida foi das coisas mais bonitas deste ano.

Houve dificuldades profissionais acrescidas, mas o espírito de equipa nunca tinha sido tão forte.

Não foi possível fazer férias em família, que nos últimos dez anos tinham sido sempre uma viagem de carro, mas, depois desses dez anos, voltei a ter dias de puro descanso a ler à beira-mar na companhia das duas mulheres da minha vida, a minha mãe e a minha filha.

Por fim, nesta última semana, quando já sentia que a corrida de obstáculos já estava quase a terminar, faltavam só dez dias para o fim do ano, até as cartas astrais falavam num fecho de ciclo de vinte e oito anos e no início de um novo ciclo de crescimento, o que poderia correr mal? Eis que, por causa de um estúpido acidente - como se houvesse acidentes inteligentes - fiquei sem carro. E eu sou daquelas pessoas - como alguém alguma vez disse com ar enfastiado, depois de bater num carro de outra pessoa "ainda por cima calhou-me uma daquelas pessoas que só tem um carro" - pois sou dessas, das que só têm um carro.

Acontece que foi preciso comprar um carro novo, de um dia para o outro, que na provínica os transportes públicos são uma miragem que nunca passa a horas decentes. E fui atendida num stand de excelência - a Benecar (justifica-se a publicidade, ainda que gratuita), por dois anjos, a Marisa Silva e o Ricardo Cardoso - não costumo dizer nomes, mas este caso obriga. Foram absolutamente extraordinários, disponíveis, atenciosos, pacientes, bem-humorados, delicados e outra vez pacientes. Estava tão atordoada que nem conseguia decidir entre automóvel ou carrinha, cilindradas e potência, ano de fabrico e extras. Fui literalmente guiada, aconselhada e tranquilizada. 

No momento de levantar o carro, depois de assinar a papelada, achei eu que me entregavam a chave, me davam uma pancadinha no ombro e vá lá à sua vida, que nós vendemos mais um carro. Não, não foi assim. Num espaço coberto, luxuoso quase, bonito sem dúvida, estava um carro com uma laço vermelho enorme - juro que nem me ocorreu que fosse o que tinha acabado de comprar - e era o meu. Além disso, quando o Ricardo - desculpe tratá-lo com esta familiaridade - abriu a porta para me explicar o funcionamento, tinha um ramo de flores - leram bem, um ramo de flores em cima do banco como gentiliza, além de uma oferta de duas garrafas de vinho. Quase desfaleci. Eu sei, é marketing, mas funiona, oh se funciona. Não havia nada que obrigasse a isto, só a perseguição da excelência e cai bem, dispõe bem. Eu já ficava feliz com a forma como fui atendida, mas estes pormenores, estas atenções, marcam a diferença. Senhores que vendem coisas, aprendam, é assim que se faz e se fidelizam clientes.

Volto ao início: neste ano agridoce, foram sempre as pessoas que me salvaram, as pessoas com quem tive o privilégio de me cruzar foram o melhor de 2020, o Ricardo e a Marisa são os rostos e os nomes de hoje, mas houve muitas mais. No fim de tudo... as pessoas.

17
Nov20

De muito longe

livrosparaadiarofimdomundo

"Não são as tuas memórias que te perseguem/Não é o que registaste por escrito./É o que esqueceste, o que tens de esquecer./O que devias continuar a esquecer ao longo da vida."

James Fenton, Um Requiem Alemão

(epígrafe do livro Refugiados, de Viet Thanh Nguyen )

Há dias em que me orgulho deste país, dos seus políticos, das suas instituições, independentemente da cor partidária, do quadrante social, da área de intervenção.

