Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

20
Jan21

As migalhas são de graça

livrosparaadiarofimdomundo

Estávamos nós ali atrás a ansiar pela passagem de ano, acreditando mesmo, mesmo que doze badaladas seriam com uma rajada de metralhdora sobre tudo aquilo que nos custou no ano mais longo de que muitos de nós têm memória. Afinal quem vivia mal, passou a viver pior, qum vivia bem, passou a viver pior - é reconfortante acreditar que foi assim - quem vivia muito bem, pelo menos não pôde sair de casa. 

E vem 2021 e entrou a pés juntos, esse bruto: morreram Carlos do Carmo e João Cutileiro, tivemos uma vaga de frio que nos ia congelando a alma, os americanos estão mesmo doidos e os mais doidos invadiram o Capitólio e agora os americanos têm de se proteger dos americanos God doesn´t save America, o estupor do vírus não nos largou e ficou ainda mais virulento, morreram em Portugal nos primeiros vinte dias do ano mais de dois milhares de pessoas só por causa desta pandemia que está cada vez mais pandémica, voltamos todos a confinar, está tudo fechado outra vez - estou a exagerar, eu sei - fala-se de novo no encerramento das escolas e a minha alma fica mais gelada do que ficou por causa da vaga do frio, temos medo, muito medo - estou a exagerar, eu sei, há gente que não tem medo nem vergonha, nem noção, nem senso de noção, mas não posso ir por aí, senão ninguém me segura e eu sou uma senhora - temos pouco orgulho do nosso país, fianlmente percebemos a importãncia do SNS e porque é que alguns setores da sociedade não podem ser privatizados. É difícil, até para uma otimista patológica como eu sou, manter-nos positivos. Ups, agora é mau estar positivo. Rephrasing: é difícil mantermo-nos, chega assim.

Ficam as migalhas: os almoços na sala de professores, com toda a gente a comer de caixinhas, mas com um clima muito simpático, a conversar animadamente, a rir, meu Deus, a rir; a manutenção, a prazo, das aulas presenciais, até gostamos mais dos alunos na quase-hora da despedida; o fim de semana com sol, que deu para ler no alpendre, para cuidar das plantas de exterior e que despertou o desjo de ir ao horto comprar amores-perfeitos e toda a qualidade de plantas que floresçam na primavera - mas não fui, que eu sou cumpridora e faço tudo para manter as escolas a funcionar, faço a minha parte e nem sei se chega; as visitas muito esgarçadas à mãe e ao pai; as refeições em família, a quatro, animadas; a sala de aula com os meus meninos que me recebem sempre com ânimo, doces como alguns conseguem ser; a senhora da banca da fruta, tão humilde (no bom sentido), tão amável, tão atenciosa, que corre a abrir outro saco de cebolas, que pede desculpa por não ter mais coisas de encher o olho; os que dizem que gostam de nós, os que dão a palavra amável, os que são solidários; as anedotas para antologia, como aquele aluno que, tendo faltado por uns dias, quando questionado sobre o motivo da ausência, mentiu, dizendo que tinha sido operado ao apêndice e, ao ver que a professora lhe pedia para ver a costura, disse, na sua ingenuidade (ou não) que se tinha esquecido dela em casa.

São migalhas de um quotidino de chumbo, mas podemos fazer como nos diz o aforismo da pedra, não um castelo, mas podemos amassá-las e fazer um pão e comê-lo com a gana de que nos fala Álvaro de Campos: comê-lo sem tempo de manteiga nos dentes. São migalhas, mas pelo menos são de graça.

05
Jan21

Às vezes também vejo séries#2: Alguém tem que morrer (minissérie Netflix)

livrosparaadiarofimdomundo

Alguém tem que morrer": com Ester Expósito, saiba tudo sobre a nova série  da Netflix - Purebreak

 

Gosto muito de minisséries. Não vejo séries com 250 temporadas, fora os anexos.

Algém tem que morrer é uma minissérie espanhola, em exibição na Netflix, com apenas três episódios, de cerca de 50 minutos cada. Dá para um serão bem passado. É de uma intensidade dramática capaz de nos pregar ao sofá, sem falarmos, às vezes sem respirarmos, mas indiferentes nunca.

