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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

Livros para adiar o fim do mundo

04
Jan20

Pessoas normais, Sally Rooney

livrosparaadiarofimdomundo

 

Wook.pt - Pessoas Normais

Género: romance de formação

Editora: Relógio d'Água

Páginas: 248

Às vezes, a forma como nos cruzamos com certos livros é curiosa. A primeira vez que ouvi falar deste livro foi nas férias, na Irlanda, visto que ele aparecia nas montras de todas as livrarias, com o seu título em inglês que a tradução portuguesa manteve: Normal People. Ao longo dos dias que passei nesse país e porque a Irlanda, em especial Dublin, está intimamente relacionada com a literatura, afinal três autores disitnguidos com o prémio Nobel eram irlandeses e viveram em Dublin: James Joyce, Samuel Beckett e William Butler Yeats, fui definindo o propósito de ler mais escritores irlandeses pois seria uma maneira de prolongar o meu contacto com este país, que adorei. Ora acontece que, exatamente na mesma altura, uma amiga minha estava a ler este livro nas suas férias, acabando por me enviar a sugestão via facebook. Assim que nos encontrámos, ela empresou-me o livro. No final do ano, já não sei em que publicações, mas foi em mais do que uma, surgia  a lista de livros recomendada por Barack Obama e qual era um dos livros que o sr. Presidente sugere? Esse mesmo, Pessoas Normais, de Sally Rooney! Portanto, já leio a nível presidencial.

A ação deste livro acompanha a história de Connell e de Marianne, que se conhecem no tempo do liceu e que, desde logo, vão mantendo uma ligação/relação que escapa  todos os estereótipos. Apesar de muito diferentes, encetam uma relação amorosa, mas que nunca chega a ser de entrega total, há sempre qualquer coisa que ambos não dizem, não confessam, não partilham e esse défice marca a forma como se amam. Começa por ser a diferença da origem social de cada um deles, passa pelo embaraço causado pela estranheza da própria Marianne, é a sugestão de um trauma, de uma disfunção.  

O romance acompanha os dois jovens até se tornarem adultos, quando ambos rumam de uma pequena cidade da Irlanda, no condado de Siglo, até Dublin, encetando aí uma vivência estudantil e social que os torna mais cosmopolitas, mas mantendo sempre o contacto. Pouco a pouco vão-se revelando os pormenores que enformaram a personalidade de cada um deles, desvendando, da parte de Marianne, um ambiente familiar castrador. Alternando entre momentos de aproximação e de afastamento, vamos acompanhando estes dois seres que parecem não conseguir viver nem um com o outro nem um sem o outro, até ao final enigmático que encerra o livro.

A escrita de Rooney é cheia de subtilezas, de uma delicadeza tocante, contida, levando o leitor a percorrer as páginas do romance querendo sempre mais, torcendo pelos jovens, compreendendo-os, mergulhando na perplexidade de Connell e de Marianne não perceberem o óbvio. É daqueles livros de um fôlego só, que deixa a sensação de querer penetrar naquelas páginas e ajudar aquelas pessoas normais, porque precisam do mesmo que todos nós: de amor, de amparo, de fugir à solidão. 

Por fim, Pessoas normais cumpriu o meu desejo: viajei de novo pelas estradas da Irlanda, reconheci o nome das pequenas cidades do condado de Siglo, ainda tinha a imagem das ruas de Dublin, revi o Trinity College para onde ambos vão estudar. Ler é viajar e é também regressar aos lugares onde se foi feliz.

Como creio que os livros encetam diálogos que resultam do facto de as grandes questões da existência humana serem tranversais, este livro recordou-me outro, que recomendo por ser uma excelente leitura e por abordar questões análogas, além de que a forma como o enigma se vai adensando nas suas páginas em crescendo ser também semelhante à estratégia narrativa de Rooney. E o livro é 

Wook.pt - A Cor do Hibisco

Fica prometido um post sobre este livro e sobre outros de Chimamanda Adichie, que é só fantástica!

 

 

 

 

 

09
Dez19

O Papagaio de Flaubert, Julian Barnes: um livro sublime!

livrosparaadiarofimdomundo

Procura um livro diferente? Gosta de ser surpreendido a cada página? Quer experimentar aquela sensação entre o riso e o espanto que uma boa tirada lhe arranca? Agrada-lhe um livro fragmentário que lhe permita saboreá-lo como se fosse uma caixa de bombons? Adora um ltexto que lhe permita colecionar frases para colecionar no seu "citador"?  Costuma deter-se em passagens que impulsivamente sublinha como forma de as fazer suas? Então leia O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes.

Há uma passagem no livro que é especialmente curiosa, uma espécie de myse en abîme, e que, para mim, é lapidar: "Esta exigência da ausência do leitor acentuou-se ainda mais. Alguns escritores concordam com este princípio de uma maneira ostensiva, mas entram às escondidas pela porta das traseiras e falam ao leitor num estilo altamente pessoal." A verdade é que, página após página, não consigo libertar-me da sensação de que este livro cria a ilusão de que é Julian Barnes que assume simultaneamente o papel de escritor, narrador, personagem e palestrante, alguém que ouvimos com prazer e que nos seduz pela forma como tece o seu texto, costurando pequenas histórias, umas sublimes, outras comoventes, algumas prosaicas, outras ainda quase obscenas, mas todas de uma dimensão humana quase palpável.

Outro aspeto a que não resisto é à intertextualidade, àqueles livros que continuamente nos levam a rememorar outros livros, que reconfiguram a nossa própria leitura e os livros que até já tínhamos lido, e também este ingrediente se encontra neste livro que não deixa de se prestar à metáfora da cozinha de fusão. 

E ainda o facto de nos atiçar a vontade de ler Flaubert, dar uma nova oportunidade a Emma Bovary, e depois voltar a este Papagaio. Como terá sido possível que na minha carreira de leitora a figura de Flaubert não ocupe um lugar cimeiro? Terei de voltar atrás e corrigir esse lapso, essa lacuna, porque afinal não terei percebido o génio de Flaubert.

Barnes consegue a proeza de nos dar uma imagem de Flaubert que o reduz à condição de homem comum, com os seus defeitos e fraquezas, sem, no entanto, beliscar a imagem de génio e de sublime escritor. Como? Talvez não vos consiga explicar, mas suspeito que tenha a ver com uma espécie de mensagem subliminar, no fim, tal como  no princípio, o que interessa é o verbo, entenda-se a obra, a literatura, as palavras imortais do escritor que verdadeiramente criam o mundo, não em sete dias, mas decerto para a eternidade. Interessante é que a ideia do escritor estar na obra como Deus na criação é igualmente glosada. 

Sente a falta de uma obra-prima? Ainda não comprou todos os presentes de Natal? Não precisa de uma desculpa para comprar um livro? Vá a um site; amanhã passe pela livraria; pare na biblioteca; peça emprestado; não interessa como, mas não deixe de ler este livro extraordinário que faz parecer o fim do mundo mais longe. Afinal, enquanto se escrever assim, há esperança para a humanidade. 

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