Acontece que a Grécia lançou uma iniciativa para a recolocação voluntária de menores estrangeiros não acompanhados, a que corresponde o acrónimo MENA. Acontece que, nos campos de refugiados existentes na Grécia, havia cerca de 1600 crianças e jovens elegíveis para o efeito. Acontece que a iniciativa recebeu um forte impulso da Comissão Europeia junto dos Estados-membros. Acontece que Portugal assumiu o compromisso de receber 500 MENA, até 2021, de forma faseada. Isto deixou-me orgulhosa nos nossos políticos. Quer isto dizer que, para além dos jogos palacianos de trazer por casa que nos vão desgostando, a um nível europeu temos gente capaz de assumir compromissos com esta grandeza.

Quando chegam a Portugal, estes jovens são instalados em lares de acolhimento, que recebem também muitas crianças e jovens portuguesas que são institucionalizadas por não terem famílias que garantam a sua segurança - outras formas de se ser refugiado. As pessoas que dirigem estes lares revelam preocupações genuínas com o bem-estar destes jovens, proporcionando-lhe um lar, conforto, calor humano, estrutura e suporte que escoram, sustentadamente, existências desagregadas. Além disso, estes jovens integram naturalmente o sistema educativo português, acompanhados de muito perto pelas instituições que o tutelam: DGE, DGEstE, ANEQP, preocupadíssimos com o seu encaminhamento, assumindo um discurso humanista, empático, protetor, de quem tem perfeita consciência de que estes jovens não só vieram de muito longe como foram colecionando cicatrizes na viagem. E isto deixa-me muito orgulhosa nas instituições.

Há, por fim, um conjunto de profissionais que recebe, acarinha, encaminha, acolhe, imagina, cria e proporciona ambientes de integração, de inclusão que são verdadeiramente edificantes. Muito se ganha a observar seres humanos a serem humanos, uns na procura, outros na resposta. Imaginar a distância que o nosso cérebro não consegue abranger, imaginar o desamparo, imaginar as privações, imaginar os medos, as incertezas, o indizível não é sequer possível. Tomar consciência das histórias que se repetem e se perpetuam noutros hemisférios, noutras coordenadas - pai e mãe desaparecidos, separados de irmãos, rejeitados por familiares já instalados, vítimas de guerras, de conflitos a que são alheios, a sobrarem em todos os quadrantes - apequena-nos, faz-nos encolher. Isto deixa-me muito orgulhosa - mesmo nestes tempos de chumbo, de desventuras, de covidas, de regressão, de trumpalhadas, de raiva e violência - do género humano. Ainda há braços abertos, há empatia sem paternalismo, há entusiasmo sem condescendência, há autenticidade fora dos holofotes do reconhecimento.

Eles vieram de muito longe, mas, embora poucos, encontraram um lugar para começarem a ser outra vez.

01
Nov20

É Outono - a minha estação favorita.

livrosparaadiarofimdomundo

É Outono, a minha estação favorita, enquanto não chega a Primavera... Afinal eu gosto de todas as partes de As Quatro Estações de Vivaldi.

Hoje é/ foi Dia de Todos os Santos. Foi sempre das festas litúrgicas a minha preferida. Recordo a minha infância, quando saía da escola às sete da tarde/ noite e vinha de bicicleta para casa, ao longo do percurso havia um cheiro a "brindeiras doces" - era ssim que pronunciávamos - pela noite fora. Em quase todas as casas se faziam as broas caseiras. A minha mãe acendia o forno nesse dia. Quando saía para a escola, já havia um alguidar de barro com as broas amassadas. Quando chegava, junto à lareira, estava o tabuleiro de madeira, tapado com uma manta para as broas se manterem macias. Eram untadas, limpas, depois de saírem do forno com um trapo velho, mas limpo - calma ASAE - embebido em açucar e manteiga, ou azeite, e ficavam húmidas, peganhentas, doces, como esse passado que resgato hoje. Não era muito comum ir ao pão por Deus, tinha muita vergonha. Mas recordo o entusiasmo com que ia com os meus pais, a pé, a casa de todos os vizinhos. Em todas as casas, a mesa posta para partilhar o pão por Deus: as broas - sempre - os tremoços, as batatas doces assadas, as nozes, os figos secos, a água-pé, que os adultos nos deixavam beber.