Começo pelo título, muito bem achado, e que, quanto a mim está mais voltado para o espectador do que para a intriga. Alguém tem que morrer é aquilo que somos levados a pensar assim que o primeiro episódio se inicia: há muita tensão, há muita sisudez, há muita violência contida e explícita, há muito poder, há muita subjugação, há muita arma, para que no final todas as personagens sobrevivam aos acontecimentos cujo avanço mais não faz do que criar a sensação asfixiante de que aquilo só pode correr mal.

Ambientada na Espanha do pós-guerra, fechada, conservadora, homofóbica, retrógada de Franco, a ação coloca duas famílias do regime, movidas pelos interesses comuns - se o chefe de família da primeira gere prisioneiros, em especial aqueles acusados da degeneração ligada aos amores homossexuais; o segundo explora uma fábrica de calçado, impusionada pela mão de obra gratuita que recruta através do amigo. Se o primeiro é pai de um filho e o segundo pai de uma filha, nada melhor do que combinar-se o casamento e serem todos felizes para sempre. Se há um segredo de família - ou vários - porque no melhor pano cai a nódoa - é preciso fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para o sepultar para sempre e não permitir que a sua revelação coloque em causa o status quo: se for preciso mata-se, se for preciso exila-se, se for preciso tortura-se, se for preciso trai-se, se for preciso mente-se, se for preciso bate-se. Caso seja necessário satisfazer o desejo de poder, o desejo de brilhar, a incapacidade de se ser contrariado, recorre-se sempre aos mesmos processos.

E o que é que fica pelo meio? Os elos mais fracos; aquele que voltou as costas num momento de imprudência, aquele que testemunhou, aquele que ama, aquele que é a esposa submissa, aquele que é cônjuge de um preso político, aquele que não convém e, em especial, aquele que vinha só para ver as vistas e foi apanhado no tornado.

As personagens frequentam um clube de elite, cuja principal atividade -além daquela mais velha do mundo: ver e ser visto, manter-se na berlinda, afinar a aceitação - é o tiro aos pombos. E há neste desporto predatório toda uma mise en abîme da série. Se não estás do lado daqueles que seguram a arma, é porque estás no lado da presa, se não atiras, és alvo. Aliás a omnipresença das armas, do som dos tiros só agudiza esse ambiente opressivo em que as personagens dominadas vivem. Só há uma forma de escapar: matar ou morrer.

Poupo-vos os pormenores técnicos, quem é quem, garanto-vos que o desempenho artístico dos atores é bastante bom, os figurinos também, a frieza do ambiente outonal igualmente. Vejam a série, é muito interessante, pertinente, atual - afinal há por aí países em que foram aprovadas leis homofóbicas bastante recentemente - e põe-nos a pensar em que sociedade queremos viver, para não adormecermos no embalo das demagogias. Eu gostei!

23
Dez20

O melhor de 2020: as pessoas, definitivamente, as pessoas

livrosparaadiarofimdomundo

A melhor palavra para definir 2020 é: agridoce.

Li no facebook - e não posso dar os créditos, porque não vinha identificado - que 2020 não foi um ano, foi uma prova de resistência, e foi mesmo. 

Tivemos o confinamento, mas a família reagrupou-se e nunca tínhamos sido família de forma tão completa, reiventando maneiras de estarmos juntos.

O ensino passou a ser a distância, mas nunca me tinha sentido tão próxima dos meus alunos e a nossa despedida foi das coisas mais bonitas deste ano.

Houve dificuldades profissionais acrescidas, mas o espírito de equipa nunca tinha sido tão forte.

Não foi possível fazer férias em família, que nos últimos dez anos tinham sido sempre uma viagem de carro, mas, depois desses dez anos, voltei a ter dias de puro descanso a ler à beira-mar na companhia das duas mulheres da minha vida, a minha mãe e a minha filha.

Por fim, nesta última semana, quando já sentia que a corrida de obstáculos já estava quase a terminar, faltavam só dez dias para o fim do ano, até as cartas astrais falavam num fecho de ciclo de vinte e oito anos e no início de um novo ciclo de crescimento, o que poderia correr mal? Eis que, por causa de um estúpido acidente - como se houvesse acidentes inteligentes - fiquei sem carro. E eu sou daquelas pessoas - como alguém alguma vez disse com ar enfastiado, depois de bater num carro de outra pessoa "ainda por cima calhou-me uma daquelas pessoas que só tem um carro" - pois sou dessas, das que só têm um carro.

Acontece que foi preciso comprar um carro novo, de um dia para o outro, que na provínica os transportes públicos são uma miragem que nunca passa a horas decentes. E fui atendida num stand de excelência - a Benecar (justifica-se a publicidade, ainda que gratuita), por dois anjos, a Marisa Silva e o Ricardo Cardoso - não costumo dizer nomes, mas este caso obriga. Foram absolutamente extraordinários, disponíveis, atenciosos, pacientes, bem-humorados, delicados e outra vez pacientes. Estava tão atordoada que nem conseguia decidir entre automóvel ou carrinha, cilindradas e potência, ano de fabrico e extras. Fui literalmente guiada, aconselhada e tranquilizada. 

No momento de levantar o carro, depois de assinar a papelada, achei eu que me entregavam a chave, me davam uma pancadinha no ombro e vá lá à sua vida, que nós vendemos mais um carro. Não, não foi assim. Num espaço coberto, luxuoso quase, bonito sem dúvida, estava um carro com uma laço vermelho enorme - juro que nem me ocorreu que fosse o que tinha acabado de comprar - e era o meu. Além disso, quando o Ricardo - desculpe tratá-lo com esta familiaridade - abriu a porta para me explicar o funcionamento, tinha um ramo de flores - leram bem, um ramo de flores em cima do banco como gentiliza, além de uma oferta de duas garrafas de vinho. Quase desfaleci. Eu sei, é marketing, mas funiona, oh se funciona. Não havia nada que obrigasse a isto, só a perseguição da excelência e cai bem, dispõe bem. Eu já ficava feliz com a forma como fui atendida, mas estes pormenores, estas atenções, marcam a diferença. Senhores que vendem coisas, aprendam, é assim que se faz e se fidelizam clientes.

Volto ao início: neste ano agridoce, foram sempre as pessoas que me salvaram, as pessoas com quem tive o privilégio de me cruzar foram o melhor de 2020, o Ricardo e a Marisa são os rostos e os nomes de hoje, mas houve muitas mais. No fim de tudo... as pessoas.

17
Nov20

De muito longe

livrosparaadiarofimdomundo

"Não são as tuas memórias que te perseguem/Não é o que registaste por escrito./É o que esqueceste, o que tens de esquecer./O que devias continuar a esquecer ao longo da vida."

James Fenton, Um Requiem Alemão

(epígrafe do livro Refugiados, de Viet Thanh Nguyen )

Há dias em que me orgulho deste país, dos seus políticos, das suas instituições, independentemente da cor partidária, do quadrante social, da área de intervenção.

Acontece que a Grécia lançou uma iniciativa para a recolocação voluntária de menores estrangeiros não acompanhados, a que corresponde o acrónimo MENA. Acontece que, nos campos de refugiados existentes na Grécia, havia cerca de 1600 crianças e jovens elegíveis para o efeito. Acontece que a iniciativa recebeu um forte impulso da Comissão Europeia junto dos Estados-membros. Acontece que Portugal assumiu o compromisso de receber 500 MENA, até 2021, de forma faseada. Isto deixou-me orgulhosa nos nossos políticos. Quer isto dizer que, para além dos jogos palacianos de trazer por casa que nos vão desgostando, a um nível europeu temos gente capaz de assumir compromissos com esta grandeza.

Quando chegam a Portugal, estes jovens são instalados em lares de acolhimento, que recebem também muitas crianças e jovens portuguesas que são institucionalizadas por não terem famílias que garantam a sua segurança - outras formas de se ser refugiado. As pessoas que dirigem estes lares revelam preocupações genuínas com o bem-estar destes jovens, proporcionando-lhe um lar, conforto, calor humano, estrutura e suporte que escoram, sustentadamente, existências desagregadas. Além disso, estes jovens integram naturalmente o sistema educativo português, acompanhados de muito perto pelas instituições que o tutelam: DGE, DGEstE, ANEQP, preocupadíssimos com o seu encaminhamento, assumindo um discurso humanista, empático, protetor, de quem tem perfeita consciência de que estes jovens não só vieram de muito longe como foram colecionando cicatrizes na viagem. E isto deixa-me muito orgulhosa nas instituições.

Há, por fim, um conjunto de profissionais que recebe, acarinha, encaminha, acolhe, imagina, cria e proporciona ambientes de integração, de inclusão que são verdadeiramente edificantes. Muito se ganha a observar seres humanos a serem humanos, uns na procura, outros na resposta. Imaginar a distância que o nosso cérebro não consegue abranger, imaginar o desamparo, imaginar as privações, imaginar os medos, as incertezas, o indizível não é sequer possível. Tomar consciência das histórias que se repetem e se perpetuam noutros hemisférios, noutras coordenadas - pai e mãe desaparecidos, separados de irmãos, rejeitados por familiares já instalados, vítimas de guerras, de conflitos a que são alheios, a sobrarem em todos os quadrantes - apequena-nos, faz-nos encolher. Isto deixa-me muito orgulhosa - mesmo nestes tempos de chumbo, de desventuras, de covidas, de regressão, de trumpalhadas, de raiva e violência - do género humano. Ainda há braços abertos, há empatia sem paternalismo, há entusiasmo sem condescendência, há autenticidade fora dos holofotes do reconhecimento.

Eles vieram de muito longe, mas, embora poucos, encontraram um lugar para começarem a ser outra vez.

01
Nov20

É Outono - a minha estação favorita.

livrosparaadiarofimdomundo

É Outono, a minha estação favorita, enquanto não chega a Primavera... Afinal eu gosto de todas as partes de As Quatro Estações de Vivaldi.

Hoje é/ foi Dia de Todos os Santos. Foi sempre das festas litúrgicas a minha preferida. Recordo a minha infância, quando saía da escola às sete da tarde/ noite e vinha de bicicleta para casa, ao longo do percurso havia um cheiro a "brindeiras doces" - era ssim que pronunciávamos - pela noite fora. Em quase todas as casas se faziam as broas caseiras. A minha mãe acendia o forno nesse dia. Quando saía para a escola, já havia um alguidar de barro com as broas amassadas. Quando chegava, junto à lareira, estava o tabuleiro de madeira, tapado com uma manta para as broas se manterem macias. Eram untadas, limpas, depois de saírem do forno com um trapo velho, mas limpo - calma ASAE - embebido em açucar e manteiga, ou azeite, e ficavam húmidas, peganhentas, doces, como esse passado que resgato hoje. Não era muito comum ir ao pão por Deus, tinha muita vergonha. Mas recordo o entusiasmo com que ia com os meus pais, a pé, a casa de todos os vizinhos. Em todas as casas, a mesa posta para partilhar o pão por Deus: as broas - sempre - os tremoços, as batatas doces assadas, as nozes, os figos secos, a água-pé, que os adultos nos deixavam beber.

Hoje, para os meus filhos, continuo a fazer as broas, outra receita, no forno da cozinha, porque, um dia, quando for memória para os meus filhos, quero que eles tenham estas mnemónicas, nesta altura, a mãe fazia... Hoje, a minha mãe espera pelas minhas broas. Um dos meus irmãos, todos os anos pede uma fornada só para ele. Ainda nunca aconteceu, mas é melhor tomar nota que o tempo é traiçoeiro. 

Fui feliz, aqui, agora, a pegar no testemunho e a avançar para a etapa seguinte que a vida é isto: uma corrida de estafetas.

25
Out20

Aquele Abraço

livrosparaadiarofimdomundo

Hoje foi o dia em que o Grande Prémio de Fórmula 1 regressou a Portugal, depois de 24 anos. Mas não foi isso que me trouxe aqui.

Hoje foi o dia em que Lewis Hamilton bateu uma série de records, mesmo sendo negro e oriundo de um meio desfavorecido, tendo conseguido triunfar num desporto que é para muitos poucos. Mas também não foi isso que me trouxe aqui.

Hoje houve uma concentração de cerca de 25.000 pessoas num autódromo no Algarve, num tempo em que nos pedem que os encontros com a nossa família sejam restritos e na mesma semana em que se proibiram de circular entre concelhos nuam época de partilha que está enraizada na nossa cultura e identidade. Mas não foi isso que me trouxe aqui.

Hoje, no final do Grande Prémio de Fórmula 1, Lewis Hamilton abraçou demoradamente o seu pai, que teve de acumular três empregos para que o filho pudesse seguir o seu sonho. Foi aquele abraço que me trouxe aqui. Comoveu-me ver a comoção de ambos, comoveu-me ver a forma como o olhar do pai de Hamilton o seguia durante a conversa com os jornalistas, durante o tempo em que ele esteve no pódio, a celebrar um feito enorme. Deve ser maravilhoso conquistar um lugar único, mas deve ser ainda melhor o maravilhamento daquele pai a olhar para aquilo que ajudou a criar. Foi isto que me trouxe aqui, este deslumbramento perante o amor de Hamilton e do seu pai, que chegaram juntos ao pódio, dividindo a vitória e os créditos.

Hoje o meu pai fez 81 anos... não o abracei para o proteger e não sei se este gesto me leva a algum lado, ou se me trouxe aqui. 

Amo-te, pai, quem me dera ter-te abraçado daquela forma e ter-te mostrado que também me puseste a caminho.

 

 

06
Out20

Post sem livros lá dentro - Insólito e álcool gel

livrosparaadiarofimdomundo

A propósito de percorrermos a N2 de carro, paramos em Lamego para tomarmos um café. Manhã sem café não é dia a começar. 

O café era banal e o café era normal.

Antes de partirmos para uma nova etapa, a visita à casa de banho. Como as crianças, é preciso ir para depois não andarmos a pedir para parar, sem opções. Muitas vezes obrigados a beber água sem ter sede. Mais um café para o pretexto.

De maneiras que houve uma ida à casa de banho. À entrada os novos gestos: não tocar na maçaneta, empurrar a porta com os ombros, as mãos no ar como se fosse m cirurgião num epsiódio da Anatomia de Grey. Enfim entrada no espaço exíguo, átrio do lavatório onde estava uma senhora a ocupar o espaço. A senhora tinha a camisola levantada, assim que me viu, pediu-me: "pode abotoar-me aqui isto, que eu não consigo com esta mão". Era o botão das calças. Nem hesitei, peguei nas duas abas das calças e apertei o botaõ, era daqueles de enganchar, ao mesmo tempo que a senhora me incentivava: "isso, isso, assim, assim". As minhas mãos tocaram a pele da senora, macia. Um corpo estranho ao meu toque. O agradecimento, sincero, simples, com a maior naturalidade.

Depois de fazer o que tinha de fazer, o horror de constatar que não havia sabonete, nem álcool gel.

Saí, tentando não tocar em nada. À saída do café, gastei o máximo de álcool que pude e desinfetei as mãos e ficou em mim este efeito de estranheza.

Acompanhou-me esta reflexão. Ajudei a senhora sem repugnância, com a mesma naturalidade com que ela me pediu. A COVID-19 não levou a melhor. Não desatei aos gritos, não recusei a ajuda a quem a pedia. Mas ficou esta impressão de estranheza e, pelo sim pelo não, dei-lhe com mais convicção no desinfetante. 

Isto quer dizer alguma coisa? Não sei bem. Posso sempre atirar com o novo normal para cima de tudo isto.

 

28
Set20

Aurea mediocritas - escolher menos para ter mais

livrosparaadiarofimdomundo

Vem de Horácio esta máxima de vida, a aurea mediocritas,  que podemos traduzir livremente por qualquer coisa como a simplicidade dourada, que mais não é do que um convite a determo-nos a apreciar os pequenos prazeres despojados, sem glamour, sem conteúdo para as redes sociais, sem dividendos materiais, mas com um impacto espiritual, a conquista de uma sereneidade que, às vezes, vamos procurar longe, fora de casa, acreditando que o bem estar tem de ser qualquer coisa sofisticada, cara, com estatuto... Bem, para algumas pessoas pode ter, é com elas, quem sou eu para opinar.

Do que estou a falar é mesmo de uma descoberta pessoal, que me tem feito tanto bem, que tenho um bocado de receio de me acomodar de tal forma que não queira mais ver o que se passa "lá". De cada vez que penso em "ir", "estar", "fazer", "comprar" dá-me uma canseira, um tédio. Não me julguem. Vivo uma espécie de estado de saturação que me impele a ser como a lagarta, fechar-me no casulo e, quem sabe, um dia, sair borboletando.

É o prazer enorme de estar em casa, de deambular pelo meu território, de me rever nele, de cuidar deste espaço e, ao mesmo tempo, curar-me da ansiedade. Apreciar ângulos, recantos, a variação de luz pela manhã, subtil, pálida, nova. Aspirar o ar fresco do dia que acabou de nascer e sentir um tónico de vitalidade. As plantas. Sim, as plantas é que foram a descoberta destes dias. Acariciar um folha nova, de uma tonalidade mais esmeralda que as restantes, deixar a sua fragilidade correr entre os dedos e aprender outra suavidade. Passo horas na semana a cuidar, a ver só, a sentir, a dominar um vocabulário novo: luz, humidade, substrato, cor, espécies, famílias, características, adubos.  Extasiar-me quando vejo uma folha nova a brotar, sinal de que soube cuidar, que não deixei morrer, que acertei. Brincar aos deuses. Preparar a mesa do almoço de domingo, com esmero, com criatividade, jogando de forma diferente, combinando cores, reutilizando, dando nova vida a objetos que estavam esquecidos por aí. Rodear a família de beleza, de estética, procurar a cor, a combinação, a harmonia e oferecê-la como oferenda de amor. Começar a por a mesa do almoço logo depois do pequeno-almoço. Almoços com a simplicidade grega do peixe grelhado, que se prolongam até à hora que, em outros tempos, era hora do lanche. Conhecer finalmente por dentro a expressão aliviar o stress. Sem sair de casa, sentir ativadas as hormonas do bem estar, como se tivesse ido à praia. Esta sabedoria de chegar a casa e replantar, propagar, alindar, dispor e sentir a paz de quem gozou um dia de férias, mas foram apenas duas horas.

Não seiquanto tempo serei assim, não sei quanto tempo manterei esta opção, mas houve ganhos tão grandes nesta forma de viver o tempo, que me sinto quase egoísta. Não, não estou a dizer que a situação de saúde público, de custos económicos se deve manter. Não é isso, mas é certo que estes tempos brancos me levaram descobrir a soma de outras cores.

22
Set20

A poesia dos/nos dias

livrosparaadiarofimdomundo

Às vezes, ocorrem-me os versos de Sophia de Mello Breyner, não como citação, mas como qualidade. Explico melhor. A poesia de Sophia é luminosa, concreta, aguda como arestas, exata na escolha das palavras, que naquele lugar se tornam imagens.

Ocorre-me a impressão dessas qualidades em momentos, em instantes que me distraem da minha distração para a vida e que me forçam a olhar para a exatidão dos gestos.

A luz do sol que incide sobre os meus olhos, ainda fechados quando o dia nasce e é possível esperar por ele;

O toque macio da tijoleira encerada na pele nua dos pés;

A suavidade das folhas das plantas que acaricio enquanto ando pela casa.

O silêncio da cozinha, quebrado pela água a cair na chaleira.

O aroma do café.

O silêncio da cozinha enquanto, numa espécie de luxúria, tomo um pequeno-almoço solitário.

A água quente do banho matinal.

O momento em que finalmente desperto e me sinto presente a mim mesma.

A euforia que me domina ao aperceber-me da poesia no quotidiano.

A perfeição pode ser apenas a exatidão dos gestos que nos garantem a permanência e a continuidade. Um eterno retorno, um eterno princípio. 

Saber isto: estou aqui.

 

 

17
Set20

E depois de tudo... o otimismo

livrosparaadiarofimdomundo

O otismo permite-nos viver e, às vezes, é-nos oferecido mesmo quando estamos a precisar dele.

À entrada de um restaurante, quando ia a entrar, reparei que um casal se preparava para sair e afastei-me para lhe dar passagens. Eram ambos muito sábios - fica a metáfora, porque não me ocorre nenhuma outra palavra para me referir à sua idade - ela já muito frágil, ele ainda capaz de olhar por ela. Ela saiu primeiro, apoiando-se ora na porta, ora na parede, desceu o degrau da entrada com muito cuidado, aquele cuidado de quem tem muito cuidado para não cair. Era tão bonita, cabelo de neve, com o lenço à volta do pescoço, ainda cheia de galhardia. E de onde vem o otimismo? Disto, ele sempre a ampará-la, a pegar-lhe delicadamente no braço, a cuidar dela, também com medo que ela caísse. Se é possível cuidarmos uns dos outros, assim com amor até esta idade, vale a pena.

Mais tarde, uma música do Bruce Springsteen, triste como a vida, "you're missing", de uma beleza como só a arte nos pode dar, deu-me duas certezas: se um acontecimento como o 1 de setembro em Nova Iorque pode dar origem a uma canção desta beleza, então há esperança para o mundo e, segunda, tenho de sentir-me otimista, na minha vida ainda não há nenhum vazio deixado por alguém que me deixou órfã para sempre.

Sinto-me otimista.

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D