Hoje, para os meus filhos, continuo a fazer as broas, outra receita, no forno da cozinha, porque, um dia, quando for memória para os meus filhos, quero que eles tenham estas mnemónicas, nesta altura, a mãe fazia... Hoje, a minha mãe espera pelas minhas broas. Um dos meus irmãos, todos os anos pede uma fornada só para ele. Ainda nunca aconteceu, mas é melhor tomar nota que o tempo é traiçoeiro. 

Fui feliz, aqui, agora, a pegar no testemunho e a avançar para a etapa seguinte que a vida é isto: uma corrida de estafetas.

25
Out20

Aquele Abraço

livrosparaadiarofimdomundo

Hoje foi o dia em que o Grande Prémio de Fórmula 1 regressou a Portugal, depois de 24 anos. Mas não foi isso que me trouxe aqui.

Hoje foi o dia em que Lewis Hamilton bateu uma série de records, mesmo sendo negro e oriundo de um meio desfavorecido, tendo conseguido triunfar num desporto que é para muitos poucos. Mas também não foi isso que me trouxe aqui.

Hoje houve uma concentração de cerca de 25.000 pessoas num autódromo no Algarve, num tempo em que nos pedem que os encontros com a nossa família sejam restritos e na mesma semana em que se proibiram de circular entre concelhos nuam época de partilha que está enraizada na nossa cultura e identidade. Mas não foi isso que me trouxe aqui.

Hoje, no final do Grande Prémio de Fórmula 1, Lewis Hamilton abraçou demoradamente o seu pai, que teve de acumular três empregos para que o filho pudesse seguir o seu sonho. Foi aquele abraço que me trouxe aqui. Comoveu-me ver a comoção de ambos, comoveu-me ver a forma como o olhar do pai de Hamilton o seguia durante a conversa com os jornalistas, durante o tempo em que ele esteve no pódio, a celebrar um feito enorme. Deve ser maravilhoso conquistar um lugar único, mas deve ser ainda melhor o maravilhamento daquele pai a olhar para aquilo que ajudou a criar. Foi isto que me trouxe aqui, este deslumbramento perante o amor de Hamilton e do seu pai, que chegaram juntos ao pódio, dividindo a vitória e os créditos.

Hoje o meu pai fez 81 anos... não o abracei para o proteger e não sei se este gesto me leva a algum lado, ou se me trouxe aqui. 

Amo-te, pai, quem me dera ter-te abraçado daquela forma e ter-te mostrado que também me puseste a caminho.

 

 

06
Out20

Post sem livros lá dentro - Insólito e álcool gel

livrosparaadiarofimdomundo

A propósito de percorrermos a N2 de carro, paramos em Lamego para tomarmos um café. Manhã sem café não é dia a começar. 

O café era banal e o café era normal.

Antes de partirmos para uma nova etapa, a visita à casa de banho. Como as crianças, é preciso ir para depois não andarmos a pedir para parar, sem opções. Muitas vezes obrigados a beber água sem ter sede. Mais um café para o pretexto.

De maneiras que houve uma ida à casa de banho. À entrada os novos gestos: não tocar na maçaneta, empurrar a porta com os ombros, as mãos no ar como se fosse m cirurgião num epsiódio da Anatomia de Grey. Enfim entrada no espaço exíguo, átrio do lavatório onde estava uma senhora a ocupar o espaço. A senhora tinha a camisola levantada, assim que me viu, pediu-me: "pode abotoar-me aqui isto, que eu não consigo com esta mão". Era o botão das calças. Nem hesitei, peguei nas duas abas das calças e apertei o botaõ, era daqueles de enganchar, ao mesmo tempo que a senhora me incentivava: "isso, isso, assim, assim". As minhas mãos tocaram a pele da senora, macia. Um corpo estranho ao meu toque. O agradecimento, sincero, simples, com a maior naturalidade.

Depois de fazer o que tinha de fazer, o horror de constatar que não havia sabonete, nem álcool gel.

Saí, tentando não tocar em nada. À saída do café, gastei o máximo de álcool que pude e desinfetei as mãos e ficou em mim este efeito de estranheza.

Acompanhou-me esta reflexão. Ajudei a senhora sem repugnância, com a mesma naturalidade com que ela me pediu. A COVID-19 não levou a melhor. Não desatei aos gritos, não recusei a ajuda a quem a pedia. Mas ficou esta impressão de estranheza e, pelo sim pelo não, dei-lhe com mais convicção no desinfetante. 

Isto quer dizer alguma coisa? Não sei bem. Posso sempre atirar com o novo normal para cima de tudo isto.

 

28
Set20

Aurea mediocritas - escolher menos para ter mais

livrosparaadiarofimdomundo

Vem de Horácio esta máxima de vida, a aurea mediocritas,  que podemos traduzir livremente por qualquer coisa como a simplicidade dourada, que mais não é do que um convite a determo-nos a apreciar os pequenos prazeres despojados, sem glamour, sem conteúdo para as redes sociais, sem dividendos materiais, mas com um impacto espiritual, a conquista de uma sereneidade que, às vezes, vamos procurar longe, fora de casa, acreditando que o bem estar tem de ser qualquer coisa sofisticada, cara, com estatuto... Bem, para algumas pessoas pode ter, é com elas, quem sou eu para opinar.

Do que estou a falar é mesmo de uma descoberta pessoal, que me tem feito tanto bem, que tenho um bocado de receio de me acomodar de tal forma que não queira mais ver o que se passa "lá". De cada vez que penso em "ir", "estar", "fazer", "comprar" dá-me uma canseira, um tédio. Não me julguem. Vivo uma espécie de estado de saturação que me impele a ser como a lagarta, fechar-me no casulo e, quem sabe, um dia, sair borboletando.

É o prazer enorme de estar em casa, de deambular pelo meu território, de me rever nele, de cuidar deste espaço e, ao mesmo tempo, curar-me da ansiedade. Apreciar ângulos, recantos, a variação de luz pela manhã, subtil, pálida, nova. Aspirar o ar fresco do dia que acabou de nascer e sentir um tónico de vitalidade. As plantas. Sim, as plantas é que foram a descoberta destes dias. Acariciar um folha nova, de uma tonalidade mais esmeralda que as restantes, deixar a sua fragilidade correr entre os dedos e aprender outra suavidade. Passo horas na semana a cuidar, a ver só, a sentir, a dominar um vocabulário novo: luz, humidade, substrato, cor, espécies, famílias, características, adubos.  Extasiar-me quando vejo uma folha nova a brotar, sinal de que soube cuidar, que não deixei morrer, que acertei. Brincar aos deuses. Preparar a mesa do almoço de domingo, com esmero, com criatividade, jogando de forma diferente, combinando cores, reutilizando, dando nova vida a objetos que estavam esquecidos por aí. Rodear a família de beleza, de estética, procurar a cor, a combinação, a harmonia e oferecê-la como oferenda de amor. Começar a por a mesa do almoço logo depois do pequeno-almoço. Almoços com a simplicidade grega do peixe grelhado, que se prolongam até à hora que, em outros tempos, era hora do lanche. Conhecer finalmente por dentro a expressão aliviar o stress. Sem sair de casa, sentir ativadas as hormonas do bem estar, como se tivesse ido à praia. Esta sabedoria de chegar a casa e replantar, propagar, alindar, dispor e sentir a paz de quem gozou um dia de férias, mas foram apenas duas horas.

Não seiquanto tempo serei assim, não sei quanto tempo manterei esta opção, mas houve ganhos tão grandes nesta forma de viver o tempo, que me sinto quase egoísta. Não, não estou a dizer que a situação de saúde público, de custos económicos se deve manter. Não é isso, mas é certo que estes tempos brancos me levaram descobrir a soma de outras cores.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub